ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

25 de Março de 2011

 

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor do Universo, F. da Silva, NRMS 21

Hebr 10, 5.7

Antífona de entrada: Ao entrar no mundo, o Senhor disse: Eu venho, meu Deus, para fazer a vossa vontade.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Igreja celebra nove meses antes do dia de Natal a solenidade da Anunciação do Senhor. Deus por meio do Anjo Gabriel revela a Maria o mistério da Encarnação e pede o seu livre consentimento. Nossa Senhora responde com plena disponibilidade e o Verbo de Deus se fez homem. Vivamos a Missa de hoje com muitos actos de agradecimento ao Senhor que continua na eucaristia a o mistério da sua encarnação redentora e recordemos que também nos estamos chamados, como Maria, a colaborar na obra da salvação das almas.

 

Oração colecta: Deus, Pai santo, que na vossa benigna providência quisestes que o vosso Verbo assumisse verdadeira carne humana no seio da Virgem Maria concedei–nos que, celebrando o nosso Redentor como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mereçamos também participar da sua natureza divina.

Por Nosso Senhor...

 

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O Profeta Isaías anuncia, movido pelo Espírito Santo, um Sinal de Deus, que só virá a acontecer séculos mais tarde: o Mistério da concepção virginal de Maria. O Mistério da Encarnação é o grande sinal; é a mais plena manifestação do Amor de Deus pelos homens.

 

Isaías 7, 10-14 8, 10

 

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11“Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas”. 12Acaz respondeu: “Não pedirei, não porei o Senhor à prova”. 13Então Isaías disse: “Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco”.

 

Este célebre texto messiânico é extraído do início do “Livro do Emanuel”, assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (Deus connosco), um “menino” descrito com traços que excedem tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7, 1 – 12, 6), daí o seu carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, o mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente o mesmo momento) em que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadeiramente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).

14 Esse “sinal” é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado “Livro do Imanuel” (Is 7 – 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco); embora, em primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião) e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, “Deus connosco”: é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9, 5-6: “Deus forte, príncipe da paz...”.

 

Salmo Responsorial    Sl 39 (40), 7–8a.8b–9.10.11 (R. 8a.9a)

 

Monição: O Salmo que iremos rezar é um salmo messiânico em que o autor oferece a Deus não um sacrifício de coisas materiais mas o sacrifício da própria obediência a Deus. Isto se aplica de modo eminente a Jesus Cristo, mas também deve poder dizer-se de cada um de nos

 

Refrão:        Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,

mas abristes-me os ouvidos

não pedistes holocaustos nem expiações,

então clamei: «Aqui estou».

 

De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.

Assim o quero, ó meu Deus,

a vossa lei está no meu coração».

 

Proclamei a justiça na grande assembleia,

não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.

 

Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,

proclamei a vossa fidelidade e salvação.

Não ocultei a vossa bondade e fidelidade

no meio da grande assembleia.

 

Segunda Leitura

 

Monição: O autor da Carta aos Hebreus explica aos cristãos procedentes do judaísmo como todo o culto e os sacrifícios rituais da Antiga Lei eram preparação do único e verdadeiro Sacrifício Redentor oferecido por Jesus Cristo. Esse Sacrifício se torna presente em cada Eucaristia

 

Hebreus 10, 4-10

 

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’”. 8Primeiro disse: “Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado”. E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: “Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade”. Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.

 

O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 – 10, 18), sob o ponto de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40, 7-9 e 110, 1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz.

7 «Eis-me aqui». Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem, que diz também “eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1, 38).

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 1, 14ab

 

Monição: Contemplemos com admiração e agradecimento a cena da Anunciação narrada por S. Lucas, e tornemo-nos mais conscientes de que também nos somos chamados a colaborar com Deus na Obra da Salvação

 

Cântico: M. Simões, NRMS 1 (I)

 

O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós

e nós vimos a sua glória.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 26-38

 

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”. 34Maria disse ao Anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?”. 35O Anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível”. 38Maria disse então: “Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra”.

 

A narrativa da Anunciação reveste-se de uma densidade tal, que cada palavra encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o acontecimento mais transcendente da História, o preciso momento em que, com o sim da Virgem Maria, o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura.

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa “homem de Deus” ou também “força de Deus”.

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça»: Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a “cheia de graça”, como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita és tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois nela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão “encontrar graça diante de Deus” só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos e renunciando a consumar a união; mas nem todos os estudiosos assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica “cobrirá” seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia dos Capuchinhos): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: “por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois o que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus.

 

Sugestões para a homilia

 

1. O sinal do Amor de Deus aos homens

2. O sinal do amor dos homens a Deus

3. Nossa Senhora nos planos de Deus

1.O sinal do Amor de Deus pelos homens

Na primeira leitura da Liturgia de hoje ouvimos o anúncio do grande sinal do Amor de Deus pelos homens. Deus virá morar connosco, profetiza Isaías, pois o filho que nascerá de uma virgem é o próprio Filho Unigénito de Deus que vem ao encontro dos homens para os salvar e os introduzir, como filhos, na intimidade divina. São Lucas, decorrido um arco de setecentos e cinquenta anos, nos permite presenciar a cena em que se desenrola o cumprimento do grande sinal. Deus anuncia a Maria de Nazaré, por médio de um anjo, o Seu desígnio de Amor pelos homens, e pede a colaboração de Nossa Senhora. O diálogo culmina com o «faça-se» de Maria e a realização do mistério da Encarnação do Verbo de Deus.

Aparentemente nada mudou no mundo, nem sequer as folhas das árvores tremeram com uma agitação desacostumada, e, com tudo, o Cosmos acabou de ser transformado até as suas raízes mais profundas. O Universo «cheira a novo» como no dia em que surgiu do nada pela primeira vez. A Encarnação redentora do Verbo de Deus, que acaba de acontecer, é uma nova Criação.

«O facto de o Verbo ter assumido, na plenitude dos tempos, a condição de criatura confere ao acontecimento de Belém, de há dois mil anos, um valor cósmico singular. Graças ao Verbo, o mundo das criaturas apresenta-se como ‘cosmos’, isto é, como universo ordenado. E é ainda o Verbo que, encarnando-Se, renova a ordem cósmica da criação. A Carta aos Efésios fala do desígnio que Deus tinha preestabelecido em Cristo, ‘para ser realizado ao completarem-se os tempos: recapitular em Cristo todas as coisas que há no Céu e na Terra’ (1, 10)» (Tertio Milennium adveniente, n.3).

Este grande mistério, que contemplamos hoje pela mão da Liturgia, não tem outra explicação, como o primeiro acto criador, senão o Amor infinito de Deus. «Na sua infinita exuberância de vida, Deus pode irromper livremente no tempo e no espaço da sua criação. Nisto distingue-Se das criaturas, para as quais o devir representa uma exigência intrínseca do seu ser.(…) O devir de Deus é pelo contrário, liberdade e gratuidade absoluta e dimana da sua livre opção de amor. Por isso não só no implica imperfeição, mas torna-se princípio de novidade e de reconstrução da humanidade» (C.T.-H. do Grande Jubileu do ano 2000, Jesus Cristo Salvador do Mundo, pg. 23). Deus não desiste do seu desígnio de Amor pelas criaturas, e entra no tempo dos homens de um modo novo e inimaginável para nos introduzir na sua Eternidade bem-aventurada.

Nunca nos devemos cansar de contemplar e agradecer o Amor infinito com que somos amados por Deus, e devemos procurar corresponder com a plenitude de entrega com que o fez Nossa Senhora.

2. O sinal do amor dos homens a Deus

Na segunda leitura da Carta aos Hebreus, o Autor sagrado nos apresenta a perfeita obediência de Jesus ao desígnio salvador do Pai. As palavras que coloca na boca do Senhor, «Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade», são o resumo da sua vida redentora e a causa da nossa salvação.

Nos convêm, por isso, não esquecer nunca que a vontade de Deus, que é Amor, só pode conter desígnios de amor, e por isso tudo o que vem de Deus é manifestação do Seu Amor, e portanto para nosso bem e felicidade.

A obediência à vontade de Deus é o único caminho para chegar à plena realização e felicidade; o único caminho para ser santos. Por isso nunca pode ser vista como obstáculo para o exercício da própria liberdade, autonomia e maturidade.

A liberdade é a capacidade de autodeterminação para alcançar o próprio bem. Mas o próprio bem é precisamente a vontade de Deus para nos. Por isso a obediência é sempre o pleno exercício da liberdade. O escravo mesmo que faça o que lhe indicam não obedece, por que não «quer» fazer o que faz. Quem faz o que lhe é indicado só por que gosta, por agradar a pessoa que manda, por interesse para conseguir outra coisa, etc, não obedece ou fá-lo de modo muito imperfeito. Obedecer requer, pelo menos implicitamente, fazer o que é indicado por ser essa a vontade de Deus. Para tal é preciso o exercício da fé que nos permite ver nas pessoas que mandam legitimamente, nos acontecimentos e obrigações, a Providencia de Deus que nos cuida e nos guia.

A resposta de amor com que o homem corresponde ao Amor paternal de Deus não é outra que a obediência. Não devemos nunca confundir o amor com a emoção ou sentimento que costuma acompanha-lo mas que pode faltar e não se identifica com ele. O amor costumavam dizer os filósofos escolásticos é o primeiro acto da vontade; é «querer», e não sentir. Amar é fazer o que é bom para a pessoa amada, com sentimento ou sem ele. Uma mãe, por exemplo, que repreende e castiga os filhos quando merecem, está a realizar um acto de amor, mesmo que o que sinta nesse momento seja mais irritação do que enlevo.

Por isso compreendemos que o Senhor nos advirta que o amor está em fazer e não em palavras ou emoções: «Nem todo o que Me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas só o que faz a vontade de Meu Pai que está nos céus» (Mt 7, 21), e também: «Se Me amais, observareis os Meus mandamentos» (Jo 14,15). É claro, pois, que o sinal do verdadeiro amor a Deus é a obediência. Assim a plena disponibilidade de Nossa Senhora para os planos divinos manifesta a plenitude do seu amor a Deus.

3. Nossa Senhora nos planos de Deus

As consequências que seguiram da resposta de Nossa Senhora na Anunciação jamais poderiam ser sonhadas por uma imaginação humana, nem sequer a da «Cheia de graça». Aquele «faça-se» transformou o Universo, levou o tempo à sua plenitude e tornou o momento em que foi pronunciado o centro de referência de toda a Historia humana. O passado e o futuro da Humanidade e da Criação ficaram orientados em referência a esse instante em que a eternidade de Deus penetra no tempo humano e da início à redenção salvadora em Cristo.

O Senhor encarna para se unir de algum modo a cada homem, tornando-Se o seu Caminho e companheiro, na sua Igreja, até o conduzir à casa do Pai.

Também o coração de Maria, cheio de amor, como que «alargará» numa nova plenitude para abraçar maternalmente todos e cada um dos homens, chamados a ser irmãos do seu Filho Jesus Cristo.

Meditemos hoje especialmente, em como um «sim» a Deus tem sempre consequências inimagináveis para a criatura, e como é importante saber discernir a vontade de Deus ao nosso respeito nos aspectos transcendentes e nos mais comuns da nossa vida. São Josemaria, um santo com uma enorme experiência de almas deixou escrito em um dos seus mais conhecidos livros: «Não te esqueças: muitas coisas grandes dependem de que tu e eu vivamos como Deus quer» (Caminho. 755). Peçamos hoje, pois, a Nossa Senhora a graça de repetirmos, com os factos, o «faça-se» que Ela disse no dia da Anunciação.

 

 

Diz-se o Credo.

Às palavras «e encarnou ...», ajoelha-se.

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos em Cristo

unidos pela fé, à Virgem Maria,

em cujo seio o Verbo Se fez carne para a salvação do mundo,

façamos subir ao Pai as nossas súplicas,

dizendo (ou cantando):

 

R. Pela Vossa Encarnação, ouvi-nos Senhor.

Ou: Interceda por nos a Virgem cheia de graça.

Ou: Interceda por nos a Mãe do Verbo Encarnado

 

 

1.  Para que a Igreja dispersa pelo mundo,

anuncie fielmente Jesus Cristo,

concebido no seio da Virgem Maria, por obra do Espírito Santo,

oremos, irmãos.

 

2.  Para que o papa Bento XVI, os bispos, os presbíteros e os diáconos:

amem a Deus de todo o coração

e exerçam o seu ministério imitando a Cristo,

oremos, irmãos.

 

3.  Para que em Cristo, servo obediente,

que veio ao mundo para fazer a vontade do Pai,

ofereçamos a Deus a nossa própria vida,

oremos, irmãos

 

4.  Para que aos pobres e a todos os que sofrem

seja feita justiça, não lhes falte o necessário

e se reconheça em eles o rosto de Cristo,

oremos, irmãos.

 

5.  Para que a Virgem Santa Maria, Mãe do “Emanuel”,

que nos foi dada por seu Filho como nossa Mãe,

nos acompanhe quer na vida quer na morte,

oremos, irmãos.

 

6.  Para que os cristãos de todas as igrejas,

particularmente da nossa Diocese,

imitem Cristo no seu modo de viver,

oremos, irmãos.

 

 

Infundi, Senhor a vossa graça em nossas almas,

para que a anunciação do Anjo,

que nos revelou a encarnação do vosso Filho,

e a intercessão da Virgem Maria

nos levem a contemplar a vossa glória

Por Cristo, nosso Senhor

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Eu venho, Senhor, Az. Oliveira, NRMS 62

 

Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, os dons da vossa Igreja, que reconhece a sua origem na Encarnação do vosso Filho e fazei-lhe sentir a alegria de celebrar nesta solenidade os mistérios do seu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Prefácio

 

O mistério da Encarnação

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Pela Anunciação do mensageiro celeste, a Virgem Imaculada acolheu com fé a vossa Palavra e pela acção admirável do Espírito Santo trouxe em seu ventre com amor inefável o Primogénito da nova humanidade, que vinha cumprir as promessas feitas a Israel e revelar-Se ao mundo como a esperança de todos os povos.

Por isso com os Anjos, que adoram a vossa majestade e exulta eternamente na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...

 

Santo: F. da Silva, NRMS 99-100

 

Saudação da paz

 

Monição da Comunhão

 

Nossa Senhora foi concebida sem pecado para receber o Filho de Deus. Peçamos a sua ajuda para receber a Sagrada Comunhão com as melhores disposições; e se no estivermos em condições de comungar acudamos quanto antes ao sacramento da confissão

 

Cântico da Comunhão: O Anjo do Senhor anunciou, M. Simões, NRMS 31

Is 7, 14

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emanuel, Deus connosco.

 

Cântico de acção de graças: Louvemos o Senhor, J. Santos, NRMS 81

 

Oração depois da comunhão: Confirmai em nós, Senhor, os mistérios da verdadeira fé, para que, tendo proclamado que Jesus Cristo, concebido da Virgem Maria, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos, pelo poder da sua ressurreição, às alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado é o «Emanuel», Deus connosco. Reavivemos a consciência de que Jesus esta em todas as circunstâncias junto de nos, e, com a sua ajuda, e a intercessão de Nossa Senhora, procuremos viver como bons filhos de Deus.

 

Cântico final: Acolhe Virgem Piedosa, M. Carneiro, NRMS 101

 

 

Homilia FeriaL

 

Sábado, 26-III: Deus e o pecado.

Miq 7, 14-15. 18-20 / Lc 15, 1-3. 11-32

Qual o deus semelhante a vós que tira o pecado e perdoa o delito deste resto que é o vosso domínio?

Qual a atitude de Deus perante o pecado? As Leituras sugerem algumas respostas. Em primeiro lugar, Deus lança para o fundo do mar os nossos pecados (Leit). Depois, Deus é clemente e compassivo, não está sempre a repreender, nem guarda ressentimento sem fim, não castiga segundo as nossas culpas, etc. (S.Resp).

Finalmente, recebe-nos de braços abertos, com uma grande festa, que sublinha a sua grande alegria (Ev). Só nos pede que sigamos os passos do filho pródigo: reflexão sobre os bens perdidos, arrependimento e aceitação da culpabilidade (CIC, 1439).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Carlos Santamaria

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilia Ferial:                      Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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