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A  Mortificação  Interior

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

Embora a palavra Quaresma nos evoque imediatamente a abstinência da «carne», bem sabemos que a Igreja nos exorta sobretudo à abstinência do pecado. Jejum e temperança na comida só importam na medida em que, fortalecendo a vontade, nos ajudam a dominar paixões, submetendo-as ao que a fé e a razão nos ditam. O seu objectivo não é a saúde do corpo, mas da alma. O domínio próprio – ser «senhores de nós», e não servos dos nossos apetites – destina-se a oferecer-nos com Cristo ao Pai. Pois, como nos entregaríamos a Deus, se não nos «possuíssemos» a nós mesmos? Ninguém dá o que não tem. Se bem que a mortificação corporal valha por si mesma como expiação das nossas faltas, completando na nossa carne «o que falta à Paixão de Cristo», deve ir acompanhada do domínio do entendimento e da vontade.

Da fraqueza da vontade conhecemos bastante: a preguiça, o comodismo, os desânimos, os atractivos da luxúria, a inércia… Facilmente reconhecemos a necessidade de superar a moleza de carácter, até porque as exigências diárias no-lo impõem. Mas o entendimento? Que significa mortificar a razão?

Significa, por exemplo, vencer a preguiça mental. Não só o estudante, concentrando-se nos livros; mas o empresário, nos números; o investigador, nos dados; o artista, nos acabamentos; enfim, vencer ignorâncias, imprevisões, imprecisões… E pensar com rigor, sem se deixar levar por meras impressões ou sentimentos. Na verdade, como dizia com ironia Maritain, «há pessoas a quem o coração subiu à cabeça… para disfarçar certa ausência». Tal deformação intelectual, infelizmente, é tentação comum. Hoje chama-se a essa atitude (ir)racional o falar «politicamente correcto»: não dizer o que se sabe ou pensa, mas o que está de moda; e, em vez de formação, conhecimento e critério, a mera «informação» dispersa e caótica dos «media».

Talvez o maior perigo do entendimento é o receio de sentir-se só; o medo da «maioria»; o temor de desagradar… até por sermos agradáveis, construtivos, optimistas – se o que está de moda é o contrário.

Estudar os problemas, formar opiniões pessoais sérias, ou limitar as nossas opiniões aos dados de que dispomos, reconhecer o que ignoramos, rectificar os nossos erros, falar em consciência (o que por vezes se traduz em calar-nos), respeitar (verdadeiras) autoridades em cada matéria – eis um grande campo de mortificação do entendimento.

No domínio da fé e da moral dispomos de «bases de dados» excelentes: o Evangelho, o Credo, o Catecismo, todos os Concílios, a Liturgia, os ensinamentos do Romano Pontífice… Como o Santo Padre recordava aos teólogos em Dezembro passado: «Nenhuma teologia é tal se não estiver integrada na vida e se não for reflexão da Igreja através do tempo e do espaço. Sim, é verdade que, para ser científica, a teologia deve argumentar de modo racional, mas também deve ser fiel à natureza da fé eclesial: centrada em Deus, radicada na oração, numa comunhão com os outros discípulos do Senhor, garantida pela comunhão com o Sucessor de Pedro e com todo o Colégio episcopal».

 


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