4º Domingo da Quaresma

3 de Abril de 2011

 

 

Onde se fizerem os escrutínios preparatórios para o Baptismo dos adultos, neste domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor é minha luz, M. Faria, NRMS 16

cf. Is 66, 10-11

Antífona de entrada: Alegra-te, Jerusalém; rejubilai, todos os seus amigos. Exultai de alegria, todos vós que participastes no seu luto e podereis beber e saciar-vos na abundância das suas consolações.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Precisamente a meio da Quaresma temos este 4º Domingo chamado Lætare (Alegrai-vos), pois temos no cântico de entrada um apelo à alegria pela proximidade da Páscoa. Ao prepararmo-nos para receber o Sacramento da Penitência, somos confrontados com os nossos pecados e as nossas faltas de correspondência ao amor de Deus. Mas a Santa Igreja não quer que nos deixemos abater pela consideração da nossa miséria e pela ideia de que fomos a causa da Paixão e morte do Senhor. Ela quer mas que nos enchamos de esperança na sua misericórdia e no seu perdão. (pausa)

Arrependidos, confessemos que somos pecadores.

 

Oração colecta: Deus de misericórdia, que, pelo vosso Filho, realizais admiravelmente a reconciliação do género humano, concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Monição à Liturgia da Palavra:

 

A primeira leitura tirada do 1º livro de Samuel deixa-nos ver como os critérios de Deus não coincidem com os dos homens, pois «o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». Na 2ª leitura ouviremos o convite a viver como filhos da luz e a despertar do sono que representa a cegueira espiritual para as coisas de Deus. No Evangelho, mais do que a cegueira física do cego de nascença, temos a pior de todas as cegueiras: a dos inimigos de Jesus, que fecham os olhos à evidência da verdade. Daí o impressionante paradoxo: «Eu vim para exercer um juízo: os que não vêem ficarão a ver; os que vêem ficarão cegos» (Jo 9, 39).

 

Primeira Leitura

 

1 Samuel 16, 1b.6-7.10-13ª

 

1bNaqueles dias, o Senhor disse a Samuel: «Enche o corno de óleo e parte. Vou enviar-te a Jessé de Belém, pois escolhi um rei entre os seus filhos». 6Quando chegou, Samuel viu Eliab e pensou consigo: «Certamente é este o ungido do Senhor». 7Mas o Senhor disse a Samuel: «Não te impressiones com o seu belo aspecto, nem com a sua elevada estatura, pois não foi esse que Eu escolhi. Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». 10Jessé fez passar os sete filhos diante de Samuel, mas Samuel declarou-lhe: «O Senhor não escolheu nenhum destes». 11E perguntou a Jessé: «Estão aqui todos os teus filhos?» Jessé respondeu-lhe: «Falta ainda o mais novo, que anda a guardar o rebanho». Samuel ordenou: «Manda-o chamar, porque não nos sentaremos à mesa, enquanto ele não chegar». 12Então Jessé mandou-o chamar: era loiro, de belos olhos e agradável presença. O Senhor disse a Samuel: «Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo». 13Samuel pegou no corno do óleo e ungiu-o no meio dos irmãos. Daquele dia em diante, o Espírito do Senhor apoderou-Se de David.

 

A leitura é tirada do início da última parte do 1º livro de Samuel, que deixa ver o progressivo declínio do rei Saúl até à sua morte. A ascensão de David ao trono de Israel não aparece apenas como obra do seu génio e sagacidade, mas como uma providência divina com a intervenção de Samuel.

1 «Jessé», grafia usada na Vulgata para o pai de David, chamado Isaí, no texto hebraico (nos LXX, Iesai).

6-7 Tanto o profeta Samuel como Isaí estavam de acordo em sagrar rei o primogénito Eliab. Porém Deus, nos seus desígnios vocacionais, não olha a critérios humanos (ser o mais velho, o mais belo, o mais forte, o mais sábio): «o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». A escolha divina é gratuita, não partindo dos méritos do escolhido, mas da benevolência divina que torna o homem capaz de cumprir a missão a que o chama.

12 «Ungiu-o no meio dos seus irmãos», isto é, em família, sem qualquer espécie de publicidade para evitar as iras e represálias do rei Saúl.

 

Salmo Responsorial    Sl 22 (23), 1-3a.3b-4.5.6 (R. 1)

 

Refrão:        O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

 

Ou:               O Senhor me conduz: nada me faltará.

 

O Senhor é meu pastor: nada me falta.

Leva-me a descansar em verdes prados,

conduz-me às águas refrescantes

e reconforta a minha alma.

 

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.

Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,

não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:

o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

 

Para mim preparais a mesa

à vista dos meus adversários;

com óleo me perfumais a cabeça

e meu cálice transborda.

 

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me

todos os dias da minha vida,

e habitarei na casa do Senhor

para todo o sempre.

 

Segunda Leitura

 

 

Efésios 5, 8-14

 

Irmãos: 8Outrora vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, 9porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade. 10Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor. 11Não tomeis parte nas obras das trevas, que são inúteis; tratai antes de condená-las abertamente, 12porque o que eles fazem em segredo até é vergonhoso dizê-lo. 13Mas, todas as coisas que são condenadas são postas a descoberto pela luz, e tudo o que assim se manifesta torna-se luz. 14É por isso que se diz: «Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos e Cristo brilhará sobre ti».

 

A leitura é tirada da segunda parte de epístola, com exortações morais, correspondentes a uma vida nova em Cristo.

2 «Outrora», isto é, antes da conversão, «éreis trevas», pois viviam na ignorância, no erro, no pecado, afastados de Cristo, Luz do mundo, «mas agora sois luz no Senhor», pela fé e pela graça que têm pela sua união ao Senhor (cf. Jo 12, 35-36). «Filhos da luz» (cf. Lc 16, 8; Jo 12, 36) é um semitismo que corresponde ao adjectivo: iluminados (pela verdade de Cristo, «Luz verdadeira que a todo o homem ilumina» – Jo 1, 9.4-5).

10 «Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor». Para nos comportarmos como filhos da luz, temos de ter essa sobrenatural ponderação e discernimento de quem busca a todo o momento, em tudo o que diz e faz, a vontade de Deus.

13 «Tudo o que assim se manifesta torna-se luz». Toda a maldade que se denuncia é um projectar de luz sobre os ambientes tenebrosos do pecado. Estas palavras podiam adaptar-se à denúncia da nossa própria maldade, que levamos dentro de nós. Essa denúncia mais sincera e eficaz é a que se faz quando, no Sacramento da Penitência, acusamos sincera e contritamente os nossos pecados: então a nossa vida torna-se clara e luminosa, é luz. (A leitura presta-se, pois, a falar da Confissão Quaresmal).

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 8, 12

 

Cântico: F. da Silva, NRMS 1 (I)

 

Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor:

quem Me segue terá a luz da vida.

 

 

Evangelho*

 

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

Forma longa: São João 9, 1-41;                          forma breve: São João 9, 1.6-9.13-17.34-38

 

1Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. [2Os discípulos perguntaram-Lhe: «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?» 3Jesus respondeu-lhes: «Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais; mas aconteceu assim para se manifestarem nele as obras de Deus. 4É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo». 6Dito isto,] cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: 7«Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado». Ele foi, lavou-se e ficou a ver. 8Entretanto, perguntavam os vizinhos e os que antes o viam a mendigar: «Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?» 9Uns diziam: «É ele». Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele». Mas ele próprio dizia: «Sou eu». [10Perguntaram-lhe então: «Como foi que se abriram os teus olhos?» 11Ele respondeu: «Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’. Eu fui, lavei-me e comecei a ver». 12Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?» O homem respondeu: «Não sei».] 13Levaram aos fariseus o que tinha sido cego. 14Era sábado esse dia em que Jesus fizera lodo e lhe tinha aberto os olhos. 15Por isso, os fariseus perguntaram ao homem como tinha recuperado a vista. Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos; depois fui lavar-me e agora vejo». 16Diziam alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado». Outros observavam: «Como pode um pecador fazer tais milagres?» E havia desacordo entre eles. 17Perguntaram então novamente ao cego: «Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?» O homem respondeu: «É um profeta». [18Os judeus não quiseram acreditar que ele tinha sido cego e começara a ver. 19Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes: «É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego? Como é que ele agora vê?» 20Os pais responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; 21mas não sabemos como é que ele agora vê, nem sabemos quem lhe abriu os olhos. Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». 22Foi por medo que eles deram esta resposta, porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga quem reconhecesse que Jesus era o Messias. 23Por isso é que disseram: «Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós». 24Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido curado e disseram-lhe: «Dá glória a Deus. Nós sabemos que esse homem é pecador». 25Ele respondeu: «Se é pecador, não sei. O que sei é que eu era cego e agora vejo». 26Perguntaram-lhe então: «Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?» 27O homem replicou: «Já vos disse e não destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo novamente? Também quereis fazer-vos seus discípulos?» 28Então insultaram-no e disseram-lhe: «Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés; 29mas este, nem sabemos de onde é». 30O homem respondeu-lhes: «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é, mas a verdade é que Ele me deu a vista. 31Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade. 32Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».] 34Replicaram-lhe então eles: «Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?» E expulsaram-no. 35Jesus soube que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?» 36Ele respondeu-Lhe: «Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?» 37Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é Quem está a falar contigo». 38O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: «Eu creio, Senhor». [39Então Jesus disse-lhe: «Eu vim para exercer um juízo: os que não vêem ficarão a ver; os que vêem ficarão cegos». 40Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto, perguntaram-Lhe: «Nós também somos cegos?» 41Respondeu-lhes Jesus: «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas como agora dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece».]

 

Este longo trecho apresenta-se como uma encantadora peça dramática, cheia de vigor e naturalidade, que se pode considerar estruturada em quatro actos: 1º – A abertura (vv. 1-5), onde aparece o tema, Jesus, Luz do mundo, em face da cegueira, não apenas física do doente, mas moral, de que participam os próprios discípulos, obcecados pela mentalidade «retribuicionista» (cf. Job 4, 7-8; 2 Mac 7, 18; Tob 3, 3); eles, em face da desgraça alheia, põem-se a indagar quem pecou e não quem a pode remediar. 2º – A cura do cego (vv. 6-7). 3º – A longa investigação acerca da cura (vv. 8-34), primeiro pelos vizinhos (vv. 8-12) e depois pelos fariseus que montam como que um processo judicial com sucessivos interrogatórios e que termina numa sentença de excomunhão (vv. 13-34). 4º – O desfecho do drama (vv. 35-41), com o acto de fé do cego e a obstinação na cegueira espiritual dos que não querem crer.

Sem prejuízo para o valor histórico da narração, esta reveste-se dum grande poder evocativo e dramático, em que sobressai, evocando o itinerário dum catecúmeno, a progressão do cego para a fé plena, o qual começa por se confessar beneficiário da misericórdia do homem Jesus (v. 11), passando a reconhecê-lo como um profeta (v. 17), depois a atestar que Ele vem de Deus (v. 33), e, por fim, a professar a fé explícita em Jesus como Senhor, à maneira de quem responde às perguntas rituais do último escrutínio catecumenal (v 35-38). A alusão ao Baptismo é bastante clara através da unção e do banho: «lavei-me e fiquei a ver» (vv. 11.15), pois na primitiva Igreja este Sacramento era chamado iluminação (cf. Hebr 6, 4; 10, 32; Ef 5, 14; Rom 6, 4). Por outro lado, o decreto de exclusão punitiva da sinagoga (v. 34) não vai apenas contra o cego, mas visa Jesus e os próprios cristãos, os quais no sínodo de Yámnia (pelo ano 80) se viram excomungados pelo farisaísmo que sobreviveu à destruição de Jerusalém (v. 22; cf. Jo 12, 42; 16, 2).

6-7 «Ungiu...» O milagre não se realiza nem pela virtude do «lodo», nem pela eficácia medicinal da água, água comum. O prodígio é consequência do simples querer de Jesus. Como em Mc 7, 33 e 8, 23, com este gesto, Jesus quis pôr à prova e estimular a fé do doente, mas, neste caso, também se quis apresentar como «Senhor do Sábado», pois os rabinos consideravam a preparação do lodo e a unção como um trabalho proibido aos sábados (cf. v. 16). A «Piscina de Siloé» era alimentada pela água da fonte de Gihon (a fonte de Maria), que ali chegava através do canal de Ezequias (rei contemporâneo do profeta Isaías), canal subterrâneo e cavado na rocha com cerca de meio quilómetro de comprido.

 

Sugestões para a homilia

 

Introdução

 

Na segunda leitura aos cristãos de Éfeso era dirigida uma palavra que punha em contraste a sua situação presente de uma vida na graça e na amizade com Deus, com a vida anterior na vergonha do pecado. A vida no pecado é comparada a andar nas trevas, de que a cegueira física não é mais do que uma pálida imagem. O cego do Evangelho fica a ver, ao passo que aqueles que permanecem no pecado da incredulidade é que são realmente cegos, por se negarem a aceitar a verdade que é Jesus e a sua palavra. Como o cego de nascença, também nós aqui nos prostramos diante de Jesus, numa humilde, mas firme confissão de fé: «Eu creio, Senhor!»

Continuamos hoje e no próximo domingo a 2ª série de homilias doutrinais.

 

O ser humano elevado a uma ordem sobrenatural

 

Deus ao criar o homem poderia deixá-lo num plano meramente natural, como criatura sua, inteligente e capaz de O conhecer e amar. Mas pela fé que nos vem da revelação divina, nós sabemos que Deus o constituiu numa ordem superior, acima de quaisquer capacidade natural de uma criatura, por mais perfeita que ela fosse. Ao criar o homem, Deus constituiu-o num estado de santidade e de justiça, dando-lhe a possibilidade de participar na sua vida divina, de modo que, com o bom uso da sua liberdade, pudesse vir a ter como prémio a visão de Deus face a face no Céu.

 

O pecado das origens

 

Embora o ser humano tivesse sido constituído num estado de amizade com o seu Criador e de harmonia consigo mesmo e com a Criação, a Revelação também nos ensina que, desde o princípio, o homem se revoltou e recusou a comunhão com o seu Criador: é a queda do seu estado primitivo: o homem logo na origem pecou.

E que o pecado está presente na história do homem é coisa evidente e inegável.

A realidade do pecado só se esclarece à luz da Revelação divina; sem esta luz somos tentados a explicá-lo apenas como uma falta de maturidade, uma fraqueza psicológica, um erro, um fruto das estruturas sociais…

À luz do desígnio de Deus é que se compreende que o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá às pessoas criadas para que possam, amá-Lo e se amem mutuamente.

Não se pode conhecer o alcance e o significado da história do pecado apenas com o relato do Génesis: “É preciso conhecer Cristo como fonte da graça, para conhecer Adão como fonte de pecado” (CtIgCat, nº 388).

“Não se pode tocar na revelação do pecado original, sem atentar contra o mistério de Cristo” (CtIgCat, nº 389).

 

 O pecado original

 

O pecado dos primeiros pais afecta a natureza humana, que passa a ser transmitida, de pais a filhos, num estado de decadência, privada da santidade e da justiça original.

A transmissão do pecado original é «um mistério que não podemos compreender plenamente» (Catecismo, 404), mas não se dá por simples mau exemplo. São Paulo afirma: «como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, também pela obediência de um só [Cristo] todos virão a ser justos» (Rm 5,19).

Trata-se de um pecado contraído, e não de um pecado cometido.

Como consequência do pecado original, a natureza humana está ferida e debilitada, mas não totalmente corrompida.

O Baptismo apaga o pecado original, mas não as suas consequências.

A concupiscência, as paixões desordenadas, de si não são pecado (assim dizia Lutero), mas podem levar ao pecado; daí a necessidade da luta espiritual contra as tentações para o mal.

Ignorar que o homem possui uma natureza ferida, inclinada para o mal, tem graves consequências: na educação, na política, na acção social, nos costumes (é preciso ter presente que “natural” e “espontâneo” nem sempre é igual a “bom”).

 

 

Depois da queda, o homem não foi abandonado por Deus:

 

É este o ensinamento da profecia que o autor sagrado põe na boca de Deus, chamada Proto-Evangelho (Gn 3, 15): o anúncio da vinda da vitória do Messias sobre o pecado.

A situação dramática em que se encontra o mundo, dominado pelo pecado que atravessa toda a história da humanidade e penetra nas próprias estruturas da sociedade, exige de cada pessoa um “duro combate” para vencer o mal dentro de si próprio e à sua volta.

Conseguir a vitória sobre o pecado só é possível com a graça do Messias, o Cristo, que nos chega abundante através dos Sacramentos bem recebidos. Aproximemo-nos de Cristo presente na sua Igreja. É ele que, através do ministério dos seus sacerdotes, continua a dar vista aos cegos e a ressuscitar mortos.

 

Fala o Santo Padre

 

«Confessemos as nossas cegueiras, as nossas miopias, e sobretudo a "grande falta": o orgulho.»

Queridos irmãos e irmãs

Nestes domingos de Quaresma, através dos textos do Evangelho de João, a liturgia faz-nos percorrer um verdadeiro caminho baptismal: no domingo passado, Jesus prometeu à Samaritana o dom da "água viva"; hoje, curando o cego de nascença revela-se como "a luz do mundo"; no próximo domingo, ressuscitando o amigo Lázaro, apresentar-se-á como "a ressurreição e a vida". Água, luz, vida: são símbolos do Baptismo, sacramento que "imerge" os crentes no mistério da morte e ressurreição de Cristo, libertando-os da escravidão do pecado e dando-lhes a vida eterna.

Detenhamo-nos brevemente na narração do cego de nascença (cf. Jo 9, 1-41). Os discípulos, segundo a mentalidade comum do tempo, dão por certo que a sua cegueira seja consequência de um pecado seu e dos seus pais. Ao contrário, Jesus rejeita este preconceito e afirma: "Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim, para se manifestarem as obras de Deus" (Jo 9, 3). Que conforto nos oferecem estas palavras! Elas fazem-nos ouvir a voz viva de Deus, que é Amor providente e sábio! Perante o homem marcado pelo limite do sofrimento, Jesus não pensa em eventuais culpas, mas na vontade de Deus que criou o homem para a vida. E por isso declara solenemente: "Convém que Eu faça as obras d'Aquele que me enviou... Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo" (Jo 9, 4-5). E imediatamente passa à acção: com um pouco de terra e de saliva faz lama e com ela unge os olhos do cego. Este gesto alui à criação do homem, que a Bíblia narra com o símbolo da terra plasmada e animada pelo sopro de Deus (cf. Gn 2, 7). "Adão", de facto, significa "barro", e o corpo humano é composto de elementos da terra. Curando o homem, Jesus realiza uma nova criação. Mas aquela cura suscita um debate animado, porque Jesus o realiza no sábado, transgredindo, segundo os fariseus, o preceito festivo. Assim, no final da narração, Jesus e o cego são "expulsos" pelos fariseus: um porque violou a lei e o outro porque, apesar da cura, permanece marcado como pecador desde o nascimento.

Ao cego curado Jesus revela que veio ao mundo para fazer um juízo, para separar os cegos curáveis dos que não se deixam curar, porque presumem ser sadios. De facto, é forte no homem a tentação de construir para si um sistema de segurança ideológica: também a própria religião pode tornar-se elemento deste sistema, assim como o ateísmo, ou o laicismo, mas fazendo assim permanece-se cego pelo próprio egoísmo. Queridos irmãos, deixemo-nos curar por Jesus, que pode doar-nos a luz de Deus! Confessemos as nossas cegueiras, as nossas miopias, e sobretudo as que a Bíblia chama a "grande falta" (cf. Sl 18, 14): o orgulho. Ajude-nos nisto Maria Santíssima, que gerando Cristo na carne deu ao mundo a verdadeira luz.

Papa Bento XVI, Angelus, Domingo, 2 de Março de 2008

 

 

Oração Universal

 

Imitando os cegos que Jesus encontrava na Sua vida pública,

 e de tantos outros necessitados que Lhe confiavam as dificuldades,

elevemos também ao Coração Divino as carências que nos afligem.

Oremos (cantando) com toda a filial confiança:

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

1.  Para o Santo Padre, Bispos, Presbíteros e Diáconos,

ao anunciarem no mundo as verdades da nossa fé,

as façam chegar a todos os homens de boa vontade,

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

2.  Para que todos os que vivem nas trevas do erro e mentira

recebam da misericórdia de Deus a luz da fé cristã,

e por ela orientem  sempre todos os passos da sua vida

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

3. Para que os cristãos, mensageiros da luz, por vocação,

sintam e vivam a necessidade, para melhor evangelizarem,

de crescer generosamente na formação doutrinal em cada dia,

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

4. Para que todos os presentes, ao celebrarmos esta Eucaristia,

encontremos no aprofundamento da doutrina do Evangelho

uma fonte de paz e de alegria que jorra para a Vida Eterna,

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

5. Para que os pais, catequistas e demais educadores

conheçam e difundam entre todos os jovens a verdade

que Jesus Cristo veio trazer à terra e nos ensina pela Igreja,

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

6. Para que as almas de todos os nossos fiéis defuntos

ainda a purificar-se das manchas contraídas nesta vida,

se alegrem, quanto antes, na contemplação da luz eterna,

oremos, irmãos.

 

Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

Senhor, que na vida pública abristes os olhos aos cegos

 e nos animais a confiar-Vos as nossas dificuldades:

atendei-nos em tudo o que no sabemos pedir-Vos,

para vivermos em paz e felizes nesta vida terrena,

e nos preparemos para as alegrias que nos esperam no Céu.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

Na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Corri, Senhor, M. Carneiro, NRMS 13

 

Oração sobre as oblatas: Ao apresentarmos com alegria estes dons de vida eterna, humildemente Vos pedimos, Senhor, a graça de os celebrar com verdadeira fé e de os oferecer dignamente pela salvação do mundo. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

O cego de nascença

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Pelo mistério da Encarnação, iluminou o género humano que vivia nas trevas para o reconduzir à luz da fé e pela regeneração do Baptismo libertou os que nasciam na escravidão do antigo pecado para os tornar seus filhos adoptivos.

Por isso o céu e a terra Vos adoram, cantando um cântico novo, e também, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: «Da Missa de festa», Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Aproxima-se o momento em que nesta vida nos é dado ter o Senhor ainda mais próximo que o cego do Evangelho, ao recebê-lo na Sagrada Comunhão. Na medida em que desejarmos ardentemente recebê-lo, Ele iluminará os nossos corações. Este desejo é a chamada comunhão espiritual, que sempre podemos fazer, mesmo que não O recebamos sacramentalmente.

 

Cântico da Comunhão: Senhor, nada somos sem Ti, F. da Silva, NRMS 84

Jo 9, 11

Antífona da comunhão: O Senhor ungiu os meus olhos. Eu fui lavar-me, comecei a ver e acreditei em Deus.

 

Cântico de acção de graças: Proclamai em toda a terra, M. Faria, NRMS 27-28

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, luz de todo o homem que vem a este mundo, iluminai os nossos corações com o esplendor da vossa graça, para que pensemos sempre no que Vos é agradável e Vos amemos de todo o coração. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Iluminados pela Palavra de Deus, fortalecidos com a Eucaristia, vamos no dia a dia dar testemunho de Jesus sem recear a oposição que possamos encontrar, como encontrou o cego do Evangelho, sem recear o laicismo agressivo que nos quer encurralar e fazer calar.

 

Cântico final: Minha alma exulta de alegria, F. da Silva, NRMS 32

 

 

Homilias Feriais

 

4ª SEMANA

 

2ª Feira, 4-IV: A alegria da Cruz

Is 65, 17-21 / Jo 4, 43-54

Olhai que vou criar novos Céus e nova Terra, e não mais se recordará o passado, nem virá de novo ao pensamento.

As palavras de Isaías referem-se não só à vida eterna mas também à transformação da vida na terra, quando chegasse O Messias: «um motivo de júbilo e uma fonte de alegria». E Jesus procura dar muitas alegrias, através de muitas curas milagres (Ev).

A alegria é, no entanto, fruto da Cruz: «O caminho da perfeição passa pela cruz. Não há santidade sem renúncia e combate espiritual. O progresso espiritual implica a ascese e a mortificação, que conduzem gradualmente a viver na paz e na alegria das bem-aventuranças» (CIC, 2015).

 

3ª Feira, 5-IV: O poder da água viva

Ez 47, 1-9. 12 / Jo 5, 1-3. 5-16

É que, aonde chegar, a água tornará tudo são, e haverá vida em todo o lugar que o rio atingir.

«Desde o princípio do mundo, a água, esta criatura humilde e admirável, é a fonte da vida e da fecundidade. A Sagrada Escritura vê-a como incubada pelo Espírito de Deus» (CIC, 1218).

A água passa a ser uma nova criatura no Baptismo de Jesus: «O espírito que pairava sobre as águas da primeira criação, desce então sobre Cristo, como prelúdio da nova criação» (CIC, 1224). E passa a ser a água viva com a paixão e morte de Cristo: «O sangue e a água que manaram do lado aberto do crucificado são tipos do Baptismo e da Eucaristia, sacramentos da vida nova» (CIC, 122).

 

4ª Feira, 6-IV: Amor de Deus e entrega do Filho.

Is 49, 8-15 / Jo 5, 17-30

Pois, tal como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também concedeu ao Filho que tivesse a vida em si mesmo.

Jesus, ao entregar a sua vida na Cruz, libertou todos da escravidão: «Jesus, o Príncipe da vida, pela sua morte, reduziu à impotência aquele que tem o poder sobre a morte… e libertou quantos, por meio da morte, se encontravam sujeitos à servidão durante a vida inteira» (CIC, 635).

De facto, o seu amor por nós é «mais forte do que o de uma mãe para com os seus filhos (Leit). Deus amou de tal maneira o mundo que lhe entregou o seu filho único» (CIC, 219). Retribuamos com mais amor esta ‘loucura de amor’ de Deus.

 

5ª Feira, 7-IV: Os pecados e os nossos intercessores.

Ex 32, 7-14 / Jo 5, 31-47

Vós, porém, não quereis vir a mim, para terdes a vida. Não penseis que vou acusar-vos ao Pai.

O povo portara-se mal e Moisés intercedeu junto de Deus:« Foi sobretudo após a apostasia do Povo, que ele (Moisés) se mantém na brecha diante de Deus, para salvar o mesmo povo (Leit)» (CIC, 2577).

Agora somos nós que nos portamos mal e é o próprio Filho de Deus que se oferece ao Pai como Vítima para apaziguar a sua indignação: «Jesus quer deixar à Igreja um sacrifício visível…para aplicar a sua eficácia salvífica à remissão dos pecados que nós cometemos cada dia» (CIC, 1366).

 

6ª Feira, 8-IV: As bem-aventuranças e a paixão de Cristo.

Sab 2, 1. 12-22 / Jo 7, 1-2. 10. 25-30

Se esse justo é filho de Deus…condenemo-lo a morte infamante, pois ele diz que será socorrido.

Este pensamento dos ímpios (Leit), repete-se no tempo de Jesus: «os judeus procuravam dar-lhe a morte» (Ev).

O sofrimento injusto é, no entanto, um caminho de bem-aventurança: «As bem-aventuranças retratam o rosto de Jesus Cristo e exprimem a vocação dos fiéis associados à glória da sua paixão e ressurreição» (CIC, 1717). Em toda a sua vida, Jesus apresenta-se como nosso modelo. Aceitemos as contrariedades, as acusações injustas e ofereçamo-las com amor pela salvação de todos.

 

Sábado, 9-IV: O servo sofredor e o cordeiro pascal.

Jer 11, 18-20 / Jo 7, 40-53

Eu era como dócil cordeiro levado ao matadouro, sem saber da conjura contra mim.

O profeta Jeremias repete a imagem do servo sofredor de Isaías (53, 7). Depois, foi João Baptista que viu em Jesus o ‘Cordeiro de Deus’, que tira o pecado do mundo: «Manifestou deste modo que Jesus é, ao mesmo tempo, o servo sofredor, que se deixa levar ao matadouro (Leit), sem abrir a boca, carregando os pecados das multidões, e o cordeiro pascal, símbolo da redenção de Israel na primeira Páscoa» (CIC; 608).

Procuremos oferecer todas dores e contrariedades sem nos queixarmos e ofereçamos tudo pela conversão dos pecadores.

 

 

 

 

 

 

Celebração, Homilia e Nota Exegética:     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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