2º Domingo do Advento

5 de Dezembro de 2010

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Preparai os caminhos do Senhor, M. Carneiro, NRMS 95-96

cf. Is 30, 19.30

Antífona de entrada: Povo de Sião: eis o Senhor que vem salvar os homens. O Senhor fará ouvir a sua voz majestosa na alegria dos vossos corações.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Neste segundo Domingo do Advento, a Liturgia da Igreja, pela voz de João Baptista, convida-nos a preparar os caminhos do Senhor, para que Jesus possa nascer nas nossas vidas, nos nossos lares, nos nossos ambientes.

Ao iniciarmos esta celebração, examinemos a nossa consciência para descobrirmos os caminhos que precisamos de endireitar nos nossos procedimentos (pausa)

Arrependidos, confessemos que somos pecadores.

 

Oração colecta: Concedei, Deus omnipotente e misericordioso, que os cuidados deste mundo não sejam obstáculo para caminharmos generosamente ao encontro de Cristo, mas que a sabedoria do alto nos leve a participar no esplendor da sua glória. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Neste Advento continuamos a ouvir o grande profeta messiânico do séc VIII antes de Cristo, Isaías. Ela fala que é da raiz de Jessé, o pai do rei David, que surgirá o Salvador. Ele unirá todos os povos sob uma única bandeira.

 

Isaías 11, 1-10

Naquele dia, 1sairá um ramo do tronco de Jessé e um rebento brotará das suas raízes. 2Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Deus. 3Animado assim do temor de Deus, não julgará segundo as aparências, nem decidirá pelo que ouvir dizer. 4Julgará os infelizes com justiça e com sentenças rectas os humildes do povo. Com o chicote da sua palavra atingirá o violento e com o sopro dos seus lábios exterminará o ímpio. 5A justiça será a faixa dos seus rins e a lealdade a cintura dos seus flancos. 6O lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir. 7A vitela e a ursa pastarão juntamente, suas crias dormirão lado a lado; e o leão comerá feno como o boi. 8A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora. 9Não mais praticarão o mal nem a destruição em todo o meu santo monte: o conhecimento do Senhor encherá o país, como as águas enchem o leito do mar. 10Nesse dia, a raiz de Jessé surgirá como bandeira dos povos; as nações virão procurá-la e a sua morada será gloriosa.

 

O texto da leitura é um dos mais belos poemas do messianismo davídico, e uma das mais notáveis profecias messiânicas de todo o A.T.; faz parte do chamado «Livro do Emanuel», sete capítulos de Isaías de singular densidade messiânica (Is 6 – 12).

1 «Jessé» (Yixái, na Bíblia hebraica) é o pai de David, o «tronco» que deu origem a um «rebento», um ramo, que é o Messias, Jesus Cristo.

2 «Sobre ele repousará o Espírito do Senhor» (cf. Mt 3, 16; Lc 4, 18). Neste texto fundamenta-se o número septenário da Teologia dos dons do Espírito Santo. Podia alguém estranhar que na tradução não se fale do «espírito de piedade», como na tradução dos LXX e na Vulgata. Mas a letra do original hebraico (sem variantes) não regista a «piedade», tendo sido seguido pela Neovulgata e pela nossa tradução litúrgica. No entanto o suposto acrescento (para se obter o número 7, número de plenitude) da tradução grega dos LXX e da latina de S. Jerónimo não é arbitrário; com efeito, há no original hebraico uma repetição do «temor de Deus», nos vv. 2 e 3, e o termo hebraico «yiráh» tanto pode significar «reverência» como «temor», e daí a tradução no v. 2 por «piedade» e no v. 3 por «temor». Como o espírito do temor de Yahwéh de que aqui se fala é sem dúvida o do temor filial, pode considerar-se legítimo o desdobramento ou explicitação feita pelo tradutor grego dos LXX (que alguns antigos e modernos consideram inspirado), no que foi seguido por S. Jerónimo, na Vulgata.

5 A figura da «faixa» e da «cintura» é um hebraísmo com que se designa a actividade, uma vez que estas se costumam usar para cingir a roupa a fim de se trabalhar mais expeditamente. A expressão corresponde pois a dizer que o Messias «actuará com justiça e lealdade».

6-9 A paz que trará o Messias é descrita deste modo paradisíaco e idílico tão belo, diríamos que ideal e utópico. No entanto, a paz que Cristo traz aos corações e à própria Humanidade supera o que as imagens fazem supor: é «um rio de paz» (cf. Is 66, 12).

10 «A raiz de Jessé», isto é, o Messias, descendente do rei David, filho de Jessé, unirá todos os povos sob um único estandarte, daí o chamar-lhe a «bandeira dos povos» (gentios), que serão atraídos («virão procurá-la») a Cristo na sua Igreja.

 

Salmo Responsorial    Salmo 71 (72), 2.7-8.12-13.17 (R. cf. 7)

 

Monição: O salmo 71 (72 na contagem da Bíblia hebraica) refere-se aos tempos do Messias, como tempos de bênção para toda a humanidade.

 

Refrão:        Nos dias do Senhor nascerá a justiça e a paz para sempre.

 

Ó Deus, dai ao rei o poder de julgar

e a vossa justiça ao filho do rei.

Ele governará o vosso povo com justiça

e os vossos pobres com equidade.

 

Florescerá a justiça nos seus dias

e uma grande paz até ao fim dos tempos.

Ele dominará de um ao outro mar,

do grande rio até aos confins da terra.

 

Socorrerá o pobre que pede auxílio

e o miserável que não tem amparo.

Terá compaixão dos fracos e dos pobres

e defenderá a vida dos oprimidos.

 

O seu nome será eternamente bendito

e durará tanto como a luz do sol;

nele serão abençoadas todas as nações,

todos os povos da terra o hão-de bendizer.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A 2ª leitura, que é tirada da parte final da epístola aos Romanos, contém um forte apelo à esperança que nos vem das promessas de Deus; estas exigem paciência mas enchem-nos de consolação.

 

Romanos 15, 4-9

Irmãos: 4Tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, tenhamos esperança. 5O Deus da paciência e da consolação vos conceda que alimenteis os mesmos sentimentos uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, 6para que, numa só alma e com uma só voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. 7Acolhei-vos, portanto, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus. 8Pois Eu vos digo que Cristo Se fez servidor dos judeus, para mostrar a fidelidade de Deus e confirmar as promessas feitas aos nossos antepassados. 9Por sua vez, os gentios dão glória a Deus pela sua misericórdia, como está escrito: «Por isso eu Vos bendirei entre as nações e cantarei a glória do vosso nome».

 

A leitura é um pequeno trecho da 2ª parte, a parte moral, final da Epístola (Rom 12 – 16), que termina apresentando o exemplo de Cristo, feito «servidor» de todos, judeus e gentios; para com os judeus mostrando a fidelidade divina (v. 8) e para com os gentios mostrando a sua misericórdia (v. 9).

4 S. Paulo acentua o valor e utilidade da Sagrada Escritura, como em 2 Tim 3, 16. A sua leitura e meditação produz frutos muito concretos: «a paciência» e a «consolação», que levam a manter firme a «esperança» em Deus.

 

Aclamação ao Evangelho        Lc 3, 4.6

 

Monição: Aclamamos o Senhor, que nos vai falar no Evangelho, através de João, o último dos profetas que anunciaram a chegada do Jesus Salvador.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Simões, NRMS 9(II)

 

Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas

e toda a criatura verá a salvação de Deus.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 3, 1-12

1Naqueles dias, apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia, 2dizendo: «Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus». 3Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». 4João tinha uma veste tecida com pêlos de camelo e uma cintura de cabedal à volta dos rins. O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre. 5Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão; 6e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. 7Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu baptismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? 8Praticai acções que se conformem ao arrependimento que manifestais. 9Não penseis que basta dizer: ‘Abraão é o nosso pai’, porque eu vos digo: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. 10O machado já está posto à raiz das árvores. Por isso, toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo. 11Eu baptizo-vos com água, para vos levar ao arrependimento. Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e não sou digno de levar as suas sandálias. Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. 12Tem a pá na sua mão: há-de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro. Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga».

 

Os quatro Evangelhos coincidem em que a pregação de Jesus é precedida de uma preparação do povo com a pregação de João Baptista, como o último dos profetas que anuncia imediatamente a vinda de Jesus. A referência ao local onde pregava – «no deserto» – não parece ser uma simples indicação topográfica, mas parece ir mais longe, com a alusão ao lugar onde teve início o antigo povo de Deus, com a aliança do Sinai. De qualquer modo, o deserto da Judeia não significa uma zona literalmente desértica, mas uma região árida e de pouca vegetação. Não é descabido pensar que João, de família sacerdotal, tivesse aderido ao movimento renovador dos essénios.

2 «Arrependei-vos». O texto original também se podia traduzir por convertei-vos, isto é, mudai o coração, mudai o pensar (metanoeîte); não se trata de um mero mudar de rumo na vida, mas duma atitude interior de sincero arrependimento, a atitude de quem se reconhece pecador e humildemente vai rectificar, mesmo à custa de sacrifício (penitência); daí a tradução da Vulgata e da Neovulgata (poenitentiam agite).

«Reino dos Céus», expressão habitual em S. Mateus, equivalente a Reino de Deus, mas evitando pronunciar o nome inefável de Deus. «Está perto o reino…», isto é, uma especialíssima intervenção salvadora de Deus, para estabelecer o seu soberano domínio misericordioso, que libertará o homem da escravidão do pecado, do demónio e da morte. Este reino, ou reinado de Deus, manifesta-se na palavra, obra e sobretudo na própria Pessoa de Cristo, que é quem o vem realizar no grau mais elevado e mais puro, sem as excrescências materialistas do nacionalismo teocrático (como pensavam os judeus contemporâneos do Senhor). Mas o reino de Deus só terá a sua perfeita consumação quando Jesus Cristo vier pela segunda vez no fim dos tempos (cf. 1 Cor 15, 24). Neste tempo intermédio, entre as duas vindas do Senhor, a Igreja é já o reino de Deus, enquanto que é a comunidade salvífica, presença sacramental de Cristo a congregar e conduzir os homens à salvação eterna (cf. Vaticano II, LG 5).

3 «Uma voz daquele que clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor...’». Segundo o texto de Isaías, aquele que clama é o Profeta, um arauto de Deus (uma figura do Baptista), a incitar a abrir o caminho do regresso do exílio, um caminho de Deus, isto é, um caminho que Deus proporciona ao seu povo que Ele quer reconduzir e salvar. Este regresso é concebido como um novo Êxodo, daí a referência ao deserto, noção muito rica: lugar privilegiado de encontro com Deus, de aliança, de purificação, de desinstalação, de preparação para a entrada na terra prometida. Por isso era também no deserto que os essénios de Qumrã e de outros lugares se preparavam naqueles tempos para a vinda do Messias; no deserto pregava João e para o deserto se retirou Jesus no início da sua vida pública.

4-5 Nunca se diz que João vestia uma pele de camelo, como às vezes se pensa, mas que se vestia com «pêlos (ou lã) de camelo». O mel silvestre não parece ser mel de abelhas selvagens, mas algum insípido melaço segregado por plantas daquela zona, talvez da tamargueira, abundante junto a Jericó, nas margens do Jordão, onde João baptizava. A pregação de João, o seu estilo de vida e até a própria apresentação à maneira do profeta Elias (cf. 2 Reis 1, 8) eram de molde a produzir tal impacto que arrastava as multidões, como também atesta um autor judeu da época (Flávio José, Antiquitates, 18, 5,2).

11 O baptismo de João não tinha a força de produzir na alma a graça da justificação e só valia enquanto punha em evidência as boas disposições do sujeito e as confirmava, ajudando as pessoas a disporem-se para a iminente chegada do Messias. O Baptismo de Jesus é «no Espírito Santo e em fogo»: tem a virtude de produzir a graça pela acção de Cristo no sujeito e não pelos méritos de quem o recebe ou administra. O fogo parece ser antes uma imagem da eficácia purificadora e renovadora do Espírito Santo na alma do baptizado. Autores há que pensam que talvez o Baptista se movesse num plano veterotestamentário, não designando o Baptismo de água, mas uma grande efusão do Espírito Santo para os que se arrependessem e um fogo condenatório (v. 12) para os impenitentes. Isto não parece tão provável, nem é tão óbvio. Note-se que nem o baptismo de João, nem o de Jesus aparecem como algo estranho ou chocante: inseriam-se nos costumes diários dos Judeus que praticavam muitas abluções rituais, nomeadamente o baptismo dos prosélitos, que da gentilidade abraçavam o judaísmo.

 

Sugestões para a homilia

1.  Deus revela-se aos homens

No passado Domingo considerámos o homem à procura de Deus, com um desejo de Deus a palpitar-lhe no coração. É esse desejo que nos impele à procura do único que pode saciar a nossa sede de felicidade, numa procura às apalpadelas, tantas vezes por caminhos errados.

Acabámos de ouvir no Evangelho: «está perto o Reino dos Céus». É assim que vamos considerar hoje como é o próprio Deus que vem à nossa procura. Ele não se contentou de nos criar com essa atracção para Ele, pois Ele mesmo se manifestou – revelou-se –, vindo ao nosso encontro e de diversos modos.

Através das maravilhas da Criação, Deus se manifesta aos homens de todos os tempos, fazendo-os conhecer a sua bondade e as suas perfeições, sobretudo no ser humano – imagem e semelhança de Deus –, a criatura que, em maior grau, deixa ver e revela o Autor desta criatura tão maravilhosa.

No entanto, Deus quis revelar-se como um Ser pessoal, que ama o homem, a quem dotou da capacidade de se relacionar com o seu Criador. Foi assim que, através duma história de salvação, Ele criou e educou um povo, entre todos os outros povos, ao qual se manifestou dirigindo-lhe a sua palavra através de uns homens que Ele dirigiu e inspirou: os Profetas de Israel. Neste tempo do Advento temos como primeira leitura textos dum dos grandes profetas escritores, Isaías. 

Deus vai-se revelando de modo gradual e progressivo, em ordem à sua máxima manifestação. Assim, foi preparando os homens, por etapas, para Ele mesmo se manifestar, ao vir do Céu à terra. Por meio de Jesus, é então que ficamos a saber quem e como é Deus, qual o mistério da sua vida, e qual o projecto do Pai: enviar à terra o seu Filho para dar a vida pelos nossos pecados e para nos adoptar como seus filhos, reunindo-nos na sua Igreja, a fim de participarmos da sua própria vida divina, por meio do Espírito Santo.

Jesus Cristo é a revelação plena e definitiva de Deus, por isso já não se pode esperar que Deus diga à humanidade uma nova revelação. Já ficámos a saber quem é Deus e quem somos nós, qual o sentido da vida e da morte, o modo de corresponder ao projecto amoroso de Deus que Ele tem para nos dar a salvação eterna.

A fé é a resposta positiva que uma pessoa dá à revelação que Deus nos faz; a fé é uma adesão pessoal a Deus em Cristo, motivada pelas suas palavras e pelas obras que Ele realiza. Com efeito, as verdades que Deus nos revela não são contrárias à razão, mas ajudam-na a ir mais longe na busca da verdade. Embora o que Deus nos revela seja muitas vezes superior à razão e incompreensível, é sumamente credível.

É certo que a fé cristã não pode aceitar «revelações» que pretendam apresentar-se como melhores ou mais completas do que a Palavra de Cristo, tal como pretendem algumas religiões e certas seitas modernas. Contudo a Igreja aceita – mas não impõe – certas «revelações particulares», na medida em que elas possam ajudar a viver melhor a Revelação trazida por Cristo, como, por exemplo, Parais le Monial, Lourdes, Fátima, etc.

2.  A transmissão da Revelação divina

Como ensina o Concílio Vaticano II, «Deus quis que aquilo que Ele tinha revelado para a salvação de todos os povos se conservasse para sempre íntegro e fosse transmitido a todas as gerações» (DV 7). Foi por isso que Jesus mandou aos seus Apóstolos que pregassem o Evangelho aos homens de todos os tempos e lugares. Eles pregaram-no, inspirados pelo Espírito Santo; este encargo realizaram-no de dois modos:

Oralmente (uma transmissão viva até ao fim dos tempos: é a Tradição)

E por escrito (eles e outros colaboradores da sua geração: é a Sagrada Escritura, os livros da Bíblia)

Por sua vez os Apóstolos, para que o Evangelho se conservasse sempre vivo e íntegro, deixaram os Bispos como seus sucessores, «entregando-lhes o seu ofício de magistério» (DV 7). «Esta pregação apostólica, que se exprime dum modo especial nos livros inspirados da Bíblia, tem de se conservar até ao fim dos tempos», não podendo vir a ser alterada (DV 8).

São, portanto, dois os meios pelos quais se transmite a Palavra de Deus (a Revelação divina), a saber: a Tradição Apostólica e a Sagrada Escritura. Ambas estão intimamente unidas e compenetradas entre si, formando como um todo. Daí resulta que a Igreja, a quem está confiada a transmissão e interpretação da Revelação divina «não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito das coisas reveladas, por isso ambas devem ser recebidas e veneradas com igual respeito de piedade e reverência» (DV 9).

Mas não devemos confundir «Tradição apostólica» (a que os Apóstolos receberam de Jesus e do Espírito Santo) com tradições eclesiais (teológicas, disciplinares, litúrgicas, devocionais, nascidas com o correr do tempo nas várias Igrejas locais). Só à luz da grande Tradição, é que estas tradições têm valor.

3. A interpretação da herança da fé

Como vemos, a Palavra de Deus não se reduz à Bíblia, como entendeu o protestantismo e hoje advogam as seitas. A «herança sagrada» da fé (o chamado o depósito da fé), contida na santa Tradição e na Sagrada Escritura, foi confiada pelos Apóstolos ao conjunto da Igreja. Mas «o encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo» (DV 10), isto é, aos Bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o Bispo de Roma. Mas este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço.

Chamamos dogmas da fé àquelas verdades contidas na Revelação divina, ou tendo com elas um nexo necessário, que o Magistério declara como tais, de modo que obriga todo o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé.

Na vida da Igreja dá-se o crescimento na inteligência da fé, graças à assistência do Espírito Santo. Como diz o Catecismo da Igreja Católica, nº 66, «apesar de a Revelação já estar completa, ainda não está plenamente explicitada. E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance, no decorrer dos séculos». Assim, os factores de desenvolvimento do dogma são os mesmos que fazem progredir a Tradição viva da Igreja, a saber: a pregação dos Bispos, o estudo dos fiéis, a oração e a meditação da palavra de Deus, a experiência das coisas espirituais, o exemplo dos santos.

4. A Sagrada Escritura, como testemunho da Revelação

 O projecto divino de salvação pregado pelos antigos profetas de Israel veio a ser posto por escrito, sob inspiração e mandato de Deus. Ao longo dos séculos o povo de Israel registou por escrito o testemunho da Revelação de Deus na sua história. E é assim que temos os livros do Antigo Testamento: 21 livros chamados históricos, 7 livros sapienciais ou didácticos e 18 livros ditos proféticos (ao todo 46 livros). 

Por outro lado, os Apóstolos e os primeiros discípulos também registaram, por escrito, o testemunho da Revelação de Deus feita por Jesus Cristo, o Filho Eterno de Deus, de cuja passagem pela Terra eles foram as primeiras testemunhas, de modo particular, no que se refere ao mistério da sua Morte e Ressurreição. Foi assim que surgiram os livros do Novo Testamento: os Quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), os Actos dos Apóstolos, as 14 Cartas paulinas, mais outras 7 Cartas ditas Católicas e o livro do Apocalipse (ao todo 27 livros).

Para a redacção de todos estes livros sagrados, como ensina o Concílio Vaticano II, Deus «escolheu e serviu-se de homens, na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo Ele neles e por meio deles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria» (DV 11). Ao ser inspirada por Deus, a Sagrada Escritura é Palavra de Deus. Por isso, São Paulo nos diz na segunda leitura de hoje que «tudo o que foi escrito no passado foi escrito para a nossa instrução» (Rom 15, 4).

5. Como entender e interpretar a Sagrada Escritura

Para compreender correctamente a Sagrada Escritura é preciso ter presente o seu sentido, não só o literal mas também o espiritual, assim como os diversos géneros literários em que foram redigidos estes livros sagrados. Em particular, a Sagrada Escritura deve ser lida na Igreja, ou seja, à luz da sua tradição viva e da analogia da fé. A Escritura deve ser lida e compreendida de acordo com o mesmo Espírito com que foi escrita, mas não pelo que vem à cabeça do leitor.

Os diversos estudiosos que se esforçam por interpretar e aprofundar o conteúdo da Escritura propõem os seus resultados a partir da sua autoridade científica. Mas é ao Magistério da Igreja que compete a função de formular uma interpretação autêntica, baseada na autoridade do Espírito Santo, que assiste ao Romano Pontífice e aos Bispos em comunhão com ele. Graças a esta assistência divina, a Igreja, já desde os primeiros séculos, reconheceu como inspirados por Deus os livros que continham o testemunho da Revelação, no Antigo e no Novo Testamento, formulando assim o chamado «cânone», isto é, a lista completa dos livros da Sagrada Escritura.

Que o nosso itinerário do Advento nos leve a apreciar mais a Palavra de Deus na Tradição da Igreja e na Sagrada Escritura, que cada dia devemos ler e meditar, metendo-nos dentro dela. Assim tomaremos mais a sério o apelo do Evangelho de hoje: «Preparais o caminho do Senhor».

 

Fala o Santo Padre

 

«Seremos avaliados com base na nossa semelhança ou não com o Menino que está para nascer em Belém.»

 

Queridos irmãos e irmãs!

[…] Hoje, segundo domingo do Advento, a liturgia apresenta-nos a figura austera do Precursor, que o evangelista Mateus introduz assim: "Naqueles dias, apareceu João, o Baptista, a pregar no deserto da Judeia. 'Arrependei-vos, dizia, porque está próximo o reino dos céus'" (Mt 3, 1-2). A sua missão foi a de preparar e aplanar o caminho diante do Messias, chamando o povo de Israel a arrepender-se dos próprios pecados e a corrigir toda a iniquidade. Com palavras exigentes João Baptista anunciava o juízo iminente: "Toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo" (Mt 3, 10). Sentia sobretudo a hipocrisia de quem se julgava preservado unicamente pelo facto de pertencer ao povo eleito: diante de Deus dizia ninguém tem títulos dos quais se orgulhar, mas deve levar "frutos dignos de arrependimento"(Mt 3, 8).

Enquanto prossegue o caminho do Advento, enquanto nos preparamos para celebrar o Natal de Cristo, ressoa nas nossas comunidades esta chamada de João Baptista à conversão. É um convite urgente a abrir o coração e a acolher o Filho de Deus que vem entre nós para manifestar o juízo divino. O Pai escreve o evangelista João não julga ninguém, mas confiou ao Filho o poder de julgar, porque é Filho do homem (cf. Jo 5, 22.27). E é hoje, no presente, que se decide o nosso destino futuro; é com o comportamento concreto que temos nesta vida que decidimos o nosso destino eterno. No findar dos nossos dias na terra, no momento da morte, seremos avaliados com base na nossa semelhança ou não com o Menino que está para nascer na pobre gruta de Belém, porque é Ele o critério de medida que Deus deu à humanidade. O Pai celeste, que no nascimento do seu Filho Unigénito nos manifestou o seu amor misericordioso, chama-nos a seguir os seus passos fazendo, como Ele, das nossas existências um dom de amor. E os frutos do amor são "dignos de arrependimento" aos quais faz referência São João Baptista, enquanto com palavras pungentes se dirige aos fariseus e aos saduceus que acorreram, entre a multidão, ao seu baptismo.

Mediante o Evangelho, João Baptista continua a falar através dos séculos, a cada geração. As suas palavras claras e duras ressoam saudáveis como nunca para nós, homens e mulheres do nosso tempo, no qual também o modo de viver e compreender o Natal ressente infelizmente, com muita frequência, de uma mentalidade materialista. A "voz" do grande profeta pede que preparemos o caminho ao Senhor que vem, nos desertos de hoje, desertos exteriores e interiores, sequiosos da água viva que é Cristo. Guie-nos a Virgem Maria a uma verdadeira conversão do coração, para que possamos fazer as opções necessárias para sintonizar as nossas mentalidades com o Evangelho.

 

Papa Bento XVI, Angelus, 9 de Dezembro de 2007

 

Oração Universal

 

Irmãs e irmãos caríssimos: O caminho da humanidade é Cristo,

e o caminho de Cristo é a humanidade.

Oremos por todos os homens e mulheres, dizendo (ou: cantando), com fé:

R.  Vinde, Senhor Jesus.

Ou: Ouvi-nos, Senhor.

Ou: Vinde, Senhor, e salvai-nos.

 

1.   Pelo Papa Bento XVI, e pelos bispos, presbíteros e diáconos,

pelos fiéis cristãos de toda a terra

e pelos catecúmenos que se abrem à Boa Nova, oremos, irmãos.

 

2.   Pelos Judeus e pelos Muçulmanos,

pelos profetas que anunciam a Palavra

e pelos pecadores que se arrependem dos seus pecados, oremos, irmãos.

 

3.  Pelos catequistas, pelas crianças e pelos jovens,

pelos adultos e pelos animadores dos nossos grupos,

e pelos que acolhem os outros à maneira de Cristo, oremos, irmãos.

 

4.  Pelos que fazem conviver o lobo e o cordeiro,

pelos que têm gestos de paz e de perdão,

pelos doentes, os desalojados e os infelizes, oremos, irmãos.

 

5.  Pelos que preparam os caminhos do Senhor,

pelos que trabalham pela justiça e a igualdade,

por nós próprios e pela nossa conversão,

oremos, irmãos.

 

Senhor, nosso Deus, que tornais possíveis todas as coisas e quereis instaurar no mundo a paz,

dai-nos a graça de viver com alegria a novidade trazida por Jesus Cristo, vosso Filho.

Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Para Vós Senhor, B. Salgado, NRMS 4 (I)

 

Oração sobre as oblatas: Olhai benignamente, Senhor, para as nossas humildes ofertas e orações e, como diante de Vós não temos méritos, ajudai-nos com a vossa misericórdia. Por Nosso Senhor...

 

Prefácio do Advento I: p. 453 [586-698] ou I/A p. 454

 

Santo: Santo I, H. Faria, NRMS 103-104

 

Monição da Comunhão

 

«Está perto o Reino dos Céus», ouvíamos no Evangelho. É o reinado de Jesus nos nossos corações, que nunca pode estar tão perto como quando O podemos receber na Sagrada Comunhão.

 

Cântico da Comunhão: Povos que caminhais, J. Santos, NRMS 64

Bar 5, 5; 4, 36

Antífona da comunhão: Levanta-te, Jerusalém, sobe às alturas e vê a alegria que vem do teu Deus.

 

Cântico de acção de graças: O Anjo do Senhor, M. Simões, NRMS 31

 

Oração depois da comunhão: Saciados com o alimento espiritual, humildemente Vos pedimos, Senhor, que, pela participação neste sacramento, nos ensineis a apreciar com sabedoria os bens da terra e a amar os bens do Céu. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Vamos caminhar a sério para um Natal Feliz, estimulados não simplesmente pela propaganda comercial, mas pela Palavra de Deus que meditámos e pela força que o Senhor nos comunica na Eucaristia.

 

Cântico final: O Senhor virá governar, F. da Silva, NRMS 7 (II)

 

 

Homilias Feriais

 

2ª SEMANA

 

2ª Feira, 6-XII: Maravilhas da actuação do Messias.

Is 35, 4-7 / Lc 5, 17-26

Então os olhos dos cegos hão-de abrir-se, e descerrar-se os ouvidos dos surdos. Então o coxo saltará de alegria.

Conforme é anunciado pelo profeta, a vinda do Messias proporcionará acontecimentos extraordinários (Leit.). E, ao ver Jesus actuar, todos exclamavam: «Vimos hoje maravilhas» (Ev.) E a maior maravilha foi o perdão dos pecados e a cura de um paralítico.

Peçamos a Jesus que cure as nossas paralisias: ausência de sacramentos e vida de oração, pouca ajuda na vida familiar e no trabalho, etc. E também que perdoe os nossos pecados, abeirando-nos do sacramento da Penitência.

 

3ª Feira, 7-XII: Reaproximação ao bom Pastor.

Is 40, 1-11 / Mt 18, 12-14

Olhai que o Senhor Deus vai chegar com poder… É como o bom pastor que apascenta o seu rebanho.

De acordo com a palavra do profeta, o Messias será o bom Pastor que cuida de todas as ovelhas do seu rebanho (Leit.). E Jesus exercitará essa tarefa, procurando que todo o seu rebanho se salve: «não é da vontade de meu Pai que se perca um único destes pequeninos» (Ev.).

Sendo pecadores, afastamo-nos do caminho. Mas o Senhor vem à nossa procura. Não fujamos daquilo que nos pode custar mais: a confissão, a oração, o defeito mais importante, a ajuda ao próximo, etc. É altura de uma nova conversão.

 

 

 

 

 

 

Celebração, homilia e nota exegética:       Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                                          Nuno Romão

Sugestão Musical:                                        Duarte Nuno Rocha

 


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