VALORES CRISTÃOS DA EUROPA

ACTUALIDADE DO CARDEAL NEWMAN

 

Cardeal Joseph Ratzinger

 

 

Na proximidade da beatificação do Cardeal John Henry Newman, prevista durante a anunciada Viagem apostólica do Papa Bento XVI ao Reino Unido, de 16 a 19 de Setembro próximo, temos o gosto de publicar o discurso que o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé fez na comemoração do centenário da morte do Cardeal inglês (28-IV-1990).

Título e subtítulos da Redacção da CL.

 

Não me sinto competente para falar da figura ou da obra de John Henry Newman, mas talvez seja interessante que eu fale da minha aproximação pessoal a Newman, na qual se reflecte também algo da actualidade deste grande teólogo inglês nas controvérsias intelectuais e espirituais do nosso tempo.

A doutrina sobre a consciência

Quando em Janeiro de 1946 pude iniciar o meu estudo da teologia no Seminário da Diocese de Frisinga, que finalmente reabrira depois da confusão da guerra, foi designado ao nosso grupo como prefeito um estudante mais velho, o qual, já antes do início da guerra, tinha começado a trabalhar numa dissertação sobre a teologia da consciência de Newman. Durante todos os anos do seu serviço militar, ele não perdera de vista este tema, que agora retomava com novo entusiasmo e energia.

Desde o início, ligou-nos uma amizade pessoal, toda centrada nos grandes problemas da filosofia e da teologia. Naturalmente, Newman estava sempre presente. Alfred Läpple – o prefeito acima mencionado – publicou a sua dissertação em 1952, com o título O indivíduo na Igreja. A doutrina de Newman sobre a consciência tornou-se então para nós um fundamento importante do personalismo teológico, que a todos nos atraiu com o seu fascínio. A nossa imagem do ser humano, assim como a nossa imagem da Igreja, foram marcadas por este ponto de partida.

Nós tínhamos experimentado a pretensão de um partido totalitário, que se concebia como a plenitude da história e que negava a consciência do indivíduo. Um dos seus líderes [Hermann Goering] dissera: «Eu não tenho consciência alguma! A minha consciência é Adolf Hitler!». A imensa derrocada da humanidade que daí derivou, estava diante dos nossos olhos.

Por isso, era para nós libertador e essencial saber que o «nós» da Igreja não se fundava na eliminação da consciência, mas – exactamente ao contrário – só podia desenvolver-se a partir da consciência. Precisamente porque Newman interpretava a existência do ser humano a partir da consciência, isto é, a partir da relação entre Deus e a alma, era claro que este personalismo não era individualismo, e que estar ligado pela consciência não significava uma concessão à arbitrariedade – antes pelo contrário, precisamente.

Foi de Newman que aprendemos a compreender o primado do Papa: a liberdade da consciência – ensinou-nos Newman com a Carta ao Duque de Norfolk – não se identifica com o direito de «dispensar-se da consciência, de ignorar o Legislador e o Juiz, de ser independente de deveres invisíveis». Deste modo a consciência, no seu verdadeiro sentido, é o fundamento da autoridade do Papa; a sua força vem da Revelação, que completa a consciência natural, imperfeitamente iluminada, e «a sua razão de ser é a de ser o campeão da lei moral e da consciência».

Consequências da doutrina sobre a consciência

Certamente não necessito de dizer explicitamente que esta doutrina sobre a consciência se tornou para mim cada vez mais importante no desenvolvimento sucessivo da Igreja e do mundo. Apercebo-me cada vez mais que ela surge no contexto da biografia do Cardeal, que só se pode compreender em conexão com o drama do seu século, e assim nos interpela.

Newman tornou-se um convertido como homem de consciência; foi a sua consciência que o conduziu dos antigos vínculos e certezas para o mundo do Catolicismo, que para ele era difícil e estranho. Contudo, este caminho da consciência de modo algum é um caminho de subjectividade auto-suficiente: é um caminho de obediência à verdade objectiva.

O segundo passo no caminho de conversão que dura toda a vida de Newman foi a superação da posição do subjectivismo evangélico, em favor de uma concepção do Cristianismo baseada na objectividade do dogma. A este propósito, encontro uma formulação tomada de um dos seus antigos sermões, que hoje é especialmente significativa: «O verdadeiro Cristianismo demonstra-se … na obediência, e não num estado de consciência. Assim, todo o dever e trabalho de um cristão realiza-se em torno destes dois elementos, fé e obediência: 'olhando para Jesus' (Heb 2, 9) ... e agindo segundo a sua vontade ... Parece-me que hoje corremos o perigo de não dar a importância que deveríamos a nenhum dos dois. Consideramos qualquer reflexão verdadeira e cuidadosa sobre o conteúdo da fé como estéril ortodoxia, como técnica impenetrável… Por conseguinte, fazemos consistir o critério da nossa piedade na posse de uma assim dita disposição de ânimo espiritual».

Neste contexto, algumas frases do livro Os Arianos do século IV, que à primeira vista podiam parecer bastante surpreendentes, tornaram-se para mim importantes: o princípio apresentado pela Escritura como fundamento da paz é «reconhecer que a verdade como tal deve guiar quer o comportamento político quer o privado... e que o zelo, na escala das graças cristãs, tinha a prioridade sobre a benevolência». Para mim é sempre fascinante ver e considerar como, precisamente assim e só assim, através do vínculo com a verdade, com Deus, a consciência recebe valor, dignidade e força. Gostaria de acrescentar neste contexto apenas outra expressão tomada da Apologia pro vita sua, que mostra o realismo desta ideia da pessoa e da Igreja: «Os movimentos vivos não surgem de comissões».

A doutrina sobre a evolução do dogma

Gostaria de voltar muito brevemente ao aspecto autobiográfico. Quando em 1947 continuei os meus estudos em Munique, encontrei um culto e entusiasta seguidor de Newman no professor de teologia fundamental, Gottlieb Söhngen, que foi o meu verdadeiro mestre em teologia. Ele desvelou-nos a Gramática do Consentimento e com ela a modalidade específica e a forma de certeza no conhecimento religioso.

Ainda mais profundo foi para mim o contributo que Heinrich Fries publicou por ocasião do Jubileu de Calcedónia: nele tive acesso à doutrina de Newman sobre a evolução do dogma, que considero ser, com a doutrina sobre a consciência, o seu contributo decisivo para a renovação da teologia. Com isto, ele pôs nas nossas mãos a chave para inserir na teologia um pensamento histórico, ou melhor, ele ensinou-nos a pensar historicamente a teologia e, assim, a reconhecer a identidade da fé em todos os seus desenvolvimentos.

Neste momento, tenho de abster-me de aprofundar estas ideias. Parece-me que o contributo de Newman ainda não foi completamente valorizado, mesmo na teologia moderna. Ele contém em si ainda possibilidades frutuosas, que aguardam ser desenvolvidas.

Nesta sede gostaria apenas de me referir mais uma vez ao aspecto biográfico desta concepção. É sabido como a concepção de Newman sobre a ideia do desenvolvimento marcou o seu caminho rumo ao catolicismo. Contudo, não se trata apenas de um desenvolvimento coerente de ideias. No conceito de desenvolvimento, está em jogo a própria vida pessoal de Newman. Parece-me que isto se torna evidente na sua conhecida afirmação, contida no famoso ensaio sobre O desenvolvimento da doutrina cristã: «aqui, na terra, viver é mudar, e ser perfeito é ter mudado muitas vezes». Newman foi, ao longo de toda a sua vida, uma pessoa que se foi convertendo, que se foi transformando, e desta forma permaneceu sempre, e tornou-se sempre mais ele próprio.

Vem-me à mente aqui a figura de Santo Agostinho, com o qual Newman era tão semelhante. Quando Agostinho se converteu no jardim perto de Cassicíaco, ele entendeu a conversão segundo o sistema do venerado mestre Plotino e dos filósofos neoplatónicos. Pensava que a sua vida passada de pecado estaria agora definitivamente superada; daí em diante, o convertido seria uma pessoa completamente nova e diferente, e o seu caminho a seguir seria uma contínua subida para as alturas sempre mais puras da proximidade de Deus. Seria algo como o que Gregório de Nissa descreveu em De vita Moysis: «Precisamente como os corpos, logo que recebem o primeiro impulso para baixo, mesmo sem ulteriores estímulos, caem nas profundezas cada vez com mais velocidade, também, em sentido contrário, a alma que se liberta das paixões terrenas eleva-se com um rápido movimento de ascensão... subindo constantemente num voo em direcção ao alto».

A experiência real de Agostinho foi outra: ele teve que aprender que ser cristão é sempre um caminho difícil com todos os seus altos e baixos. A imagem do ascensus é substituída pela do iter, de cujas fatigantes asperezas nos consolam e amparam os momentos de luz, que de vez em quando podemos receber. A conversão é o iter, um caminho que dura toda a vida. Por isso, a fé é sempre desenvolvimento e, precisamente assim, amadurecimento da alma para a Verdade, para Deus, que «nos é mais íntimo de quanto nós o somos para nós mesmos».

Na ideia do desenvolvimento, Newman expôs a sua própria experiência de uma conversão nunca terminada e ofereceu-nos a interpretação, não só do caminho da doutrina cristã, mas também da vida cristã. A característica de um grande doutor da Igreja parece-me ser que ele não ensina só com o seu pensamento e os seus discursos, mas também com a sua vida, porque nele pensamento e vida compenetram-se e determinam-se reciprocamente. Se isto é verdade, então Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento.

 


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