Papa EM PORTUGAL

O PECADO NA IGREJA

 

Bento XVI

 

 

 

Durante a viagem de avião de Roma a Lisboa, o Santo Padre teve um encontro com os jornalistas que o acompanhavam na sua Viagem Apostólica a Portugal, de 11 a 14 de Maio passado, respondendo às perguntas que lhe transmitiu o Porta-voz da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, S.J..

Transcrevemos a sua última resposta, que se refere directamente a Fátima.

 

Padre Lombardi: Passemos agora a Fátima, onde será, em certo ponto, o cume – também espiritual – desta viagem. Santidade, que significado têm hoje para nós as Aparições de Fátima? Quando apresentou o texto do terceiro segredo de Fátima na Sala de Imprensa Vaticana, em Junho do ano 2000, estávamos muitos de nós e outros colegas de então; e foi-lhe perguntado se a mensagem poderia estender-se, para além do atentado a João Paulo II, também a outros sofrimentos dos Papas. É possível enquadrar também naquela visão o sofrimento da Igreja de hoje, pelos pecados de abusos sexuais contra os menores?

 

Santo Padre: Antes de mais, gostaria de expressar a minha alegria de ir a Fátima, de rezar diante de Nossa Senhora de Fátima, que para nós é um sinal da presença da fé; precisamente dos pequenos nasce uma nova força da fé, que não se reduz aos pequenos, mas que tem uma mensagem para todo o mundo e toca a história precisamente no seu presente e ilumina esta história. No ano 2000, na apresentação, disse que uma aparição, isto é, um impulso sobrenatural, não vem somente da imaginação da pessoa, mas realmente da Virgem Maria, do sobrenatural; um impulso deste tipo entra num sujeito e exprime-se segundo as possibilidades do sujeito. O sujeito é determinado pelas suas condições históricas, pessoais, temperamentais e, portanto, traduz o grande impulso sobrenatural segundo as suas possibilidades de ver, de imaginar, de exprimir; mas nestas expressões, formadas pelo sujeito, esconde-se um conteúdo que vai além, mais profundo, e somente no curso da história podemos ver toda a sua profundidade, que estava – digamos – «vestida» nesta visão possível para a pessoa concreta. Deste modo, diria também aqui que, além desta grande visão do sofrimento do Papa, que podemos referir em primeira instância ao Papa João Paulo II, indicam-se realidades do futuro da Igreja que se desenvolvem e se mostram paulatinamente. Por isso, é verdade que, além do momento indicado na visão, fala-se, vê-se a necessidade de uma paixão da Igreja, que naturalmente se reflecte na pessoa do Papa; mas o Papa está para a Igreja e, assim, são sofrimentos da Igreja que se anunciam. O Senhor disse-nos que a Igreja seria sempre sofredora, de diversos modos, até ao fim do mundo. O importante é que a mensagem, a resposta de Fátima, substancialmente não termine em devoções particulares, mas precisamente na resposta fundamental, ou seja, a conversão permanente, a penitência, a oração, e as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Assim, vemos aqui a resposta verdadeira e fundamental que a Igreja deve dar, que nós, cada pessoa, devemos dar nesta situação. A novidade que podemos descobrir hoje, nesta mensagem, reside também no facto de que os ataques ao Papa e à Igreja não vêm só de fora, mas os sofrimentos da Igreja vêm precisamente do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja. Também isto sempre foi sabido, mas hoje vemo-lo de um modo realmente terrificante: que a maior perseguição da Igreja não vem de inimigos de fora, mas nasce do pecado na Igreja, e que a Igreja, portanto, tem uma profunda necessidade de reaprender a penitência, de aceitar a purificação, de aprender por um lado o perdão, mas também a necessidade de justiça. O perdão não substitui a justiça. Numa palavra, devemos reaprender precisamente isto que é essencial: a conversão, a oração, a penitência e as virtudes teologais. Assim respondamos, sejamos realistas ao esperar que o mal ataca sempre; ataca de dentro e de fora, mas também as forças do bem estão sempre presentes e, no final, o Senhor é mais forte do que o mal, e Nossa Senhora é para nós a garantia visível, materna da bondade de Deus, que é sempre a última palavra na história.

 


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