Páscoa da Ressurreição do Senhor

Missa do Dia

4 de Abril de 2010

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor ressuscitou verdadeiramente, A. Cartageno, NRMS 65

Salmo 138, 18.5-6

Antífona de entrada: Ressuscitei e estou convosco para sempre; pusestes sobre mim a vossa mão: é admirável a vossa sabedoria.

Ou:

Lc 24, 34; cf. Ap 1, 5

O Senhor ressuscitou verdadeiramente. Aleluia. Glória e louvor a Cristo para sempre. Aleluia.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

O tema da Liturgia da Palavra neste Domingo de Páscoa é a vitória da vida sobre a morte. A morte e a vida travaram um combate singular. Jesus o Autor da vida morre, mas volta de novo à vida; a sua Igreja canta jubilosa: Jesus ressuscitou, está vivo, Aleluia!

 

Oração colecta: Senhor Deus do universo, que neste dia, pelo vosso Filho Unigénito, vencedor da morte, nos abristes as portas da eternidade, concedei-nos que, celebrando a solenidade da ressurreição de Cristo, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos para a luz da vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Escutemos o discurso de S. Pedro, que nos mostra a fé da Igreja primitiva: «Jesus de Nazaré passou pelo mundo fazendo o bem! Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez». Apesar disso os chefes «mataram-n’O, suspendendo-O na Cruz. Mas Deus Pai ressuscitou-O ao terceiro dia e constituiu-O juiz dos vivos e dos mortos.» A igreja nasceu desta fé em Jesus morto e ressuscitado! «Quem acredita n’ Ele recebe, pelo seu nome, a remissão dos pecados.»

 

Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43

Naqueles dias, 34aPedro tomou a palavra e disse: 37«Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: 38Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. 39Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. 40Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, 41não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. 42Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. 43É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados».

 

O texto faz parte do corpo do discurso de Pedro em Cesareia na casa do centurião Cornélio, o qual tinha mandado chamar Pedro a Jope, ilustrado por uma visão (cf. Act 10, 1-33). Este discurso tem um carácter mais catequético e apologético do que propriamente missionário, como seria de esperar num primeiro anúncio da fé a um gentio (embora se tratasse dum «temente a Deus»: v. 2). Lucas redige este discurso a pensar mais nos leitores da sua obra, do que com a preocupação de reconstruir exactamente a cena originária e as mesmas palavras pronunciadas naquela circunstância; com efeito, começa por fazer referência ao Evangelho já antes pregado aos ouvintes: «vós sabeis o que aconteceu…», e também parece que dá por suposta a fé no valor salvífico da Cruz (cf. v. 39b) e não termina, como seria de esperar, com um apelo explícito à conversão. Assim, Lucas nos deixou mais uma bela síntese do que era o Evangelho pregado pela Igreja primitiva.

38 «Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus». Esta nova tradução litúrgica desfez a hendíadis tão própria da estilística hebraica (ungiu de Espírito Santo e de fortaleza), recorrendo, por motivo de clareza, a uma equivalência dinâmica, (a força que é o Espírito Santo). Deus (o Pai) concedeu à natureza humana de Jesus todos os dons do Espírito Santo, que Lhe competiam a partir do momento da Incarnação; estes dons manifestam-se visivelmente nos milagres de Jesus, nas teofanias do Baptismo e da Transfiguração e muito particularmente na Ressurreição. A unção era o rito que constituía os reis e os sacerdotes na sua função; assim, a união hipostática em Jesus aparece como uma unção da natureza humana de Jesus, «que passou fazendo o bem e curando a todos» (maravilhoso resumo da vida de Jesus, bem ao sabor do Evangelista da bondade).

41 «Não a todo o povo». Jesus não se mostra a todos depois de ressuscitado, não só para não violentar a liberdade das pessoas, mas também porque está nos planos divinos conduzir o mundo à salvação mediante o ministério dos seus discípulos (testemunhas de antemão designadas por Deus) e mediante a fé, que é meritória (cf. Rom 1, 16-17). Note-se o acento que se põe no testemunho acerca da Ressurreição; não estamos apenas perante uns simples pregadores (cf. v. 42a) duma mensagem salvadora, mas diante de verdadeiras testemunhas (cf. v. 42b), que dão testemunho (o verbo grego tem um matiz forense) capaz de fazer fé em tribunal. A ideia de testemunho é fortemente acentuada neste breve texto, não só por ser repetida quatro vezes (vv. 39.41.42.43), mas também por se tratar de testemunhas escolhidas por Deus para esta missão (v. 41), que conviveram com o Ressuscitado, comendo e bebendo com Ele, o que exclui logo à partida a hipótese de se tratar de mera fantasia (Lucas mostra especial sensibilidade a este problema: cf. Lc 24, 37-43).

 

Salmo Responsorial    Sl 117 (118), 1-2.16ab-17.22-23 (R. 24)

 

Monição: Este Salmo convida-nos a manifestar a nossa alegria, dando graças porque é eterna a misericórdia de Deus. Cantemos jubilosamente o dia da nova criação, o dia da nossa redenção:

 

Refrão:        Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria.

 

Ou:               Aleluia.

 

Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,

porque é eterna a sua misericórdia.

Diga a casa de Israel:

é eterna a sua misericórdia.

 

A mão do Senhor fez prodígios,

a mão do Senhor foi magnífica.

Não morrerei, mas hei-de viver

para anunciar as obras do Senhor.

 

A pedra que os construtores rejeitaram

tornou-se pedra angular.

Tudo isto veio do Senhor:

é admirável aos nossos olhos.

 

Segunda Leitura

 

 

Monição: Se ressuscitámos para a vida nova devemos afeiçoar a nossa inteligência e a nossa vontade aos bens do alto e não aos bens da terra. Devemos abandonar o fermento da malícia e da perversidade, para celebrarmos a Páscoa com uma renovada pureza de coração.

 

Colossenses 3, 1-4  (de manhã)

Irmãos: 1Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. 2Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. 3Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. 4Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.

 

Com estas palavras é introduzida a parte final da Carta, uma série de exortações morais para que os fiéis tenham um modo de viver coerente com a fé cristã. A sua conduta moral é uma consequência natural da profunda união com Cristo ressuscitado produzida pelo Baptismo recebido.

1 «Aspirai às coisas do alto» corresponde ao mesmo incitamento que, na Santa Missa, a Igreja sempre nos repete: Sursum corda! Corações ao alto!.

3-4 «Vós morrestes». A nossa união a Cristo pressupõe a morte para o pecado, que não pode reinar mais em nós (cf. Rom 6). Com Cristo morto pelos nossos pecados, morremos para o pecado; com Cristo ressuscitado, vivemos vida de ressuscitados. É a «vida» da graça, uma vida toda interior, «escondida» no centro da alma, vida que ninguém nos pode arrebatar, vida que é toda feita de presença de Deus e de visão sobrenatural, levando-nos a santificar todos os afazeres diários, trabalhando com os pés bem firmes na terra, mas o coração e o olhar fixos no Céu.

 

1 Coríntios 5, 6b-8  (de tarde)

Irmãos: 6bNão sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? 7Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, visto que sois pães ázimos. Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. 8Celebremos a festa, não com fermento velho nem com fermento de malícia, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade.

 

Parece haver aqui (v. 6b) uma referência ao incestuoso de que acaba de falar (vv. 1-5); um mau exemplo é um mau fermento. Mas S. Paulo faz imediatamente uma aplicação mais vasta da ideia de mau fermento, e isto talvez pela proximidade da festa da Páscoa, que já então, pelo ano 55, os cristãos celebravam em Corinto como festa da Ressurreição do Senhor, segundo o que se lê no v. 8: «celebremos pois a festa». Na exortação do Apóstolo há uma alusão ao costume judaico, que ainda hoje se conserva, de limpar escrupulosamente as casas de todo o fermento e pão fermentado durante os sete dias que duravam as festas pascais. Nós os cristãos, para celebrarmos a Páscoa – «Cristo, nosso Cordeiro pascal» (v. 7) –, temos que o fazer sem o fermento (o princípio corruptor) da malícia e da perversidade, mas «com os pães ázimos da pureza e da verdade», isto é, da sinceridade de vida. Poderia haver, nesta referência a Cristo como «Cordeiro imolado», uma alusão à própria celebração da Eucaristia.

 

Sequência

 

À Vítima pascal

ofereçam os cristãos

sacrifícios de louvor.

 

O Cordeiro resgatou as ovelhas:

Cristo, o Inocente,

reconciliou com o Pai os pecadores.

 

A morte e a vida

travaram um admirável combate:

Depois de morto,

vive e reina o Autor da vida.

 

Diz-nos, Maria:

Que viste no caminho?

Vi o sepulcro de Cristo vivo

e a glória do Ressuscitado.

 

Vi as testemunhas dos Anjos,

vi o sudário e a mortalha.

Ressuscitou Cristo, minha esperança:

precederá os seus discípulos na Galileia.

 

Sabemos e acreditamos:

Cristo ressuscitou dos mortos:

Ó Rei vitorioso,

tende piedade de nós.

 

Aclamação ao Evangelho        1 Cor 5, 7b-8a

 

Monição: O túmulo vazio visto por Maria Madalena e pelos discípulos, testemunhava que Jesus já não estava morto. Lenta, mas firmemente os Apóstolos acreditam na Palavra de Jesus, que tinha anunciado a sua morte ressurreição, ao terceiro dia.

Cantemos a glória e o triunfo de Jesus ressuscitado: Aleluia, aleluia!

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação – 4, F. da Silva, NRMS 50-51

 

Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado:

celebremos a festa do Senhor.

 

 

Evangelho

 

São João 20, 1-9 (de manhã)

1No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. 2Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». 3Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. 4Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. 5Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. 6Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão 7e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. 8Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. 9Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

 

Nenhum dos quatro Evangelhos narra o facto da Ressurreição de Jesus, pois não foi presenciado por testemunhas; era um facto sobrenatural que, de si mesmo, escapava à experiência humana. E isto só vem dar credibilidade ao facto da Ressurreição, pois, se se tratasse duma ficção, era de esperar que se dessem os seus pormenores. S. João começa com a verificação do túmulo vazio feita pela Madalena, mas vão ser os dois discípulos, que vão fazer o reconhecimento do local e que verificam indícios eloquentes, aptos para levarem à fé na Ressurreição de Jesus.

2 «Não sabemos…». Este plural parece aludir à tradição sinóptica que conhece a ida de mais mulheres ao sepulcro. É evidente que não houve a mínima preocupação de harmonizar os diferentes relatos evangélicos do sepulcro vazio e das aparições, o que é um forte motivo de credibilidade a favor da realidade da ressurreição, facto misterioso, que é a base de toda a fé cristã (cf. 1 Cor 15, 12-19).

7-8 «Viu e acreditou». Porque começou a crer o discípulo? A explicação habitual é que um ladrão não deixaria ficar os panos, e muito menos em ordem. Mas há mais dados a ter em conta: porque é que o Evangelista atribui tanta importância à diferente posição dos panos? É que as ligaduras e o lençol estavam espalmados no chão da pedra tumular, ao passo que o pano que envolvera a cabeça do Senhor não estava espalmado no chão, mas mantinha a forma da cabeça que envolvera (cf. a nossa tradução na Nova Bíblia da Difusora Bíblica). Não sabemos se Pedro partilhou da fé do Discípulo Amado, mas S. Lucas diz que ficou maravilhado (cf. Lc 24,12). Os panos com que Jesus foi amortalhado eram com toda a probabilidade: 1) um lençol mortuário (síndone), tecido largo e comprido que envolvia todo o corpo; 2) um lenço (sudário) que cobria a cabeça e caia sobre o rosto (e ajudaria a manter a boca fechada); 3) várias ligaduras que não só serviam para manter apertados os pés um contra o outro e as mãos unidas ao corpo, mas também que poderiam ajudar a aconchegar a síndone ao corpo. S. João não fala especificamente desta síndone, mas deve englobá-la na designação genérica de «ligaduras» (em grego, othónia).

9 «Ainda não tinham entendido a Escritura». Os discípulos não estavam psicologicamente predispostos a admitir a Ressurreição, para que esta pudesse ser fruto de uma alucinação; com efeito, só depois de confrontados com a realidade da ressurreição de Jesus é que se recordaram das Escrituras (cf. 1 Cor 15, 4; Act 2, 24-32; Jo 2, 22) e as entenderam. A ressurreição era uma realidade só admissível para o fim do mundo (cf. Jo 11, 24), pois, apesar de Jesus ter anunciado a sua ressurreição ao terceiro dia, este só poderia ser o dia final, de acordo com a profecia de Oseias (Os 6, 2). Diante do sepulcro vazio, só pensam num roubo (vv. 2.13.15) e não dão crédito a quaisquer notícias das aparições (cf. Mc 6, 11.13; Lc 24, 21-24; Jo 20, 25).

 

Em vez deste Evangelho, pode ler-se o que se leu na Vigília da Noite Santa.

 

Nas missas vespertinas pode ler-se o Evangelho de Lc 24, 13-35.

 

São Lucas 24, 13-35   (de tarde)

13Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. 14Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. 15Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. 16Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. 17Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?» Pararam, com ar muito triste, 18e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias». 19E Ele perguntou: «Que foi?» Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. 21Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, 23não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. 24Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes: 25«Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! 26Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?» 27Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. 29Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. 30E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. 31Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. 32Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» 33Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, 34que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». 35E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

 

Temos aqui uma das mais belas páginas do Evangelho: um relato cheio de vivacidade, de finura e de psicologia, em que acompanhamos o erguer daquelas almas desde a mais amarga frustração até às alturas da fé e da descoberta de Jesus ressuscitado. A crítica bíblica procura distinguir neste relato os elementos de tradição e os elementos redaccionais. Podem identificar-se muitos elementos de tradição neste relato, mas não dispomos de meios para classificar como meramente redaccionais todos os restantes, pois não são do nosso conhecimento todas as fontes de que Lucas dispôs; a própria crítica admite «fontes especiais» para a redacção de Lucas. Um facto indiscutível é que Lucas é um teólogo e um catequista, não é um jornalista e não se limita a contar a seco umas aparições; não temos, porém, elementos suficientes para definir em que medida reelaborou as suas fontes.

13 «Emaús»: uma povoação a 60 estádios (duas léguas), uns 11 quilómetros e meio de Jerusalém. Há duas leituras variantes nos manuscritos gregos do Evangelho de Lucas: a imensa maioria deles regista 60 estádios; alguns poucos têm 160 (o que equivale a uns 30 Km). Também não existe completo acordo sobre a sua localização, sendo indicados vários locais na tradição cristã; Al-Qubeibeh é o de maior aceitação, a uns 12 Km a Noroeste da Cidade Santa (a abadia beneditina de Abus-Gox corresponde aos 160 estádios).

16 «Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem». Não é que não vissem a Jesus, ou que Jesus se quisesse ocultar, mas eles é que estavam obcecados pelo seu extremo desalento. E fica-nos a lição: para que se possa reconhecer a Jesus ressuscitado é indispensável o olhar da fé.

18 «Cléofas» parece ser diferente do marido de Maria, mãe de Tiago e José (Jo 19, 25); embora alguns o identifiquem, a grafia é diferente: Klôpás.

22-24 «É verdade que algumas mulheres… Alguns dos nossos». Aqui se resume o que foi relatado antes com mais pormenor (Lc 23, 56b – 24, 9) e correspondente à tradição sinóptica e joanina. Certamente que «os nossos» são «Pedro e o outro discípulo» (certamente João, cf. v. 12 e Jo 20, 1-10). «Mas a Ele não O viram»: se este não é um pormenor meramente redaccional, temos que admitir que ainda não lhes constava da aparição de Jesus a Pedro, referida adiante, no v. 34; (cf. 1 Cor 15, 5).

28-30 «Jesus fez menção de seguir para diante». Lucas volta a aludir ao «caminho de Jesus» (no v. 15 já tinha usado o mesmo verbo grego que significa caminhar). R. J. Dillon (From eye-witnesses to ministers of the word) pensa que este pormenor lucano insinua que a presença de Jesus no meio dos seus através da Eucaristia – a fracção do pão do v. 30 – constitui o momento cume do seu caminhar  pelo caminho da salvação. Enternece o leitor ver como Jesus ressuscitado se torna o companheiro de caminho (recorde-se como Lucas gosta de focar a vida cristã como um caminho e um seguimento de Jesus); Jesus, depois de se fazer encontrado, agora faz-se rogado. Isto mesmo nos sucede muitas vezes na vida cristã. Ele vem ao nosso encontro sem O procurarmos e, outras vezes, quer dar-nos o ensejo de O convidarmos a ficar connosco e de praticarmos a caridade com os outros, que são Ele (cf. Mt 25, 40). Mas aqui o convite feito a Jesus não é um simples acto de caridade e de cortesia. Com efeito, parece que a narrativa nos leva a pensar que quem faz este pedido é toda a comunidade cristã, que se reúne para celebrar a Eucaristia e anseia estabelecer uma comunhão íntima com Jesus ressuscitado (ibid.). Todos estão de acordo em ver a estreita relação da refeição descrita com a multiplicação dos pães e a instituição da Eucaristia.

31 «Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no, mas Ele desapareceu da sua presença». É na Eucaristia que se abrem os olhos para a fé, para captar o que é invisível, mas real. Impressiona muito o relato ao unir o aparecimento com o desaparecimento, sem se dizer para onde é que Jesus se retirou. Desta maneira fica sugerida uma nova presença, a de Jesus glorioso e ressuscitado: uma ausência que é presença.

32 «Não ardia cá dentro o nosso coração?». Quando lemos a Escritura guiados por Jesus, presente na Igreja, inflama-se o nosso coração e sentimo-nos urgidos a mostrar aos que nos rodeiam, com as nossas vidas, pela palavra e pelo exemplo, que Cristo vive, que a Ressurreição é uma realidade. O episódio constitui um apelo a fazermos o mesmo papel do Ressuscitado junto dos desiludidos da vida e sem esperança e a comunicar-lhes a nossa experiência de fé. No relato também se põe em evidência a união do pão e da palavra na vida da Igreja.

 

Sugestões para a homilia

 

Jesus Cristo é o Senhor dos vivos e dos mortos.

Jesus Cristo ressuscitou e está vivo, Aleluia!

Jesus Cristo é o Senhor dos vivos e dos mortos.

A primeira leitura apresenta-nos um discurso de S. Pedro aos pagãos; S. Pedro resume, em poucas palavras, a mensagem pascal: primeiro relembra os momentos principais da vida de Jesus Cristo, o seu Baptismo no Jordão e os milagres que fez no país dos judeus, depois fala da condenação à morte de Cruz em Jerusalém e da sua ressurreição. Por fim, fala da missão dos Apóstolos: pregar e testemunhar «que Jesus Cristo é o Senhor dos vivos e dos mortos». O seu testemunho é digno de toda a credibilidade, pois acompanharam o Divino mestre! São testemunhas oculares de tudo quanto sucedeu. Podiam afirmar com toda a força da verdade « Nós comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos!» (1ª leitura). Cheios do Espírito Santo, os Apóstolos anunciavam corajosamente e com entusiasmo a morte e a ressurreição do Senhor. Não podiam calar o que tinham visto e ouvido. Também nós «sabemos e acreditamos que Jesus ressuscitou dos mortos» (Sequência). Porque não somos testemunhas de Jesus vivo e ressuscitado?

Jesus Cristo ressuscitou e está vivo, Aleluia!

Maria Madalena também não podia calar o que tinha visto: «vi o sepulcro de Cristo vivo e a glória do ressuscitado. Vi o testemunho dos Anjos. Vi o sudário e a mortalha.» (Sequência) Partiu para a cidade, anunciando aos discípulos esta boa notícia. Pedro e João foram ao sepulcro para verificarem com os seus próprios olhos. Entraram no túmulo, viram as ligaduras e o lençol enrolado. Viram, mas «ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos». Ainda não tinham compreendido as palavras de Jesus, que anunciara várias vezes a sua morte e Ressurreição. Mas agora, viram e acreditaram.

Os Anjos anunciam às mulheres a alegria da Ressurreição: «Procurais Jesus de Nazaré, o Crucificado? Não está aqui! Ressuscitou e está vivo!» Maria Madalena e as santas mulheres transmitiram esta boa nova aos discípulos: «Nós vimos o Senhor!» Os discípulos de Emaús, (Evangelho de S. Lucas da missa da tarde) correram a Jerusalém, testemunhando que tinham «reconhecido o Senhor Jesus ao partir do pão.» Os onze confirmaram: «na verdade, o Senhor ressuscitou.»

Pedro e João anunciam ao Sumo-sacerdote e a todo o povo: Nós não podemos calar o que vimos e ouvimos! Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel: esse Jesus que vós crucificastes ressuscitou. Deus fê-Lo juiz dos vivos e dos mortos!

Depois de recordarmos estes acontecimentos cheios de alegria, sejamos nós também portadores da boa nova da Páscoa: Jesus ressuscitou verdadeiramente, aleluia!

 

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs, neste dia santíssimo que o Senhor fez

Em que o Espírito nos tornou homens novos,

oremos ao Pai para que a alegria da Páscoa se estenda ao mundo inteiro,

dizendo ou cantando com fé:

 

Pela Ressurreição de vosso Filho, ouvi-nos, Senhor!

 

1.  Pela Igreja católica e apostólica,

para que se alegre santamente nesta Páscoa e proclame que Jesus ressuscitou

e está vivo no meio de nós, oremos, irmãos.

 

2.  Por todos os que foram baptizados

para que aspirem às realidades do alto

e dêem graças pelo seu novo nascimento, oremos, irmãos.

 

3.  Pela humanidade inteira, para que acolha a Boa Nova

e a Aliança que Deus lhe oferece em Jesus Cristo ressuscitado, oremos, irmãos.

 

4.  Por todos nós reunidos nesta nossa assembleia,

para que cresçamos no amor a Jesus e sejamos sempre

e em toda a parte testemunhas da sua Ressurreição, oremos, irmãos.

 

Deus santo, Deus da vida, Deus salvador,

que na Ressurreição de vosso Filho

destes ao mundo a vitória sobre a morte, fazei-nos viver ressuscitados com Ele,

deixando-nos conduzir pelo seu Espírito. Por Jesus Cristo, nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Bendita e louvada seja, M. Simões, NRMS 41

 

Oração sobre as oblatas: Exultando de alegria pascal, nós Vos oferecemos, Senhor, este sacrifício, no qual tão admiravelmente renasce e se alimenta a vossa Igreja. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio pascal I [mas com maior solenidade neste dia]: p. 469 [602-714]

 

No Cânone Romano dizem-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) e o Hanc igitur (Aceitai benignamente, Senhor) próprios.

Nas Orações Eucarísticas II e III fazem-se também as comemorações próprias.

 

Santo: J. Santos, NRMS 6 (II)

 

Monição da Comunhão

 

No Evangelho (que pode ser utilizado nas Missas da tarde), S. Lucas afirma que «os discípulos reconheceram o Senhor Jesus na fracção do Pão». A Eucaristia é sempre um momento privilegiado para ouvirmos a palavra do divino Mestre, que faz arder dentro do peito o nosso coração e para nos alimentarmos com o Seu corpo, o alimento que permanece até à vida eterna.

 

Cântico da Comunhão: O hino da alegria, M. Faria, NRMS 21

1 Cor 5, 7-8

Antífona da comunhão: Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado: celebremos a festa com o pão ázimo da pureza e da verdade. Aleluia.

 

Cântico de acção de graças: Louvai o Senhor, com tudo, M. Simões, NRMS 2 (I)

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, protegei sempre com paternal bondade a vossa Igreja, para que, renovada pelos mistérios pascais, mereça chegar à glória da ressurreição. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

«Fica connosco, Senhor porque vem caindo a noite!»

Juntamente com os discípulos de Emaús e de todos os tempos e lugares, nós vos suplicamos:

Fica connosco, Senhor! Sê o nosso companheiro de viajem, através deste vale de lágrimas.

Fica connosco, Senhor, pois o dia está a declinar, aproxima-se a morte, a eternidade. Precisamos da tua força para não desfalecermos.

Fica connosco, Senhor, para que te reconheçamos, como os teus discípulos, ao partir do pão. Que a Eucaristia seja a luz que dissipe as nossas trevas, a força que nos sustente, a única felicidade do nosso coração.

Fica connosco, Senhor! Procuramos o vosso Amor, a vossa Vontade, o vosso Querer divino. Não queremos outra recompensa: queremos somente amar-Vos com todo o coração, enquanto estamos no exílio da terra, para Vos amar perfeitamente, por toda a eternidade, na Pátria celeste. (Cf. Santo P. Pio de Pietrelcina)

 

Cântico final: Vencida foi a morte, J. S. Bach, NRMS 57

 

Na despedida, durante toda a Oitava, diz-se:

 

V. Ide em paz e o Senhor vos acompanhe. Aleluia. Aleluia.

R. Graças a Deus. Aleluia. Aleluia.

 

Homilias Feriais

 

TEMPO PASCAL

 

2ª Feira, 5-IV: A Ressurreição e a nossa alegria.

Act 2, 14. 22-32 / Mt 28, 8-15

(Pedro): Mas como (David) era profeta viu de antemão e anunciou a ressurreição do Messias.

No dia de Pentecostes, Pedro recorda a profecia de David acerca da ressurreição de Cristo (Leit.). E as santas mulheres foram as primeiras a encontrar-se com o Ressuscitado, e também as primeiras mensageiras da Ressurreição junto dos Apóstolos, apesar dos boatos espalhados em sentido contrário (Ev.).

Jesus ressuscitado é a causa da nossa alegria, porque venceu o pecado e a morte. Se alguma vez passamos momentos de desânimo, procuremos rapidamente a sua companhia. E demos testemunho da nossa alegria aos que nos rodeiam.

 

3ª Feira, 6-IV: A ressurreição e a conversão.

Act 2, 36-41 / Jo 20, 11-18

Disse-lhe Jesus: Mulher, por que estás a chorar? A quem procuras?

Maria Madalena manifesta a sua grande dor por ver que o corpo de Jesus tinha desaparecido (Ev.). Depois de reencontrar Jesus é enorme a sua alegria, a esperança substitui o desânimo. È preciso recomeçar.

«Deus é quem nos dá a coragem de começar de novo. É ao descobrir a grandeza do amor de Deus que o nosso coração é abalado pelo horror e pelo peso do pecado. O coração humano converte-se ao olhar para aquele a quem os nossos pecados trespassaram» (CIC, 1432). É o que S. Pedro recorda aos seus ouvintes, recordando-lhes a crucifixão de Cristo, e pedindo-lhes a conversão (Leit).

 

4ª Feira, 7-IV: A refeição pascal: a Palavra e o Pão.

Act 3, 1-10 / Lc 24, 13-35

Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?

Os dois discípulos de Emaús, tristes e desorientados, depois do encontro com o Ressuscitado, recomeçam cheios do fogo do amor de Deus (Ev.). Um coxo de nascença encontra Pedro que o cura e recomeça a andar (Leit.).

Meditemos nos frutos dos encontros com Jesus ressuscitado e nos meios que Ele põe à nossa disposição, a Palavra e o Pão: «Enquanto caminhavam, Ele explicava-lhes as Escrituras; depois, pondo-se à mesa com eles, tomou o pão, proferiu a bênção, partiu-lho e deu-lho (Ev.) (CIC, 1347).

 

5ª Feira, 8-IV: A paz terrena e a paz de Cristo.

Act 3, 11-26 / Lc 24, 35-48

(Jesus): A paz esteja convosco. Por que estais perturbados e por que se levantam esses pensamentos nos vossos corações?

A paz é um dos grandes dons do Ressuscitado: «A paz terrena é imagem e fruto da paz de Cristo, o Príncipe da paz messiânica. Pelo sangue da sua cruz reconciliou com Deus os homens. Ele declara bem-aventurados os obreiros da paz» (CIC, 2305).

No sacramento da Penitência podemos recuperar a paz: «Arrependei-vos e convertei-vos, para que os pecados vos sejam perdoados» (Leit.). E procuremos difundi-la à nossa volta: «Compete aos fiéis leigos animar as realidades temporais, comportando-se nelas como artífices da paz e da justiça» (CIC, 2442).

 

6ª Feira, 9-IV:Em nome do Senhor.

Act 4, 1-12 / Jo 21, 1-14

Pelo nome de Jesus Cristo de Nazaré é que este homem se encontra na vossa presença perfeitamente são.

Pedro explica aos chefes do povo, aos anciãos e escribas o milagre do coxo (Leit.): Em nome de Jesus Cristo. E a pesca milagrosa realiza-se pelo mesmo poder: Pedro lança as redes conforme o Senhor lhe pedira (Ev.).

Como foi fecunda a influência do cristianismo na Europa devemos continuar a recorrer ao nome do Senhor: «para plasmar uma mentalidade cristã na vida corrente: na família, na escola, na comunicação social, no mundo da cultura, do trabalho, da economia, na política, nos tempos livres, na saúde e na doença» (J. Paulo II).

 

Sábado, 10-IV: A transmissão da fé.

Act 4, 13-21 / Mc 16, 9-15

E disse-lhes: Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura.

Jesus censura a incredulidade e a dureza de coração dos Onze. E, apesar disso, confia-lhes uma missão de grande responsabilidade, só possível a uma fé gigantesca.

E eles assim fizeram: «A transmissão da fé cristã é, antes de mais, o anúncio de Jesus Cristo, para levar à fé n‘Ele. Desde o princípio, os primeiros discípulos arderam no desejo de anunciar Cristo: Nós é que não podemos deixar de dizer o que vimos e escutámos (Leit.). E convidam os homens de todos os tempos a entrar na alegria da comunhão com Cristo» (CIC, 425). E a nós também.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         José Roque

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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