DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

VIAGEM APOSTÓLICA A PORTUGAL

 

 

De 11 a 14 de Maio passado, Portugal recebeu a Visita apostólica do Santo Padre, por ocasião do 10.º aniversário da beatificação dos videntes Jacinta e Francisco de Fátima. Lisboa, Fátima e Porto foram o percurso da presença e da voz de Bento XVI.

Damos o comentário que o próprio Papa fez na audiência geral da quarta-feira seguinte (19-V-2010).

Título e subtítulos da Redacção de CL.

Ver também as Secções «Papa em Portugal» e «Direito e Pastoral».

 

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Desejo hoje percorrer de novo juntamente convosco as várias etapas da Viagem apostólica que realizei nos dias passados a Portugal, movido especialmente por um sentimento de reconhecimento para com a Virgem Maria, que em Fátima transmitiu aos seus videntes e aos peregrinos um amor intenso pelo Sucessor de Pedro. Dou graças a Deus que me concedeu a possibilidade de prestar homenagem àquele Povo, à sua longa e gloriosa história de fé e de testemunho cristão. Por conseguinte, como vos tinha pedido para acompanhar esta minha visita pastoral com a oração, agora peço-vos que vos unais a mim na acção de graças ao Senhor pelo seu feliz desenvolvimento e pela sua conclusão. Confio a Ele os frutos que deu e dará à comunidade eclesial portuguesa e a toda a população. Renovo a expressão do meu profundo reconhecimento ao Presidente da República, Senhor Aníbal Cavaco Silva, e demais Autoridades do Estado, que me receberam com tanta gentileza e predispuseram todas as coisas para que tudo se pudesse realizar do melhor modo. Penso de novo com intenso afecto nos Irmãos Bispos das dioceses portuguesas, que tive a alegria de abraçar na sua Terra e agradeço-lhes fraternalmente quanto fizeram para a preparação espiritual e organizativa da minha visita, e o notável empenho prodigalizado na sua realização. Dirijo um pensamento particular ao Patriarca de Lisboa, Cardeal José da Cruz Policarpo, aos Bispos de Leiria-Fátima, D. António Augusto dos Santos Marto, e do Porto, D. Manuel Macário do Nascimento Clemente, e aos respectivos colaboradores, assim como aos vários organismos da Conferência Episcopal guiada pelo Bispo D. Jorge Ortiga.

Lisboa: evangelização e cultura

Ao longo de toda a viagem, realizada por ocasião do décimo aniversário da beatificação dos pastorinhos Jacinta e Francisco, senti-me espiritualmente apoiado pelo meu amado predecessor, o Venerável João Paulo II, que foi três vezes a Fátima, agradecendo aquela «mão invisível» que o livrou da morte no atentado de 13 de Maio, aqui nesta Praça de São Pedro. Na tarde da minha chegada celebrei a Santa Missa em Lisboa no cenário encantador do Terreiro do Paço, à margem do rio Tejo. Foi uma assembleia litúrgica de festa e de esperança, animada pela participação jubilosa de numerosíssimos fiéis. Na Capital, de onde partiram no decorrer dos séculos tantos missionários para levarem o Evangelho a muitos Continentes, encorajei os vários componentes da Igreja local a uma vigorosa acção evangelizadora nos diversos âmbitos da sociedade, para serem semeadores de esperança num mundo com frequência marcado pelo desânimo. Em particular, exortei os crentes a tornarem-se anunciadores da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé e motivo da nossa alegria. Pude manifestar estes sentimentos também durante o Encontro com os representantes do mundo da cultura, realizado no Centro Cultural de Belém. Nesta circunstância ressaltei o património de valores com que o cristianismo enriqueceu a cultura, a arte e a tradição do Povo português. Nesta nobre Terra, como em todo outro país profundamente marcado pelo cristianismo, é possível construir um futuro de entendimento fraterno e de colaboração com as outras instâncias culturais, abrindo-se reciprocamente a um diálogo sincero e respeitador.

No Santuário de Fátima: oração, penitência e conversão

Fui depois a Fátima, pequena cidade caracterizada por uma atmosfera de misticismo real, na qual se sente de modo quase palpável a presença de Nossa Senhora. Fiz-me peregrino com os peregrinos naquele admirável Santuário, coração espiritual de Portugal e meta de uma multidão de pessoas provenientes dos lugares mais diversos da terra. Depois de me ter detido em orante e comovedor recolhimento na Capelinha das Aparições na Cova da Iria, apresentando ao Coração da Virgem Santa as alegrias e as expectativas, assim como os problemas e os sofrimentos do mundo inteiro, na igreja da Santíssima Trindade tive a alegria de presidir à celebração das Vésperas da Bem-aventurada Virgem Maria. No interior deste grande e moderno templo, manifestei o meu profundo apreço aos sacerdotes, aos religiosos, às religiosas, aos diáconos e aos seminaristas que vieram de todas as partes de Portugal, agradecendo-lhes o seu testemunho muitas vezes silencioso e nem sempre fácil e a sua fidelidade ao Evangelho e à Igreja. Neste Ano Sacerdotal, que está a terminar, encorajei os sacerdotes a darem prioridade à religiosa escuta da Palavra de Deus, ao íntimo conhecimento de Cristo, à intensa celebração da Eucaristia, olhando para o luminoso exemplo do Santo Cura d'Ars. Não deixei de confiar e consagrar ao Coração Imaculado de Maria, verdadeiro modelo de discípula do Senhor, os sacerdotes de todo o mundo.

À noite, com milhares de pessoas que se reuniram na grande esplanada diante do Santuário, participei na sugestiva procissão das velas. Foi uma maravilhosa manifestação de fé em Deus e de devoção à sua e nossa Mãe, expressas com a recitação do Santo Rosário. Esta oração tão querida ao povo cristão encontrou em Fátima um centro propulsor para toda a Igreja e para o mundo. A «Branca Senhora», na aparição de 13 de Junho, disse aos três Pastorinhos: «Quero que reciteis o Rosário todos os dias». Poderíamos dizer que Fátima e o Rosário são quase um sinónimo.

A minha visita àquele lugar tão especial teve o seu ápice na Celebração eucarística de 13 de Maio, aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora a Francisco, Jacinta e Lúcia. Fazendo eco às palavras do profetas Isaías, convidei aquela imensa assembleia reunida aos pés da Virgem, com grande amor e devoção, a rejubilar plenamente no Senhor (cf. Is 61, 10), porque o seu amor misericordioso, que acompanha a nossa peregrinação nesta terra, é a fonte da nossa grande esperança. E precisamente cheia de esperança está a mensagem exigente e ao mesmo tempo consoladora que Nossa Senhora deixou em Fátima. É uma mensagem centrada na oração, na penitência e na conversão, que se projecta para além das ameaças, perigos e horrores da história, para convidar o homem a ter confiança na acção de Deus, a cultivar a grande Esperança, a fazer a experiência da graça do Senhor para se enamorar d'Ele, fonte do amor e da paz.

Nesta perspectiva, foi significativo o envolvente Encontro com as organizações da Pastoral social, às quais indiquei o estilo do bom samaritano para ir ao encontro das necessidades dos irmãos mais necessitados e para servir Cristo, promovendo o bem comum. Muitos jovens aprendem a importância da gratuidade precisamente em Fátima, que é uma escola de fé e de esperança, porque é também escola de caridade e de serviço aos irmãos. Neste contexto de fé e de oração, foi realizado o importante e fraterno Encontro com o episcopado português, na conclusão da minha visita a Fátima: foi um momento de intensa comunhão espiritual, no qual agradecemos juntos ao Senhor a fidelidade da Igreja que está em Portugal e confiamos à Virgem as comuns expectativas e preocupações pastorais. Mencionei estas esperanças e perspectivas pastorais também durante a Santa Missa celebrada na histórica e simbólica cidade do Porto, a «Cidade da Virgem», última etapa da minha peregrinação em terra lusitana. À grande multidão de fiéis reunida na Avenida dos Aliados recordei o empenho de testemunhar o Evangelho em todos os ambientes, oferecendo Cristo ressuscitado ao mundo para que qualquer situação de dificuldade, de sofrimento e de receio seja transformada, mediante o Espírito Santo, em ocasião de crescimento e de vida.

Queridos irmãos e irmãs, a peregrinação a Portugal foi para mim uma experiência comovedora e rica de tantos dons espirituais. Enquanto continuam gravadas na minha mente e no meu coração as imagens desta viagem inesquecível, o acolhimento caloroso e espontâneo, o entusiasmo do povo, dou graças ao Senhor porque Maria, aparecendo aos três Pastorinhos, abriu ao mundo um espaço privilegiado para encontrar a misericórdia divina que cura e salva. Em Fátima, a Virgem Santa convida todos a considerarem a terra como lugar da nossa peregrinação rumo à pátria definitiva, que é o Céu. Na realidade todos somos peregrinos, temos necessidade da Mãe que nos guia. «Contigo caminhamos na esperança. Sabedoria e Missão» – foi o lema da minha Viagem apostólica a Portugal, e em Fátima a bem-aventurada Virgem Maria convida-nos a caminhar com grande esperança, deixando-nos guiar pela «sabedoria do alto», que se manifestou em Jesus, a sabedoria do amor, para levar ao mundo a luz e a alegria de Cristo. Por conseguinte, convido-vos a unir-vos à minha oração, pedindo ao Senhor que abençoe os esforços de quantos, naquela amada Nação, se dedicam ao serviço do Evangelho e à busca do verdadeiro bem do homem, de cada homem. Rezemos ainda para que, por intercessão de Maria Santíssima, o Espírito Santo torne fecunda esta Viagem apostólica, e anime no mundo inteiro a missão da Igreja, instituída por Cristo para anunciar a todos os povos o Evangelho da verdade, da paz e do amor.


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial