TEOLOGIA E MAGISTÉRIO*

AMOR À POBREZA SACERDOTAL

 

Miguel Falcão

 

(continuação)

Os ensinamentos de Jesus

O estilo de vida que Jesus levou e que foi contagiando os Apóstolos encontra-se plasmado nos seus constantes ensinamentos, quer ao povo em geral, quer aos discípulos em particular.

Voltemos a meditar o Evangelho.

“Vendo Ele as multidões, subiu ao monte e, sentando-se, aproximaram-se os discípulos; e, tomando a palavra, ensinava-os” (Mt 5, 1-2).

O Sermão da montanha começa com uma bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5, 3). No seu livro Jesus de Nazaré, Bento XVI diz que Francisco de Assis foi quem “traduziu de forma mais intensa esta Bem-aventurança na existência humana”, tornando-a mais compreensível na sua radicalidade [1]. “Os Santos são os autênticos intérpretes da Sagrada Escritura” [2], escreve o Papa. É por isso que gostamos de saborear os comentários dos Santos à Palavra de Deus.

Para Jesus, pobre é o que se reconhece necessitado, o humilde, e, por isso, pede confiadamente ajuda, sobretudo a Deus, sabendo que não tem nenhum merecimento. A tradição da Igreja vê no pobre que é bem-aventurado o homem que confia em Deus e não nos bens materiais, de que está desprendido.

Por isso, embora trabalhe por ter os meios necessários para levar uma vida digna, para si e a sua família, e contribuir para as necessidades dos outros, sabe que esses bens devem estar subordinados a Deus.

Daí que o trabalho com o qual procura conseguir os bens materiais deva estar moderado pela obrigação de atenção da família e educação dos filhos, pelo descanso adequado, pela formação espiritual e doutrinal, pelo cumprimento dos deveres religiosos. Mais uma vez vemos como o trabalho pode reflectir a pobreza.

É legítimo querer melhorar o nível de vida, própria e da família, evitando saltos bruscos – como seria a figura do novo-rico – e o estilo luxuoso – que supõe mais do que o supérfluo.

Com o espírito de pobreza, usam-se os bens terrenos, sem se apegar a eles. Para isso, convém prescindir voluntariamente deles algumas vezes, não perder a alegria e a paz quando nos faltam, trabalhar por voltar a tê-los, partilhar com outros mais necessitados. Pode passar despercebido este desprendimento, mas não deixa de ser real.  

No nosso caso de sacerdotes, é até obrigação de justiça prover generosamente às pessoas, de família ou não, que nos atendem; também, cuidar das pessoas de família que tenhamos a nosso cargo; mas não, servir-se dos bens que o povo entrega para enriquecer a nossa família; antes, destinar tudo o que possamos às obras de apostolado e de caridade e ao culto divino.

Nas semanas passadas, a Liturgia da Missa e a Liturgia das Horas apresentaram-nos frequentes textos em que facilmente tínhamos presente a pobreza: a parábola do filho pródigo e a do administrador infiel, a vocação de S. Mateus, a parábola do rico Epulão e do pobre Lázaro, a reacção de Job ante a perda dos seus bens e da sua saúde.

Como líamos numa das leituras da Liturgia das Horas, S. Leão Magno, num Sermão sobre as Bem-aventuranças, explicava: “Bem-aventurada aquela pobreza que não se deixa dominar pelo amor dos bens temporais, nem põe toda a sua ambição em aumentar as riquezas deste mundo, mas deseja acima de tudo a riqueza dos bens celestes!” E o Papa mostrava como a radicalidade em vivê-la influi decididamente nos outros: “Depois do Senhor, os Apóstolos foram os primeiros a dar-nos o exemplo desta magnânima pobreza. À voz do divino Mestre deixaram tudo o que tinham; num momento, passaram de pescadores de peixes [pesca material, legítima] a pescadores de homens [pesca espiritual, mais necessária] e conseguiram que muitos, imitando a sua fé, seguissem o mesmo caminho. Com efeito, entre aqueles primeiros filhos da Igreja, todos os crentes tinham um só coração e uma só alma” [3]. E os Actos dos Apóstolos continuam: “ninguém considerava como seu o que possuía, mas tinham todas as coisas em comum” (Act 4, 32).

O jovem rico que um dia, levado por uma sã inquietação, procurou Jesus deixa-nos um exemplo claro das condições para corresponder ao chamamento divino à vida apostólica (cf. Mc 10, 17 ss), sacerdotal ou não – pois Jesus tinha muitos discípulos dedicados, homens e mulheres, embora Apóstolos apenas os doze.

Quando o jovem disse que cumpria os mandamentos desde a sua juventude, “Jesus fitou-o com amor e disse-lhe: Uma só coisa te falta. Vai, vende quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me” (v. 21). Embora de fugida, reparemos que Jesus não lhe diz que traga a sua fortuna para a bolsa comum dos Apóstolos: é uma delicadeza extrema de desprendimento divino, que nós também vivemos pelo menos quando exercemos o ministério da confissão.

 O diálogo com o jovem rico refere um chamamento mais concreto, uma vocação apostólica, semelhante à nossa vocação sacerdotal. Jesus convida-o a ser seu discípulo, uma vocação dirigida àqueles que quer ter mais perto de si para o apostolado. Mais tarde, quando o Espírito Santo suscitar na Igreja a vida eremítica, a vida monástica e a vida religiosa em geral, hão de inspirar-se neste episódio para meditarem na necessidade do desprendimento dos bens materiais. No entanto, desde o início, é uma condição para aqueles a quem Jesus chama a acompanhá-lo mais de perto, homens e mulheres.

Podemos ter dificuldade em entender este chamamento para nós, sacerdotes seculares, habituados a viver no meio do mundo, com as exigências que isso supõe e a pressão de um ambiente marcado pelo naturalismo. Contudo, as palavras de Jesus são claras: aos seus discípulos – e nós contamo-nos entre eles, pois somos os continuadores dos Apóstolos – Jesus pede uma renúncia completa, para que não haja nenhum obstáculo para a intimidade com Deus (a vida contemplativa) e para a dedicação às almas (a vida apostólica).

 

O magistério conciliar

Que nos diz acerca desta matéria o Concílio e o Magistério posterior da Igreja?

O Concílio Vaticano II recorda a todos os cristãos o seguimento de Cristo, pobre e humilde: “Nos vários géneros e ocupações da vida, é sempre a mesma a santidade que é cultivada por aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus e, obedecendo à voz do Pai e adorando-o em espírito e verdade, seguem a Cristo pobre, humilde e carregado com a Cruz, para merecerem participar na sua glória” (LG, 41 a). Adiante, faz referência aos que seguem Cristo mais de perto: “A Mãe a Igreja rejubila por encontrar no seu seio muitos homens e mulheres que seguem mais de perto a aniquilação do Salvador e a manifestam mais claramente, abraçando a pobreza, com a liberdade dos filhos de Deus, e renunciando à sua vontade própria (LG, 42 d).

Pensava-se que era uma referência aos religiosos; mas quando, também no nosso tempo, há muitos cristãos que seguem este espírito no meio do mundo, mesmo sem consagração nenhuma, parece lógico que também se aplique aos sacerdotes, que Cristo escolheu para seus ministros, administradores da sua palavra e da sua graça.

Aliás, o próprio Concílio, tendo presente os candidatos ao sacerdócio, dizia no Decreto sobre a formação sacerdotal: “Sejam formados, com particular solicitude, na obediência sacerdotal, na vida de pobreza e no espírito de abnegação, de tal maneira que se habituem a renunciar sem hesitação mesmo naquilo que, embora lícito, não é conveniente, e a conformar-se com Cristo crucificado” (OT, 9 c).

Basta recordar como, durante a preparação para o sacerdócio, nos ajudaram a viver esse espírito de pobreza, de sobriedade e de renúncia, para desejarmos continuar no mesmo sentido. Certamente, a formação não pode ser a imposição de uma disciplina, mas antes deve ser exortação e exemplo de uma vida espiritual de preparação para a vida sacerdotal: a dificuldade em levar essa vida pode estimular a empregar melhor os meios humanos e sobrenaturais, ou então a reconhecer que será porventura outro o seu caminho de discípulo de Cristo.

Aos presbíteros, o Concílio exorta a viver a pobreza no meio do mundo, exemplificando com algumas ideias (cf. PO, 17), como lemos no Decreto sobre a sua vida e ministério.

Assim, aprendam “a estimar os bens criados como dons de Deus”, isto é, usando-os ordenadamente com acção de graças, com “aquela liberdade pela qual, libertos de todo o cuidado desordenado, se tornam dóceis para ouvir quotidianamente a voz divina”, ou seja, a Vontade de Deus.

Esta atitude perante o uso dos bens criados é importante por vivermos no meio do mundo e aí darmos o nosso testemunho. “Os bens criados são absolutamente necessários ao aperfeiçoamento pessoal do homem, pelo que [os sacerdotes] devem mostrar-se agradecidos por todos os dons que o Pai celeste lhes concede para viverem convenientemente”, “sujeitando o uso desses bens em conformidade com a Vontade de Deus e rejeitando tudo aquilo que for prejudicial à sua missão” (PO, 17 a).

E continua, alertando, o Decreto conciliar sobre a vida e o ministério dos presbíteros: “Os sacerdotes devem usar os bens temporais unicamente para os fins a que, segundo a doutrina de Cristo e as determinações da Igreja, é lícito destiná-los”, ou seja, “em ordem ao culto divino, para a honesta sustentação do clero e para o exercício de obras de caridade e apostolado, de um modo especial para com os pobres”. Mesmo “os bens que adquiram pelo exercício do seu ministério eclesiástico, (…) empreguem-nos em primeiro lugar para a sua honesta sustentação e desempenho dos deveres do próprio estado; os que sobejarem apliquem-nos em proveito da Igreja ou em obras de caridade”. Por conseguinte, “não possuam os cargos eclesiásticos para lucro, nem empreguem os rendimentos provenientes deles para enriquecimento da própria família” (PO, 17 b-c).

“Mais: são convidados a abraçar a pobreza voluntária, pela qual se assemelham manifestamente a Cristo e se tornam mais bem dispostos para o sagrado ministério” (PO, 17 d), não fazendo acepção de pessoas, excedendo-se no ministério quando solicitado. Como se vê, a vida de pobreza dispõe-nos para a realização frutuosa do ministério sacerdotal, quer pela união com Cristo deixando passar a sua graça, quer pela dedicação desinteressada ao trabalho pastoral. “A pobreza é essencialíssima. (…) Redunda na vida de entrega e na eficácia ou ineficácia do nosso apostolado” [4], dizia outro Santo, o Fundador do Opus Dei, aos seus filhos espirituais, animando-os a santificarem-se no meio do mundo.

“Também um certo uso comum das coisas, à semelhança da comunhão de bens louvada na Igreja primitiva (cf. Act 2, 42-47), prepara óptimo caminho para a caridade pastoral” (PO, 17 d). No entanto, se é recomendável, parece que nem sempre é aconselhável, dependendo das pessoas concretas. 

A fim de não fazerem acepção de pessoas, os sacerdotes “devem evitar tudo aquilo que possa afastar os pobres, pondo de parte, mais do que todos os outros discípulos de Cristo, toda a espécie de vaidade nas suas coisas. Disponham a sua casa de tal modo que esteja acessível a toda a gente, por mais humilde que seja” (PO, 17 e).

O Directório para o ministério e a vida dos presbíteros (1994), retomando as directrizes do Vaticano II, da Exortação apostólica Pastores dabo vobis (1992) e as normas do Código de Direito Canónico (1983), recorda também que “dificilmente o sacerdote se tornará servo e ministro dos seus fiéis, se estiver excessivamente preocupado com as suas comodidades e com um excessivo bem-estar” (n. 67 a).

Mesmo “o presbítero que não tenha assumido a pobreza com uma promessa pública, deve levar uma vida simples e abster-se de tudo o que pode ter sabor de vaidade, abraçando assim a pobreza voluntária, para seguir mais de perto Cristo. Em tudo (habitação, meios de transporte, férias, etc.), o presbítero deve eliminar todo o tipo de requinte e de luxo” (n. 67 f).

Será realmente possível, para os sacerdotes seculares, viver segundo este alto ideal a virtude da pobreza, sobretudo no mundo tão materialista que nos circunda e que nos contagia? É como perguntar: será possível aspirarmos hoje a uma vida profunda de união com Deus e de dedicação constante às almas? Nas nossas horas melhores, sentimos o Senhor a convidar-nos, como a Filipe, a Mateus e ao jovem rico: “Segue-me”. Apoiados na sua graça, também acabamos por responder: “deixando tudo, seguiram-no”. Sabemos que “a conversão é coisa de um instante. – A santificação é obra de toda a vida” [5].

Animemo-nos considerando as gratas consequências da vivência da virtude da pobreza. Em primeiro lugar, a alegria do desprendimento para saborear a intimidade com o Senhor, como manifestava S. Francisco, aceitando as incomodidades e as privações que possam surgir. “Aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Estou acostumado a tudo: a estar saciado e a passar fome, a ter abundância e a sofrer penúria” (Flp 4, 11-13). Quem está apegado às coisas, anda sempre ansioso e nada o satisfaz; quem está desprendido delas, a mínima coisa o alegra.

Depois, estar liberto das preocupações materiais torna o apóstolo mais livre para se lançar nos empreendimentos em prol da caridade e do apostolado. Não deixa de estudar com sentido realista os meios necessários para começar e para continuar; mas sente-se com ânimo para solicitar apoio material de amigos e conhecidos, ajuda que não é para si, mas para obras louváveis; e, confiado na Providência divina, é audaz – na senda seguida, entre outros, pelo Santo Cura d’Ars e por S. João Bosco.

 

Alguns testemunhos de sacerdotes

Graças a Deus, todos nós convivemos com sacerdotes que deram esse testemunho. Os seus exemplos podem ser ideias que cada um verá se lhe ajudam.

Alguns sacerdotes, pelo menos quando jubilados, distribuem os seus bens pelos familiares, Seminário, obras de apostolado ou de caridade em que estiveram empenhados, procurando que lhes fiquem assegurados os cuidados de saúde, e levam uma vida sóbria, ao mesmo tempo que continuam a colaborar segundo a sua disponibilidade. Estes, quando recebem ofertas, não querem voltar a guardar coisas, e procuram dar-lhes destino quanto antes. 

Outros – para não se deixarem levar por capricho ou vaidade – não deixam de ouvir a opinião de um familiar ou amigo à hora de fazerem uma despesa extraordinária, como uma viagem de férias, a compra de um automóvel ou de uma casa. Por vezes, em lugar de terem o dinheiro a crescer nos Bancos em depósitos a prazo, preferem colocá-lo sem juros em empreendimentos de carácter apostólico ou caritativo. 

Algum pároco prefere ficar dependente da sua paróquia, superintendendo na administração dos bens paroquiais, confiada a paroquianos responsáveis. Retira daí o que necessita, justificando as suas despesas habituais e consultando as despesas extraordinárias. Reserva para si o destino a dar aos estipêndios de Missas e às ofertas pessoais, normalmente para o culto divino e obras de apostolado ou de caridade. Aceita agradecido qualquer oferta pelo seu trabalho ministerial, e colabora mesmo se nada recebe.

Encontram-se sacerdotes que ensaiam uma certa vida em comum – como é recomendado pela Igreja desde sempre (cf. PO, 8 c; Directório, cit., n. 29) –, vivendo em conjunto, apoiando-se humana e sobrenaturalmente, ajudando-se no ministério pastoral. Naturalmente, este modo de vida requer especial sintonização de amizade e de temperamento, e pressupõe um desprendimento ao modo da Igreja primitiva (cf. Act 2, 42-47).

Vou terminar evocando o testemunho deixado por um sacerdote desta diocese, falecido há um ano com 93 anos, o Cón. José de Oliveira Rosa. Como anotou o Vigário Geral, além da sua dedicação ao trabalho na Câmara Eclesiástica, “atendendo com grande atenção, simpatia e diligência sacerdotes e outros fiéis”, “impressionava também a sua generosidade: desprendido em relação aos seus bens e a si próprio nada regateava sempre que via uma oportunidade para se dar e dar do que tinha” [6]. Comprovamos como a disponibilidade para a atenção sacerdotal está em função do desprendimento das satisfações materiais.  

Que Nossa Senhora de Fátima, Mãe bendita e amorosa dos sacerdotes, continue a cuidar de nós como do seu Filho Jesus, animando-nos à generosidade no nosso ministério de pregação e sacramental, ao recordar-nos simbolicamente as necessidades dos fiéis: “Não têm vinho!” 

 



* Texto das duas meditações proferidas na recolecção para sacerdotes, organizada pela diocese de Leiria-Fátima no Santuário de Fátima, em 4-X-2010, Memória de S. Francisco de Assis.

[1] Cf. BENTO XVI, Jesus de Nazaré, Lisboa 2007, pp. 115-117.

[2] Cf. Ibidem, p. 115.

[3] S. LEÃO MAGNO, Sermão sobre as Bem-aventuranças, in Liturgia das Horas, Semana XXII do Tempo comum, Sexta-feira, Ofício de Leitura.

[4] Cf. SALVADOR BERNAL, Monsenhor Josemaría Escrivá de Balaguer. Apontamentos sobre a vida do Fundador do Opus Dei, Edições Prumo, Lisboa 1978, pp. 321 e 330.

[5] S. JOSEMARIA ESCRIVÁ, Caminho, n. 285.

[6] ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE CANONISTAS, Boletim Informativo 2010, Lisboa 2010, p. 87.


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