JOÃO  PAULO  ii

O PAPA DOS JOVENS

 

 

Alexandrina Marques

Viana do Castelo

 

 

Tive a graça de participar nas Jornadas Mundiais da Juventude de Paris (1997), Roma (2000) e Toronto (2002). Isto é, nas últimas três Jornadas Mundiais da Juventude a que presidiu João Paulo II. E posso testemunhar que, quanto mais idoso, mais atraente e jovem de coração, mais nos electrizava o seu olhar num rosto cansado, as suas mãos vagarosas que batiam o compasso dos hinos da JMJ.

 

Este é o João Paulo II que eu e a minha geração guardamos na memória e no coração, como num relicário. Não podíamos estar mais felizes por saber que a Igreja já o proclama Venerável e que o seu processo de beatificação avança rapidamente. Quem sabe não venha a ser beatificado em Madrid 2011?!

A sua pastoral juvenil, porém, não se restringe às Jornadas Mundiais. Desde os seus primeiros dias de padre, na sua amada Cracóvia, onde foi vigário paroquial e confessor, dedicava muito tempo ao diálogo pastoral com os jovens. Como professor, foi também capelão na Universidade de Lublin, e os seus acampamentos e semanas de montanhismo ficaram famosas entre os seus alunos que, carinhosamente, lhe chamavam «Tio Karol» e não «Padre Karol». Como arcebispo e cardeal de Cracóvia, continuou a manter uma atenção privilegiada à juventude pois temia muito pela sua formação humana e espiritual tão ameaçada pelo regime comunista. Conta-se mesmo que, quando foi chamado pelo arcebispo de Cracóvia para lhe comunicar a sua nomeação como bispo auxiliar, estava numa caminhada com jovens, e teve que deixar o grupo diante de um tão urgente pedido de regresso e outro transporte não teve que a boleia de um camionista. Informal, anti-protocolar, sempre imprevisível…

Eleito Papa em 1978, lançou sempre um olhar prioritário aos jovens (por estranho que pareça, uma das poucas memórias infantis que guardo é essa: tinha cinco anos e a TV, ainda a preto e branco, mostrou o fumo branco e um «novo papa» e a minha mãe disse que tinha acontecido algo muito importante). Testemunho claro dessa relação foram as suas visitas pastorais onde não dispensava os encontros com os jovens e ninguém esquece os que em Portugal ocorreram no Parque Eduardo VII e no Estádio do Restelo. O seu diálogo com os jovens conheceu um grande desenvolvimento a partir do Domingo de Ramos de 1985, quando escreveu a carta «Queridos jovens», de que não consigo esquecer a afirmação: «preocupo-me convosco, em vós eu e toda a Igreja somos jovens». A partir daí, todos os anos, antes da Semana Santa, nos dirigia uma Mensagem cheia de palavras profundas e afectuosas. Elas serviam para as nossas reuniões de jovens e, normalmente, as reflectíamos no encontro diocesano da Juventude.

É claro que as Jornadas Mundiais representam o ponto alto dessa sua acção. No texto que acompanhou o seu corpo ao túmulo ficou escrito: «o seu amor pelos jovens levou-o a iniciar as Jornadas Mundiais da Juventude, convocando milhões de jovens de várias partes do mundo» (rezar na Cripta dos Papas, há dois anos, junto do seu túmulo, foi um dos momentos mais preciosos da minha vida). Em Toronto, tivemos a sensação de que já não seria ele a estar em Colónia. De facto, recordo que não nos disse o habitual e esperado «até Colónia», mas limitou-se a dizer: «anuncio que as próximas Jornadas serão em Colónia, Alemanha, em 2005». Alguns pensámos que ele já não contava lá estar. Foi por pouco, mas, de facto, passou o testemunho a Bento XVI. Em nós permanecerá sempre essa fotografia de um Papa amigo dos jovens; que gostava de estar connosco, que nos dirigia palavras exigentes, que suportava as ofensas de quem o chamava antiquado e que perdoou mesmo a quem o tentou matar, do Papa do Jubileu que, na Praça de São Pedro nos perguntou: «quem viestes ver a Roma?», e que nos corrigiu, depois da nossa resposta: «Não, não foi ao Papa, foi a Jesus».

Nisso se resume a sua acção com os jovens: mostrar Jesus. Nas suas palavras, nos seus gestos simbólicos, eloquentes (e quando beijava o chão ao chegar a um país?!), na sua história de vida, sofrida e generosa, no seu sorriso e na sua última aparição pública, depois da traqueotomia que lhe roubou a voz e cuja imagem pungente ainda nos comove e arrepia, só de pensar (estava em Cabo Verde e lá decretaram também luto nacional). «Abri as portas a Cristo, não tenhais medo!». Ele deu o exemplo. Santo, subito! – ergueram nos cartazes uns jovens nas suas exéquias. Para nós, será sempre, o Papa amigo.


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