TEMAS LITÚRGICOS

O CORO NA LITURGIA

 

 

1. Uma das causas da decadência da música litúrgica, nos anos que se seguiram imediatamente ao Concílio, foi a despromoção e desvitalização de muitos Coros. A assembleia é que devia cantar, clamavam alguns. E o que cantariam? – era a questão.

 

2. Certo é que alguns Coros, antes do Concílio, foram o eco e o baluarte de uma decadência musical e litúrgica insustentável, suficientemente descrita. Abandonados, então, a si mesmos, sem orientação doutrinal e espiritual, foram adquirindo uma autonomia descomedida e desajustada, e afastaram-se progressivamente da sua natureza e finalidade. Fecharam-se, em si mesmos, porque nem os melhores foram capazes de se adaptar à «nova vaga».

 

3. Por outro lado, para ocupar o vazio deixado pelo Coro, surgiram as «vedetas» que, entrando, não pela porta, conduzidos por uma pretensa tendência pastoral, trouxeram a «nova música» que o povo não entendia, é certo, mas que aguentava com o argumento da «mudança», da «renovação». É verdade que vinham cheios de entusiasmo e cativaram os mais jovens, não para a liturgia, mas para a «sua música». Se a situação não era, em muitos casos, famosa, tornou-se deplorável, quer do ponto de vista cultural, quer, sobretudo, do ponto revista espiritual. Para testemunho dessa época, restam ainda, por aí, alguns «fósseis de viola e pandeireta», pálidas réplicas comerciais, fazendo negócios, particularmente em casamentos. Queiramos ou não, a cultura tem uma influência decisiva na espiritualidade, como documenta a história, a que certo imediatismo pastoral não tem tido na devida conta (observe-se o que se passa nas nossas catequeses).

 

4. Importa ainda acrescentar que o impulso inicial da reforma litúrgica teve, entre nós, uma expressão redutora. Sob a pressão do canto da assembleia, fez-se tábua rasa de toda a tradição musical da Igreja e promoveu-se um género de música rudimentar e ingénua a modelo exclusivo de música litúrgica. Ainda, hoje, permanecemos tributários de tal prática e mentalidade. Ora, como se compreende, tal forma de encarar a música litúrgica é desmotivadora de uma séria e empenhativa actividade coral. O juízo acertado nunca terá por objecto o fácil ou o difícil e, muito menos, o alegre ou o triste, mas o verdadeiro e o falso, o efeito ou a substância, o sentimento ou a sensibilidade.

 

5. Pelo contrário, a reforma litúrgica proposta pelo Concílio não estabeleceu, nem de nenhum modo desejou que acabasse o Coro na liturgia. A determinação foi bem mais clara e terminante: «assidue provehantur» (promovam-se incessantemente – SC. 114), interpretada autenticamente pela Instrução Musicam Sacram deste modo: «O Coro – ou "Capella musical" ou "Schola Cantorum" – merece uma atenção especial pelo ministério litúrgico que desempenha. A sua função, segundo as normas dos Concílio relativas à renovação litúrgica, alcançou agora uma importância e um peso maiores... Ter-se-á um Coro, ou "Capella", ou "Schola Cantorum", e dele se cuidará com diligência, sobretudo nas Catedrais e outras Igrejas maiores, nos seminários e nas Casas de estudo dos religiosos. É igualmente oportuno estabelecer tais Coros, mesmo modestos, nas igrejas pequenas» (Musicam sacram, cf. n.º 19).

 

6. O Coro saiu reabilitado. O Concílio desejou que ele permanecesse o garante da oração cantada da assembleia. Repetindo, incessantemente, o velho axioma, «bis orat qui bene cantat» (quem canta bem reza duas vezes), a Igreja soube reconhecer que a sua concretização não era viável sem instituir o ministério do Coro. Deste modo, o ministério do Coro foi tido como indispensável (assim o entenderam sempre as liturgias orientais), nos parâmetros que nos foram deixados, desde longas eras (pelo menos, a partir do séc. IV), pela tradição litúrgica e musical da Igreja. A ele pertence manter o estilo próprio do canto litúrgico e a sua qualidade artístico-espiritual. Não outras expressões (em si legítimas) que nada tenham a ver com a tradição da Igreja: sejam o folclore, o fado e outras sem tempo nem lugar, despropositadas mas não sem propósito, que quem tem autoridade na Igreja permite ou admite.

   

Cada comunidade deve, por isso, estimar o seu Coro litúrgico e os pastores deverão proporcionar-lhe os meios necessários para realizar convenientemente o seu ministério, apoiando-o com uma exigente preparação, por mestres escolhidos e aptos, e por uma oportuna e adequada formação e orientação espiritual.

 

SDL

 

Por deferência de

 

Voz Portucalense, 29.09.10, pág. 12

 


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