A  abrir

Um  problema  de  orfandade

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

Escrita no princípio de Maio, a presente nota não pode fazer eco às palavras do Santo Padre nesta Terra de Santa Maria, como desejaríamos. Em vésperas desse bendito acontecimento, só pode reflectir o ambiente de alegre expectativa que o precede, assim como o nervosismo de alguns perante a sua próxima presença entre nós. Não faltou sequer a patética sugestão de um novo Concílio para «completar» (ou «corrigir»?) o Vaticano II… Um Vaticano III? Mais atrevido, já outro sugerira há anos que nem isso «bastaria»; seria preciso um «Jerusalém II»! Esquecia-se de que o último Concílio foi esse precisamente: uma solene declaração da igualdade radical de todos os fiéis, tal como o primeiro afirmou - todos os cristãos, «judeus e gregos», homens e mulheres, de qualquer estado e condição. sem diferença alguma, são chamados à santidade. Não a diversos graus de santidade, mas exactamente à mesma, que é a plena identificação com Cristo, amando a Deus «com todo o coração, com todas forças, com todo o entendimento e com toda a alma», e ao próximo, como a nós mesmos.

Quando S. Josemaria Escrivá começou a recordar aos cristãos este chamamento evangélico, que escândalo provocou! E, no entanto, nunca a Igreja ensinara outra coisa; nunca falseara o Evangelho, nem tergiversara as exigências dos Apóstolos nas suas cartas de fogo, dirigidas aos primeiros fiéis; e nunca cessara de apelar à santificação de todos os baptizados na sagrada liturgia… E, no entanto, quem se convencia disso? Desde o século IV mina o Povo de Deus uma verdadeira mentalidade discriminatória entre o chamamento «à perfeição» e o chamamento apenas «à salvação», embora, graças a Deus, também nunca tenham faltado santos entre os fiéis leigos, tal como entre os consagrados e os sacerdotes, pois o Espírito Santo não segue as nossas modas nem «mentalidades».

Um Vaticano III? Pode-se dizer que o Concílio Vaticano II já se cumpriu? Que todo o Povo de Deus já é consciente dessa igualdade radical no chamamento à santidade? Que extraordinário milagre seria ter-se levantado de vez essa pesada laje de dezassete séculos em breves cinquenta anos! Infelizmente, não. Infelizmente a imensa maioria dos cristãos continua a ignorar os Evangelhos, a desconhecer Cristo e a organizar a sua vida como quaisquer pagãos… E haverá melhor pastoral do que despertá-los para a realidade sobrenatural? Como dizia S. Josemaria, «quem não sabe que é filho de Deus desconhece a sua mais íntima verdade».

Os últimos Pontífices compreenderam-no bem, e todo o seu esforço consiste na aplicação correcta do Concílio. Os maus teólogos preocupam-se apenas com aquilo a que chamam «adaptação da Igreja ao mundo moderno», mas, entendendo por isso este mundo descristianizado, o que pretendem, afinal, senão descristianizar a Igreja? Triste sina! Até porque o «mundo moderno» é um mundo assustado, que aspira à fraternidade e sente cada vez mais a falta de um Pai, da paternidade divina, sem a qual não podemos ser irmãos. Que mal entendem o mundo moderno os que o identificam com a sua orfandade espiritual e moral como se fosse uma característica positiva, quando é uma angustiosa doença, a tratar urgentemente! 

 


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