A  abrir

A  REALEZA  DE  CRISTO  NA  IGREJA

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

«A Igreja revê-se nos seus santos», afirmou há tempos o Santo Padre. Sim, a Igreja revê-se no próprio Cristo, sua Cabeça; em Maria, seu modelo; e em todos aqueles que atingiram a plena união com Cristo. «Vê-se» em todos os baptizados, por mais pecadores que sejam; mas não se «revê» nos simples dotes humanos de cada um, e menos ainda nos seus defeitos e pecados. Sendo a história da Igreja a história da «Humanidade redimida», na expressão de Agostinho, aqui só vemos a instituição humana (e divina) fundada por Cristo, na sua acidentada expansão pelo mundo e na maior ou menor fidelidade dos povos ao Evangelho. «Vemos» o sacramento da salvação; não os seus efeitos – excepto naqueles fiéis que manifestaram na vida uma caridade inexplicável sem a sua correspondência sincera e generosa à graça. E então, sim, a Igreja «revê-se» neles, ou seja, nos frutos do Espírito Santo produzidos nas suas almas. Pode dizer: eu sou isso. É certo que eu sou os padres e os bispos, os papas, os frades e os teólogos, e todos os que frequentam as igrejas… Isso é o meu corpo visível. Mas não me «revejo» senão na santidade dos meus fiéis.

«Na Cruz estava oculta a divindade…» Na Igreja militante também está oculta a divindade; «e contudo eu creio, e o confesso, que ambas – divindade e humanidade – aqui estão na realidade». Sei-o pela fé, que não engana, e «verifico-o» naqueles que, além de rogarem «venha a nós o vosso Reino», deixaram que efectivamente Cristo reinasse nas suas almas. O Reino de Cristo não é um reino político; é um «reino de santidade e de graça». A História da Igreja, portanto, também não é uma história política, ou sociológica; mas a inefável história da santidade e da graça.

Queixava-se há tempos uma famosa convertida da falta de acolhimento e autenticidade por parte de muitos que são cristãos desde quase o nascimento. Encomende-se ao santo Cardeal Newman, que tão maltratado foi pela própria hierarquia depois da conversão, e nem por um momento pôs em causa a sua fé. Nós não cremos na Igreja pelo comportamento dos cristãos, nem sequer pelos seus santos, mas sim por Nosso Senhor Jesus Cristo, que veio salvar-nos do pecado. Para entendermos a mensagem de Fátima o próprio Santo Padre nos fez ver que a perseguição à Igreja nasce com frequência do interior dela mesma, pela má conduta dos seus ministros… Não nos avisara o Mestre de que haveria sempre escândalos? Não tem sido assim desde os primeiros tempos? Ainda agora, não dedicou o Papa uma reunião de estudo, este Verão, sobre o perigo de ruptura eclesial, por uma falsa hermenêutica do Vaticano II?

Os que se aproximam da Igreja devem saber que não se aproximam do que vêem, de algo palpável, ardente, retumbante ou tenebroso, como diz o autor da Epístola aos Hebreus: «Vós aproximaste-vos da montanha de Sião e da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celeste e da multidão de muitos milhares de anjos, da assembleia dos primogénitos que estão inscritos nos céus, e dos espíritos dos justos que alcançaram a perfeição, e de Jesus, mediador da Nova Aliança» (Hebr 12, 22-24).

«A Igreja – e nela Cristo – sofre ainda hoje. Nela volta Cristo a ser zombado e ferido;  continuamente se tenta expulsá-Lo do mundo. Sempre a pequena barca da Igreja volta a ser abalada pelo vento das ideologias, que, com as suas águas, nela penetram e parecem condená-la ao naufrágio. E, todavia, precisamente na Igreja padecente, Cristo é vitorioso. Apesar de tudo, a fé n’Ele recobra força, uma e outra vez. Também hoje o Senhor comanda as águas e se mostra Senhor dos elementos. Ele continua na sua barca, na barquinha da Igreja» (Bento XVI, homilia, 29-06-06).

Interessante e expressiva imagem: as águas das ideologias que penetram nela… A Igreja só «mete água» (perdoe-se o vulgarismo) quando se deixa invadir pelas ideologias de moda, mas não soçobra, porque continua a ser governada pelo Espírito de Cristo. Todos os marinheiros contam com o trabalho diário de secagem e limpeza. Só quem navega pela primeira vez se assusta com a aparente braveza deste mar.

A Igreja revê-se nos seus santos, naqueles que continuam a ver nela a barca de Pedro, comandada por Nosso Senhor, sem medo às sucessivas tempestades e sem duvidarem de chegar à «outra margem», onde o «reino de santidade e de graça» será para sempre um «reino de justiça, de amor e de paz».


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial