Papa EM PORTUGAL

«TERRÍVEL É A PALAVRA NON»:

O SIM DE MANOEL DE OLIVEIRA

 

Cón. João Seabra

Diário de Notícias, «O Convidado»

(31-V-2010)

 

Sentado no Centro Cultural de Belém com um milhar de representantes do mundo da cultura, da ciência e da arte, escutei, com espanto e comoção, o discurso «simples e breve», como ele próprio o anunciou, que Manoel de Oliveira dirigiu ao Papa Bento XVI na manhã do dia 12 de Maio. A intervenção é como o cinema de Oliveira: expressão de uma procura de sentido pessoalíssima, dum desejo de verdade incansável, do reconhecimento intenso e livre da presença do Mistério na vida dos homens e do cosmos. Oliveira não se entregou a especulações teóricas: deu um autêntico e despretensioso testemunho de vida, exposto na linguagem directa, enxuta e não analítica a que o realizador habituou quem lhe conhece o estilo: franco, quase desabrido e aparentemente naïf.

Depois de agradecer o «muito honroso convite», enunciou o título da sua curta exposição, «Religião e Arte», e disparou, colocando «éticas» e «artes» lado a lado, enquanto fruto das religiões, que «procuram encontrar explicação para a existência humana e a sua inserção concreta no cosmos». A essa procura, universal no tempo e no espaço, irrompe na História uma resposta inimaginável: «Universo e Homem, criação de um Ser transcendente, colocam-nos problemas inquietantes, para cuja solução o Verbo que se fez carne em Cristo nos trouxe insuperáveis Graças divinas». Este foi o mote claro e corajoso da sua reflexão: a colocação da hipótese cristã como possibilidade real para a vida e para a criação artística.

Ratzinger afirmou, já há anos, que «a única, a verdadeira apologia do cristianismo pode-se reduzir a dois argumentos: 'os santos' que a Igreja produziu e 'a arte' que germinou no seu seio» (V. Messori, Diálogos sobre a Fé, Lisboa, Verbo, 1985, p. 107). Como que em intuitiva resposta, Oliveira saudou o Papa sublinhando a fecundidade da fé cristã na criação estética. Afirmou a intimidade original das artes e das religiões, umas e outras «voltadas para o homem e o universo, a condição humana e a essência divina»; na experiência religiosa como na expressão artística se manifesta «a memória da criação e a saudade do paraíso». Neste contexto chamou à Bíblia o «tesouro inesgotável da nossa cultura europeia»: uma referência que ecoa como antagónica às recentes afirmações de José Saramago. Em seguida relembrou dois dos seus filmes, O Acto da Primavera (1963) e Cristóvão Colombo, o Enigma (2007), em que representou figuras de anjos: no primeiro caso, como personagem específica desse popular Auto da Paixão, sinal da presença do divino entre os homens; no segundo, como «prévia configuração do Destino» de Portugal, radicando no cristianismo, numa frase sintética e desafiadora, a identidade da História pátria e a sua história pessoal: «[Sou] pertencente à família cristã, de cujos valores comungo, e que são as raízes da nação portuguesa e de toda a Europa, quer queiramos quer não […]».

Mas o momento mais confessional e provocador da sua intervenção foi aquele em que Manoel de Oliveira se referiu ao drama humano da dúvida e da falta de fé. Retomando as palavras do Padre António Vieira («terrível palavra é o non»), que deram o título ao seu filme de 1990 (Non ou a Vã Glória de Mandar), Oliveira disse: «Acossados pelas especulações da razão, sempre se nos levantam terríveis dúvidas e descrenças, a que se procura opor a fé do Evangelho, que remove montanhas». Perante a tremenda hipótese da negação, concluiu, com a convicção de quem fala de um caminho trilhado na primeira pessoa: «O non retira toda a esperança, que é a última coisa que a natureza deixou ao homem», esse homem que «caminha na esperança, apesar de todos os negativismos». A dinâmica humana é afirmativa, é um sim: esta é a certeza que Oliveira afirma. A escolha teórica e teorizada que a nega não corresponde ao dinamismo que leva o ser humano a esperar e a desejar: desejar viver, desejar amar e ser amado, desejar criar, desejar ser feliz. Essa dinâmica de afirmativa certeza encontra um testemunho irrecusável naquele homem de 101 anos, de olhar vivo, quase infantil, com uma capacidade criativa invulgar e uma liberdade de pensamento e acção que fazem dele uma criatura sui generis e incómoda no universo em que se movimenta. Por isso, a maior injustiça que se lhe poderia fazer seria a de retirar às suas palavras simples – tanto as ditas como as escondidas nas entrelinhas – o peso e a consistência de uma vida assim lutada e vivida, com esse visível gosto e essa radical liberdade que sempre recusou ideologias e sempre se deixou fascinar pelo humano e pelo seu desejo de infinito.

 


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