Dom. Ramos na Paixão S.

Dia Mundial da Juventude

17 de Abril de 2011

 

ORIENTAÇÕES GERAIS

 

      • O último Domingo da Quaresma tem diferentes nomes, sendo o mais conhecido o de Domingo de Ramos por causa da procissão que se faz, antes da Missa, com os ramos previamente benzidos. Chama-se igualmente Domingo das Flores, das Palmas; Domingo Hossana o ainda Páscoa florida pela mesma razão.          

      Outrora era denominado a Páscoa dos competentes, porque era neste dia que os catecúmenos, preparados ao longo da Quaresma, vinham, em conjunto, pedir o Baptismo que lhes seria administrado na solene Vigília Pascal, recitando agora o Símbolo dos Apóstolos (o Credo) que lhes havia sido explicado.

      Chama-se ainda capitilavium por causa da ablução semi-litúrgica dos catecúmenos, festa que tinha lugar neste dia em algumas igrejas.

      Também se diz Domingo da indulgência em virtude de neste dia começar a semana de reconciliação dos penitentes que receberiam o sacramento em Quinta-Feira Santa. Nesta semana os tribunais encerravam as portas bem como os demais serviços públicos e os imperadores concediam amnistia e remissão de penas. As Constituições Apostólicas explicam a finalidade deste descanso (VIII, 33): durante a grande semana que precede o dia de Páscoa e a que se segue, os escravos descansem visto que uma é a semana da Paixão do Senhor e outra a da Ressurreição e eles têm necessidade de ser instruídos nestes mistérios. Era assim, para eles, um retiro anual.

•    Em todas as missas deste dia comemora-se a solene entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, com procissão ou entrada solene antes da missa principal e com entrada mais simples antes de cada uma das outras missas.

•    A entrada solene pode repetir-se mas não a procissão antes de uma ou outra missa que costuma ter grande afluência de fiéis (cf. Missal Romano, p. 51, n. 1).

 

 

A. Comemoração da entrada do Senhor em Jerusalém

 

 

Primeira forma: Procissão

 

Os fiéis reúnem-se numa igreja menor ou noutro lugar apropriado fora da igreja para onde se dirigirá a procissão.

Têm já os ramos na mão.

O celebrante e os ministros, revestidos de paramentos vermelhos encaminham-se para o local. O celebrante pode usar o pluvial até ao fim da procissão.

 

    (Entretanto canta-se a antífona seguinte ou outros cânticos apropriados, ou qualquer cântico triunfal em honra de Cristo Rei).

 

Mt 21, 9

Antífona: Hossana ao Filho de David. Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel. Hossana nas alturas.

 

Introdução (Antes da bênção dos Ramos).

 

O Presidente faz a introdução que vem no Missal Romano, ou a seguinte:

 

Com a celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, iniciamos com toda a solenidade a Semana Santa, chamada também Semana Maior.

Unimos neste dia duas celebrações: a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, aclamado como o Messias por quem suspiraram os Patriarcas, os Profetas e todo o Povo de Deus, e a Paixão e Morte do Senhor.

Com os ramos de oliveira e de palmeira, símbolos da paz, aclamemo-l’O também como Rei pacífico que vem oferecer-nos a verdadeira paz.

Preparemo-nos também para O seguirmos na Sua Paixão e Morte, e com Ele e or Ele nos alegrarmos na Sua gloriosa Ressurreição.

 

Seguidamente, o sacerdote, de mãos juntas, diz uma das seguintes orações:

 

 

Oremos.

Deus eterno e omnipotente, santificai com a vossa + bênção estes ramos, para que, acompanhando a Cristo nosso Rei nesta celebração festiva, mereçamos entrar com Ele na Jerusalém celeste. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Ou:

 

Aumentai, Senhor, a fé dos que esperam em Vós e ouvi com bondade as nossas humildes súplicas, para que, aclamando com estes ramos a Cristo vitorioso, permaneçamos unidos a Ele e dêmos fruto abundante de boas obras. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Terminada a oração, asperge os ramos com água benta, sem dizer nada.

A seguir, faz-se a proclamação do Evangelho da entrada do Senhor, segundo o texto evangélico correspondente a cada um dos ciclos. Esta proclamação é feita do modo habitual pelo diácono, ou, na falta dele, pelo sacerdote.

 

Evangelho

 

São Mateus 21, 1-11

 

1Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, junto ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: 2«Ide à povoação que está em frente e encontrareis uma jumenta presa e, com ela, um jumentinho. Soltai-os e trazei-mos. 3E se alguém vos disser alguma coisa, respondei que o Senhor precisa deles, mas não tardará em devolvê-los». 4Isto sucedeu para se cumprir o que o profeta tinha anunciado: 5«Dizei à filha de Sião: ‘Eis o teu Rei, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho de uma jumenta’». 6Os discípulos partiram e fizeram como Jesus lhes ordenara: 7trouxeram a jumenta e o jumentinho, puseram-lhes em cima as suas capas e Jesus sentou-Se sobre elas. 8Numerosa multidão estendia as capas no caminho; outros cortavam ramos de árvores e espalhavam-nos pelo chão. 9E, tanto as multidões que vinham à frente de Jesus como as que O acompanhavam, diziam em altos brados: «Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!» 10Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou em alvoroço. «Quem é Ele?» perguntavam. 11E a multidão respondia: «É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia».

 

2 A povoação que está ai em frente é com certeza Betânia (cf. Mc 11, 1).

7 A jumenta e o jumentinho: Mateus desce até ao pormenor de falar não apenas do jumentinho, mas também da jumenta. Pretende sublinhar o cumprimento da letra da profecia citada (Zac 9, 9), mas a mãe do jumentinho facilitaria que este não se espantasse com a multidão e seguisse o caminho. A entrada dos peregrinos em Jerusalém fazia-se a pé. Jesus quer entrar a cavalo, desta vez. Até então, tinha querido evitar todas as homenagens messiânicas, mas quer agora mostrar-se como o Messias nesta última visita à cidade, entrando montado. Mas não quer fazer a sua entrada como um rei temporal, ou um general, montado num corcel, mas num jumentinho: uma lição de humildade, mesmo no momento de se manifestar como o Messias. Jesus não é um rei dominador, em concorrência com os poderosos da terra, mas o rei cheio de mansidão, o príncipe da paz. Compreende-se, então, como o povo tenha aclamado a Jesus e os seus inimigos se tenham indignado. Os Santos Padres viram nesta atitude de Jesus, ao cavalgar alternadamente sobre o jumentinho e a jumenta, um sinal: a jumenta, submetida ao jugo, representa o povo judeu sujeito ao jugo da Lei; o jumentinho figurava os gentios. A ambos Jesus vinha guiar até Jerusalém (a Igreja e o Céu).

9 «Hossana». Palavra hebraica que aqui tem um sentido de aclamação, correspondente ao nosso «viva!», e não uma mera prece, como indicaria a tradução literal do hebraico: «salva-nos, por favor, (ó Deus)». A saudação «Bendito o que vem em nome do Senhor» é tirada do Salmo 117 e dela se fazem eco todos os fiéis na Liturgia eucarística: «Bendito o que vem» (baruk habá) é ainda hoje a saudação de boas-vindas em Israel. De qualquer modo, estas palavras não são mera saudação, mas uma aclamação solene da realeza de Cristo.

 

 

Depois do Evangelho, conforme as circunstâncias, pode fazer-se uma breve homilia. A anunciar o começo da procissão, o sacerdote ou outro ministro idóneo pode fazer uma admonição, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

 

Imitemos, irmãos caríssimos, a multidão que aclamava Jesus na cidade santa de Jerusalém, e caminhemos em paz.

 

Inicia-se a procissão em direcção à igreja onde é celebrada a Missa.

À frente vai o turiferário com o turíbulo aceso (se se usa o incenso); depois, no meio de dois ministros com velas acesas, o cruciferário com a cruz ornamentada; segue-se o sacerdote com os outros ministros: finalmente, os fiéis com os ramos na mão.

 

 

 

Á entrada da procissão na igreja, canta-se o responsório seguinte ou outro cântico alusivo à entrada do Senhor.

 

Cântico: As crianças de Jerusalém, M. Faria, NRMS 25

 

V. Ao entrar o Senhor na cidade santa, as crianças de Jerusalém, com ramos de palmeira, anunciaram a ressurreição da vida, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

V. Quando o povo ouviu dizer que Jesus vinha para Jerusalém, saiu ao seu encontro com ramos de palmeira, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

Ao chegar ao altar, o sacerdote faz-lhe a devida reverência e, conforme as circunstâncias, incensa-o. Seguidamente, dirige-se para a sua cadeira (depõe o pluvial e veste a casula) e, omitindo tudo o mais, diz, como conclusão da procissão, a oração colecta da Missa. Terminada esta oração, a Missa continua na forma habitual.

 

B. Missa

 

Se há procissão ou entrada solene, o celebrante começa a Missa recitando a colecta. Omite-se, portanto, o acto penitencial.

Se há entrada simples, começa como vai Indicado a seguir.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Hossana ao Filho de David, Az. Oliveira, NRMS 29

 

Antífona de entrada: Seis dias antes da Páscoa, o Senhor entrou em Jerusalém e as crianças vieram ao seu encontro, com ramos de palmeira, cantando com alegria:

Hossana nas alturas. Bendito sejais, Senhor, que vindes trazer ao mundo a misericórdia de Deus.

 

Ou

 

Salmo 23, 9-10

Levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos, pórticos antigos, e entrará o Rei da glória.

Quem é esse Rei da glória? O Senhor dos Exércitos, é Ele o Rei da glória.

Hossana nas alturas. Bendito sejais, Senhor, que vindes ao mundo trazer a misericórdia de Deus.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Liturgia deste Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor celebra dois mistérios da vida do Senhor:

    • a entrada solene e triunfal de Jesus em Jerusalém, há momentos evocada;

    • e a narração da Paixão e Morte do Redentor.

Se em cada Missa se renova o Mistério Pascal de Cristo ‑ a Sua Paixão, Morte e Ressurreição ‑ esta verdade está hoje mais viva dentro de nós, de algum modo, porque vai passar diante da nossa mente toda a profundidade do Seu sofrimento, preço do nosso resgate.

Esforcemo-nos por tomar parte na Paixão e Morte de Jesus para, com Ele, sermos conduzidos às alegrias da ressurreição final.

 

Acto penitencial (quando não se realiza a procissão)

   

S. Paulo ensina-nos ‑ na Carta aos Romanos ‑ que o pecado renova em nós a morte de Cristo. Pecar mortalmente é dar a morte ao Autor da Vida. Pecar venialmente é renovar todos aqueles tormentos que, sem Lhe dar a morte, O atormentaram.

Não queiramos, portanto, desculpar-nos, pensando que não temos pecados graves. Jesus recebeu na Sua Paixão muitas dores que não  foram mortais e que, apesar disso, O fizeram sofrer.

Aceitemos a nossa condição de pecadores, não camuflando com desculpas as nossas derrotas e, cheios de confiança filial, peçamos humildemente perdão ao Senhor.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e padecesse o suplício da cruz, fazei que sigamos os ensinamentos da sua paixão, para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Cerca de 700 anos antes de Cristo, o profeta lsaías descreve a Paixão de Jesus com um realismo impressionante. Faz questão de chamar a nossa atenção para a fidelidade do Servo de Yavéh em cumprir a vontade do Pai e a sua confiança amorosa em Deus. Essa confiança salva-O, finalmente, e dá-lhe a vitória sobre os inimigos.

Animemo-nos, pois, a viver a fidelidade, ainda que exija de nós muitos sacrifícios.

 

 

Isaías 50, 4-7

 

4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

O texto é tirado do II Isaías e corresponde aos primeiros 4 vv. do 3° poema do Servo de Yahwéh (Is 50, 4-9). Quem está a falar parece ser o próprio servo, embora não seja aqui nomeado, mas é o que se deduz do contexto imediato deste canto (v. 10). De qualquer modo, considera-se como a figura profética de Jesus Cristo. O texto consta de três estrofes iniciadas com a mesma fórmula (que a tradução não respeitou): «O Senhor Deus»; na primeira sublinha-se a docilidade de discípulo; na segunda, o sofrimento que esta docilidade acarreta; na terceira, a fortaleza no meio das dores.

4 Apresenta-se «a falar como um discípulo», embora não se trate de um discípulo qualquer; é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: «a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou» (Jo 7, 16; cf. 14, 24).

5 «Não resisti nem recuei». Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).

6 «Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam». Os evangelistas hão-de deixar ver como o pleno cumprimento deste hino profético se deu no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Mc 15, 19; Lc 22, 63-64…

 

Salmo Responsorial    Sl 21 (22), 8-9.17-18a.19-20.23-24 (R. 2a)

 

Monição: O Salmo 21 que a Liturgia nos propõe exprime os sentimentos de um pobre abandonado e triste, que implora o auxílio de Deus. Foi esta a oração rezada por Jesus, momentos antes de morrer.

Façamos deste salmo também o tema do nosso diálogo com o Pai, confiados em que seremos, como Jesus Cristo o foi na Sua Ressurreição, salvos por Ele.

 

Refrão:        Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

 

Todos os que me vêem escarnecem de mim,

estendem os lábios e meneiam a cabeça:

«Confiou no Senhor, Ele que o livre,

Ele que o salve, se é seu amigo».

 

Matilhas de cães me rodearam,

cercou-me um bando de malfeitores.

Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,

posso contar todos os meus ossos.

 

Repartiram entre si as minhas vestes

e deitaram sortes sobre a minha túnica.

Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,

sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.

 

Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,

hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.

Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,

glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob, reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Paulo transcreve provavelmente um hino que se cantava na Igreja primitiva. Nele é proclamado o mistério da Encarnação do Verbo, a humilhação de Jesus que apagou os sinais da Sua divindade, aparecendo revestido da nossa natureza mortal e, na Sua Paixão, coberto dos nossos opróbrios.

O caminho de Jesus é também aquele que todos somos chamados a seguir: pela humilhação da cruz à glória da Ressurreição.

 

Filipenses 2, 6-11

 

6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, 7mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, um hino que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino; é a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.

6 «De condição divina». Literalmente: «existindo em forma de Deus». Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica. De qualquer modo, como bem observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas significa que Jesus «tinha um ser como Deus, um ser divino».

«Não se valeu da sua igualdade com Deus». Há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão, segundo se considerar o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo), ou em sentido passivo (coisa roubada). A Vulgata traduz: «não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus» (sentido activo). Segundo a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossa tradução litúrgica (sentido passivo), teríamos: «não considerou como algo cobiçado (harpagmón) … Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf. Gn 3, 5.22), e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer «semelhante aos homens» (v. 7).

7 «Mas aniquilou-se a si próprio», à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). «Assumindo a condição de servo», o que não significa a condição social de escravo, mas a «forma» (morfê) de se conduzir própria de um ser pobre e dependente, cumprindo n’Ele a figura do «servo de Yahwéh», a que se refere a primeira leitura de hoje. «Tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem», não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é «semelhante» (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hebr 4, 15).

8 «Humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz». Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz – homem, escravo, malfeitor!

9-11 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o humilhante desfecho dum história trágica com que tudo acabou. Temos em paralelo o sublime paradoxo da sua «exaltação»: «por isso Deus – não Ele próprio, mas o Pai – O exaltou» de modo singularíssimo, à letra, acima de tudo o que existe, como o sugere a preposição hypér na composição do verbo hypsóein (exaltar). Esta exaltação deu-se com a glorificação da humanidade de Jesus na sua Ressurreição e Ascensão. A esta sublime exaltação corresponde o «Nome» que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes em todos os tempos. Com efeito, já não se trata do simples nome de Jesus, um nome corrente com que era tratado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz, nem apenas o título da sua condição messiânica, «Cristo», pois o nome que agora Lhe compete é o mesmo nome com que o próprio Deus é designado no A. T.: «Kyrios-Senhor», nome divino, como consta da tradução grega de «Yahwéh». Desde agora, a todos pertence proclamar e reconhecer a divindade de Jesus – «toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor» (mais expressivo sem artigo, como no original grego) – e o seu domínio sobre toda a criação, a saber: «no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai» (A tradução da velha Vulgata neste ponto era pouco expressiva e deficiente: «que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai»).

Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado. Também fica patente que a fé na divindade de Jesus não é o fruto duma elaboração teológica tardia, pois a epístola é, quando muito, do ano 62, se não é mesmo de cerca de 55/56 (data mais provável), e, como dissemos, estes versículos fariam parte dum hino litúrgico a Cristo, anterior à epístola.

 

Aclamação ao Evangelho        Filip 2, 8-9

 

Monição: Preparemo-nos interiormente para ouvir a narração da Paixão e Morte de Jesus. Se nos parece longa, pensemos que Jesus no a ouviu proclamar, mas sofreu-a do princípio ao fim.

Aclamemos o Senhor que, pela Sua obediência até à morte na Cruz, nos abriu as portas do Céu.

 

Cântico: J. Santos, NRMS 40

 

Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz.

Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes.

 

 

Evangelho*

 

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

Forma longa: Mateus 26, 14 - 27, 66;  forma breve: Mateus 27, 11-54

 

N   Naquele tempo, [14um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes 15e disse-lhes:

R   «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?»

N   Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. 16E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar. 17No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe:

R   «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»

N   18Ele respondeu:

J    «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’».

N   19Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado, e prepararam a Páscoa. 20Ao cair da noite, sentou-Se à mesa com os Doze. 21Enquanto comiam, declarou:

J    «Em verdade vos digo: Um de vós há-de entregar-Me».

N   22Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar-Lhe:

R   «Serei eu, Senhor?»

N   23Jesus respondeu:

J    «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que há-de entregar-Me. 24O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido».

N   25Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou:

R   «Serei eu, Mestre?»

N   Respondeu Jesus:

J    «Tu o disseste».

N   26Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo:

J    «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo».

N   27Tomou em seguida um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo:

J    «Bebei dele todos, 28porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados. 29Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu Pai».

N   30Cantaram os salmos e seguiram para o Monte das Oliveiras.

N   31Então, Jesus disse-lhes:

J    «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa, como está escrito: ‘Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho’. 32Mas, depois de ressuscitar, preceder-vos-ei a caminho da Galileia».

N   33Pedro interveio, dizendo:

R   «Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu não me escandalizarei».

N   34Jesus respondeu-lhe:

J    «Em verdade te digo: Esta mesma noite, antes do galo cantar, Me negarás três vezes».

N   35Pedro disse-lhe:

R   «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».

N   E o mesmo disseram todos os discípulos. 36Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade, chamada Getsémani e disse aos discípulos:

J    «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar».

N   37E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. 38Disse-lhes então:

J    «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo».

N   39E adiantando-Se um pouco mais, caiu com o rosto por terra, enquanto orava e dizia:

J    «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres».

N   40Depois, foi ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro:

J    «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo! 41Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».

N   42De novo Se afastou, pela segunda vez, e orou, dizendo:

J    «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade».

N   43Voltou novamente e encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados de sono. 44Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. 45Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes:

J    «Dormi agora e descansai. Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores. 46Levantai-vos, vamos. Aproxima-se aquele que Me vai entregar».

N   47Ainda Jesus estava a falar, quando chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. 48O traidor tinha-lhes dado este sinal:

R   «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O».

N   49Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe:

R   «Salve, Mestre!»

N   E beijou-O. 50Jesus respondeu- lhe:

J    «Amigo, a que vieste?»

N   Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-n’O. 51Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. 52Jesus disse-lhe:

J    «Mete a tua espada na bainha, pois todos os que puxarem da espada morrerão à espada. 53Pensas que não posso rogar a meu Pai que ponha já ao meu dispor mais de doze legiões de Anjos? 54Mas como se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim tem de acontecer?»

N   55Voltando-Se depois para a multidão, Jesus disse:

J    «Viestes com espadas e varapaus para Me prender como se fosse um salteador! Eu estava todos os dias sentado no templo a ensinar e não Me prendestes... 56Mas, tudo isto aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas».

N   Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.

N   57Os que tinham prendido Jesus levaram-n’O à presença do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e os anciãos se tinham reunido. 58Pedro foi-O seguindo de longe, até ao palácio do sumo sacerdote. Aproximando-se, entrou e sentou-se com os guardas, para ver como acabaria tudo aquilo. 59Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho falso contra Jesus para O condenarem à morte, 60mas não o encontravam, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas. Por fim, apresentaram-se duas 61que disseram:

R   «Este homem afirmou: ‘Posso destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias’».

N   62Então, o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus:

R   «Não respondes nada? Que dizes ao que depõem contra Ti?»

N   63Mas Jesus continuava calado. Disse-Lhe o sumo sacerdote:

R   «Eu Te conjuro pelo Deus vivo, que nos declares se és Tu o Messias, o Filho de Deus».

N   64Jesus respondeu-lhe:

J    «Tu o disseste. E Eu digo-vos: vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso, vindo sobre as nuvens do céu».

N   65Então, o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo:

R   «Blasfemou. Que necessidade temos de mais testemunhas? 66Acabais de ouvir a blasfémia. Que vos parece?»

N   Eles responderam:

R   «É réu de morte».

N   67Cuspiram-Lhe então no rosto e deram-Lhe punhadas. Outros esbofeteavam-n’O, dizendo:

R   68«Adivinha, Messias: quem foi que Te bateu?»

N   69Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe:

R   «Tu também estavas com Jesus, o galileu».

N   70Mas ele negou diante de todos, dizendo:

R   «Não sei o que dizes».

N   71Dirigindo-se para a porta, foi visto por outra criada que disse aos circunstantes:

R   «Este homem estava com Jesus de Nazaré».

N   72E, de novo, ele negou com juramento:

R   «Não conheço tal homem».

N   73Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro:

R   «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia».

N   74Começou então a dizer imprecações e a jurar:

R   «Não conheço tal homem».

N   E, imediatamente, um galo cantou. 75Então, Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera: «Antes do galo cantar, tu Me negarás três vezes». E, saindo, chorou amargamente. 27, 1Ao romper da manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para Lhe darem a morte. 2Depois de Lhe atarem as mãos, levaram-n’O e entregaram-n’O ao governador Pilatos. 3Então Judas, que entregara Jesus, vendo que Ele tinha sido condenado, tocado pelo remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:

R   4«Pequei, entregando sangue inocente».

N   Mas eles replicaram:

R   «Que nos importa? É lá contigo».

N   5Então arremessou as moedas para o santuário, saiu dali e foi-se enforcar. 6Mas os príncipes dos sacerdotes apanharam as moedas e disseram:

R   «Não se podem lançar no tesouro, porque são preço de sangue».

N   7E, depois de terem deliberado, compraram com elas o Campo do Oleiro. 8Por este motivo se tem chamado àquele campo, até ao dia de hoje, «Campo de Sangue». 9Cumpriu-se então o que fora dito pelo profeta: «Tomaram trinta moedas de prata, preço em que foi avaliado Aquele que os filhos de Israel avaliaram 10e deram-nas pelo Campo do Oleiro, como o Senhor me tinha ordenado».]

N   11Entretanto,] Jesus foi levado à presença do governador, que lhe perguntou:

R   «Tu és o Rei dos judeus?»

N   Jesus respondeu:

J    «É como dizes».

N   12Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. 13Disse-Lhe então Pilatos:

R   «Não ouves quantas acusações levantam contra Ti?»

N   14Mas Jesus não respondeu coisa alguma, a ponto de o governador ficar muito admirado. 15Ora, pela festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, à escolha do povo. 16Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás. 17E, quando eles se reuniram, disse-lhes:

R   «Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?»

N   19Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja. 20Enquanto estava sentado no tribunal, a mulher mandou-lhe dizer:

R   «Não te prendas com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d’Ele».

N   Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus. 21O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:

R   «Qual dos dois quereis que vos solte?»

N   Eles responderam:

R   «Barrabás».

N   22Disse-lhes Pilatos:

R   «E que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?»

N   Responderam todos:

R   «Seja crucificado».

N   23Pilatos insistiu:

R   «Que mal fez Ele?»

N   Mas eles gritavam cada vez mais:

R   «Seja crucificado».

N   24Pilatos, vendo que não conseguia nada    e aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo:

R   «Estou inocente do sangue deste homem. Isso é lá convosco».

N   25E todo o povo respondeu:

R   «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».

N   26Soltou-lhes então Barrabás. E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh’O para ser crucificado. 27Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório e reuniram à volta d’Ele toda a coorte. 28Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n’O num manto vermelho. 29Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça e colocaram uma cana na sua mão direita. Ajoelhando diante d’Ele, escarneciam-n’O, dizendo:

R   «Salve, Rei dos judeus!»

N   30Depois, cuspiam-Lhe no rosto e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça. 31Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e levaram-n’O para ser crucificado.

N   32Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus. 33Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do Calvário, 34deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, depois de o provar, não quis beber. 35Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, 36e ficaram ali sentados a guardá-l’O. 37Por cima da sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus». 38Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. 39Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo:

R   40«Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz».

N   41Os príncipes dos sacerdotes, juntamente com os escribas e os anciãos, também troçavam d’Ele, dizendo:

R   42«Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos n’Ele. 43Confiou em Deus: Ele que O livre agora, se O ama, porque disse: ‘Eu sou Filho de Deus’».

N   44Até os salteadores crucificados com Ele O insultavam. 45Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra. 46E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:

J    «Eli, Eli, lema sabachtani!»,

N   que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?» 47Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:

R   «Está a chamar por Elias».

N   48Um deles correu a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre, pô-la na ponta duma cana e deu-Lhe a beber. 49Mas os outros disseram:

R   «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l’O».

N   50E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.

N   51Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. 52Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; 53e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. 54Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram:

R   «Este era verdadeiramente Filho de Deus».

N   55Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. 56Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. 57Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus. 58Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. E Pilatos ordenou que lho entregassem. 59José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo 60e depositou-o no seu sepulcro novo que tinha mandado escavar na rocha. Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro, e retirou-se. 61Entretanto, estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro. 62No dia seguinte, isto é, depois da Preparação, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos 63e disseram-lhe:

R   «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse quando ainda era vivo: ‘Depois de três dias ressuscitarei’. 64Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança até ao terceiro dia, para que não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos’. E a última impostura seria pior do que a primeira».

N   Pilatos respondeu:

R   65«Tendes à vossa disposição a guarda: ide e guardai-o como entenderdes».

N   66Eles foram e guardaram o sepulcro, selando a pedra e pondo a guarda.

 

A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente por todos os Evangelistas é a sua Paixão, pois culmina a vida e obra redentora de Cristo. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente põem em evidência do modo mais significativo tanto o seu amor infinito para com todos e cada um de nós (cf. Gál 2, 20), como a tremenda gravidade dos nossos pecados (cf. Gál 1, 4). Os estudiosos pensam que foi a parte do Evangelho que tomou a forma definitiva escrita mais cedo.

N.B. – Podem ver-se mais comentários sobre a Paixão do Senhor, em Sexta-Feira Santa.

15 A traição de Judas causa-nos um grande desconcerto. Não teria chegado a entender a missão espiritual de Jesus e, como era interesseiro, oportunista e sem amor sincero, ao pressentir o que considerava um fracasso da missão do Mestre, tentou tirar o máximo rendimento da situação: antes que viesse a ser incomodado por ser discípulo de Jesus, passou para o grupo dos inimigos e, como também é hábil, negoceia a traição para tirar dela todo o lucro. O dinheiro da traição foram trinta moedas de prata. Em nenhum sítio se diz que eram 30 dinheiros: tanto se podia tratar da moeda romana (denário), como da grega (estáter), ou da moeda do Templo (siclo). Daqui que é difícil de calcular o preço da traição na moeda actual; de qualquer modo não iria muito além de 10 euros.

17 Durante os sete dias que duravam as festas da Páscoa comia-se pão sem fermento (ázimo), em memória do pão que os israelitas cozeram apressadamente ao fugir da escravidão do Egipto (cf. Ex 12, 34).

18 Os encarregados de preparar a Ceia pascal, em que se comia um cordeiro sacrificado no Templo, foram Pedro e João (Lc 22, 8-13; cf. Mc 14, 12-16) a quem Jesus deu indicações precisas: seria na casa de um homem que encontrariam com uma bilha de água. É natural que Jesus já tivesse falado a esse homem no assunto e que ele fosse conhecido dos Apóstolos. Talvez Jesus tivesse querido evitar que Judas ficasse a conhecer o local da Ceia para que este não o fosse indicar aos inimigos que poderiam aproveitar esta ocasião para O prenderem.

25 A resposta positiva à pergunta de Judas passa despercebida aos restantes Apóstolos (cf. Jo 13, 26-29). Isto mostra a delicadeza de Jesus, bem como a sua vontade de tocar o coração empedernido de Judas e também a firme decisão que Jesus tinha de ir para a morte: se os demais soubessem que Judas ia consumar a traição, tê-lo-iam impedido. Ainda que Jesus vá para a morte porque quer, isto em nada diminuiu a responsabilidade do traidor (v. 24).

26-29 Podem ver-se os comentários à 2.ª leitura de Quinta-Feira Santa.

30 Referência aos Salmos que então se rezavam: 113-118.

31-35 Jesus mostra que sabe tudo o que vai acontecer. O aviso a Pedro de que iria negar o Mestre não evitou a sua estrondosa queda, porque lhe faltou humildade. O Senhor permitiu aquela humilhação de Pedro para que o Chefe da Igreja fosse grande pela humildade e para lição de todos nós. Comenta S. João Crisóstomo: «Aprendemos daqui uma grande verdade, a saber, que não é suficiente o desejo do homem, a não ser que se apoie na ajuda de Deus».

36-46 Temos aqui uma das páginas mais impressionantes e misteriosas do Evangelho. Jesus podia ter dominado perfeitamente o ímpeto da emoção da sua sensibilidade finíssima. No entanto, deixa que ela reaja na proporção da gravidade da hora. Desta maneira revela-se como homem em tudo igual a nós (excepto no pecado) e aparece-nos como modelo que pode ser imitado por nós, que não temos o perfeito domínio da sensibilidade. Assim o Senhor nos aparece estendido por terra (v. 39) e sentindo uma angústia tão profunda que se queixa dizendo que sente uma tristeza de morte, suando sangue (Lc 22, 44), precisando de buscar apoio nos mais íntimos para consolo da sua dor e solidão. Jesus diz a Pedro, Tiago e João que fiquem perto, mas, por delicadeza, não os quer impressionar com a sua agonia, por isso se afasta deles na distância de um tiro de pedra (Lc 22, 41). Pede-lhes que velem e rezem não só para Lhe servirem de companhia e apoio humano, mas também para terem a coragem de se portarem bem, à altura da tremenda hora que se avizinha. Ainda que eles tenham podido ouvir algumas palavras da oração do Senhor, não se aperceberam perfeitamente do que se passava com Jesus, aliás não se teriam deixado adormecer; é, pois, natural que só depois da Ressurreição tenham ficado a saber os pormenores da oração do Senhor no Getsemani, quando Ele lhos tenha contado.

35 «Passe de mim este cálice». Não obstante a perfeita identificação da própria vontade humana de Jesus com a sua vontade divina, a mesma vontade do Pai – «não se faça como Eu quero, mas como Tu queres» –, a viva repugnância da finíssima sensibilidade de Jesus pelos iminentes martírios da Sua Paixão leva-O a falar assim.

«Cálice» significa no Antigo Testamento a ira divina que faz cair a dor sobre os pecadores (cf. Is 51, 17.22; Jer 25, 15; Lam 4, 21; Ez 23, 33; Sal 75 (74), 9). Jesus não é pecador, mas esta mesma imagem sugere a «expiação vicária»: Jesus sofre uma dor expiatória dos pecados da Humanidade (cf. 2 Cor 5, 21; Is 53, 1-12). O motivo da agonia de Jesus parece ser, antes de mais, a antevisão da sua Paixão e Morte na cruz, mas juntava-se a isto um motivo de dor não de menos importância e que facilmente podemos adivinhar: a visão da maldade e ingratidão humana, a falta de correspondência a tão grande excesso do amor de Deus pelas criaturas, o abandono e adormecimento dos mais íntimos, etc.

45 «Dormi agora e descansai». Costumam entender-se estas palavras de Jesus como uma censura com certa ironia. Porém estas palavras poderiam indicar uma certa condescendência para com a fraqueza dos Apóstolos, ao dar-lhes tempo de repouso antes de começar o drama da sua prisão.

49 Na escuridão da noite (embora houvesse Lua cheia, havia as sombra das árvores), convinha um sinal para que os encarregados de prender a Jesus atacassem de surpresa. Judas escolheu o sinal mais discreto e mais velhaco: um sinal de afeição e cortesia como manifestação da traição. A tão monstruosa vilania, Jesus corresponde com enorme delicadeza, deixando uma porta aberta ao arrependimento, ao tratar o traidor por «amigo»; assim nos ensina a respeitar e a tratar com caridade os nossos inimigos.

53 «Uma legião» era um efectivo militar com mais de 6.000 homens.

57-58 Jesus comparece perante as autoridades judaicas. Este julgamento não sabemos se foi feito em duas ou três sessões: S. João fala da comparência do Senhor perante Anãs, sogro de Caifãs e sumo sacerdote deposto, que conservava grande preponderância (Jo 18, 19-24); S. Lucas fala da sessão oficial do Sinédrio, de manhã, em que é dada a sentença (Lc 22, 66-67), relato que coincide com a sessão nocturna perante Caifãs contada aqui por S. Marcos. Como S. Mateus (que coincide com S. Marcos) fala de uma outra sessão depois de amanhecer (Mt 27, 1), ou houve três sessões ou então teremos de supor que S. Mateus, por motivos redaccionais, simplificou as coisas, atribuindo a uma sessão nocturna o que se passou na sessão diurna.

61 O depoimento das testemunhas era deturpado, pois Jesus não tinha dito «posso destruir o Templo», mas «desfazei este Templo» e referindo-se ao seu corpo (Jo 2, 19).

63-65 Jesus cala-se perante as falsas acusações, mas fala agora quando tem de dar testemunho da sua missão, embora isto Lhe acarreta a morte. E fá-lo aplicando a si dois textos bíblicos considerados como referidos ao Messias: Salm 109 (110), 1 e Dan 7, 13. De acordo com o uso respeitoso de evitar pronunciar o nome inefável de Jahwéh, diz «à direita do Todo-Poderoso», (v. 64). O Senhor é condenado por blasfémia: não por se declarar o Messias, mas por declarações com que se situava num nível divino.

70-75 As negações de Pedro. A fé de Pedro que Jesus louvara (Mt 16, 17) tem de suportar uma dura prova (cf. Lc 22, 31-32). O rápido desenlace dos acontecimentos deixara Pedro desconcertado e sem força para reagir e confessar o seu Mestre: se Ele lhe mandara arrumar a espada quando O tentava defender (Mt 26, 52), que lhe restava fazer agora por Jesus? Um homem tão impulsivo como Pedro não se resignava a seguir Jesus até à morte sem lutar. Pedro sentia-se atordoado e confuso: quando vê que os seus planos humanos de defesa falharam tem a grande fraqueza de negar insistentemente o Mestre e com juramento, esquecendo os insistentes protestos de fidelidade pouco antes feitos (v. 35). Mas, se foi grande o seu pecado, também foi profundo o seu arrependimento, merecendo da misericórdia do Senhor não vir a ser rejeitado como chefe da sua Igreja.

27, 3-5 O desespero de Judas. Judas também se arrepende, mas o seu arrependimento não é uma conversão, um regresso para Deus; é um fechar-se na sua miséria e na sua soberba ferida pelo remorso. Judas desespera porque não sabe confiar na misericórdia infinita de Deus. A sua soberba não o deixa voltar atrás, pedir perdão a Deus e ir ao encontro dos seus irmãos, os Apóstolos.

9 O Evangelista sublinha que se cumpre o que estava previsto por Deus: não era uma fatalidade inexorável ou um fracasso de Jesus. A citação de Jeremias (32, 6-9) é completada com um oráculo doutro profeta (Zac 11, 12-13).

11-31 Jesus no tribunal do governador romano. O recurso à autoridade romana tornava-se necessário para que se pudesse levar a cabo legalmente a morte de Jesus, coisa que não estava nas atribuições do Sinédrio. Pilatos foi governador (præfectus) na Palestina de 26 a 36 d. C. Vivia habitualmente em Cesareia, mas encontrava-se então em Jerusalém para estar mais atento aos movimentos dos judeus por ocasião das festas da Páscoa. Era cruel e odiava os judeus, não perdendo ocasião de os humilhar. Devia estar ao par da actuação de Jesus, que consideraria inofensiva para a causa do império. O processo diante de Pilatos é contado mais detalhadamente por S. João. Aqui apenas temos umas pinceladas pouco conexas. Não é acusado de culpas no campo religioso, mas de ser um elemento perigoso para o domínio romano.

24 O gesto hipócrita de Pilatos com que pretende justificar a sua cobardia pode explicar-se por um certo medo supersticioso de vir a sofrer más consequências da sua iníqua sentença, demais que a sua mulher tinha tido um pesadelo de mau presságio (v. 21): lavar as mãos teria o sentido mágico de afastar de si qualquer castigo divino.

26 A flagelação foi mais um expediente de Pilatos para evitar a morte de Jesus (Jo 19, 1.5.14). S. Mateus não desce a este detalhe do processo de Jesus diante de Pilatos; limita-se a referir este crudelíssimo suplício, que era habitual para a vítima destinada à crucifixão.

27 A companhia, ou «coorte», constava de uns 625 soldados recrutados entre a gente não judia que morava na Palestina; estavam aquartelados permanentemente em Jerusalém, na torre Antónia ao lado do Templo, às ordens do governador romano.

32 Simão de Cirene. Este cireneu é um estranho que é forçado a levar a cruz de Jesus (talvez só o pau transversal. segundo era costume, pois o poste vertical já estaria erguido no lugar da execução). É de fazer pensar a solidão de Jesus: não tem um amigo, um discípulo, um beneficiário dos seus milagres que apareça para O ajudar a levar a Cruz. Este serviço de Simão de Cirene há-de ser bem recompensado, pois os seus dois filhos, Alexandre e Rufo. hão-de vir a tornar-se cristãos dignos de especial menção (cf. Mc 15, 21; Rom 16, 13).

34 Provou, mas não quis beber. Costumava ser oferecida aos que iam ser crucificados uma mistura de vinho com mirra, para lhes acalmar as terríveis dores. Jesus, por delicadeza e deferência, provou, mas não quis beber, para poder sofrer conscientemente todas as dores por nós.

35 Cf. Sal 21 (22), 19.

45 Com estas palavras do Salmo 21 (22), 2, o Senhor deixa-nos ver toda a magnitude do seu sofrimento físico e moral. Não são palavras de desespero ou protesto, mas uma oração de desabafo, com que mostra como sofre no máximo grau de intensidade a sua alma e o seu corpo, mas numa atitude de abandono, pois este é o tom do Salmo, que Jesus rezaria inteiro e não apenas o 1º versículo.

51 O véu do Templo era um cortinado que separava, no santuário, o Santo do Santo dos Santos. Este rasgar-se significa que, a partir da morte de Jesus, ficam abertas para todos os homens as portas do Céu (cf. Hebr 9, 15) e também que acabou a Antiga Aliança dando lugar à Nova, selada com o sangue de Cristo. Os sinais prodigiosos que acompanham a morte de Jesus atestam a transcendência do que se passa no momento: não morre mais um homem qualquer, é o Filho de Deus que morre, redimindo a Humanidade pecadora.

52-53 Passagem muito difícil de interpretar e sobre cujo sentido nunca houve acordo. Cristo foi certamente o primeiro a ressuscitar (1 Cor 15, 20; Col 1, 18), por isso haverá que distinguir dois factos: a abertura dos túmulos (talvez devida ao tremor de terra) e a ressurreição de muitos santos que só teria vindo a dar-se depois da ressurreição de Jesus (v. 53). No v. 52 S. Mateus, não se fixando na ordem dos acontecimentos, adianta a referência à ressurreição, como se dissesse: «e muitos corpos dos santos que tinham morrido vieram a ressuscitar». Esta falta de atenção à ordem dos factos narrados é frequente em S. Mateus.

62-66 A guarda do sepulcro. As medidas de segurança tomadas pelos inimigos de Jesus vão ser mais uma prova do facto da Ressurreição. Estas precauções têm toda a credibilidade: compreende-se que tenham sido tomadas só no sábado, pois a sepultura tinha tido lugar no fim de sexta-feira e com a intervenção de um homem influente, José de Arimateia; também é crível que os inimigos de Jesus tivessem qualquer referência à ressurreição a partir do anunciado sinal de Jonas (Mt 12, 40), embora fosse só do conhecimento dos Apóstolos o tríplice anúncio da Paixão, Morte e Ressurreição. Por mais descabida que parecesse a Pilatos a preocupação dos chefes judeus, ele bem poderia ter acabado por destacar os seus soldados para guardarem o túmulo.

 

Sugestões para a homilia

 

• O triunfo de Cristo pela Cruz

O triunfo na humildade

As armas do sofrimento

A fidelidade

• A Paixão de Jesus, prova de Amor supremo

Lição e prova de Amor

O caminho da Cruz

Caminho de glorificação

 

Introdução

 

Com a entrada triunfal em Jerusalém, como tinha sido profetizada, Jesus apresenta-Se como o Messias para o qual apontam todas as profecias do Antigo Testamento. Depois da Sua vinda, nada mais temos a esperar.

1. O triunfo de Cristo pela Cruz

a) O triunfo pela humildade. Com toda a clareza possível, Jesus desfaz o sonho triunfalista dos Seus conterrâneos. Esperavam um rei que se apresentasse revestido de glória e poder. Viria restaurar a grandeza e o esplendor perdidos de Israel, reduzindo as nações vizinhas à sua obediência.

É também verdade que um «pequeno resto» já tinha arrumado estes sonhos inúteis mas, na prática, era isto que esperavam. Quando Pedro ouve Jesus falar da Sua paixão, chama-O à parte, para O demover deste propósito; a mãe dos filhos de Zebedeu pede para eles um lugar de relevo no reino; e Jesus surpreende os Apóstolos a discutir entre si qual deles era o maior, o mais importante no reino.

Não é também este o sonho que acalentamos acerca da situação da Igreja no mundo? Não estamos à espera de triunfalismos dela que reduzam ao silêncio e à inacção os seus adversários, enquanto, de fora, contemplamos e aplaudimos, felizes, a vitória dela? No falamos com tanta frequência no triunfo de sabor mundano?

Jesus apresenta-Se humildemente montado num jumentinho, e no num luxuoso cavalo bem ajaezado; no ostenta quaisquer insígnias que lembrem a Sua realeza. Vem, como sempre, revestido de simplicidade e humildade e pede que a Igreja O imite.

 

b) As armas do sofrimento. Isaías apresenta o Servo do Yhaveh ‑ figura do Messias profetizado ‑ triunfando pelo sofrimento, pela paciência e pela mansidão.

No trava com ninguém uma luta corpo a corpo, porque no é este o caminho que o Pai escolheu. Alcançará o triunfo pelo Amor sem limites.

Com toda a paciência, sem voltar o rosto, desarma os Seus adversários, que esperavam enfrentar dificuldades. O seu ouvido atento vai recolhendo o que o Senhor lhe manda.

Nós, porém, somos tentados a fazer da fuga a tudo o que exige de nós sacrifício o ideal da nossa vida e uma táctica de combate. Por este caminho no chegaríamos nunca, com Jesus Cristo, ao Calvário e, por ele, à glorificação eterna.

 

 c) A fidelidade. É a grande lição do caminho da Cruz. Ao terminá-lo, Jesus pode exclamar: «Tudo está consumado

Tal como fora profetizado no servo de Yhaveh, Jesus no volta o rosto para Se esquivar aos golpes, no Se retrai perante o sofrimento, mas leva até ao fim, com divina fidelidade, os desígnios do Pai.

Este caminhar a direito segundo a vontade de Deus, sem desvios nem paragens nos deveres, sem recuos, também quando a fidelidade no é aplaudida, é o ideal cristão.

A mensagem da Paixão de Jesus tem uma actualidade especial para os nossos dias em que muitos sonham com um cristianismo sem renúncias, sem mandamentos nem dificuldades.

2. A Paixão de Jesus, prova de Amor supremo

Perante o desconcerto dos Apóstolos, dos discípulos e também do nosso, Jesus entrega-Se à Paixão e Morte. É a passagem obrigatória pelo túnel que dá para a glorificação final, pela Ressurreição.

 

a) Lição e prova de Amor. Jesus anunciara: «Ninguém tem mais amor do que aquele que dá a sua vida pelo irmão

Um só acto de amor ao Pai steria sido suficiente para nos resgatar, porque tem valor infinito. Por que nos dá então esta grandiosa lição de sofrimento generoso?

Nunca vislumbraremos até ao fim os desígnios de Deus. Mas a nossa limitada inteligência  pode ver nisto a pedagogia de Deus. Este era o único modo de nos fazer entender o Seu Amor por nós.

Também nisto somos o oposto de Deus. Como regra, tentamos reduzir a nossa generosidade ao mínimo indispensável.

Também com isto combateu a nossa tendência doentia para banalizar o pecado. Tremendo deve ser, para pedir uma tal reparação.

 

b) O caminho da Cruz. É também o nosso caminho. Quer queiramos, quer no, caminhamos de cruz aos ombros e devemos levá-la com generosidade. É constituída pelas nossas limitações de criaturas, pela incompatibilidade de feitios dos que vivem connosco, pelas doenças, contradições e tantas outras coisas que nos fazem sofrer.

Nenhuma perspectiva de sofrimento nos autoriza a recuar na vida cristã, desviando-nos para o caminho da cobardia, da fuga ao que exige sacrifício.

Seguindo este mesmo caminho, muitos irmãos nossos caminharam até ao martírio. Basta pensar num S. Tomás Moro decapitado ela sua fidelidade à fé; em Santa Maria Goretti, para se manter fiel ao sexto e nono mandamentos; aos milhares de mártires da guerra civil espanhola e a tantos outros.

Por ele têm seguido os santos de todos os temos, sem recuos estratégicos, nem cedências a caprichos humanos, na realização fiel da vontade de Deus.

Podem faltar-nos a coragem e a força, mas havemos de contar com Deus, se Lhe pedirmos ajuda com humildade.

 

c) Caminho de glorificação. O caminho do cristão está cheio de exigências desconcertantes.

Como é possível, optando pela cruz, alcançar a felicidade que tanto desejamos? À nossa frente vai Jesus Cristo, com a Cruz aos ombros, dizendo-nos, com a palavra e com o exemplo, que este é o verdadeiro caminho para sermos felizes.

Como podemos conquistar amigos e atraí-los ao caminho da salvação eterna, se nos opomos aos seus desejos e convites?

Gostamos instintivamente de ser simpáticos, conquistar amores para edificar uma família. No é conspurcando-nos na lama da impureza, pactuando com injustiças e mentiras, que alcançaremos a amizade de todos.

A celebração da Eucaristia ‑ renovação do mistério pascal de Cristo ‑ é a lembrança perene deste caminho de felicidade que havemos de seguir.

É uma celebração de todo o Corpo Místico, tendo Jesus como Cabeça e Sumo Sacerdote. Todos nós estamos envolvidos, como sacerdotes e vítimas, neste único sacrifício aceite pelo Pai, para nossa Redenção. Participemos nele com uma consciência cada vez mais profunda.

Sigamos o exemplo de Maria Santíssima, contemplando, em silêncio, o mistério da Cruz do Salvador.

 

Fala o Santo Padre

 

MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI 
PARA A XXVI JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE 

2011 

 «Enraizados e edificados n’Ele... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7).

Queridos amigos!

Penso com frequência na Jornada Mundial da Juventude de Sidney de 2008. Lá vivemos uma grande festa da fé, durante a qual o Espírito de Deus agiu com força, criando uma comunhão intensa entre os participantes, que vieram de todas as partes do mundo. Aquele encontro, assim como os precedentes, deu frutos abundantes na vida de numerosos jovens e de toda a Igreja. Agora, o nosso olhar dirige-se para a próxima Jornada Mundial da Juventude, que terá lugar em Madrid em Agosto de 2011. Já em 1989, poucos meses antes da histórica derrocada do Muro de Berlim, a peregrinação dos jovens fez etapa na Espanha, em Santiago de Compostela. Agora, num momento em que a Europa tem grande necessidade de reencontrar as suas raízes cristãs, marcamos encontro em Madrid, com o tema: «Enraizados e edificados em Cristo... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). Por conseguinte, convido-vos para este encontro tão importante para a Igreja na Europa e para a Igreja universal. E gostaria que todos os jovens, quer os que compartilham a nossa fé em Jesus Cristo, quer todos os que hesitam, que estão na dúvida ou não crêem n’Ele, possam viver esta experiência, que pode ser decisiva para a vida: a experiência do Senhor Jesus ressuscitado e vivo e do seu amor por todos nós.

Na nascente das vossas maiores aspirações!

1. Em todas as épocas, também nos nossos dias, numerosos jovens sentem o desejo profundo de que as relações entre as pessoas sejam vividas na verdade e na solidariedade. Muitos manifestam a aspiração por construir relacionamentos de amizade autêntica, por conhecer o verdadeiro amor, por fundar uma família unida, por alcançar uma estabilidade pessoal e uma segurança real, que possam garantir um futuro sereno e feliz. Certamente, recordando a minha juventude, sei que estabilidade e segurança não são as questões que ocupam mais a mente dos jovens. Sim, a procura de um posto de trabalho e com ele poder ter uma certeza é um problema grande e urgente, mas ao mesmo tempo a juventude permanece contudo a idade na qual se está em busca da vida maior. Se penso nos meus anos de então: simplesmente não nos queríamos perder na normalidade da vida burguesa. Queríamos o que é grande, novo. Queríamos encontrar a própria vida na sua vastidão e beleza. Certamente, isto dependia também da nossa situação. Durante a ditadura nacional-socialista e durante a guerra nós fomos, por assim dizer, «aprisionados» pelo poder dominante. Por conseguinte, queríamos sair fora para entrar na amplidão das possibilidades do ser homem. Mas penso que, num certo sentido, todas as gerações sentem este impulso de ir além do habitual. Faz parte do ser jovem desejar algo mais do que a vida quotidiana regular de um emprego seguro e sentir o anseio pelo que é realmente grande. Trata-se apenas de um sonho vazio que esvaece quando nos tornamos adultos? Não, o homem é verdadeiramente criado para aquilo que é grande, para o infinito. Qualquer outra coisa é insuficiente. Santo Agostinho tinha razão: o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti. O desejo da vida maior é um sinal do facto que foi Ele quem nos criou, de que temos a Sua «marca». Deus é vida, e por isso todas as criaturas tendem para a vida; de maneira única e especial a pessoa humana, feita à imagem de Deus, aspira pelo amor, pela alegria e pela paz. Compreendemos então que é um contra-senso pretender eliminar Deus para fazer viver o homem! Deus é a fonte da vida; eliminá-lo equivale a separar-se desta fonte e, inevitavelmente, a privar-se da plenitude e da alegria: «De facto, sem o Criador a criatura esvaece» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 36). A cultura actual, nalgumas áreas do mundo, sobretudo no Ocidente, tende a excluir Deus, ou a considerar a fé como um facto privado, sem qualquer relevância para a vida social. Mas o conjunto de valores que estão na base da sociedade provém do Evangelho — como o sentido da dignidade da pessoa, da solidariedade, do trabalho e da família — constata-se uma espécie de «eclipse de Deus», uma certa amnésia, ou até uma verdadeira rejeição do Cristianismo e uma negação do tesouro da fé recebida, com o risco de perder a própria identidade profunda.

Por este motivo, queridos amigos, convido-vos a intensificar o vosso caminho de fé em Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Vós sois o futuro da sociedade e da Igreja! Como escrevia o apóstolo Paulo aos cristãos da cidade de Colossos, é vital ter raízes, bases sólidas! E isto é particularmente verdadeiro hoje, quando muitos não têm pontos de referência estáveis para construir a sua vida, tornando-se assim profundamente inseguros. O relativismo difundido, segundo o qual tudo equivale e não existe verdade alguma, nem qualquer ponto de referência absoluto, não gera a verdadeira liberdade, mas instabilidade, desorientação, conformismo às modas do momento. Vós jovens tendes direito de receber das gerações que vos precedem pontos firmes para fazer as vossas opções e construir a vossa vida, do mesmo modo como uma jovem planta precisa de um sólido apoio para que as raízes cresçam, para se tornar depois uma árvore robusta, capaz de dar fruto.

Enraizados e fundados em Cristo

2. Para ressaltar a importância da fé na vida dos crentes, gostaria de me deter sobre cada uma das três palavras que São Paulo usa nesta sua expressão: «Enraizados e fundados em Cristo... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). Nela podemos ver três imagens: «enraizado» recorda a árvore e as raízes que a alimentam; «fundado» refere-se à construção de uma casa; «firme» evoca o crescimento da força física e moral. Trata-se de imagens muito eloquentes. Antes de as comentar, deve-se observar simplesmente que no texto original as três palavras, sob o ponto de vista gramatical, estão no passivo: isto significa que é o próprio Cristo quem toma a iniciativa de radicar, fundar e tornar firmes os crentes.

A primeira imagem é a da árvore, firmemente plantada no solo através das raízes, que a tornam estável e a alimentam. Sem raízes, seria arrastada pelo vento e morreria. Quais são as nossas raízes? Naturalmente, os pais, a família e a cultura do nosso país, que são uma componente muito importante da nossa identidade. A Bíblia revela outra. O profeta Jeremias escreve: «Bendito o homem que deposita a confiança no Senhor, e cuja esperança é o Senhor. É como a árvore plantada perto da água, a qual estende as raízes para a corrente; não teme quando vem o calor, a sua folhagem fica sempre verdejante. Não a inquieta a seca de um ano; continua a produzir frutos» (Jr 17, 7-8). Estender as raízes, para o profeta, significa ter confiança em Deus. D’Ele obtemos a nossa vida; sem Ele não poderíamos viver verdadeiramente. «Deus deu-nos a vida eterna, e esta vida está em Seu Filho» (1 Jo 5, 11). O próprio Jesus apresenta-se como nossa vida (cf. Jo 14, 6). Por isso a fé cristã não é só crer em verdades, mas é antes de tudo uma relação pessoal com Jesus Cristo, é o encontro com o Filho de Deus, que dá a toda a existência um novo dinamismo. Quando entramos em relação pessoal com Ele, Cristo revela-nos a nossa identidade e, na sua amizade, a vida cresce e realiza-se em plenitude. Há um momento, quando somos jovens, em que cada um de nós se pergunta: que sentido tem a minha vida, que finalidade, que orientação lhe devo dar? É uma fase fundamental, que pode perturbar o ânimo, às vezes também por muito tempo. Pensa-se no tipo de trabalho a empreender, quais relações sociais estabelecer, que afectos desenvolver... Neste contexto, penso de novo na minha juventude. De certa forma muito cedo tive a consciência de que o Senhor me queria sacerdote. Mais tarde, depois da Guerra, quando no seminário e na universidade eu estava a caminho para esta meta, tive que reconquistar esta certeza. Tive que me perguntar: é este verdadeiramente o meu caminho? É deveras esta a vontade do Senhor para mim? Serei capaz de Lhe permanecer fiel e de estar totalmente disponível para Ele, ao Seu serviço? Uma decisão como esta deve ser também sofrida. Não pode ser de outra forma. Mas depois surgiu a certeza: é bem assim! Sim, o Senhor quer-me, por isso também me dará a força. Ao ouvi-Lo, ao caminhar juntamente com Ele torno-me deveras eu mesmo. Não conta a realização dos meus próprios desejos, mas a Sua vontade. Assim a vida torna-se autêntica.

Tal como as raízes da árvore a mantêm firmemente plantada na terra, também os fundamentos dão à casa uma estabilidade duradoura. Mediante a fé, nós somos fundados em Cristo (cf. Cl 2, 7), como uma casa é construída sobre os fundamentos. Na história sagrada temos numerosos exemplos de santos que edificaram a sua vida sobre a Palavra de Deus. O primeiro foi Abraão. O nosso pai na fé obedeceu a Deus que lhe pedia para deixar a casa paterna a fim de se encaminhar para uma terra desconhecida. «Abraão acreditou em Deus e isso foi-lhe atribuído à conta de justiça e foi chamado amigo de Deus» (Tg 2, 23). Estar fundados em Cristo significa responder concretamente à chamada de Deus, confiando n’Ele e pondo em prática a sua Palavra. O próprio Jesus admoesta os seus discípulos: «Porque me chamais: “Senhor, Senhor” e não fazeis o que Eu digo?» (Lc 6, 46). E, recorrendo à imagem da construção da casa, acrescenta: «todo aquele que vem ter Comigo, escuta as Minhas palavras e as põe em prática, é semelhante a um homem que construiu uma casa: Cavou, aprofundou e assentou os alicerces sobre a rocha. Sobreveio a inundação, a torrente arremessou-se com violência contra aquela casa e não pôde abalá-la por ter sido bem construída» (Lc 6, 47-48).

Queridos amigos, construí a vossa casa sobre a rocha, como o homem que «cavou muito profundamente». Procurai também vós, todos os dias, seguir a Palavra de Cristo. Senti-O como o verdadeiro Amigo com o qual partilhar o caminho da vossa vida. Com Ele ao vosso lado sereis capazes de enfrentar com coragem e esperança as dificuldades, os problemas, também as desilusões e as derrotas. São-vos apresentadas continuamente propostas mais fáceis, mas vós mesmos vos apercebeis que se revelam enganadoras, que não vos dão serenidade e alegria. Só a Palavra de Deus nos indica o caminho autêntico, só a fé que nos foi transmitida é a luz que ilumina o caminho. Acolhei com gratidão este dom espiritual que recebestes das vossas famílias e comprometei-vos a responder com responsabilidade à chamada de Deus, tornando-vos adultos na fé. Não acrediteis em quantos vos dizem que não tendes necessidade dos outros para construir a vossa vida! Ao contrário, apoiai-vos na fé dos vossos familiares, na fé da Igreja, e agradecei ao Senhor por a ter recebido e feito vossa!

Firmes na fé

3. «Enraizados e fundados em Cristo... firmes na fé» (cf. Cl 2, 7). A Carta da qual é tirado este convite, foi escrita por São Paulo para responder a uma necessidade precisa dos cristãos da cidade de Colossos. Com efeito, aquela comunidade estava ameaçada pela influência de determinadas tendências culturais da época, que afastavam os fiéis do Evangelho. O nosso contexto cultural, queridos jovens, tem numerosas analogias com o tempo dos Colossenses daquela época. De facto, há uma forte corrente de pensamento laicista que pretende marginalizar Deus da vida das pessoas e da sociedade, perspectivando e tentando criar um «paraíso» sem Ele. Mas a experiência ensina que o mundo sem Deus se torna um «inferno»: prevalecem os egoísmos, as divisões nas famílias, o ódio entre as pessoas e entre os povos, a falta de amor, de alegria e de esperança. Ao contrário, onde as pessoas e os povos acolhem a presença de Deus, o adoram na verdade e ouvem a sua voz, constrói-se concretamente a civilização do amor, na qual todos são respeitados na sua dignidade, cresce a comunhão, com os frutos que ela dá. Contudo existem cristãos que se deixam seduzir pelo modo de pensar laicista, ou são atraídos por correntes religiosas que afastam da fé em Jesus Cristo. Outros, sem aderir a estas chamadas, simplesmente deixaram esmorecer a sua fé, com inevitáveis consequências negativas a nível moral.

Aos irmãos contagiados por ideias alheias ao Evangelho, o apóstolo Paulo recorda o poder de Cristo morto e ressuscitado. Este mistério é o fundamento da nossa vida, o centro da fé cristã. Todas as filosofias que o ignoram, que o consideram «escândalo» (1 Cor 1, 23), mostram os seus limites diante das grandes perguntas que habitam o coração do homem. Por isso também eu, como Sucessor do apóstolo Pedro, desejo confirmar-vos na fé (cf. Lc 22, 32). Nós cremos firmemente que Jesus Cristo se ofereceu na Cruz para nos doar o seu amor; na sua paixão, carregou os nossos sofrimentos, assumiu sobre si os nossos pecados, obteve-nos o perdão e reconciliou-nos com Deus Pai, abrindo-nos o caminho da vida eterna. Deste modo fomos libertados do que mais entrava a nossa vida: a escravidão do pecado, e podemos amar a todos, até os inimigos, e partilhar este amor com os irmãos mais pobres e em dificuldade.

Queridos amigos, muitas vezes a Cruz assusta-nos, porque parece ser a negação da vida. Na realidade, é o contrário! Ela é o «sim» de Deus ao homem, a expressão máxima do seu amor e a nascente da qual brota a vida eterna. De facto, do coração aberto de Jesus na cruz brotou esta vida divina, sempre disponível para quem aceita erguer os olhos para o Crucificado. Portanto, não posso deixar de vos convidar a aceitar a Cruz de Jesus, sinal do amor de Deus, como fonte de vida nova. Fora de Cristo morto e ressuscitado, não há salvação! Só Ele pode libertar o mundo do mal e fazer crescer o Reino de justiça, de paz e de amor pelo qual todos aspiram.

Crer em Jesus Cristo sem o ver

4. No Evangelho é-nos descrita a experiência de fé do apóstolo Tomé ao acolher o mistério da Cruz e da Ressurreição de Cristo. Tomé faz parte dos Doze apóstolos; seguiu Jesus; foi testemunha directa das suas curas, dos milagres; ouviu as suas palavras; viveu a desorientação perante a sua morte. Na noite de Páscoa o Senhor apareceu aos discípulos, mas Tomé não estava presente, e quando lhe foi contado que Jesus estava vivo e se mostrou, declarou: «Se eu não vir o sinal dos cravos nas Suas mãos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e não meter a mão no Seu lado, não acreditarei» (Jo 20, 25).

Também nós gostaríamos de poder ver Jesus, de poder falar com Ele, de sentir ainda mais forte a sua presença. Hoje para muitos, o acesso a Jesus tornou-se difícil. Circulam tantas imagens de Jesus que se fazem passar por científicas e O privam da sua grandeza, da singularidade da Sua pessoa. Portanto, durante longos anos de estudo e meditação, maturou em mim o pensamento de transmitir um pouco do meu encontro pessoal com Jesus num livro: quase para ajudar a ver, a ouvir, a tocar o Senhor, no qual Deus veio ao nosso encontro para se dar a conhecer. De facto, o próprio Jesus aparecendo de novo aos discípulos depois de oito dias, diz a Tomé: «Chega aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no Meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente» (Jo 20, 27). Também nós temos a possibilidade de ter um contacto sensível com Jesus, meter, por assim dizer, a mão nos sinais da sua Paixão, os sinais do seu amor: nos Sacramentos Ele torna-se particularmente próximo de nós, doa-se a nós. Queridos jovens, aprendei a «ver», a «encontrar» Jesus na Eucaristia, onde está presente e próximo até se fazer alimento para o nosso caminho; no Sacramento da Penitência, no qual o Senhor manifesta a sua misericórdia ao oferecer-nos sempre o seu perdão. Reconhecei e servi Jesus também nos pobres, nos doentes, nos irmãos que estão em dificuldade e precisam de ajuda.

Abri e cultivai um diálogo pessoal com Jesus Cristo, na fé. Conhecei-o mediante a leitura dos Evangelhos e do Catecismo da Igreja Católica; entrai em diálogo com Ele na oração, dai-lhe a vossa confiança: ele nunca a trairá! «Antes de mais, a fé é uma adesão pessoal do homem a Deus. Ao mesmo tempo, e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade revelada por Deus» (Catecismo da Igreja Católica, n. 150). Assim podereis adquirir uma fé madura, sólida, que não estará unicamente fundada num sentimento religioso ou numa vaga recordação da catequese da vossa infância. Podereis conhecer Deus e viver autenticamente d’Ele, como o apóstolo Tomé, quando manifesta com força a sua fé em Jesus: «Meu Senhor e meu Deus!».

Amparados pela fé da Igreja para ser testemunhas

5. Naquele momento Jesus exclama: «Porque Me viste, acreditaste. Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditaram!» (Jo 20, 29). Ele pensa no caminho da Igreja, fundada sobre a fé das testemunhas oculares: os Apóstolos. Compreendemos então que a nossa fé pessoal em Cristo, nascida do diálogo com Ele, está ligada à fé da Igreja: não somos crentes isolados, mas, pelo Baptismo, somos membros desta grande família, e é a fé professada pela Igreja que dá segurança à nossa fé pessoal. O credo que proclamamos na Missa dominical protege-nos precisamente do perigo de crer num Deus que não é o que Jesus nos revelou: «Cada crente é, assim, um elo na grande cadeia dos crentes. Não posso crer sem ser motivado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo também para guiar os outros na fé» (Catecismo da Igreja Católica, n. 166). Agradeçamos sempre ao Senhor pelo dom da Igreja; ela faz-nos progredir com segurança na fé, que nos dá a vida verdadeira (cf. Jo 20, 31).

Na história da Igreja, os santos e os mártires hauriram da Cruz gloriosa de Cristo a força para serem fiéis a Deus até à doação de si mesmos; na fé encontraram a força para vencer as próprias debilidades e superar qualquer adversidade. De facto, como diz o apóstolo João, «Quem é que vence o mundo senão aquele que crê que Jesus é Filho de Deus?» (1 Jo 5, 5). E a vitória que nasce da fé é a do amor. Quantos cristãos foram e são um testemunho vivo da força da fé que se exprime na caridade; foram artífices de paz, promotores de justiça, animadores de um mundo mais humano, um mundo segundo Deus; comprometeram-se nos vários âmbitos da vida social, com competência e profissionalidade, contribuindo de modo eficaz para o bem de todos. A caridade que brota da fé levou-os a dar um testemunho muito concreto, nas acções e nas palavras: Cristo não é um bem só para nós próprios, é o bem mais precioso que temos para partilhar com os outros. Na era da globalização, sede testemunhas da esperança cristã em todo o mundo: são muitos os que desejam receber esta esperança! Diante do sepulcro do amigo Lázaro, morto havia quatro dias, Jesus, antes de o chamar de novo à vida, disse à sua irmã Marta: «Se acreditasses, verias a glória de Deus» (cf. Jo 11, 40). Também vós, se acreditardes, se souberdes viver e testemunhar a vossa fé todos os dias, tornar-vos-eis instrumentos para fazer reencontrar a outros jovens como vós o sentido e a alegria da vida, que nasce do encontro com Cristo!

Rumo à Jornada Mundial de Madrid

6. Queridos amigos, renovo-vos o convite a ir à Jornada Mundial da Juventude a Madrid. É com profunda alegria que espero cada um de vós pessoalmente: Cristo quer tornar-vos firmes na fé através a Igreja. A opção de crer em Cristo e de O seguir não é fácil; é dificultada pelas nossas infidelidades pessoais e por tantas vozes que indicam caminhos mais fáceis. Não vos deixeis desencorajar, procurai antes o apoio da Comunidade cristã, o apoio da Igreja! Ao longo deste ano preparai-vos intensamente para o encontro de Madrid com os vossos Bispos, os vossos sacerdotes e os responsáveis da pastoral juvenil nas dioceses, nas comunidades paroquiais, nas associações e nos movimentos. A qualidade do nosso encontro dependerá sobretudo da preparação espiritual, da oração, da escuta comum da Palavra de Deus e do apoio recíproco.

Amados jovens, a Igreja conta convosco! Precisa da vossa fé viva, da vossa caridade e do dinamismo da vossa esperança. A vossa presença renova a Igreja, rejuvenesce-a e confere-lhe renovado impulso. Por isso as Jornadas Mundiais da Juventude são uma graça não só para vós, mas para todo o Povo de Deus. A Igreja na Espanha está a preparar-se activamente para vos receber e para viver juntos a experiência jubilosa da fé. Agradeço às dioceses, às paróquias, aos santuários, às comunidades religiosas, às associações e aos movimentos eclesiais, que trabalham com generosidade na preparação deste acontecimento. O Senhor não deixará de os abençoar. A Virgem Maria acompanhe este caminho de preparação. Ela, ao anúncio do Anjo, acolheu com fé a Palavra de Deus; com fé consentiu a obra que Deus estava a realizar nela. Pronunciando o seu «fiat», o seu «sim», recebeu o dom de uma caridade imensa, que a levou a doar-se totalmente a Deus. Interceda por cada um e cada uma de vós, para que na próxima Jornada Mundial possais crescer na fé e no amor. Garanto-vos a minha recordação paterna na oração e abençoo-vos de coração.

Papa Bento XVII, Vaticano, 6 de Agosto de 2010, Festa da Transfiguração do Senhor.

 

Oração Universal

 

Jesus inicia a Sua dolorosa Paixão e Morte

com uma oração ardente e confiante ao Pai.

Apresentemos, por Ele, Deus Altíssimo

as preocupações e dificuldades de todos.

Oremos (cantando):

 

    Dai-nos, Senhor, o amor à Vossa  Cruz!

 

1.  Para que o Santo Padre, com os Bispos em comunhão com ele,

    anuncie ao mundo a esperança de salvação pela cruz de Cristo,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, o amor à Vossa  Cruz!

 

2.  Para que os cristãos, tentados a levar a vida cheia de facilidades,

    vejam na cruz de Cristo o caminho que os fará sempre felizes,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, o amor à Vossa  Cruz!

 

3.  Para que os idosos, doentes terminais e pessoas sem esperança

    sejam banhados pelo exemplo de Jesus Cristo na Sua Paixão,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, o amor à Vossa  Cruz!

 

4.  Para que todos aqueles que procuram a felicidade no pecado

    se decidam a viver com fortaleza a vocação de filhos de Deus,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, o amor à Vossa  Cruz!

 

5.  Para que os cristãos perseguidos pelas mais diversas formas

    encontrem na Paixão de Jesus o conforto de que necessitam,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, o amor à Vossa  Cruz!

 

6. Para que os jovens se disponibilizem com toda a generosidade

    para viver uma vida cristã autêntica sem quaisquer descontos,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, o amor à Vossa  Cruz!

 

7.Para que as lamas dos fieis defuntos que são agora purificadas

    possam contemplar, quanto antes, a glória de Cristo no Céu,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, o amor à Vossa  Cruz!

 

Recebei, Senhor, as nossas humildes preces,

para que, seguindo Jesus na Sua Paixão e Morte,

com Ele possamos chegar felicidade eterna.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

   

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução à Liturgia Eucarística

 

O Senhor recebeu das nossas mãos as humildes oferendas que trouxemos ao altar, para as transubstanciar no Seu Corpo e Sangue.

Que Ele nos ajude a transformar em obras a doutrina que ouvimos fortalecidos pela Eucaristia que vamos comungar.

 

Cântico do ofertório: Na hóstia sobre a patena, B. Salgado, NRMS 6 (II)

 

Oração sobre as oblatas: Pela paixão do vosso Filho Unigénito, apressai, Senhor, a hora da nossa reconciliação: concedei-nos, por este único e admirável sacrifício, a misericórdia que nossos pecados não merecem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

A paixão redentora de Cristo

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. E nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Sendo inocente, entregou-Se à morte pelos pecadores; não tendo culpas, deixou-Se condenar pelos culpados. A sua morte redimiu os nossos pecados e a sua ressurreição abriu-nos as portas da salvação.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: Santo I, H. Faria, NRMS 103-104

 

Saudação da Paz

 

Jesus disse profeticamente a Natanael: «E Eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a Mim».

Em Cristo crucificado procuremos a reconciliação com os irmãos. Se Ele morreu por nós, como não nos havemos de deixar atrair por Ele, morrendo nos nossos caprichos e orgulho ferido, para nos reconciliarmos com os outros?

Com estes sentimentos,

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Jesus disse na oração do Getsemani: «Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice. Todavia não se faça como Eu quero, mas como Tu queres».

A melhor disposição para bem comungarmos — depois de adquirido o estado de graça por uma confissão bem feita, se necessário ‑ será o desejo de em tudo fazermos a vontade de Deus.

 

Cântico da Comunhão: A minha carne é verdadeira comida, F. da Silva, NRMS 102

Mt 26, 42

Antífona da comunhão: Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-Se a tua vontade.

 

Cântico de acção de graças: Troquemos o instante pelo eterno, M. Simões, NRMS 61

 

Oração depois da comunhão: Saciados com estes dons sagrados, nós Vos pedimos, Senhor: assim como, pela morte do vosso Filho, nos fizestes esperar o que a nossa fé nos promete, fazei-nos também chegar, pela sua ressurreição, às alegrias do reino que esperamos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Começamos hoje a Semana Maior.

Todo o sentido de penitência e mortificação que a Igreja nos levou a viver durante esta Quaresma intensifica-se nesta Semana. Tudo nos fala agora da grande necessidade que temos de mudar o coração e derrubar as barreiras que impedem a nossa intimidade com Deus.

Procuremos, nestes dias, ler devotamente o Evangelho da Paixão do Senhor e tomemos parte, se é possível, na celebração do Tríduo Sacro. Aproximemos ainda, se possível, algum amigo do Sacramento da Penitência, se acaso anda afastado dos caminhos da salvação.

 

Cântico final: Proclamai em toda a terra, M. Faria, NRMS 27-28

 

 

Homilias Feriais

 

SEMANA SANTA

 

2ª Feira, 18-IV: Como acompanhar O Senhor na Semana Santa.

Is 42, 1-7 / Jo 12, 1-11

Eis o meu servo a quem protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma… para que leve a justiça às nações.

A Semana Santa recorda-nos a profecia do servo sofredor (Leit), que é o próprio Cristo: «A morte redentora de Jesus deu cumprimento sobretudo à profecia do servo sofredor. O próprio Jesus apresentou o sentido da sua vida e da sua morte à luz do servo sofredor» (CIC, 601).

Durante estes dias vamos encontrar aqueles que estiveram mais envolvidos na Paixão de Cristo. Hoje é Maria de Betânia, que derramou sobre Ele uma libra de perfume de elevado preço (Ev). Sejamos igualmente muito generosos com o Senhor.

 

3ª Feira, 19-IV: Abandono e acompanhamento.

Is 49, 1-6 / Jo 13, 21-33. 36-38

Não basta que sejas meu servo… Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue aos confins da terra.

«Os cânticos do servo (Leit) anunciam o sentido da paixão de Jesus, indicando assim a maneira como Ele derrama o Espírito Santo para dar a vida à multidão» (CIC, 713), e também para ser luz das nações e levar a salvação aos confins da terra (Leit).

Hoje encontramos mais dois intervenientes na paixão (Ev). Judas sai apressadamente para receber o preço da traição. Pedro dispõe-se a dar a vida pelo Senhor. Tenhamos presentes as vezes que abandonámos o Senhor e arrependamo-nos disso. Manifestemos o nosso desejo de o acompanharmos com sacrifício.

 

4ª Feira, 20-IV: Preparativos para a última Ceia.

Is 50, 4-9 / Mt 26, 14-25

Onde queres que façamos os preparativos para comermos a Páscoa?

«Na véspera da Paixão, quando ainda era livre, Jesus fez desta última Ceia com os Apóstolos (Ev) o memorial da sua oblação voluntária ao Pai, para salvação dos homens» (CIC, 610).

Façamos igualmente os nossos preparativos para esta Páscoa: com desejo de nos reunirmos com Jesus e os discípulos na instituição da Eucaristia, «na qual Cristo se faz alimento com o seu Corpo e o seu Sangue, testemunhando até a o extremo o seu amor pela humanidade, por cuja salvação se oferecerá em sacrifício» (RVM, 21).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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