5.º Domingo da Quaresma

28 de Março de 2004


Onde se fizerem os escrutínios preparatórios do Baptismo dos adultos, neste Domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.


RITOS INICIAIS


Cântico de entrada: Defendei-me Senhor, J. Santos, NRMS 105

Salmo 42, 1-2

Antífona de entrada: Fazei-me justiça, meu Deus, defendei a minha causa contra a gente sem piedade, livrai-me do homem desleal e perverso. Vós sois o meu refúgio.


Não se diz o Glória.


Introdução ao espírito da Celebração


Estamos reunidos com Jesus, que é a manifestação viva da misericórdia de Deus.

Como o filho pródigo saibamos voltar para o nosso Pai Deus, pelo arrependimento. É isso que a Santa Igreja nos convida, neste momento, a fazer.


Oração colecta: Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça de viver com alegria o mesmo espírito de caridade que levou o vosso Filho a entregar-Se à morte pela salvação dos homens. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Liturgia da Palavra


Primeira Leitura


Monição: O profeta Isaías anima os israelitas no desterro de Babilónia. O Senhor não os esqueceu e vai reconduzi-los de novo à sua terra. É um símbolo da conversão do coração, que Deus nos pede, de modo especial neste tempo santo.


Isaías 43, 16-21

16O Senhor abriu outrora caminhos através do mar, veredas por entre as torrentes das águas. 17Pôs em campanha carros e cavalos, um exército de valentes guerreiros; e todos caíram para não mais se levantarem, extinguiram-se como um pavio que se apaga. 18Eis o que diz o Senhor: «Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. 19Olhai: vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não a vedes? Vou abrir um caminho no deserto, fazer brotar rios na terra árida. 20Os animais selvagens – chacais e avestruzes – proclamarão a minha glória, porque farei brotar água no deserto, rios na terra árida, para matar a sede ao meu povo escolhido, 21o povo que formei para Mim e que proclamará os meus louvores».


A leitura é tirada do II Isaías, que tem por centro o regresso dos judeus deportados na Babilónia, após a queda desta cidade em 539, com a invasão de Ciro, rei persa, que decretou a libertação dos judeus. Era urgente animar este povo a regressar, pois ao cabo de mais de 60 anos, já aclimatados àquela situação de degredo e escravidão, não estariam motivados para a aventura do regresso – haveria mesmo gente instalada numa situação sofrível. O Profeta apresenta o regresso de Babilónia como um novo Êxodo, em que os antigos prodígios não só se renovarão, mas os deixarão a perder de vista: «Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados» (v. 18). Vale a pena tomar parte em tão maravilhosa aventura! É também um apelo válido para a conversão quaresmal, que a Igreja espera dos seus filhos.


Salmo Responsorial Sl 125 (126), 1-6 (R. 3)


Monição: O salmo é todo ele um recordar do regresso do cativeiro .Fala-nos da alegria da conversão de cada um de nós.


Refrão: Grandes maravilhas fez por nós o Senhor.

Ou: O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.


Quando o Senhor fez regressar os cativos de Sião,

parecia-nos viver um sonho.

Da nossa boca brotavam expressões de alegria

e de nossos lábios cânticos de júbilo.


Diziam então os pagãos:

«O Senhor fez por eles grandes coisas».

Sim, grandes coisas fez por nós o Senhor,

estamos exultantes de alegria.


Fazei regressar, Senhor, os nossos cativos,

como as torrentes do deserto.

Os que semeiam em lágrimas

recolhem com alegria.


À ida, vão a chorar,

levando as sementes;

à volta, vêm a cantar,

trazendo os molhos de espigas.


Segunda Leitura


Monição: S. Paulo ensina-nos o amor apaixonado a Jesus, desprezando todas as coisas por Seu amor


Filipenses 3, 8-14

Irmãos: 8Considero todas as coisas como prejuízo, comparando-as com o bem supremo, que é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele renunciei a todas as coisas e considerei tudo como lixo, para ganhar a Cristo 9e n’Ele me encontrar, não com a minha justiça que vem da Lei, mas com a que se recebe pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus e se funda na fé. 10Assim poderei conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, configurando-me à sua morte, 11para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos. 12Não que eu tenha já chegado à meta, ou já tenha atingido a perfeição. Mas continuo a correr, para ver se a alcanço, uma vez que também fui alcançado por Cristo Jesus. 13Não penso, irmãos, que já o tenha conseguido. Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, 14continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus.


O texto desta leitura constitui uma das mais belas jóias dos escritos paulinos. O contexto da passagem é a parte polémica desta carta do cativeiro (3, 1b – 4, 1; há exegetas pensam que esta carta é um conjunto de dois ou três pequenos escritos de S. Paulo), em que o Apóstolo põe os seus fiéis de sobreaviso contra os cristãos judaizantes, que queriam impor aos cristãos vindos dos gentios as práticas da lei de judaica, nomeadamente a circuncisão, vendo nelas uma forma de alcançar a justiça, a conformidade com Deus e com a sua vontade de modo a ser-Lhe agradável e a alcançar a salvação. A reacção de Paulo é extremamente enérgica e dura e confidencia que também ele tinha posto a sua confiança na carne (v. 4), sendo «irrepreensível quanto à justiça que deriva da observância da Lei» (v. 6); mas tinha-se dado nele uma viragem completa: em face do valor absoluto, o bem supremo, que é conhecer Cristo, tudo tinha mudado: «tudo quanto para mim era um ganho, isso mesmo considerei uma perda» (v. 7).

8 «Conhecer Jesus Cristo» não é um mero conhecimento teórico, mas experimental, vivencial, de Cristo; por Ele, insiste o Apóstolo, eu deixei perder todas estas coisas: os pergaminhos judaicos (vv. 4-6) em suma, a justiça que vem da Lei (v. 9); tudo isso é lixo, uma porcaria (v. 8: o termo grego – skybala – é mesmo muito duro, «excrementos»), em face da justiça que vem de Deus e da condição de estar em Cristo.

9 «A justiça que vem da Lei» não vai muito além da simples observância de prescrições, em que, de modo mais ou menos oculto, se aninha a afirmação do eu e das próprias capacidades para cumprir, e em que se reclama o mérito próprio perante Deus (como se o homem fosse o credor e Deus o devedor: lembre-se a parábola do fariseu e do publicano). «A justiça que vem de Deus» é um dom gratuito que eleva o ser humano tirando-o da sua radical incapacidade para se identificar com o projecto salvador de Deus; funda-se na fé, isto é, no acolhimento e aceitação de Cristo como dom de Deus, nomeadamente do valor salvador do que Ele padeceu por nós.

10 «A participação nos seu sofrimentos» é um dos aspectos essenciais de quem faz a experiência da fé em Cristo (o referido conhecimento de Cristo), mas esta experiência de morte não desemboca no vazio, mas tem como força motriz (dynamis) a Ressurreição de Cristo, e tem como meta a participação neste mistério, que não deixa de aparecer também como prémio para quem corre para a meta (v. 14).

12 «Uma vez que também fui alcançado». Paulo recorre com frequência às imagens das competições desportivas (cf. 2, 16; 1 Cor 9, 24-27; Gal 2, 2; 2 Tim 4, 6-8) para falar da vida cristã como uma luta. Apanhado por Cristo a caminho de Damasco (cf. Act 9, 3 ss), não deixa de correr, apenas muda o sentido da sua corrida.


Aclamação ao Evangelho Jl 2, 12-13


Monição: Jesus está sempre pronto a perdoar, mesmo os pecados mais graves, mas anima-nos a sair deles. Aclamemo-l'O.


Convertei-vos a Mim de todo o coração, diz o Senhor;

porque sou benigno e misericordioso.


Cântico: J. Santos, NRMS 40



Evangelho


São João 8, 1-11

Naquele tempo, 1Jesus foi para o Monte das Oliveiras. 2Mas de manhã cedo, apareceu outra vez no templo e todo o povo se aproximou d’Ele. Então sentou-Se e começou a ensinar. 3Os escribas e os fariseus apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério, colocaram-na no meio dos presentes 4e disseram a Jesus: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. 5Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?». 6Falavam assim para Lhe armarem uma cilada e terem pretexto para O acusar. Mas Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão. 7Como persistiam em interrogá-lo, ergueu-Se e disse-lhes: «Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra». 8Inclinou-Se novamente e continuou a escrever no chão. 9Eles, porém, quando ouviram tais palavras, foram saindo um após outro, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio. 10Jesus ergueu-Se e disse-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?». 11Ela respondeu: «Ninguém, Senhor». Disse então Jesus: «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar».


Esta passagem de sabor lucano é omitida nos manuscritos mais antigos do IV Evangelho, por isso é uma das passagens deutrocanónicas do Novo Testamento; também há manuscritos que colocam este relato no final deste Evangelho, ou então em Lc 21, 38. De qualquer modo, está fora de dúvida o seu valor canónico.

5-6 «Tu que dizes?» Tratava-se duma cilada à pessoa de Jesus. Se Ele dissesse que se devia apedrejar a adúltera, os seus inimigos conseguiriam denegrir a sua misericórdia para com os pecadores, que chegavam a ser motivo de duras críticas (cf. Lc 5, 30; 15, 2; 19, 7), e poderiam denunciá-lo à autoridade romana por mandar executar uma pena capital, que lhe estava reservada. Se dissesse que se lhe devia perdoar, podia vir a ser acusado ao Sinédrio como advogado da desobediência à Lei (cf. Lv 20, 10; Dt 17, 5-7; 22, 20-24). Mas Jesus põe a questão noutros termos: não se trata de escolher entre a observância da Lei e a misericórdia, entre a justiça e a caridade, mas sim entre a mentira e a verdade, entre a hipocrisia dos acusadores e a sinceridade de quem se reconhece pecador e chora o seu pecado. A Lei não determinava o género de morte, a não ser para a virgem que depois dos esponsais aguardava o início da vida conjugal (Dt 22, 23-24). Talvez se tivesse vindo a generalizar a lapidação, ou então tratava-se duma noiva após os esponsais e antes das bodas. Note-se que os rabinos da época cristã, por razão de benignidade, comutaram o apedrejamento pelo estrangulamento, pena menos selvagem.

6 «Começou a escrever com o dedo no chão». S. Jerónimo, baseado em Jer 17, 13, comenta curiosamente que se pôs a escrever os pecados dos acusadores.

7-9 «Atire a primeira pedra», isto pertencia pela Lei (Dt 13, 10; 17, 7) à principal testemunha de acusação. Com esta sentença, Jesus pretende confundir a malícia de falso zelo pela Lei da parte dos seus inimigos, hipocritamente arvorados em defensores duma Lei que não observavam. O receio de virem a ser desmascarados por Cristo fá-los debandar.

11 «Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar». O Senhor mostra-se tolerante e compassivo para com a pessoa que peca e ao mesmo tempo intransigente para com o pecado, ofensa a Deus, e, neste caso, um absoluto moral, que em nenhuma circunstância se poderia justificar.


Sugestões para a homilia


Vai e não tornes a pecar

Continuo a correr


Vai e não tornes a pecar

No domingo passado o Senhor falava-nos da bondade de Deus, que acolhe o filho pródigo.

Manda fazer para o filho ingrato, regressado à casa paterna, uma grande festa. O Senhor enche-nos da Sua alegria quando voltamos para Ele arrependidos.

Temos de nos converter todos os dias, fazendo muitas vezes, ao longo da jornada, o acto de contrição.. Dizia um sacerdote santo do nosso tempo que o acto de contrição era a melhor das devoções (S. Josemaría Escrivá). E é também a melhor maneira de nos prepararmos para a confissão.

O evangelho de hoje continua a lembrar-nos a misericórdia de Jesus, sempre pronto a perdoar. Mesmo que alguém tivesse cometido os maiores crimes do mundo, tem ainda aberto o coração de Cristo, que nos lava no Seu sangue, que nos limpa de todo o pecado.

Mas não basta que o Senhor queira perdoar. São exigidos da parte do pecador actos insubstituíveis para receber o perdão. O Concílio de Trento lembra-nos que são três: contrição, acusação dos pecados, e satisfação pelas faltas cometidas.

Na parábola do filho pródigo estão indicados resumidamente. Aquele jovem senta-se a pensar nos pecados e vai dizer ao pai: pequei contra o céu e para contigo. É a acusação humilde. Não fica sentado na pedra, mas volta para a casa paterna arrependido. É a contrição. «Já não mereço ser chamado teu filho – diz ele ao pai – aceita-me como um dos teus jornaleiros…» É a satisfação ou penitência.

Na cena da mulher adúltera que escutámos, o Senhor perdoa-lhe mas lembra: Vai e não tornes a pecar.

Um elemento próprio do arrependimento e uma das suas manifestações é o propósito de emenda. Embora saibamos que podemos voltar a cair estamos dispostos a lutar seriamente para evitar todo o pecado.

É importante a acusação dos pecados e a Igreja continua a chamar a atenção para os abusos das absolvições colectivas que vão aparecendo aqui e além.

Mas o mais importante dos actos do penitente é a contrição ou dor de amor. Ao menos a contrição imperfeita, arrepender-se pela fealdade do pecado, perda do paraíso ou temor do castigo do inferno.


Continuo a correr

O melhor sinal de arrependimento e propósito de emenda é o desejo sério de sermos santos, sem ficar nas meias tintas. Ouvíamos como S. Paulo exclamava: «Não que eu tenha já chegado à meta ou já tenha atingido a perfeição. Mas continuo a correr, para ver se a alcanço… Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta».

O mal de muitos cristãos é ter medo de serem bons demais. Por vezes até criticam os que pretendem de viver o cristianismo com todas as suas consequências. Chamam-lhes radicais, fundamentalistas, etc. Muitos santos foram incompreendidos e perseguidos por gente boa, por viverem a sério a sua vocação cristã.

Não nos assustemos. Animemo-nos a amar ao Senhor sempre mais, pois a medida para amar a Deus é amá-l'O sem medida

Foi assim que o Senhor nos amou. «Fui alcançado por Jesus Cristo» – dizia o Apóstolo e noutro lugar exclamava: «Ele amou-me e entregou-se à morte por mim». A Igreja põe-nos nestes dias diante dos olhos a Paixão e morte de Cristo. Olhemos para Jesus crucificado. É livro aberto que nos fala do amor sem limites que nos tem.

Um dos perigos muito frequentes do cristão é a tibieza. No livro do Apocalipse o Senhor manda recado ao bispo de Laodiceia dizendo: «Isto diz o Amen, a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas porque és morno e não és nem frio nem quente, vou vomitar-te da Minha boca. Porque dizes: Sou rico, enchi-me de bens, de nada tenho falta; e não sabes que és um infeliz e miserável, pobre, cego e nu, aconselho-te a que Me compres ouro provado no fogo para te fazeres rico, roupas brancas para te vestires e ocultares a vergonha da tua nudez e um colírio para ungires teus olhos para que vejas. Eu aos que amo repreendo e castigo. Tem pois zelo e arrepende-te. Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua morada, cearei com ele e ele comigo».(Ap 3, 14-20).

Neste tempo santo o Senhor bate à nossa porta, convidando-nos a lutar mais a valer pela santidade, a empregar os meios que põe à nossa disposição.

A Igreja convida-nos a viver melhor a Eucaristia, alimentando-nos do Corpo de Cristo. Mas não basta comungar. É preciso confessar-se também. A confissão frequente é a melhor forma de nos preparamos para a comunhão. Quem recebe uma visita ilustre em sua casa procura prepará-la, vestir a melhor roupa. E Jesus que vem a nós pela comunhão é o Senhor do Céu e da terra. A Igreja insiste, neste tempo da Quaresma, na confissão e na comunhão.

Lembra-nos o nosso baptismo pelo qual morremos e ressuscitámos com Cristo, essa vida nova de filhos de Deus e convida-nos a deixar o velho fermento do pecado, para ser homens novos em Cristo.


Fala o Santo Padre


Cristo veio ao mundo para libertar a humanidade da escravidão do pecado.


1. «O Senhor fez connosco maravilhas» (cf. Sl 125 [126], 3). Estas palavras, que repetimos como refrão no Salmo Responsorial, constituem uma bonita síntese dos temas bíblicos propostos por este quinto Domingo da Quaresma. Já na primeira Leitura, tirada do chamado «Segundo Isaías», o Profeta anónimo do exílio da Babilónia anuncia a salvação preparada por Deus para o seu povo. A saída da Babilónia e o regresso à pátria serão como um êxodo novo e maior.

Então Deus libertara os hebreus da escravidão do Egipto, vencendo o obstáculo do mar; agora Ele reconduz o seu povo à terra prometida, traçando no deserto um caminho seguro: «Eis que vou realizar uma obra nova, a qual já começa: não a vedes? Vou abrir um caminho no deserto e fazer correr os rios na estepe» (Is 43, 19).

«Uma obra nova»: nós, cristãos, sabemos que, quando no Antigo Testamento se fala de «realidades novas», a referência última é à verdadeira grande «novidade» da história: Cristo, que veio ao mundo para libertar a humanidade da escravidão do pecado, do mal e da morte.


2. «Mulher... ninguém te condenou? Nem Eu te condeno... vai, e doravante não tornes a pecar» (Jo 8, 10-11). Jesus é novidade de vida para quem abre o coração e, reconhecendo o próprio pecado, acolhe a sua misericórdia que salva. Na página evangélica de hoje, o Senhor oferece este seu dom de amor à adúltera, perdoada e reconduzida à sua plena dignidade humana e espiritual. Oferece-o também aos seus acusadores, mas o espírito deles permanece fechado e impermeável.

Está nisto um convite a meditar acerca da paradoxal recusa do seu amor misericordioso. É como se já se iniciasse o processo contra Jesus, que reviveremos daqui a poucos dias nos acontecimentos da Paixão: ele conduzirá à sua injusta condenação à morte na cruz. Por um lado, o amor redentor de Cristo, oferecido gratuitamente a todos; por outro, o fechar-se de quem, levado pela inveja, procura uma razão para o matar. Acusado até de estar contra a Lei, Jesus é «posto à prova»: se perdoa a mulher colhida em flagrante adultério, dir-se-á que transgrediu os preceitos de Moisés; se a condena, dir-se-á que foi incoerente com a mensagem de misericórdia para com os pecadores.

Mas Jesus não cai na armadilha. Com o seu silêncio, convida cada um a reflectir sobre si próprio. Por um lado, convida a mulher a reconhecer a culpa cometida; por outro, convida os seus acusadores a não se subtraírem ao exame de consciência: «Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra!» (Jo 8, 7).

A situação da mulher é sem dúvida grave. Mas precisamente disto surge a mensagem: qualquer que seja a condição em que nos possamos vir a encontrar, é sempre possível abrir-nos à conversão e receber o perdão dos pecados: «Nem Eu te condeno... vai, e doravante não tornes a pecar» (Jo 8, 10-11). No Calvário, com o sacrifício supremo da vida, o Messias sela para cada homem e mulher o dom infinito do perdão e da misericórdia de Deus. […]


5 «Em tudo isto só vejo dano, comparado com o supremo conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor» (Fil 3, 8). Conhecer Cristo! Nesta última fase do itinerário quaresmal somos ainda mais estimulados pela liturgia a aprofundar o nosso conhecimento de Jesus, a contemplar o seu rosto sofredor e misericordioso, preparando-nos para experimentar o esplendor da sua ressurreição. Não podemos deter-nos à superfície. É necessário fazer uma experiência pessoal e profunda da riqueza do amor de Cristo. Só desta forma, como afirma o Apóstolo, poderemos «conhecê-lo, a Ele, à força da sua Ressurreição e à comunhão nos Seus sofrimentos, configurando-nos à Sua morte, para ver se podemos chegar à ressurreição dos mortos» (cf. Fil 3, 10-11).

Como Paulo, cada cristão está a caminho; a Igreja está a caminho. Irmãos e Irmãs, não paremos nem abrandemos o passo. Pelo contrário, orientemo-nos com todas as forças em direcção à meta para a qual Deus nos chama. Corramos para a Páscoa que já está próxima. […]


João Paulo II, na Paróquia Romana de Nª Sª do Sufrágio, 1 de Abril de 2001


Oração Universal


Ao celebrar a Paixão e Morte de Jesus,

peçamos ao Senhor que nos ensine a amá-l'O de verdade, como Ele nos amou.


1. Para que a Santa Igreja proclame no mundo a misericórdia de Deus

e a todos anime a buscar o Seu perdão,

oremos irmãos.


2. Pelo Santo Padre,

para que todos escutem com atenção os seus ensinamentos

sobre o Sacramento da Penitência,

oremos irmãos.


3. Pelos bispos e sacerdotes,

para que saibam estar disponíveis para administrar o sacramento do perdão,

oremos irmãos.


4. Por todo o povo cristão,

para que saiba apreciar o sacramento da alegria e recebê-lo com frequência,

oremos irmãos.


5. Por todos os que vivem longe de Deus,

para que tenham a coragem de O buscar e de O encontrar,

oremos irmãos.


6. Pelos jovens do mundo inteiro

para que se entusiasmem a viver o radicalismo cristão que o Santo Padre lhes pede,

oremos irmãos.


Senhor, que em Vosso Amado Filho

nos manifestastes a maravilha do Vosso amor e da Vossa misericórdia,

fazei que saibamos decidir-nos a amar-Vos sem medida.

Pelo mesmo Nosso Senhor...



Liturgia Eucarística


Cântico do ofertório: Escutai a minha prece, A. Cartageno, NRMS 105


Oração sobre as oblatas: Ouvi-nos, Senhor Deus omnipotente, e, pela virtude deste sacrifício, purificai os vossos servos que iluminastes com os ensinamentos da fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.


Santo: F. da Silva, NRMS 38


Monição da Comunhão


Como o centurião do Evangelho, avivemos a consciência da nossa dignidade e também o desejo de preparar bem a nossa alma.


Cântico da Comunhão: Já não sou eu que vivo, Az. Oliveira, NRMS 48

Jo 8, 10-11

Antífona da comunhão: Mulher, ninguém te condenou? Ninguém, Senhor. Nem Eu te condeno. Vai em paz e não tornes a pecar.


Cântico de acção de graças: O Senhor salvou-me, Az. Oliveira, NRMS 60


Oração depois da comunhão: Deus omnipotente, concedei-nos a graça de sermos sempre contados entre os membros de Cristo, nós que comungámos o seu Corpo e Sangue. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Ritos Finais


Monição final


Vamos partir jubilosos por termos estado com Jesus e com o desejo de O amarmos sem nada regatear, como Ele nos amou.


Cântico final: Ficai connosco, Senhor, M. Borda, NRMS 43



Homilias Feriais


5ª SEMANA DA QUARESMA


2ª feira, 29-III: A Luz e o anúncio do Evangelho.

Dan 13, 1-9.15-17.19-30.33-62 / Jo 8, 12-20

Eu sou a luz do mundo. Quem me seguir não andará nas trevas, mas terá a luz da vida.

«A luz dos povos é Cristo: por isso, este Sagrado Concílio... deseja ardentemente iluminar todos os homens com a sua luz que resplandece no rosto da Igreja, anunciando o Evangelho a toda a criatura» (Concílio Vaticano II, LG, cit. em CIC, 748).

Continua a ser muito necessário este anúncio, mesmo para quem já está baptizado. «Muitos europeus contemporâneos pensam que sabem o que é o cristianismo, mas realmente não o conhecem» (INE, 47). Estamos perante um desafio, «que não consiste tanto em baptizar os novos convertidos, mas em levar os baptizados a converterem-se a Cristo e ao seu Evangelho» (INE, 47).


3ª feira, 30-III: A Cruz de Cristo, nossa salvação!

Num 21, 4-9 / Jo 8, 21-30

Moisés fez uma serpente de bronze e fixou-a no poste. Quem fosse mordido por alguma serpente e olhasse para a serpente de bronze tinha a vida salva.

Esta serpente representa simbolicamente a cruz de Cristo no Calvário (cf. CIC, 2130).

À semelhança de Moisés, que apresenta a serpente de bronze, «também a Igreja tem para oferecer à Europa o bem mais precioso, que ninguém mais lhe pode dar: a fé em Jesus Cristo, fonte de esperança que não desilude... Passados muitos séculos, a Igreja apresenta-se no início do 3.º milénio com o mesmo anúncio de sempre, que constitui o seu único tesouro: Jesus Cristo é o Senhor; só há salvação nele e em mais ninguém» (INE, 18).


4ª feira, 31-III: A fé e os desafios do ambiente.

Dan 3, 14-20. 91-92. 95 / Jo 8, 31-42

Bendito seja o Deus de Sidrach... Mandou o seu Anjo, para livrar os seus servidores, que tiveram confiança n’Ele.

Os três jovens foram salvos e libertados pela confiança em Deus, que é a Verdade (cf. Leit.). Jesus recorda-nos igualmente que quem nos libertará é a Verdade (cf. Ev.).

Também hoje necessitamos ter uma fé muito forte para enfrentarmos o ambiente, que nos quer escravizar: «Os cristãos são chamados a possuir uma que lhes permita confrontar-se criticamente com a cultura actual, resistindo às suas seduções; influir eficazmente nos sectores culturais, económicos, sociais e políticos... construir uma cultura cristã que possa evangelizar a cultura mais ampla em que vivemos» (INE, 50).


5ª feira, 1-IV: A confissão da esperança.

Gen 17,3-9 / Jo 8, 51-59

É esta a minha Aliança contigo: serás pai de um grande número de nações... Farei que tenhas incontável descendência.

«A esperança cristã retoma e realiza a esperança do povo eleito, que tem a sua origem e modelo na esperança de Abraão... Contra toda a esperança, Abraão teve esperança e acreditou. Por isso tornou-se pai de muitas nações» (CIC, 1819).

Todos precisamos voltar a Cristo, fazendo uma «jubilosa confissão de esperança: Vós, ó Senhor, ressuscitado e vivo, sois a esperança sempre nova da Igreja e da humanidade...Em vós e convosco, nós podemos alcançar a verdade, a nossa existência tem sentido, a comunhão é possível...o sofrimento pode tornar-se salvífico, a vida vencerá a morte, a criação participará na glória dos filhos de Deus» (INE, 18).


6ª feira, 2-IV: Um ‘grande sinal’ de esperança.

Jer 20, 10-13 / Jo 10, 31-42

Mas o Senhor está comigo como herói poderoso, e os meus perseguidores cairão vencidos.

Esse herói poderoso é próprio Cristo, que veio à terra vencer o demónio.

A luta contra o demónio continua a ser terrível até ao fim dos tempos. Mas há motivos de esperança: «Nesta luta, uma coisa é certa: o grande dragão já foi derrotado, foi precipitado na terra, juntamente com os seus Anjos. Venceram-no Cristo, Deus feito homem, com a sua morte e ressurreição, e os mártires 'pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho'. E mesmo que o dragão continuar com a sua hostilidade, não há que temer, porque a sua derrota já se deu» (INE, 122).


Sábado, 3-IV: Um testemunho na unidade.

Ez 37,21-28 / Jo 11, 45-56

(Caifás) profetizou que Jesus ia morrer pela Nação; e não só pela Nação, mas também para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos.

O Senhor Deus, através de Ezequiel, já prometera reunir os filhos de Israel, dispersos por toda a parte (cf. Leit.). E Caifás afirma que a unidade dos filhos de Deus será fruto da entrega de Jesus na Cruz(cf. Ev.).E também dom do Espírito Santo que, no dia de Pentecostes, reuniu uma enorme multidão.

O Papa João Paulo II confia numa profunda unidade e comunhão na própria Igreja (cf. INE, 53); recorda umas palavras de Paulo VI a Atenágoras: «Possa o Espírito Santo guiar-nos no caminho da reconciliação, para que a unidade das nossas Igrejas se torne um sinal cada vez mais luminoso de esperança e de conforto para toda a humanidade» (INE, 54). Rezemos por esta intenção.







Celebração e Homilia: Celestino Correia R. Ferreira

Comentários Bíblicos: Geraldo Morujão

Homilias Feriais: Nuno Romão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha


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