TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

 

A VISÃO CRISTÃ DA ECOLOGIA

 

 

António Porras

Professor de Teologia Moral

Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma)

 

 

Introdução

Nas últimas décadas assistimos a uma crescente preocupação pela ecologia. Entre as diversas atitudes, existem duas correntes contrapostas que partem de concepções filosóficas muito diferentes sobre o homem e o mundo. A primeira delas tende à divinização do homem, considerando-o não como colaborador de Deus para o aperfeiçoamento da criação, mas como criador do mundo e de si próprio através do seu trabalho. Esta visão suscita uma atitude despótica sobre a Natureza, considerada como objecto de exploração e fonte inesgotável de recursos. Em contraste com esta posição, aparece outra que, «em nome de uma concepção inspirada no ecocentrismo e no biocentrismo, se propõe eliminar a diferença ontológica e axiológica entre o homem e os outros seres vivos, considerando a biosfera como uma unidade biótica de valor indiferenciado. Assim, elimina-se a responsabilidade superior do homem a favor de uma consideração igualitária da “dignidade” de todos os seres vivos» . Alguns até chegam a absolutizar a Natureza «e colocá-la, em dignidade, por cima da própria pessoa humana» . Apesar das suas diferenças, estas atitudes têm em comum a rejeição de Deus como ponto de referência existencial, são modos diferentes de idolatria: uma diviniza o homem em prejuízo do habitat e outra a Natureza em prejuízo do homem.

O cristianismo distancia-se de ambas, porque sabe que o homem e a Natureza são fruto da acção criadora de Deus e que Cristo é o centro do cosmos e da história . Para se ter uma visão completa da compreensão cristã da ecologia, é necessário fazer referência à criação, à redenção e à esperança num céu novo e numa terra nova (escatologia).

1. A Ecologia e o plano criador de Deus

Os relatos da criação apresentam o homem dentro da Natureza, com a qual guarda uma relação de solidariedade, pelo facto de ter o mesmo Criador e estar ordenado, juntamente com ela, para a glória de Deus. A atitude do homem perante o mundo não pode ser de desenraizamento, distanciamento, independência e oposição, mas de compromisso, como corresponde a uma realidade que forma parte da sua casa  e da sua própria existência. A Natureza não só enquadra a vida do homem, como de algum modo forma parte dela.

Ao mesmo tempo, o homem é em certa medida distinto do mundo. No primeiro capítulo do Génesis, a apresentação escalonada do relato da criação situa o homem no cimo da criação visível (Gen 1, 1-31) . Mais significativa ainda é a manifestação da intenção de Deus ao criar o homem, e as indicações que faz depois o criar . O homem, criado à imagem de Deus , é colocado à cabeça da criação visível, a qual está ao seu serviço (Gen 1, 29), e reflecte a imagem de Deus através do domínio de todos os seres vivos (Gen 1, 28) . Por outras palavras, sob certo aspecto, pode-se dizer que o homem é imagem de Deus porque domina, porque reflecte sobre o mundo o poder criador e a inteligência que governa de Deus .

O relato do Génesis também ressalta o chamamento de Deus para submeter a terra. Esta vocação, de cuidar e cultivar o paraíso, inscreve-se no chamamento primordial à existência (cfr. Gen 2, 15), cujo fim é a comunhão do homem com Deus. O plano divino originário consistia em que o homem, vivendo em harmonia com Deus, com os outros e com o mundo, orientasse para o Criador, não só a sua pessoa, mas também todo o universo, de modo que a criação desse glória a Deus através do homem. Por sua vez, o homem através do exercício desse domínio cresceria, aperfeiçoar-se-ia e relacionar-se-ia com Deus.

A função de domínio sobre o mundo encontra uma expressão adequada no conceito de administração , pois o domínio do homem sobre a Natureza não é um domínio absoluto, despótico, mas participado e virtuoso. O mundo deve ser considerado, não como uma res nullius – algo que não tem dono –, mas res omnium – património da humanidade –; e, portanto, o seu uso deve redundar em benefício de todos . Pois bem, como realiza o homem a administração do cosmos? O homem, em primeiro lugar, como administrador deve reconhecer que a criação é obra de Deus e dom para o homem . Uma doação é mais perfeita quando o destinatário é consciente da mesma e é capaz de a aceitar. Aceita-se realmente, não só ao receber o dom, mas também quando se reconhece a pessoa que concede o dom, quando se identifica a própria vontade com a vontade do doador . A boa administração exige ao homem, enquanto imagem de Deus, que participe da sua Sabedoria e da sua Soberania sobre o mundo , isto é, que se relacione com a terra com a mesma atitude do Criador, que não só é Omnipotente, mas também Providência amorosa . Acolher o dom da criação conduz num primeiro momento a conhecer os “ordenamentos intrínsecos” traçados pelo Criador, os quais são «sinais de orientação que devemos ter em conta como administradores da sua criação» . «O facto de que esta estrutura inteligente procede do mesmo Espírito criador que nos deu o espírito também a nós, implica ao mesmo tempo uma tarefa e uma responsabilidade» : o homem recebe o poder de dominar o mundo, «não para o destruir, mas para o converter no jardim de Deus e, assim, também num jardim do homem» . Deste modo, através do trabalho do homem, torna-se visível a Providência de Deus sobre o mundo.

Pode distinguir-se, portanto, duas acções no domínio do homem sobre a criação: o conhecimento (científico, metafísico, teológico, etc.) do cosmos e o trabalho para o aperfeiçoar. Estas tarefas levam em si também uma orientação ética pelo facto de reflectirem o Espírito criador . Reconhecendo as estruturas racionais da criação, o homem poderá reconhecer os limites do seu actuar. O primeiro limite da acção humana sobre o mundo é o próprio homem, pois «não deve fazer uso da Natureza contra o seu próprio bem, o bem dos seus próximos e o bem das futuras gerações (…). O segundo limite são os seres criados, isto é, a vontade de Deus expressa na Natureza. Ao homem não lhe está permitido fazer o que quiser e como quiser com as criaturas que o rodeiam. Pelo contrário, o homem deve “cultivar” e “guardar”, como ensina a narração bíblica da criação (Gen 2, 15). O facto de que Deus “deu” ao género humano as plantas para comer e o jardim “para cuidar” implica que a vontade de Deus deve ser respeitada quando se trata das suas criaturas. Estão “confiadas” a nós e não simplesmente à nossa disposição. Por esta razão, o uso dos bens criados implica obrigações morais» .

2. O Pecado e a Redenção

A visão cristã, juntamente com a participação do homem na obra criadora de Deus, não perde de vista a realidade do pecado. O pecado original não só rompeu a harmonia entre Deus e o homem, como também rompeu a harmonia do homem com a criação . No Génesis, a maldição de Deus sobre a terra tem a sua origem no pecado do homem (Gen 3, 17-18). A crise do meio ambiente não pode considerar-se somente como a consequência de um «erro» técnico; é, sobretudo, o resultado da vontade humana que, em lugar de tratar a Natureza em obediência à lei moral, decidiu utilizá-la como meio para exaltar o próprio poder e bem estar: o problema ecológico é um problema moral.

O empenho ecológico deve iniciar por uma mudança de tipo espiritual e moral. A ecologia interior é condição necessária para solucionar a ecologia exterior . A ecologia interior permite e tem como fruto a mudança moral da pessoa, um novo modo de actuar em relação com os outros e com a Natureza, a superação das atitudes e estilos de vida conduzidos pelo egoísmo, que são a causa do esgotamento dos recursos naturais. A tutela do meio ambiente será considerada eficazmente como uma obrigação moral que incumbe a cada pessoa e a toda a humanidade. Não será apreciada somente como uma questão de interesse pela Natureza, mas de responsabilidade de cada homem perante o bem comum e os desígnios de Deus.

Pela redenção, não só o homem é reconciliado com Deus, mas também o mundo visível, que – devido ao pecado – está sujeito à vaidade, «adquire novamente o vínculo original com a mesma fonte divina da Sabedoria e do amor» . A redenção de Cristo alcança toda a criação (Ef 1, 10; Col 1, 20) . Em Cristo, plenitude da caridade, o cristão encontra a verdade sobre o domínio da criação, um domínio que é serviço: um ocupar-se amorosamente no embelezamento do criado, que implica também maximizar o seu proveito. Com a redenção, o cuidado da criação não é outra coisa que a participação dos homens redimidos por Cristo, identificados com Ele, na obra redentora de Deus. O cristão, com efeito, está destinado a ser, em Cristo, sacerdote, profeta e rei de toda a criação .

3. A esperança cristã e a ecologia

A visão cristã acerca do domínio do homem sobre a criação seria incompleta, se não se tem em conta a dimensão escatológica. A esperança num céu novo e numa terra nova não conduz o cristão a desprezar o mundo; pelo contrário, para a maioria dos cristãos o caminho da salvação passa pela santificação das realidades terrenas. A espera de uma terra nova não deve amortecer, antes deve encarecer a preocupação por aperfeiçoar esta terra, a qual pode de algum modo antecipar um vislumbre do novo século.

Para o cristão, a espera das verdades últimas não é mera expectativa de um futuro longínquo, mas sim, em palavras do Santo Padre, «performativa» : o futuro, enquanto projecção antecipada do que é factível, transforma já e dá sentido ao presente. «Por isso, desde as Bem-aventuranças do Sermão da montanha até às promessas das cartas às sete Igrejas, a grande maioria das exortações evangélicas e apostólicas baseia-se na perspectiva escatológica, que constitui o motivo moral mais estimulante e realista que pode haver» . Por isso, os cristãos não podem desentenderem-se das coisas terrenas – em particular dos problemas ecológicos – pela espera de um céu e uma terra novos, antes essa mesma esperança estimula-os a esforçarem-se com perseverança ordenando as realidades terrenas segundo o desígnio divino.

Pela mesma razão, embora seja preciso distinguir cuidadosamente o progresso temporal e o crescimento do reino de Cristo, não se deve esquecer que «o primeiro, enquanto pode contribuir a ordenar melhor a sociedade humana, interessa em grande medida ao reino de Deus» . Seria erro tanto afirmar que o actuar humano em relação à criação não tem valor moral, como sustentar que o fim da ética ecológica é realizar já nesta terra, de modo definitivo, a promessa dos céus novos e da terra nova.

A ética ecológica deverá ser consciente de «que a procura, sempre nova e fatigante, de ordenamentos rectos para as realidades humanas é uma tarefa de cada geração; nunca é uma tarefa que se possa dar por concluída. Contudo, cada geração tem de oferecer também a sua própria contribuição para estabelecer ordenamentos convincentes de liberdade e de bem, que ajudem a geração seguinte como orientação ao recto uso da liberdade humana e dêem também assim, dentro dos limites humanos, uma certa garantia para o futuro» .

A dimensão escatológica da nova criação entranha o esforço do homem por renovar o mundo por meio do trabalho. Isto só é possível se o homem se renova interiormente, se procura identificar-se com Cristo para o colocar no cume de todas as actividades humanas .

Conclusão

Na perspectiva cristã, a vida dos outros seres tem um grande valor, mas não se trata de um valor oposto ao da pessoa; pelo contrário, o valor da vida animal e vegetal adquire o seu pleno sentido somente se se põe em relação com a vida da pessoa humana . A ecologia física, que protege e aperfeiçoa as condições materiais do meio ambiente, deve orientar-se para a ecologia humana , que procura conseguir um ambiente natural e humano adequado à dignidade do homem actual e das gerações futuras . Em consequência, «a medida e o critério de fundo do horizonte ecológico ao nível regional e mundial» devem ser a perfeição da pessoa enquanto pessoa em todas as suas dimensões . O facto de outorgar à pessoa o valor principal, longe de implicar um preconceito para com a Natureza, é o fundamento da sua verdadeira valorização. «Se falta o sentido do valor da pessoa e da vida humana, aumenta o desinteresse pelos outros e pela terra» .

 

 

 

 

 

 

 

 


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