DOCUMENTAÇÃO

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

 

A COLABORAÇÃO ACTIVA DO HOMEM E DA MULHER

 

Carta aos Bispos

 

Com data de 31-V-04 foi tornada pública a Carta da Congregação para a Doutrina da Fé aos Bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo, aprovada pelo Papa João Paulo II.

Trata-se de um pronunciamento claro sobre o que pode ser a raiz das dificuldades actuais por que passa o matrimónio e a família, bem como a própria sociedade, no mundo ocidental.  

Oferecemos aos leitores a primeira parte do documento, que consta de 17 números.

Veja-se noutra Secção desta revista a entrevista dada à Rádio Vaticana pelo Secretário da Congregação sobre o alcance da Carta.

Introdução

1. Perita em humanidade, a Igreja está sempre interessada por tudo o que diz respeito ao homem e à mulher. Nestes últimos tempos, tem-se reflectido muito sobre a dignidade da mulher, sobre os seus direitos e deveres nos diversos âmbitos da comunidade civil e eclesial. Tendo contribuído para o aprofundamento desta temática fundamental, sobretudo com o ensinamento de João Paulo II [1], a Igreja sente-se hoje interpelada por algumas correntes de pensamento, cujas teses muitas vezes não coincidem com as finalidades genuínas da promoção da mulher.

O presente documento, depois de uma breve apresentação e apreciação crítica de certas concepções antropológicas hodiernas, pretende propor algumas reflexões inspiradas nos dados doutrinais da antropologia bíblica – indispensáveis para salvaguardar a identidade da pessoa humana – sobre alguns pressupostos em ordem a uma recta compreensão da colaboração activa do homem e da mulher na Igreja e no mundo, tendo em conta a sua própria diferença. Estas reflexões, além disso, querem apresentar-se como ponto de partida para um caminho de aprofundamento no seio da Igreja e para instaurar um diálogo com todos os homens e mulheres de boa vontade, na busca sincera da verdade e no esforço comum de promover relações cada vez mais autênticas.

I. O problema

2. Nestes últimos anos têm-se delineado novas tendências na abordagem da questão feminina. Uma primeira tendência sublinha fortemente a condição de subordinação da mulher, procurando criar uma atitude de contestação. A mulher, para ser ela própria, apresenta-se como antagonista do homem. Aos abusos de poder, responde com uma estratégia de procura do poder. Este processo leva a uma rivalidade entre os sexos, onde a identidade e o papel de um são assumidos em prejuízo do outro, com a consequência de introduzir na antropologia uma perniciosa confusão, que tem a sua implicação mais imediata e nefasta na estrutura da família.

Uma segunda tendência emerge como consequência da primeira. Para evitar qualquer supremacia de um ou de outro sexo, tende-se a eliminar as suas diferenças, considerando-as simples efeitos de um condicionamento histórico-cultural. Neste nivelamento, a diferença corpórea, chamada sexo, é minimizada, ao passo que a dimensão estritamente cultural, chamada género, é sublinhada ao máximo e considerada primária. O obscurecimento da diferença ou dualidade dos sexos produz enormes consequências a diversos níveis. Esta antropologia, que pretendia favorecer perspectivas igualitárias para a mulher, libertando-a de todo o determinismo biológico, acabou de facto por inspirar ideologias que promovem, por exemplo, o questionamento da família, pela sua índole natural bi-parental, ou seja, composta de pai e de mãe, a equiparação da homossexualidade à heterossexualidade, um novo modelo de sexualidade polimórfica.

 

3. A raiz imediata da dita tendência coloca-se no contexto da questão feminina, mas a sua motivação mais profunda deve procurar-se na tentativa da pessoa humana de libertar-se dos próprios condicionamentos biológicos [2]. De acordo com esta perspectiva antropológica, a natureza humana não teria em si mesma características que se impusessem de forma absoluta: cada pessoa poderia ou deveria modelar-se a seu gosto, uma vez que estaria livre de toda a predeterminação ligada à sua constituição essencial.

Muitas são as consequências de uma tal perspectiva. Antes de mais, reforça-se a ideia de que a libertação da mulher implica uma crítica à Sagrada Escritura, que transmitiria uma concepção patriarcal de Deus, alimentada por uma cultura essencialmente machista. Em segundo lugar, tal tendência consideraria sem importância e sem influência o facto de o Filho de Deus ter assumido a natureza humana na sua forma masculina.

 

4. Perante estas correntes de pensamento, a Igreja, iluminada pela fé em Jesus Cristo, fala pelo contrário de colaboração activa, precisamente no reconhecimento da própria diferença entre homem e mulher.

Para melhor compreender o fundamento, o sentido e as consequências desta resposta, convém voltar, ainda que brevemente, à Sagrada Escritura, também rica em sabedoria humana, onde esta resposta se manifestou progressivamente, graças à intervenção de Deus em favor da humanidade [3].

 

 

 

 



[1] Cfr João Paulo II, Exort. apost. post-sinodal Familiaris consortio (22 de Novembro de 1981): AAS 74 (1982), 81-191; Carta apost. Mulieris dignitatem (15 de Agosto de 1988): AAS 80 (1988), 1653-1729; Carta às famílias (2 de Fevereiro de 1994): AAS 86 (1994), 868-925; Carta às mulheres (29 de Junho de 1995): AAS 87 (1995), 803-812; Catequese sobre o amor humano (1979-1984): Insegnamenti II (1979) - VII (1984); Congregação para a Educação Católica, Orientações educativas sobre o amor humano. Lineamentos de educação sexual (1 de Novembro de 1983): Ench. Vat. 9, 420-456; Pontifício Conselho para a Família, Sexualidade humana: verdade e significado. Orientações educativas em família (8 de Dezembro de 1995): Ench. Vat. 14, 2008-2077.

[2] Sobre a complexa questão do gender, cfr ainda Pontifício Conselho para a Família, Família, matrimónio e «união de facto» (26 de Julho de 2000), 8: Suplemento a L'Osservatore Romano (22 de Novembro de 2000), 4. 

[3] Cfr João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 21: AAS 91 (1999), 22: «Esta abertura ao mistério, que provinha da Revelação, acabou por ser para ele [o homem bíblico] a fonte de um verdadeiro conhecimento, que permitiu à sua razão aventurar-se em espaços infinitos, recebendo possibilidades de compreensão, até então impensáveis». 


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