TEMAS LITÚRGICOS

 

INTRODUÇÃO AO ESPÍRITO DA LITURGIA

 

2ª Parte (Continuação)

 

 

Cidade do Vaticano, 6 de Janeiro de 2010

 

Conferencia para o ano sacerdotal por Mons. Guido Marini, Mestre de Cerimónias das Celebrações Litúrgicas do Papa

 

tradução: Fabiano Rollim

 

 

 

3. Adoração e união com Deus.

A adoração é o reconhecimento cheio de admiração, e poderíamos mesmo dizer com êxtase (porque nos faz sair de nós mesmos e de nosso mundo pequeno), o reconhecimento do poder infinito de Deus, de sua majestade incompreensível e de Seu amor sem limites que nos é oferecido com absoluta gratuidade, de Seu Senhorio omnipotente e providente.

 

Consequentemente, a adoração leva à reunificação do homem e da criação com Deus, ao abandono do estado de separação, de aparente autonomia, à perda de si mesmo, que é, além do mais, a única maneira de ganhar a si mesmo.

 

Diante da inefável beleza da caridade de Deus, que toma forma no mistério da Encarnação do Verbo, que por nós morreu e ressuscitou, e que encontra sua manifestação sacramental na liturgia, não nos resta mais nada a não ser estar em adoração. O Papa João Paulo II afirma na carta Ecclesia de Eucharistia: «Há, no evento pascal e na Eucaristia que o actualiza ao longo dos séculos, uma capacidade realmente imensa, na qual está contida a história inteira, enquanto destinatária da graça da redenção. Este enlevo deve invadir sempre a assembleia eclesial reunida para a celebração eucarística.» (n.5)

 

«Meu Senhor e meu Deus», fomos ensinados a dizer desde a infância no momento da consagração. Desta maneira, tomando emprestadas as palavras do apóstolo São Tomé, somos levados a adorar o Senhor, feito presente e vivo nas espécies da sagrada eucaristia, unindo-nos a Ele e reconhecendo-O como nosso tudo. Dali torna-se possível prosseguir nosso caminho diário, tendo encontrado a ordem correcta da vida, o critério fundamental pelo qual viver e morrer.

Aqui está a razão pela qual tudo no acto litúrgico, através da nobreza, da beleza, e da harmonia dos sinais exteriores, tem que conduzir à adoração, à união com Deus: isto inclui a música, o canto, os períodos de silêncio, a maneira de proclamar a Palavra do Senhor, a maneira de rezar, os gestos empregados, as vestes litúrgicas os vasos sagrados e outros acessórios, assim como o edifício sagrado em sua totalidade. É sob esta perspectiva que a decisão de Sua Santidade, o Papa Bento XVI, deve ser entendida, que, começando a partir da festa de Corpus Christi do ano passado, começou a distribuir a Sagrada Comunhão aos fiéis ajoelhados e directamente na língua. Pelo exemplo dessa conduta, o Santo Padre nos convida a tornar visível a atitude própria de adoração diante da grandeza do mistério da presença eucarística de Nosso Senhor. Uma atitude de adoração que tem que ser promovida tanto mais ao se aproximar da santíssima Eucaristia das outras formas permitidas nos dias de hoje [2].

 

Gostaria de citar mais uma vez outra passagem da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis: «Quando a reforma dava os primeiros passos, aconteceu às vezes não se perceber com suficiente clareza a relação intrínseca entre a Santa Missa e a adoração do Santíssimo Sacramento; uma objecção então em voga, por exemplo, partia da ideia que o pão eucarístico nos fora dado não para ser contemplado, mas comido. Ora, tal contraposição, vista à luz da experiência de oração da Igreja, aparece realmente destituída de qualquer fundamento; já Santo Agostinho dissera: ‘Nemo autem illam carnem manducat, nisi prius adoraverit; [...] peccemus non adorando – ninguém come essa carne, sem antes a adorar; [...] pecaríamos se não a adorássemos’ De facto, na Eucaristia, o Filho de Deus vem ao nosso encontro e deseja unir-se connosco; a adoração eucarística é apenas o prolongamento visível da celebração eucarística, a qual, em si mesma, é o maior ata de adoração da Igreja: receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração daquele que comungamos. Precisamente assim, e apenas assim, é que nos tornamos um só com ele e, de algum modo, saboreamos antecipadamente a beleza da liturgia celeste.» (n. 66)

 

Creio que, entre outras, a seguinte passagem do texto que acabei de ler não deve passar desapercebida: «[A celebração eucarística] é, em si mesma, o maior acto de adoração da Igreja.» Graças à sagrada eucaristia, Sua Santidade, Bento XVI, nos diz mais uma vez: «A imagem do matrimónio entre Deus e Israel torna-se realidade de um modo anteriormente inconcebível: o que era um estar na presença de Deus torna-se agora, por meio da participação na doação de Jesus, comunhão em seu corpo e sangue, torna-se união.» (Deus Caritas Est, n.13) Por esta razão, tudo na liturgia, e mais especificamente na liturgia eucarística, tem que levar à adoração; tudo no desenrolar do rito tem que ajudar a se entrar na adoração da Igreja ao seu Senhor.

 

Considerar a liturgia como local de adoração, para unir-se com Deus, não significa perder de vista a dimensão comunitária da celebração litúrgica, muito menos esquecer o imperativo da caridade em relação ao próximo. Pelo contrário, somente através de uma renovação da adoração a Deus em Cristo, que toma forma no acto litúrgico, nascerá uma autêntica comunhão fraterna e uma nova história de caridade e amor, sustentada por aquela capacidade de maravilhar-se e de agir heroicamente, que somente a graça de Deus pode dar aos nossos pobres corações. As vidas dos santos nos recordam e nos ensinam isso. «A união com Cristo é, ao mesmo tempo, união com todos os outros aos quais Ele Se entrega. Eu não posso ter Cristo só para mim; posso pertencer-Lhe somente unido a todos aqueles que se tornaram ou que se tornarão Seus. A comunhão tira-me para fora de mim mesmo, projectando-me para Ele e, desse modo, também para a união com todos os cristãos.» (Deus Caritas Est, n.14)

4. A Participação Activa.

Foram realmente os santos que celebraram e viveram o acto litúrgico participando activamente. A santidade, como resultado de suas vidas, é o testemunho mais bonito de uma participação verdadeiramente activa na liturgia da Igreja.

Justamente, então, e por providência divina, o Concílio Vaticano II insistiu tanto na necessidade de promover uma autêntica participação da parte dos fiéis durante a celebração dos sagrados mistérios, ao mesmo tempo em que lembrava à Igreja do chamado universal à santidade. Essa instrução exigente do concílio tem sido confirmada e proposta mais e mais por tantos documentos sucessivos do magistério até o presente dia.

 

Apesar disso, nem sempre tem havido um entendimento correcto do conceito de «participação activa», de acordo com aquilo que a Igreja ensina e exorta os fiéis a viver. Na verdade, há participação activa quando, durante o curso da celebração litúrgica, cada um cumpre seu próprio papel; também há participação activa quando se tem uma melhor compreensão da palavra de Deus quando a mesma é ouvida ou das orações quando as mesmas são ditas; também há participação activa quando se une a própria voz às demais vozes no canto… Tudo isso, entretanto, não significaria uma participação verdadeiramente activa se não levasse à adoração do mistério de salvação em Cristo Jesus, que por nossa causa morreu e ressuscitou. Isto porque só aquele que adora o mistério, recebendo-o de bom grado em sua vida, demonstra ter compreendido o que está sendo celebrado, e então está verdadeiramente participando da graça do acto litúrgico.

 

Como confirmação e respaldo para o que acaba de ser dito, ouçamos novamente as palavras de uma passagem do então Cardeal Ratzinger, do seu estudo fundamental «Introdução ao Espírito da Liturgia»: «Mas em que consiste esta participação activa? O que se faz aí? Infelizmente, o sentido dessa palavra facilmente leva a equívocos, pensando-se que se trata de um acto geral e apenas exterior, como se todos tivessem de – quanto mais possível tanto melhor – ver-se em acção. Contudo, a palavra ‘participação’ (ou ‘ter participação’) remete para uma participação principal, na qual todos devem participar… Nas fontes, entende-se sob actio da Liturgia a oração eucarística. A verdadeira acção litúrgica, o verdadeiro acto litúrgico, é a oratio… Essa oratio – a oração eucarística, o ‘Cânone’ – é certamente mais do que uma alocução, ela é actio no sentido mais elevado do termo.» (edição portuguesa, pp.127-8) Cristo é feito presente em toda a sua obra salvífica, e por esta razão a actio humana se torna secundária e cede espaço à actio divina, à obra de Deus.

 

Logo, a verdadeira acção que é executada na liturgia é a acção do próprio Deus, sua obra de salvação em Cristo, da qual participamos. Esta é, entre outras coisas, a verdadeira novidade da liturgia cristã em relação a todos os outros aptos de culto: o próprio Deus age e realiza o que é essencial, enquanto o homem é chamado a abrir-se à actividade de Deus, a deixar-se transformar. Consequentemente, o aspecto essencial da participação activa é superar a diferença entre a acção de Deus e nossa própria acção, de forma a que possamos ser um com Cristo. Por isso eu poderia enfatizar o que foi dito até agora: não é possível participar sem adoração. Escutemos outra passagem da Sacrosanctum Concilium: «É por isso que a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na acção sagrada, consciente, activa e piedosamente, por meio duma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que, dia após dia, por Cristo mediador, progridam na unidade com Deus e entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos.» (n. 48)

 

Comparado com isso, tudo o mais é secundário. Estou me referindo em particular às acções externas, lembrando que as mesmas são importantes e necessárias, e previstas sobretudo durante a Liturgia da Palavra. Menciono as acções externas porque, caso se tornem a preocupação essencial, a liturgia será reduzida a um acto genérico, e neste caso o autêntico espírito da liturgia não terá sido compreendido. Segue-se que uma autêntica educação para a liturgia não pode consistir em simplesmente aprender e praticar acções exteriores, mas em uma introdução à acção essencial, à obra de Deus, ao mistério pascal de Cristo, que precisamos permitir que nos encontre, nos envolva e nos transforme. Que a mera execução de gestos externos não seja confundida com o correcto envolvimento de nossos corpos no acto litúrgico. Sem excluir nada do significado e importância da acção externa que acompanha o acto interno, a Liturgia demanda muito mais do corpo humano. Requer, de facto, seu esforço total e renovado nas acções diárias da vida. Isto é o que o Santo Padre Bento XVI chama de «coerência eucarística». Propriamente falando, o exercício oportuno e fiel de tal coerência é a expressão mais autêntica da participação, inclusive corporal, no acto litúrgico, a acção salvífica de Cristo.

 

Gostaria de discutir mais este ponto. Estamos realmente certos de que a promoção de uma participação activa consiste em fazer com que tudo seja imediatamente compreensível até os mínimos detalhes? Será que o ingresso no mistério de Deus não pode ser facilitado e, algumas vezes, até melhor acompanhado por aquilo que toca principalmente as razões do coração? Não acontece, em alguns casos, que uma quantidade desproporcional de espaço é dada a um discurso vazio e trivial, esquecendo-se que pertencem à liturgia diálogo e silêncio, canto e música, imagens, símbolos e gestos? Não pertenceriam, talvez, a essa diversidade de linguagem que nos conduz ao centro do mistério e, portanto, à verdadeira participação, também a língua latina, o canto Gregoriano e a polifonia sacra?

5. A música sacra ou litúrgica.

Não há dúvidas de que uma discussão que se proponha a ser uma introdução autêntica ao espírito da liturgia não pode silenciar quanto ao assunto música sacra ou litúrgica.

Limitar-me-ei a uma breve reflexão para orientar a discussão. Poderia-se pensar por que a Igreja, através de seus documentos, mais ou menos recentes, insiste em indicar um certo tipo de música e canto como particularmente consonantes com a celebração litúrgica. Já no Concílio de Trento a Igreja interveio no conflito cultural que se desenvolvia na época, restabelecendo a norma pela qual a conformidade da música com o texto sagrado era de suma importância, limitando o uso de instrumentos e indicando uma clara distinção entre música profana e sacra. A música sacra, inclusive, não pode mais ser entendida como expressão de pura subjectividade. Ela está ancorada nos textos bíblicos ou da Tradição que devem ser cantados durante o curso da celebração. Mais recentemente, o Papa São Pio X interveio de maneira análoga, procurando remover o canto operístico da liturgia e seleccionando o canto Gregoriano e a polifonia do tempo da contra-reforma Católica como o padrão para a música litúrgica, distinguindo-a assim da música religiosa em geral. O Concílio Vaticano II não fez nada além de reafirmar o mesmo padrão, assim como os documentos magisteriais mais recentes.

 

Por que a Igreja insiste em propor certas formas como características da música sagrada e litúrgica, fazendo-as distintas de todas as outras formas de música? Por que, também, o canto Gregoriano e a polifonia sagrada clássica se tornaram as formas exemplares, à luz das quais a música litúrgica e mesmo a popular deveriam continuar a ser produzidas hoje?

 

A resposta a estas questões reside precisamente naquilo que procuramos discorrer a respeito do espírito da liturgia. São propriamente aquelas formas de música – em sua santidade, bondade e universalidade – que traduzem em notas, melodias e canto o autêntico espírito litúrgico: levando à adoração do mistério celebrado, favorecendo uma participação autêntica e integral, ajudando o ouvinte a perceber o sagrado e, logo, a primazia essencial de Deus agindo em Cristo, e finalmente permitindo um desenvolvimento musical que esteja ancorado na vida da Igreja e na contemplação de seu mistério.

 

Permitam-me uma última citação de Joseph Ratzinger: «Gandhi destaca três espaços vitais no cosmos e mostra como cada um deles comunica seu próprio modo de ser. Os peixes vivem no mar e são silenciosos. Os animais terrestres gritam, mas os pássaros, cujo espaço vital é o céu, cantam. O silêncio é próprio do mar, gritar é próprio da terra, e cantar é próprio do céu. O homem, entretanto, participa dos três: ele leva em si a profundidade do mar, o peso da terra e a altura dos céus; é por isto que todos os três modos de ser pertencem a ele: silêncio, grito e canto. Hoje… vemos que, despojado da transcendência, tudo o que resta ao homem é gritar, porque ele deseja ser somente terra e busca transformar em terra mesmo os céus e a profundeza do mar. A verdadeira liturgia, a liturgia da comunhão dos santos, lhe restitui sua totalidade. Ela o ensina de novo como ser silencioso e como cantar, abrindo para ele as profundezas do mar e ensinando-o novamente a voar, a natureza de um anjo; elevando seu coração, faz ressoar nele mais uma vez aquela canção que tinha de certo modo adormecido. De facto, podemos mesmo dizer que a verdadeira liturgia é reconhecível especialmente quando nos liberta da forma comum de viver, e nos restaura as profundezas e as alturas, silêncio e canção. A verdadeira liturgia é reconhecível pelo facto de ser cósmica, e não feita sob medida para um grupo. Ela canta com os anjos. Ela permanece em silêncio com as profundezas do universo em espera. E desta forma ela redime o mundo.» (Cantate al Signore un canto nuovo, pp. 153-4)

 

Concluo. Já há alguns anos, várias vozes têm sido ouvidas dentro da Igreja falando sobre a necessidade de uma nova renovação litúrgica. De um movimento, de alguma forma análogo àquele que formou as bases para a reforma promovida pelo Concílio Vaticano II, que seja capaz de operar uma reforma da reforma, ou melhor, um passo adiante no entendimento do autêntico espírito da liturgia e de sua celebração; seu objectivo seria levar a cabo aquela providencial reforma da liturgia que os Padres conciliares iniciaram mas que nem sempre, em sua implementação prática, encontrou um cumprimento oportuno e feliz.

 

Não há dúvidas de que nesta nova renovação litúrgica somos nós sacerdotes que devemos recuperar um papel decisivo. Com a ajuda de Nosso Senhor e da Bem Aventurada Virgem Maria, mãe de todos os sacerdotes, possa este desenvolvimento ulterior da reforma também ser o fruto de nosso sincero amor pela liturgia, em fidelidade à Igreja e ao Santo Padre.

 

 

[2] Nota do Tradutor: o autor refere-se ao receber a sagrada comunhão estando de pé e nas mãos.

 

 


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