DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

VISÃO CRISTÃ DA EUROPA

 

 

No passado dia 19 de Outubro, Bento XVI recebeu em audiência o novo Chefe da Delegação da Comissão Europeia junto da Santa Sé, o economista francês Ives Gazzo, de 63 anos, casado e pai de cinco filhos, por ocasião da apresentação das suas Cartas Credenciais.

No seu discurso, em francês, o Santo Padre explicou por que a construção da Europa requer a fidelidade às raízes cristãs, tal como entenderam os seus Pais fundadores, para não degenerar em luta por interesses particulares.

Título da Redacção de CL.

 

 

Senhor Embaixador

 

Sinto-me feliz por receber Vossa Excelência e por acreditá-lo como Representante da Comissão das Comunidades Europeias junto da Santa Sé. Ficar-lhe-ia grato se se dignasse transmitir a Sua Excelência o Senhor José [Durão] Barroso, que acaba de ser reeleito na chefia da Comissão, os votos cordiais que formulo pela sua pessoa e pelo novo mandato que lhe é confiado, assim como por todos os seus colaboradores.

A Europa comemora este ano o vigésimo aniversário da queda do muro de Berlim. Quis saudar de modo particular este acontecimento indo à República Checa. Nessa terra provada pelo jugo de uma dolorosa ideologia, pude dar graças pelo dom da liberdade readquirida, que permitiu ao continente europeu reencontrar a sua integridade e unidade.

Vossa Excelência acaba de definir a realidade da União Europeia como «uma área de paz e de estabilidade que reúne 27 Estados com os mesmos valores fundamentais». É uma apresentação feliz. Contudo, é justo salientar que a União Europeia não se dotou destes valores, mas ao contrário são estes valores partilhados que a fizeram nascer e foram como que a força de gravidade que atraiu, para o núcleo dos Países fundadores, as diversas nações que sucessivamente a ela aderiram ao longo do tempo. Estes valores são o fruto de uma longa e sinuosa história na qual, ninguém o pode negar, o Cristianismo desempenhou um papel fundamental. A igual dignidade de todos os seres humanos, a liberdade do acto de fé como raiz de todas as outras liberdades cívicas, a paz como elemento decisivo do bem comum, o desenvolvimento humano – intelectual, social e económico – como vocação divina (cf. Caritas in Veritate, nn. 16-19) e o sentido da História que dela deriva, são elementos centrais da Revelação cristã que continuam a moldar a civilização europeia.

Quando a Igreja recorda as raízes cristãs da Europa, ela não procura um estatuto privilegiado para si mesma. Ela pretende ser memória histórica, recordando antes de mais uma verdade – cada vez mais silenciada –, isto é, a inspiração decisivamente cristã dos Pais fundadores da União Europeia. Mais profundamente, ela deseja manifestar também que a base dos valores provém principalmente da herança cristã que continua ainda hoje a alimentá-la.

Estes valores comuns não constituem um agregado anárquico ou aleatório, mas formam um conjunto coerente que se ordena e se articula, historicamente, a partir de uma visão antropológica determinada. Pode a Europa omitir o princípio orgânico original destes valores que revelou ao homem a sua eminente dignidade e o facto de que a sua vocação pessoal o abre a todos os outros homens com os quais ele está chamado a constituir uma só família? Deixar-se levar por este esquecimento, não seria expor-se ao risco de ver estes grandes e belos valores entrarem em concorrência ou em conflito uns com os outros? Ou ainda, não correriam eles o risco de serem instrumentalizados por indivíduos e grupos de pressão, desejosos de fazerem valer interesses particulares em prejuízo de um projecto colectivo ambicioso – que os europeus esperam – com a preocupação pelo bem comum dos habitantes do Continente e de todo o nosso mundo? Este perigo já foi sentido e denunciado por numerosos observadores pertencentes a horizontes muito diversos. É importante que a Europa não permita que o seu modelo de civilização se desfaça, palmo a palmo. O seu impulso original não deve ser abafado pelo individualismo ou pelo utilitarismo.

Os imensos recursos intelectuais, culturais e económicos do continente continuarão a dar fruto se permanecerem fecundos pela visão transcendente da pessoa humana, que constitui o tesouro mais precioso da herança europeia. Esta tradição humanista, na qual se reconhecem numerosas famílias de pensamento por vezes muito diferentes, torna a Europa capaz de enfrentar os desafios futuros e de responder às expectativas da população. Trata-se principalmente da busca do justo e delicado equilíbrio entre a eficácia económica e as exigências sociais, da salvaguarda do meio ambiente, e sobretudo da protecção indispensável e necessária da vida humana desde a concepção até à morte natural e da família fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher. A Europa só será realmente ela própria se souber conservar a originalidade que fez a sua grandeza e que é susceptível de a tornar, amanhã, um dos maiores agentes na promoção do desenvolvimento integral das pessoas, que a Igreja católica considera como o único caminho susceptível de remediar os desequilíbrios actuais do nosso mundo.

Por todos estes motivos, Senhor Embaixador, a Santa Sé segue com respeito e grande atenção a actividade das Instituições europeias, desejando que elas, com o seu trabalho e criatividade, honrem a Europa que, mais do que um continente, é uma «casa espiritual» (cf. Discurso às Autoridades civis e ao Corpo diplomático, Praga, 26 de Setembro de 2009). A Igreja deseja «acompanhar» a construção da União Europeia. Eis a razão por que ela se permite recordar-lhe quais são os valores fundadores e constitutivos da sociedade europeia, para que possam ser promovidos para o bem de todos.

No momento em que inicia a sua missão junto da Santa Sé, desejo renovar a expressão da minha satisfação pelas excelentes relações que existem entre as Comunidades Europeias e a Santa Sé e apresento-lhe, Senhor Embaixador, os meus melhores votos para o bom cumprimento do seu nobre cargo. Tenha a certeza de que encontrará junto dos meus colaboradores o acolhimento e a compreensão de que poderá ter necessidade.

Invoco de todo o coração sobre Vossa Excelência, sobre a sua família e colaboradores, a abundância das Bênçãos divinas.

 


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