DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

ECONOMIA SEM ÉTICA

DESTRÓI-SE A SI PRÓPRIA

 

No discurso aos participantes da XVI Sessão Plenária da Academia Pontifícia das Ciências Sociais, em 30-IV-2010, o Santo Padre recordou os pontos fundamentais da sua Encíclica «Caritas in veritate», dirigida a alertar para o verdadeiro caminho a trilhar na actividade económica, tendo presente a actual crise económico-financeira.

Em contraposição à ideia generalizada de que a economia se regula a si mesma, baseada em suas leis próprias, o Papa insiste que a economia é uma actividade humana e, como tal, as decisões estão dependentes da visão que se tem da pessoa humana e da sociedade. Mesmo com a visão correcta que pode ter um economista, empresário ou político com fé em Deus Criador e estudioso aplicado da matéria, sempre se requer a intervenção da autoridade pública, para moderar a tendência de dar prioridade ao interesse individual, em prejuízo do interesse dos outros e do bem comum.

Recorde-se que passou já um ano que a Encíclica «Caritas in veritate» foi publicada, em 29-VI-2009.

Título e subtítulo da Redacção da CL. 

 

 

Estimados membros da Academia!

 

É-me grato saudar-vos no início da vossa XVI Sessão Plenária, dedicada a uma análise da crise económica global, à luz dos princípios éticos contidos na doutrina social da Igreja. Agradeço à vossa Presidente, Professora Mary Ann Glendon, as suas amáveis palavras de saudação e apresento os meus fervorosos e bons votos pela fecundidade das vossas deliberações.

Como sabemos, a crise financeira mundial demonstrou a fragilidade do actual sistema económico e das instituições que lhe estão ligadas. Mostrou também a falsidade da ideia segundo a qual o mercado seria capaz de se regular por si, independentemente da intervenção pública e do apoio dos critérios morais interiorizados. Essa ideia baseia-se numa noção empobrecida da vida económica, como uma espécie de mecanismo que se autocalibra guiado pelo interesse próprio e pela procura do lucro. Ela ignora a natureza essencialmente ética da economia como actividade de e para os seres humanos. Mais do que uma espiral de produção e consumo, em vista de necessidades humanas definidas de modo muito limitado, a vida económica deveria ser considerada de modo adequado como um exercício de responsabilidade humana, intrinsecamente orientado para a promoção da dignidade da pessoa, para a procura do bem comum e para o desenvolvimento integral, político, cultural e espiritual dos indivíduos, das famílias e da sociedade. Um reconhecimento desta dimensão humana mais plena exige, por sua vez, precisamente o tipo de investigação e de reflexão interdisciplinar que esta Sessão da Academia agora empreendeu.

A lei moral natural, base das opções concretas económicas

Na minha Encíclica Caritas in veritate, observei que «a crise actual obriga-nos a projectar de novo o nosso caminho, a impor-nos novas regras e a encontrar novas formas de empenhamento» (n. 21). Certamente, projectar de novo o caminho significa também ter em consideração os critérios gerais e objectivos com os quais julgar as estruturas, as instituições e as decisões concretas que guiam e orientam a vida económica. A Igreja, fundada na sua fé em Deus Criador, afirma a existência de uma lei natural universal, que é a fonte definitiva de tais critérios (cf. ibid., n. 59). No entanto, ela está também convencida de que os princípios desta ordem ética, inscritos na própria criação, são acessíveis à razão humana e, como tais, devem ser adoptados como fundamento para opções concretas. Como parte da grande herança da sabedoria humana, a lei moral natural, que a Igreja assumiu, purificou e desenvolveu à luz da Revelação cristã, é um farol que guia os esforços dos indivíduos e da comunidade para buscar o bem e evitar o mal, enquanto se empenham na edificação de uma sociedade autenticamente justa e humana.

Entre os princípios indispensáveis que plasmam esta abordagem ética integral da vida económica, devem estar presente a promoção do bem comum, baseada no respeito pela dignidade da pessoa humana e reconhecida como finalidade primária dos sistemas de produção e de comércio, das instituições políticas e do bem-estar social. Nos nossos dias, o interesse pelo bem comum assumiu uma dimensão marcadamente global. Tornou-se também cada vez mais evidente que o bem comum implica a responsabilidade pelas gerações vindouras; por conseguinte, a solidariedade entre gerações deve ser reconhecida como critério fundamental para julgar qualquer sistema social. Estas realidades manifestam a urgência de reforçar os procedimentos de governo da economia global, sempre com o devido respeito pelo princípio de subsidiariedade. De todos os modos, no fim, todas as decisões e políticas económicas devem ser orientadas para a «caridade na verdade», uma vez que a verdade preserva e canaliza a força libertadora da caridade nas estruturas e nos acontecimentos humanos, sempre contingentes. Pois, «sem verdade, sem confiança e sem amor pelo que é verdadeiro, não há consciência nem responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e de lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade» (Caritas in veritate, 5).

Caros amigos, com estas considerações exprimo mais uma vez a minha confiança de que esta Sessão Plenária contribuirá para um discernimento mais profundo dos sérios desafios sociais e económicos do nosso mundo e ajudará a indicar o caminho para responder a tais desafios com espírito de sabedoria, justiça e humanidade autêntica. Asseguro-vos mais uma vez as minhas preces pela vossa importante obra e, sobre vós e os vossos entes queridos, invoco cordialmente as Bênçãos divinas de alegria e de paz.

 


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