DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

VIAGEM APOSTÓLICA A MALTA

 

 

No fim de semana de 17 a 18 de Abril passado, Bento XVI realizou uma Viagem apostólica a Malta, por ocasião do 1950.º aniversário do naufrágio de São Paulo na Ilha, quando era levado preso para Roma.

Damos o comentário que o próprio Papa fez na audiência geral da quarta-feira seguinte (21-IV-2010).

Subtítulos da Redacção de CL.

 

Estimados irmãos e irmãs!

 

Como sabeis, no sábado e domingo passados, realizei uma Viagem apostólica a Malta, sobre a qual gostaria de reflectir brevemente. A ocasião da minha visita pastoral foi o 1950.º aniversário do naufrágio do Apóstolo Paulo no litoral do arquipélago maltês e da sua permanência naquelas ilhas durante três meses. É um acontecimento que se pode inserir por volta do ano 60 e que é narrado com abundância de pormenores no livro dos Actos dos Apóstolos (caps. 27-28). Como aconteceu com São Paulo, também eu experimentei a calorosa hospitalidade dos Malteses – verdadeiramente extraordinária – e por isso exprimo novamente o meu mais vivo e cordial reconhecimento ao Presidente da República, ao Governo e às demais Autoridades do Estado, e agradeço fraternalmente aos Bispos do país, com todos aqueles que colaboraram para preparar este festivo encontro entre o Sucessor de Pedro e a população maltesa. A história deste povo, desde há quase dois mil anos, é inseparável da fé católica, que caracteriza a sua cultura e as suas tradições: afirma-se que em Malta existem 365 igrejas, «uma para cada dia do ano», um sinal visível desta fé profunda!

Tudo teve início com aquele naufrágio: depois de ter permanecido à deriva durante 14 dias, impelida pelos ventos, a nau que transportava para Roma o Apóstolo Paulo e muitas outras pessoas encalhou num baixio da Ilha de Malta. Por isso, depois do encontro cordial com o Presidente da República na capital Valeta – que teve a bonita moldura da alegre saudação de muitos jovens e moças – fui imediatamente em peregrinação à chamada «Gruta de São Paulo», nos arredores de Rabat, para um intenso momento de oração. Ali pude saudar também um numeroso grupo de missionários malteses. Pensar naquele pequeno arquipélago no centro do Mediterrâneo, e no modo como chegou ali a semente do Evangelho, suscita um sentido de grande admiração pelos desígnios misteriosos da Providência divina: é espontâneo dar graças ao Senhor e também a São Paulo que, no meio daquela tempestade violenta, manteve a confiança e a esperança, transmitindo-as inclusive aos seus companheiros de viagem. Daquele naufrágio, ou melhor, da sucessiva permanência de Paulo em Malta, nasceu uma comunidade cristã fervorosa e sólida, que depois de dois mil anos ainda é fiel ao Evangelho e se esforça por conjugá-lo com as complexas questões da época contemporânea. Naturalmente, isto nem sempre é fácil nem certo, mas o povo maltês sabe encontrar na visão cristã da vida as respostas aos novos desafios. Um sinal disto, por exemplo, é o facto de ter mantido sólido o profundo respeito pela vida nascitura e pela sacralidade do matrimónio, preferindo não introduzir o aborto e o divórcio no ordenamento jurídico do país.

Uma Igreja missionária

Portanto, a minha viagem tinha a finalidade de confirmar na fé a Igreja que está em Malta, uma realidade muito viva, bem estruturada e presente no território de Malta e Gozo. Toda esta comunidade tinha marcado encontro em Floriana, na Praça dos Celeiros, diante da igreja de São Públio, onde celebrei a Santa Missa participada com grande fervor. Para mim foi motivo de alegria, e também de consolação, sentir o calor particular daquele povo que parece uma grande família, irmanada pela fé e pela visão cristã da vida. Depois da celebração, desejei encontrar-me com algumas pessoas vítimas de abusos da parte de representantes do Clero. Compartilhei com elas o sofrimento e, com emoção, rezei com elas assegurando o empenho da Igreja.

Se Malta parece uma grande família, não se pode pensar que, por causa da sua conformação geográfica, seja uma sociedade «isolada» do mundo. Não é assim, e vê-se, por exemplo, pelos contactos que Malta mantém com vários países e do facto de que em muitas nações se encontram sacerdotes malteses. Com efeito, as famílias e as paróquias de Malta souberam educar muitos jovens para o sentido de Deus e da Igreja, e desta forma muitos deles responderam generosamente ao chamamento de Jesus e tornaram-se presbíteros. Entre eles, numerosas pessoas abraçaram o compromisso missionário ad gentes, em terras distantes, herdando o espírito apostólico que impelia São Paulo a levar o Evangelho aonde ainda não tinha chegado. É um aspecto que reafirmei de bom grado, isto é, que «é dando a fé que ela se fortalece» (Encíclica Redemptoris missio, 2). Na origem desta fé, Malta desenvolveu-se e agora abre-se a várias realidades económicas, sociais e culturais, para as quais oferece uma contribuição preciosa.

É claro que Malta teve de se defender frequentemente ao longo dos séculos e vê-se isto pelas suas fortificações. Obviamente, a posição estratégica do pequeno arquipélago chamava a atenção dos diversos poderes políticos e militares. E todavia, a vocação mais profunda de Malta é a cristã, ou seja, a vocação universal da paz! A célebre cruz de Malta, que todos associam àquela nação, flutuou muitas vezes no meio de conflitos e contendas; mas, graças a Deus, nunca perdeu o seu significado autêntico e perene: é o sinal do amor e da reconciliação, e esta é a verdadeira vocação dos povos que acolhem e abraçam a mensagem cristã!

Encruzilhada natural, Malta está no centro de rotas de migração: homens e mulheres, como outrora São Paulo, chegam ao litoral maltês, às vezes impelidos por condições de vida muito árduas, por violências e perseguições, e isto implica, naturalmente, problemas complexos nos planos humanitário, político e jurídico, problemas que têm soluções não fáceis, mas que devem ser procuradas com perseverança e tenacidade, concertando as intervenções a nível internacional. É bom que se faça assim em todas as nações que têm os valores cristãos nas raízes das suas Cartas Constitucionais e das suas culturas.

O encontro com os jovens

O desafio de conjugar na complexidade do presente a validade perene do Evangelho é fascinante para todos, mas especialmente para os jovens. Com efeito, as novas gerações sentem-no de modo muito forte, e por isso desejei que também em Malta, apesar da brevidade da minha visita, não faltasse o encontro com os jovens. Foi um momento de diálogo profundo e intenso, que se tornou ainda mais bonito pelo ambiente onde se realizou – o porto de Valeta – e pelo entusiasmo dos jovens. A eles, eu não podia deixar de recordar a experiência juvenil de São Paulo: uma experiência extraordinária, única, e no entanto capaz de falar às novas gerações de todas as épocas, por aquela transformação radical que se seguiu ao encontro com Cristo ressuscitado. Portanto, olhei para os jovens de Malta como para potenciais herdeiros da aventura espiritual de São Paulo, chamados como ele a descobrir a beleza do amor de Deus que nos foi concedido em Jesus Cristo, a abraçar o mistério da sua Cruz, a ser vencedores precisamente nas provas e tribulações, a não ter medo das «tempestades» da vida e nem sequer dos naufrágios, porque o desígnio de amor de Deus é também maior do que as tempestades e os naufrágios.

Caros amigos, foi esta em síntese a mensagem que levei a Malta. Mas, como eu mencionava, eu mesmo recebi muito daquela Igreja, daquele povo abençoado por Deus, que soube colaborar validamente com a sua graça. Que, por intercessão do Apóstolo Paulo, de São Jorge Preca, sacerdote, primeiro santo maltês, e da Virgem Maria, que os fiéis de Malta e Gozo veneram com tanta devoção, ela possa sempre progredir na paz e na prosperidade.

 


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