Páscoa da Ressurreição do Senhor

Missa do Dia

24 de Abril de 2011

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor ressuscitou verdadeiramente, A. Cartageno, NRMS 65

Salmo 138, 18.5-6

Antífona de entrada: Ressuscitei e estou convosco para sempre; pusestes sobre mim a vossa mão: é admirável a vossa sabedoria.

Ou:

Lc 24, 34; cf. Ap 1, 5

O Senhor ressuscitou verdadeiramente. Aleluia. Glória e louvor a Cristo para sempre. Aleluia.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

«Este é o Dia que fez o Senhor, nele exultemos e nos alegremos» (Salmo de Meditação); este é o Dia que deu início à Nova Páscoa. Mais que qualquer outro, este é do Dia do Senhor, o Dia da Sua Ressurreição: «O Senhor ressuscitou verdadeiramente, Aleluia. A Ele pertencem a glória e o poder por toda a eternidade» (Antífona de entrada). Deixemos que o nosso coração vibre com a alegria de Cristo ressuscitado, presente no meio de nós.

 

Oração colecta: Senhor Deus do universo, que neste dia, pelo vosso Filho Unigénito, vencedor da morte, nos abristes as portas da eternidade, concedei-nos que, celebrando a solenidade da ressurreição de Cristo, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos para a luz da vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A leitura dos Actos dos Apóstolos no tempo pascal pretende fazer voltar a nossa fé às origens; os Actos dos Apóstolos evocam a vivência das primeiras testemunhas da Ressurreição e o essencial da mensagem de que eram portadoras. Tal como elas, também nós não podemos deixar de anunciar ao mundo de hoje a Ressurreição do Senhor.

 

Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43

Naqueles dias, 34aPedro tomou a palavra e disse: 37«Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: 38Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. 39Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. 40Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, 41não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. 42Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. 43É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados».

 

O texto faz parte do corpo do discurso de Pedro em Cesareia na casa do centurião Cornélio, o qual tinha mandado chamar Pedro a Jope, ilustrado por uma visão (cf. Act 10, 1-33). Este discurso tem um carácter mais catequético e apologético do que propriamente missionário, como seria de esperar num primeiro anúncio da fé a um gentio (embora se tratasse dum «temente a Deus»: v. 2). Lucas redige este discurso a pensar mais nos leitores da sua obra, do que com a preocupação de reconstruir exactamente a cena originária e as mesmas palavras pronunciadas naquela circunstância; com efeito, começa por fazer referência ao Evangelho já antes pregado aos ouvintes: «vós sabeis o que aconteceu…», e também parece que dá por suposta a fé no valor salvífico da Cruz (cf. v. 39b) e não termina, como seria de esperar, com um apelo explícito à conversão. Assim, Lucas nos deixou mais uma bela síntese do que era o Evangelho pregado pela Igreja primitiva.

38 «Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus». Esta nova tradução litúrgica desfez a hendíadis tão própria da estilística hebraica (ungiu de Espírito Santo e de fortaleza), recorrendo, por motivo de clareza, a uma equivalência dinâmica, (a força que é o Espírito Santo). Deus (o Pai) concedeu à natureza humana de Jesus todos os dons do Espírito Santo, que Lhe competiam a partir do momento da Incarnação; estes dons manifestam-se visivelmente nos milagres de Jesus, nas teofanias do Baptismo e da Transfiguração e muito particularmente na Ressurreição. A unção era o rito que constituía os reis e os sacerdotes na sua função; assim, a união hipostática em Jesus aparece como uma unção da natureza humana de Jesus, «que passou fazendo o bem e curando a todos» (maravilhoso resumo da vida de Jesus, bem ao sabor do Evangelista da bondade).

41 «Não a todo o povo». Jesus não se mostra a todos depois de ressuscitado, não só para não violentar a liberdade das pessoas, mas também porque está nos planos divinos conduzir o mundo à salvação mediante o ministério dos seus discípulos (testemunhas de antemão designadas por Deus) e mediante a fé, que é meritória (cf. Rom 1, 16-17). Note-se o acento que se põe no testemunho acerca da Ressurreição; não estamos apenas perante uns simples pregadores (cf. v. 42a) duma mensagem salvadora, mas diante de verdadeiras testemunhas (cf. v. 42b), que dão testemunho (o verbo grego tem um matiz forense) capaz de fazer fé em tribunal. A ideia de testemunho é fortemente acentuada neste breve texto, não só por ser repetida quatro vezes (vv. 39.41.42.43), mas também por se tratar de testemunhas escolhidas por Deus para esta missão (v. 41), que conviveram com o Ressuscitado, comendo e bebendo com Ele, o que exclui logo à partida a hipótese de se tratar de mera fantasia (Lucas mostra especial sensibilidade a este problema: cf. Lc 24, 37-43).

 

Salmo Responsorial    Sl 117 (118), 1-2.16ab-17.22-23 (R. 24)

 

Monição: O Salmo que vamos meditar é um cântico pascal de acção de graças pelas maravilhas realizadas por Deus, no Mistério da Morte e Ressurreição de Jesus. A antífona retoma o tema inicial: a especial solenidade deste Dia.

 

Refrão:        Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria.

Ou:               Aleluia.

 

Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,

porque é eterna a sua misericórdia.

Diga a casa de Israel:

é eterna a sua misericórdia.

 

A mão do Senhor fez prodígios,

a mão do Senhor foi magnífica.

Não morrerei, mas hei-de viver

para anunciar as obras do Senhor.

 

A pedra que os construtores rejeitaram

tornou-se pedra angular.

Tudo isto veio do Senhor:

é admirável aos nossos olhos.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Nesta segunda leitura, S. Paulo insiste na nossa comunhão com Cristo: «ressuscitados com Cristo», «nossa vida escondida com Cristo em deus», «apareceremos com Ele na glória». Esta é a vida nova que todos os cristãos devemos viver.

 

Colossenses 3, 1-4  (de manhã)

Irmãos: 1Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. 2Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. 3Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. 4Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.

 

Com estas palavras é introduzida a parte final da Carta, uma série de exortações morais para que os fiéis tenham um modo de viver coerente com a fé cristã. A sua conduta moral é uma consequência natural da profunda união com Cristo ressuscitado produzida pelo Baptismo recebido.

1 «Aspirai às coisas do alto» corresponde ao mesmo incitamento que, na Santa Missa, a Igreja sempre nos repete: Sursum corda! Corações ao alto!.

3-4 «Vós morrestes». A nossa união a Cristo pressupõe a morte para o pecado, que não pode reinar mais em nós (cf. Rom 6). Com Cristo morto pelos nossos pecados, morremos para o pecado; com Cristo ressuscitado, vivemos vida de ressuscitados. É a «vida» da graça, uma vida toda interior, «escondida» no centro da alma, vida que ninguém nos pode arrebatar, vida que é toda feita de presença de Deus e de visão sobrenatural, levando-nos a santificar todos os afazeres diários, trabalhando com os pés bem firmes na terra, mas o coração e o olhar fixos no Céu.

 

1 Coríntios 5, 6b-8  (de tarde)

Irmãos: 6bNão sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? 7Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, visto que sois pães ázimos. Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. 8Celebremos a festa, não com fermento velho nem com fermento de malícia, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade.

 

Parece haver aqui (v. 6b) uma referência ao incestuoso de que acaba de falar (vv. 1-5); um mau exemplo é um mau fermento. Mas S. Paulo faz imediatamente uma aplicação mais vasta da ideia de mau fermento, e isto talvez pela proximidade da festa da Páscoa, que já então, pelo ano 55, os cristãos celebravam em Corinto como festa da Ressurreição do Senhor, segundo o que se lê no v. 8: «celebremos pois a festa». Na exortação do Apóstolo há uma alusão ao costume judaico, que ainda hoje se conserva, de limpar escrupulosamente as casas de todo o fermento e pão fermentado durante os sete dias que duravam as festas pascais. Nós os cristãos, para celebrarmos a Páscoa – «Cristo, nosso Cordeiro pascal» (v. 7) –, temos que o fazer sem o fermento (o princípio corruptor) da malícia e da perversidade, mas «com os pães ázimos da pureza e da verdade», isto é, da sinceridade de vida. Poderia haver, nesta referência a Cristo como «Cordeiro imolado», uma alusão à própria celebração da Eucaristia.

 

 

Sequência

 

À Vítima pascal

ofereçam os cristãos

sacrifícios de louvor.

 

O Cordeiro resgatou as ovelhas:

Cristo, o Inocente,

reconciliou com o Pai os pecadores.

 

A morte e a vida

travaram um admirável combate:

Depois de morto,

vive e reina o Autor da vida.

 

Diz-nos, Maria:

Que viste no caminho?

Vi o sepulcro de Cristo vivo

e a glória do Ressuscitado.

 

Vi as testemunhas dos Anjos,

vi o sudário e a mortalha.

Ressuscitou Cristo, minha esperança:

precederá os seus discípulos na Galileia.

 

Sabemos e acreditamos:

Cristo ressuscitou dos mortos:

Ó Rei vitorioso,

tende piedade de nós.

 

Aclamação ao Evangelho          1 Cor 5, 7b-8a

 

Monição: Aclamemos o Evangelho, cantando jubilosamente o Aleluia. Ele é o cântico pascal por excelência.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação – 4, F. da Silva, NRMS 50-51

 

Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado:

celebremos a festa do Senhor.

 

 

Evangelho

 

São João 20, 1-9 (de manhã)

1No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. 2Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». 3Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. 4Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. 5Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. 6Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão 7e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. 8Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. 9Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

 

Nenhum dos quatro Evangelhos narra o facto da Ressurreição de Jesus, pois não foi presenciado por testemunhas; era um facto sobrenatural que, de si mesmo, escapava à experiência humana. E isto só vem dar credibilidade ao facto da Ressurreição, pois, se se tratasse duma ficção, era de esperar que se dessem os seus pormenores. S. João começa com a verificação do túmulo vazio feita pela Madalena, mas vão ser os dois discípulos, que vão fazer o reconhecimento do local e que verificam indícios eloquentes, aptos para levarem à fé na Ressurreição de Jesus.

2 «Não sabemos…». Este plural parece aludir à tradição sinóptica que conhece a ida de mais mulheres ao sepulcro. É evidente que não houve a mínima preocupação de harmonizar os diferentes relatos evangélicos do sepulcro vazio e das aparições, o que é um forte motivo de credibilidade a favor da realidade da ressurreição, facto misterioso, que é a base de toda a fé cristã (cf. 1 Cor 15, 12-19).

7-8 «Viu e acreditou». Porque começou a crer o discípulo? A explicação habitual é que um ladrão não deixaria ficar os panos, e muito menos em ordem. Mas há mais dados a ter em conta: porque é que o Evangelista atribui tanta importância à diferente posição dos panos? É que as ligaduras e o lençol estavam espalmados no chão da pedra tumular, ao passo que o pano que envolvera a cabeça do Senhor não estava espalmado no chão, mas mantinha a forma da cabeça que envolvera (cf. a nossa tradução na Nova Bíblia da Difusora Bíblica). Não sabemos se Pedro partilhou da fé do Discípulo Amado, mas S. Lucas diz que ficou maravilhado (cf. Lc 24,12). Os panos com que Jesus foi amortalhado eram com toda a probabilidade: 1) um lençol mortuário (síndone), tecido largo e comprido que envolvia todo o corpo; 2) um lenço (sudário) que cobria a cabeça e caia sobre o rosto (e ajudaria a manter a boca fechada); 3) várias ligaduras que não só serviam para manter apertados os pés um contra o outro e as mãos unidas ao corpo, mas também que poderiam ajudar a aconchegar a síndone ao corpo. S. João não fala especificamente desta síndone, mas deve englobá-la na designação genérica de «ligaduras» (em grego, othónia).

9 «Ainda não tinham entendido a Escritura». Os discípulos não estavam psicologicamente predispostos a admitir a Ressurreição, para que esta pudesse ser fruto de uma alucinação; com efeito, só depois de confrontados com a realidade da ressurreição de Jesus é que se recordaram das Escrituras (cf. 1 Cor 15, 4; Act 2, 24-32; Jo 2, 22) e as entenderam. A ressurreição era uma realidade só admissível para o fim do mundo (cf. Jo 11, 24), pois, apesar de Jesus ter anunciado a sua ressurreição ao terceiro dia, este só poderia ser o dia final, de acordo com a profecia de Oseias (Os 6, 2). Diante do sepulcro vazio, só pensam num roubo (vv. 2.13.15) e não dão crédito a quaisquer notícias das aparições (cf. Mc 6, 11.13; Lc 24, 21-24; Jo 20, 25).

 

Em vez deste Evangelho, pode ler-se o que se leu na Vigília da Noite Santa.

 

Nas missas vespertinas pode ler-se o Evangelho de Lc 24, 13-35.

 

São Lucas 24, 13-35   (de tarde)

13Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. 14Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. 15Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. 16Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. 17Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?» Pararam, com ar muito triste, 18e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias». 19E Ele perguntou: «Que foi?» Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. 21Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, 23não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. 24Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes: 25«Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! 26Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?» 27Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. 29Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. 30E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. 31Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. 32Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» 33Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, 34que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». 35E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

 

Temos aqui uma das mais belas páginas do Evangelho: um relato cheio de vivacidade, de finura e de psicologia, em que acompanhamos o erguer daquelas almas desde a mais amarga frustração até às alturas da fé e da descoberta de Jesus ressuscitado. A crítica bíblica procura distinguir neste relato os elementos de tradição e os elementos redaccionais. Podem identificar-se muitos elementos de tradição neste relato, mas não dispomos de meios para classificar como meramente redaccionais todos os restantes, pois não são do nosso conhecimento todas as fontes de que Lucas dispôs; a própria crítica admite «fontes especiais» para a redacção de Lucas. Um facto indiscutível é que Lucas é um teólogo e um catequista, não é um jornalista e não se limita a contar a seco umas aparições; não temos, porém, elementos suficientes para definir em que medida reelaborou as suas fontes.

13 «Emaús»: uma povoação a 60 estádios (duas léguas), uns 11 quilómetros e meio de Jerusalém. Há duas leituras variantes nos manuscritos gregos do Evangelho de Lucas: a imensa maioria deles regista 60 estádios; alguns poucos têm 160 (o que equivale a uns 30 Km). Também não existe completo acordo sobre a sua localização, sendo indicados vários locais na tradição cristã; Al-Qubeibeh é o de maior aceitação, a uns 12 Km a Noroeste da Cidade Santa (a abadia beneditina de Abus-Gox corresponde aos 160 estádios).

16 «Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem». Não é que não vissem a Jesus, ou que Jesus se quisesse ocultar, mas eles é que estavam obcecados pelo seu extremo desalento. E fica-nos a lição: para que se possa reconhecer a Jesus ressuscitado é indispensável o olhar da fé.

18 «Cléofas» parece ser diferente do marido de Maria, mãe de Tiago e José (Jo 19, 25); embora alguns o identifiquem, a grafia é diferente: Klôpás.

22-24 «É verdade que algumas mulheres… Alguns dos nossos». Aqui se resume o que foi relatado antes com mais pormenor (Lc 23, 56b – 24, 9) e correspondente à tradição sinóptica e joanina. Certamente que «os nossos» são «Pedro e o outro discípulo» (certamente João, cf. v. 12 e Jo 20, 1-10). «Mas a Ele não O viram»: se este não é um pormenor meramente redaccional, temos que admitir que ainda não lhes constava da aparição de Jesus a Pedro, referida adiante, no v. 34; (cf. 1 Cor 15, 5).

28-30 «Jesus fez menção de seguir para diante». Lucas volta a aludir ao «caminho de Jesus» (no v. 15 já tinha usado o mesmo verbo grego que significa caminhar). R. J. Dillon (From eye-witnesses to ministers of the word) pensa que este pormenor lucano insinua que a presença de Jesus no meio dos seus através da Eucaristia – a fracção do pão do v. 30 – constitui o momento cume do seu caminhar  pelo caminho da salvação. Enternece o leitor ver como Jesus ressuscitado se torna o companheiro de caminho (recorde-se como Lucas gosta de focar a vida cristã como um caminho e um seguimento de Jesus); Jesus, depois de se fazer encontrado, agora faz-se rogado. Isto mesmo nos sucede muitas vezes na vida cristã. Ele vem ao nosso encontro sem O procurarmos e, outras vezes, quer dar-nos o ensejo de O convidarmos a ficar connosco e de praticarmos a caridade com os outros, que são Ele (cf. Mt 25, 40). Mas aqui o convite feito a Jesus não é um simples acto de caridade e de cortesia. Com efeito, parece que a narrativa nos leva a pensar que quem faz este pedido é toda a comunidade cristã, que se reúne para celebrar a Eucaristia e anseia estabelecer uma comunhão íntima com Jesus ressuscitado (ibid.). Todos estão de acordo em ver a estreita relação da refeição descrita com a multiplicação dos pães e a instituição da Eucaristia.

31 «Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no, mas Ele desapareceu da sua presença». É na Eucaristia que se abrem os olhos para a fé, para captar o que é invisível, mas real. Impressiona muito o relato ao unir o aparecimento com o desaparecimento, sem se dizer para onde é que Jesus se retirou. Desta maneira fica sugerida uma nova presença, a de Jesus glorioso e ressuscitado: uma ausência que é presença.

32 «Não ardia cá dentro o nosso coração?». Quando lemos a Escritura guiados por Jesus, presente na Igreja, inflama-se o nosso coração e sentimo-nos urgidos a mostrar aos que nos rodeiam, com as nossas vidas, pela palavra e pelo exemplo, que Cristo vive, que a Ressurreição é uma realidade. O episódio constitui um apelo a fazermos o mesmo papel do Ressuscitado junto dos desiludidos da vida e sem esperança e a comunicar-lhes a nossa experiência de fé. No relato também se põe em evidência a união do pão e da palavra na vida da Igreja.

 

Sugestões para a homilia

 

1. Páscoa: festa de alegria

2. A verdadeira alegria cristã,

 

1. Páscoa, festa de alegria.

Cristo ressuscitou, como tinha prometido. Aleluia. Cristo vive. Cristo ressuscitou para nunca mais morrer.

A Páscoa é a festa da nossa Redenção, festa de acção de graças e de imensas alegrias. A Ressurreição de Jesus é o argumento supremo da sua Divindade. Cristo vive! Esta certeza enche de alegria os nossos corações. Ele triunfou da morte, do poder das trevas, da dor e da angústia. A sua Ressurreição é a grande luz que ilumina o mundo inteiro. A luz de Cristo que ressuscitou glorioso dissipou as trevas do nosso coração e do nosso espírito.

Alegremo-nos e exultemos, pois Cristo nossa Páscoa reina para sempre. Aleluia!

Na Morte e Ressurreição de Cristo fomos resgatados do pecado, do poder do demónio e da morte eterna. A Páscoa recorda-nos o nosso renascimento sobrenatural no Baptismo, no qual fomos constituídos filhos de Deus; a ressurreição de Cristo é penhor da nossa própria ressurreição. Os cinquenta dias de Páscoa excluem os jejuns e as penitências, pois trata-se de uma antecipação do banquete festivo que nos espera no Céu.

A alegria verdadeira não depende do bem-estar material, de não padecer necessidades, de ausência de dificuldades, de ter ou não ter saúde…A nossa alegria cristã não é «a alegria fisiológica de um animal são»; o nosso gozo de cristãos não tem relação com as falsas alegrias nem com as enganosas e momentâneas satisfações do pecado, nem com uma superficial tranquilidade de consciência; a nossa alegria não está dependente dos vaivéns da afectividade nem dos caprichos da fortuna; ela é mais profunda, pois tem a sua origem em Cristo, no amor que Deus nos tem e na nossa correspondência a esse amor. Cumpre-se, agora também, a promessa do Senhor: «Dar-vos-ei uma alegria que ninguém vos poderá tirar»; ninguém: nem a dor, nem a calúnia, nem o desamparo, nem as próprias fraquezas, se voltarmos decididamente para o Senhor através do arrependimento. Esta é a única condição para a nossa alegria: não separar-nos nunca, nem deixar que as coisas nos separem de Cristo e saber-nos em todos os momentos filhos bem amados de Deus.

2. A verdadeira alegria cristã.

A liturgia do tempo pascal repete-nos de mil modos diferentes as mesmas palavras: «Alegrai-vos, de novo vos digo, alegrai-vos!». Não deixeis perder jamais a paz e a alegria! Devemos fomentar sempre a alegria verdadeira, o optimismo, rejeitando a tristeza, que é estéril e deixa a alma à mercê das tentações. Quando estamos alegres, animamos os demais. A tristeza obscurece o ambiente e faz muitos danos; deixa-nos sem forças; é como o barro que se pega às botas do caminhante e que, além de as sujar, o impede de caminhar.

Estar alegre é uma forma de dar graças ao Senhor pelos inúmeros benefícios que sempre nos está a conceder. Deus, nosso Pai, quer-nos contentes e fica radiante quando nos vê felizes e alegres com o gozo e a felicidade verdadeiras.

Devemos ser semeadores de paz e alegria, a exemplo dos primeiros cristãos, que irradiaram por toda a parte a fé em Cristo ressuscitado. Muitas pessoas podem encontrar Deus no nosso optimismo, no nosso sorriso habitual, nas nossas atitudes cordiais. Os nossos lares cristãos devem ser luminosos e alegres, onde reina o amor de Deus e a presença sempre viva de Jesus Cristo ressuscitado.

Pensemos na alegria da Santíssima Virgem: Ela foi a primeira a receber a visita de Cristo ressuscitado, porque foi a primeira a acreditar nessa Ressurreição. Ela é a causa da nossa alegria porque nos deu Jesus, nossa esperança e salvação. Alegremo-nos sempre no Senhor. O único inimigo da alegria é o pecado, sobretudo o pecado contra a fé que, por destruir o amor e a confiança em Deus, deixa o homem só e entregue a si mesmo.

Cristo vive. Ele prometeu-nos que estaria sempre connosco até ao fim dos tempos. Cristo ressuscitou para nunca mais morrer. Os cristãos são as únicas criaturas verdadeiramente alegres porque a fé em Cristo ressuscitado não nos decepciona nunca. Alegremo-nos e exultemos sempre no Senhor. Aleluia! Aleluia!

 

 

Oração Universal

 

Irmãos caríssimos:

Chegados a este dia por nós tão esperado,

e que traz a salvação a todo o género humano,

imploremos a bondade de Deus todo-poderoso.

 

1.     Para que mantenha na abundância da graça pascal

    os recém-baptizados admitidos no seio da Igreja

    e os pecadores com ela reconciliados,

    oremos, irmãos.

 

2.     Pelo Santo Padre, Bispos e Sacerdotes:

    pelos lares cristãos e seus filhos,

    para que amem sempre a verdade

    e suas vidas sejam iluminadas pela alegria pascal,

    oremos irmãos.

 

3.     Pelos governantes das nações:

    para que, trabalhando pela felicidade terrena dos homens,

    estejam abertos ao seu bem espiritual,

    oremos, irmãos.

 

4.     Pelos que sofrem no corpo ou no espírito:

    para que sejam reconciliados pela alegria da Ressurreição,

    oremos, irmãos.

 

5.     Pela paz e prosperidade de todo o mundo:

    para que a alegria pascal se estenda a todos os homens,

    e a fome, as calamidades e guerras se afastem dos povos,

    oremos, irmãos.          

 

Concedei-nos, Deus Omnipotente,

que o admirável mistério destas festas pascais

Vos torne agradáveis as nossas orações.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Bendita e louvada seja, M. Simões, NRMS 41

 

Oração sobre as oblatas: Exultando de alegria pascal, nós Vos oferecemos, Senhor, este sacrifício, no qual tão admiravelmente renasce e se alimenta a vossa Igreja. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio pascal I [mas com maior solenidade neste dia]: p. 469 [602-714]

 

No Cânone Romano dizem-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) e o Hanc igitur (Aceitai benignamente, Senhor) próprios.

Nas Orações Eucarísticas II e III fazem-se também as comemorações próprias.

 

Santo: J. Santos, NRMS 99-100

 

Monição da Comunhão

 

São os Sacramentos pascais que alimentam e renovam a Santa Igreja. A comunhão do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, imolado por nós e ressuscitado para nossa salvação, é penhor de glória futura. Ele promete-nos a participação na sua própria Ressurreição e glória celeste. Comunguemos, pois, com devoção e amor o Pão vivo descido do Céu.

 

Cântico da Comunhão: Fomos resgatados pelo sangue, Az. Oliveira, NRMS 109

1 Cor 5, 7-8

Antífona da comunhão: Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado: celebremos a festa com o pão ázimo da pureza e da verdade. Aleluia.

 

Cântico de acção de graças: Louvai o Senhor, com tudo, M. Simões, NRMS 2 (I)

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, protegei sempre com paternal bondade a vossa Igreja, para que, renovada pelos mistérios pascais, mereça chegar à glória da ressurreição. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A alegria e o júbilo deste dia são realidades que devem nascer de dentro para fora; é dentro do coração que se há-de viver em festa nos dias do Tempo Pascal, tempo de alegria, mostrado no rosto e nos pormenores do dia a dia; tempo de comunhão pascal, tempo de vida a brotar de Cristo Ressuscitado, caminho, verdade e vida. Sejamos testemunhas em toda a parte da Ressurreição de Cristo. Mostremos a todos um rosto de gente salva.

 

Cântico final: Jesus venceu a morte, M. Carneiro, NRMS 109

 

 

Na despedida, durante toda a Oitava, diz-se:

 

Ide em paz e o Senhor vos acompanhe. Aleluia. Aleluia.

 

R. Graças a Deus. Aleluia. Aleluia.

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO PASCAL

 

OITAVA

 

2ª Feira, 25-IV: Um coração repleto de alegria.

Act 2, 14. 22-32 / Mt 28, 8-15

Mas como (David) era profeta… viu de antemão e anunciou a ressurreição do Messias.

O juramento feito a David (Leit) cumpre-se e Jesus ressuscitado aparece a Maria Madalena e às santas mulheres: «Maria Madalena e as santas mulheres vinham para embalsamar para acabar de embalsamar o corpo de Jesus…, foram as primeiras pessoas a encontrar-se com o Ressuscitado (Ev). Assim as mulheres foram as primeiras mensageiras da ressurreição de Cristo para os Apóstolos» (CIC 641).

A ressurreição do Senhor é causa de grande alegria, porque o viram, sabem que Ele vive e falaram com Ele. Se alguma vez nos falta a alegria, procuremos o Senhor.

 

3ª Feira, 26-IV: A ressurreição e a conversão.

Act 2, 36-41 /Jo 20, 11-18

Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras?

Maria Madalena manifesta a sua grande dor, por ver que tinham levado o corpo de Jesus (Ev). Depois do encontro com Jesus as lágrimas dão lugar à alegria, o desânimo é substituído pela esperança. É preciso começar de novo.

Depois de S. Pedro ter falado da crucifixão do Senhor os ouvintes sentiram o seu coração despedaçar-se e perguntaram o que era preciso fazer. «Arrependei-vos» (Leit). E receberam o dom do Espírito Santo, «o Consolador que dá ao coração do homem a graça do arrependimento e a conversão (Leit)» (CIC, 1433).

 

4ª Feira, 27-IV: O Pão e a Palavra.

Act 3, 1-10 / Lc 24, 13-35

Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras.

O encontro dos discípulos de Emaús com Cristo ressuscitado provoca neles uma grande transformação: do desânimo e da tristeza ao amor ardente (Ev). O encontro de um coxo de nascença com Pedro provoca igualmente nele uma grande mudança (Leit).

São muitos os frutos dos encontros com Jesus ressuscitado. Ele continua a pôr à nossa disposição a Palavra e o Pão, como fez com os discípulos de Emaús: «Enquanto caminhavam, Ele explicava-lhes as Escrituras; depois pondo-se à mesa com eles, ‘tomou o pão, proferiu a bênção, partiu-o e deu-lho’ (Ev)» (CIC, 2442).

 

5ª Feira, 28-IV: A paz terrena e a paz de Cristo.

Act 3, 11-26 / Lc 24, 35-48

A paz esteja convosco… Por que estais perturbados e por que se levantam esses pensamentos nos vossos corações?

A paz é um dos grandes dons da Ressurreição de Cristo: «A paz terrena é imagem e fruto da paz de Cristo, o Príncipe da paz messiânico. Pelo sangue da sua cruz… reconciliou com Deus os homens… Ele é a nossa paz e declara bem-aventurados os obreiros da paz» (CIC, 2305).

Nos momentos de perturbação (Ev), vamos ter com Jesus, para que nos conceda a paz, por exemplo, no sacramento da Penitência: «Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que os pecados vos sejam perdoados» (Leit).

 

6ª Feira, 29-IV: Audácia, apoiados no nome do Senhor.

Act 4, 1-12 / Jo 21, 1-14

(Pedro): Pelo nome de Jesus Cristo de Nazaré…é que este homem se encontra na vossa presença perfeitamente são.

É em nome do Senhor que Pedro cura o coxo de nascimento. É também em nome do Senhor que Pedro lança a rede para uma pesca extraordinária, milagrosa (Ev). E é também «no encontro com Jesus ressuscitado que (este nome) assume uma conotação de amor e afeição, que vai ficar como típica da tradição cristã: ‘É o Senhor’ (Ev)» (CIC, 448).

É em nome do Senhor que devemos levar a Boa Nova a todos os recantos da sociedade: à família, à Escola, ao trabalho, à cultura, etc.

 

Sábado, 30-IV: A transmissão da Boa Nova.

Act 4, 13-21 / Mc 16, 9-15

E disse-lhes: ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura.

Jesus censura a incredulidade e a dureza do coração dos Onze. E, apesar disso, confia-lhes uma missão extraordinária, só possível com a sua ajuda.

E eles assim fizeram: «A transmissão da fé cristã é, antes de mais, o anúncio de Jesus, para levar à fé n’Ele. Desde o princípio, os primeiros discípulos arderam no desejo de anunciar Cristo: «Nós é que não podemos deixar de dizer o que vimos e escutámos (Leit). E convidam os homens de todos os tempos a entrar na alegria da comunhão com Cristo» (CIC, 425). Continuemos pois esta missão.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Alfredo A. Melo

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 

 


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