ANO SACERDOTAL

O MINISTÉRIO SACERDOTAL DE GOVERNAR

 

 

Bento XVI

 

 

Antes de terminar o Ano Sacerdotal, na solenidade do Sagrado Coração de Jesus, dia 11 de Junho passado, o Santo Padre ofereceu esta reflexão a respeito do «munus regendi» do sacerdote, na audiência geral da quarta-feira (26-V-2010) *.

Título e subtítulos da redacção da CL.

 

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

O Ano Sacerdotal está para terminar; por isso, tinha começado nas últimas catequeses a falar sobre as tarefas essenciais do sacerdote, ou seja: ensinar, santificar e governar. Já falei disto em duas catequeses, uma sobre o ministério da santificação, sobretudo os Sacramentos, e outra sobre o do ensino. Portanto, falta-me falar hoje sobre a missão do sacerdote de governar, de guiar, com a autoridade de Cristo, não com a própria, a porção do Povo que Deus lhe confiou.

A autoridade como serviço

Como compreender na cultura contemporânea tal dimensão, que implica o conceito de autoridade e tem origem no próprio mandato do Senhor de apascentar o seu rebanho? O que é realmente, para nós cristãos, a autoridade? As experiências culturais, políticas e históricas do passado recente, sobretudo as ditaduras na Europa do Leste e do Oeste no século XX, tornaram o homem contemporâneo suspeitoso em relação a este conceito. Uma suspeita que, com frequência, se traduz em defender como necessário o abandono de toda a autoridade, que não provenha exclusivamente dos homens e esteja a eles submetida, e por eles controlada. Mas, precisamente o olhar sobre os regimes que, no século passado, semearam terror e morte, recorda com vigor que a autoridade, em qualquer âmbito, quando é exercida sem uma referência ao Transcendente, se prescinde da Autoridade suprema, que é Deus, acaba inevitavelmente por se voltar contra o homem. É importante, pois, reconhecer que a autoridade humana nunca é um fim, mas sempre e só um meio e que, necessariamente e em cada época, o fim é sempre a pessoa, criada por Deus com a sua intangível dignidade e chamada a relacionar-se com o próprio Criador, no caminho terreno da existência e na vida eterna; é uma autoridade exercida na responsabilidade diante de Deus, do Criador. Uma autoridade assim entendida, que tenha como única finalidade servir o verdadeiro bem das pessoas e ser transparência do único Bem Supremo que é Deus, não só não é alheia aos homens, mas, pelo contrário, é uma preciosa ajuda no caminho para a plena realização em Cristo, rumo à salvação.

A Igreja está chamada e empenha-se em exercer este tipo de autoridade que é serviço, e exerce-a não em seu nome, mas no de Jesus Cristo, que do Pai recebeu todo o poder no Céu e na terra (cf. Mt 28, 18). De facto, através dos Pastores da Igreja, Cristo apascenta a sua grei: é Ele quem a guia, protege e corrige, porque a ama profundamente. Mas o Senhor Jesus, Pastor supremo das nossas almas, quis que o Colégio Apostólico, hoje os Bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, e os sacerdotes, seus mais preciosos colaboradores, participassem nesta sua missão de cuidar do Povo de Deus, de serem educadores na fé, orientando, animando e apoiando a comunidade cristã ou, como diz o Concílio, «cuidando, sobretudo, que cada fiel seja guiado, no Espírito Santo, a viver segundo o Evangelho a sua própria vocação, a praticar uma caridade sincera e activa e a exercer aquela liberdade com que Cristo nos libertou» (Presbyterorum ordinis, 6). Portanto, cada Pastor é o meio através do qual o próprio Cristo ama os homens: é mediante o nosso ministério – queridos sacerdotes –, é através de nós que o Senhor chega às almas, as instrui, guarda e guia. Santo Agostinho, no seu Comentário ao Evangelho de São João, diz: «Seja, pois, empenho de amor apascentar o rebanho do Senhor» (123, 5); esta é a norma suprema de conduta dos ministros de Deus, um amor incondicionado, como o do Bom Pastor, cheio de alegria, aberto a todos, atento ao próximo e solícito em relação aos distantes (cf. S. Agostinho, Discurso 340, 1; Discurso 46, 15), delicado para com os mais débeis, os pequeninos, os simples, os pecadores, para manifestar a misericórdia infinita de Deus com as palavras animadoras da esperança (cf. Id., Carta 95, 1).

Se esta tarefa pastoral se baseia no Sacramento, contudo a sua eficácia não é independente da existência pessoal do presbítero. Para ser Pastor segundo o coração de Deus (cf. Jer 3, 15), é preciso um profundo enraizamento na amizade viva com Cristo, não só da inteligência, mas também da liberdade e da vontade, uma consciência clara da identidade recebida na Ordenação sacerdotal, uma disponibilidade incondicionada a conduzir o rebanho confiado aonde o Senhor quer e não na direcção que, aparentemente, parece mais conveniente ou mais fácil. Antes de tudo, isto exige a contínua e progressiva disponibilidade para deixar que o próprio Cristo governe a existência sacerdotal dos presbíteros. De facto, ninguém é realmente capaz de apascentar a grei de Cristo, se não viver uma obediência profunda e real a Cristo e à Igreja, e a própria docilidade do Povo aos seus sacerdotes depende da docilidade dos presbíteros a Cristo; por isso, na base do ministério pastoral está sempre o encontro pessoal e constante com o Senhor, o conhecimento profundo d'Ele, o conformar a própria vontade com a vontade de Cristo.

O verdadeiro sentido de hierarquia

Nos últimos decénios, utilizou-se muitas vezes o adjectivo «pastoral» quase em oposição ao conceito de «hierárquico», assim como, na mesma contraposição, foi interpretada também a ideia de «comunhão». Talvez seja este o ponto sobre o qual pode ser útil uma breve observação sobre a palavra «hierarquia», que é a designação tradicional da estrutura de autoridade sacramental na Igreja, ordenada segundo os três níveis do Sacramento da Ordem: episcopado, presbiterado, diaconado. Prevalece na opinião pública, para esta realidade «hierárquica», o elemento de subordinação e o elemento jurídico; por isso, para muitos a ideia de hierarquia parece estar em contraste com a flexibilidade e com a vitalidade do sentido pastoral e também ser contrária à humildade do Evangelho. Mas este é um sentido da hierarquia mal compreendido, historicamente também causado por abusos de autoridade e pelo carreirismo, que são precisamente abusos e não derivam do ser próprio da realidade «hierarquia». A opinião comum é que «hierarquia» é sempre algo relacionado com o domínio e assim não correspondente ao verdadeiro sentido da Igreja, da unidade no amor de Cristo. Mas, como eu disse, esta é uma interpretação errada, que tem origem em abusos da história, mas não corresponde ao verdadeiro significado daquilo que é a hierarquia.

Comecemos com a palavra. Geralmente, diz-se que o significado da palavra hierarquia seria «domínio sagrado», mas o verdadeiro significado não é este, é «origem sagrada», ou seja: esta autoridade não provém do próprio homem, mas tem origem no sagrado, no Sacramento; submete portanto a pessoa à vocação, ao mistério de Cristo; faz do indivíduo um servo de Cristo e só como servo de Cristo ele pode governar, guiar para Cristo e com Cristo. Por isso, quem entra na Ordem sagrada do Sacramento, a «hierarquia», não é um autocrata, mas entra num vínculo novo de obediência a Cristo: está ligado a Ele em comunhão com os outros membros da Ordem sagrada, do Sacerdócio. E também o Papa – ponto de referência de todos os outros Pastores e da comunhão da Igreja – não pode fazer o que quiser; pelo contrário, o Papa é guardião da obediência a Cristo, à sua palavra reassumida na «regula fidei», no Credo da Igreja, e deve preceder na obediência a Cristo e à sua Igreja. Hierarquia implica por conseguinte um tríplice vínculo: antes de tudo com Cristo e com a ordem dada pelo Senhor à sua Igreja; depois o vínculo com os outros Pastores na única comunhão da Igreja; e, por fim, o vínculo com os fiéis confiados a cada um, na ordem da Igreja.

Compreende-se, portanto, que comunhão e hierarquia não são contrárias uma à outra, mas condicionam-se. São juntas uma só coisa (comunhão hierárquica). Portanto, o Pastor é tal precisamente guiando e guardando a grei, e por vezes impedindo que ela se disperse. Fora de uma visão clara e explicitamente sobrenatural, não é compreensível a tarefa de governar própria dos sacerdotes. Ela, pelo contrário, apoiada pelo verdadeiro amor à salvação de cada fiel, é particularmente preciosa e necessária também no nosso tempo. Se a finalidade é levar o anúncio de Cristo e guiar os homens ao encontro salvífico com Ele para que tenham a vida, a tarefa de guiar configura-se como um serviço vivido numa doação total para a edificação do rebanho na verdade e na santidade, muitas vezes indo contra a corrente e recordando que quem é o maior deve fazer-se como o mais pequeno, e quem governa, como aquele que serve (cf. Lumen gentium, 27).

Governar em nome de Cristo

De onde pode tirar hoje um sacerdote a força para este exercício do seu ministério, em plena fidelidade a Cristo e à Igreja, com uma dedicação total à grei? A resposta é uma só: em Cristo Senhor. O modo de governar de Jesus não é o do domínio, mas é o serviço humilde e amoroso do Lava-pés, e a realeza de Cristo sobre o universo não é um triunfo terreno, mas encontra o seu ápice no madeiro da Cruz, que se torna juízo para o mundo e ponto de referência para o exercício da autoridade, que seja verdadeira expressão da caridade pastoral. Os santos, e entre eles São João Maria Vianney, exerceram com amor e dedicação a tarefa de cuidar da porção do Povo de Deus que lhes foi confiada, mostrando também que eram homens fortes e determinados, com o único objectivo de promover o verdadeiro bem das almas, capazes de pagar em pessoa, até ao martírio, para permanecerem fiéis à verdade e à justiça do Evangelho.

Queridos sacerdotes, «apascentai o rebanho que Deus vos confiou, velando por ele, não constrangidos, mas de boa vontade [...], como modelos do vosso rebanho» (1 Pe 5, 2). Portanto, não tenhais medo de guiar para Cristo cada um dos irmãos que Ele vos confiou, na certeza de que cada palavra e atitude, se vierem da obediência à vontade de Deus, darão fruto; sabei viver apreciando as qualidades e reconhecendo os limites da cultura na qual estamos inseridos, com a firme certeza de que o anúncio do Evangelho é o maior serviço que se pode prestar ao homem. De facto, não há bem maior, nesta vida terrena, do que conduzir os homens para Deus, despertar a fé, levantar o homem da inércia e do desespero, dar a esperança de que Deus está próximo e guia a história pessoal e do mundo: é este, em suma, o sentido profundo e último da tarefa de governar que o Senhor nos confiou. Trata-se de formar Cristo nos crentes, através daquele processo de santificação que é conversão dos critérios, da escala de valores, das atitudes, para deixar que Cristo viva em cada fiel. São Paulo resume assim a sua acção pastoral: «Filhinhos meus, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós» (Gal 4, 19).

Queridos irmãos e irmãs, gostaria de vos convidar a rezarem por mim, Sucessor de Pedro, que tenho uma tarefa específica em governar a Igreja de Cristo, assim como por todos os vossos Bispos e sacerdotes. Rezai por que saibamos cuidar de todas as ovelhas, também das extraviadas, da grei que nos foi confiada. A vós, queridos sacerdotes, dirijo um cordial convite para as Celebrações conclusivas do Ano sacerdotal, nos próximos dias 9, 10 e 11 de Junho, aqui em Roma: meditaremos sobre a conversão e a missão, sobre o dom do Espírito Santo e sobre a relação com Maria Santíssima, e renovaremos as nossas promessas sacerdotais, apoiados por todo o Povo de Deus. Obrigado!

 

 

 



* A reflexão do Santo Padre sobre o munus docendi foi publicada no número anterior da CL, pp. 1008-1011; e, sobre o munus sanctificandi, neste número, na Secção «A Palavra do Papa».


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