3º Domingo da Quaresma

7 de Março de 2010

 

Onde se fizerem os escrutínios preparatórios para o Baptismo dos adultos, neste domingo, podem utilizar-se as orações rituais e as intercessões próprias: p. 1063 do Missal Romano.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Ao nosso Deus bondade infinita, M. Faria, NRMS 1 (I)

Salmo 24, 15-16

Antífona de entrada: Os meus olhos estão voltados para o Senhor, porque Ele livra os meus pés da armadilha. Olhai para mim, Senhor, e tende compaixão porque estou só e desamparado.

 

ou

Ez 36, 23-26

Quando Eu manifestar em vós a minha santidade, hei-de reunir-vos de todos os povos, derramarei sobre vós água pura e ficareis limpos de toda a iniquidade. Eu vos darei um espírito novo, diz o Senhor.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Nesta terceira etapa da caminhada para a Páscoa somos chamados, mais uma vez, a repensar a nossa existência. O tema fundamental da liturgia de hoje é a «conversão». Com este tema enlaça-se o da «libertação»: o Deus libertador propõe-nos a transformação em homens novos, livres da escravidão do egoísmo e do pecado, para que em nós se manifeste a vida em plenitude, a vida de Deus.

 

Oração colecta: Deus, Pai de misericórdia e fonte de toda a bondade, que nos fizestes encontrar no jejum, na oração e no amor fraterno os remédios do pecado, olhai benigno para a confissão da nossa humildade, de modo que, abatidos pela consciência da culpa, sejamos confortados pela vossa misericórdia. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A primeira leitura fala-nos do Deus que não suporta as injustiças e as arbitrariedades e que está sempre presente naqueles que lutam pela libertação. É esse Deus libertador que exige de nós uma luta permanente contra tudo aquilo que nos escraviza e que impede a manifestação da vida plena.

 

Êxodo 3, 1-8a.13-15

Naqueles dias, 1Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Ao levar o rebanho para além do deserto, chegou ao monte de Deus, o Horeb. 2Apareceu-lhe então o Anjo do Senhor numa chama ardente, do meio de uma sarça. Moisés olhou para a sarça, que estava a arder, e viu que a sarça não se consumia. 3Então disse Moisés: «Vou aproximar-me, para ver tão assombroso espectáculo: por que motivo não se consome a sarça?» 4O Senhor viu que ele se aproximava para ver. Então Deus chamou-o do meio da sarça: «Moisés, Moisés!» Ele respondeu: «Aqui estou!» 5Continuou o Senhor: «Não te aproximes daqui. Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é terra sagrada». 6E acrescentou: «Eu sou o Deus de teu pai, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob». Então Moisés cobriu o rosto, com receio de olhar para Deus. 7Disse-lhe o Senhor: «Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. 8Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel». Moisés disse a Deus: 13«Vou procurar os filhos de Israel e dizer-lhes: ‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós’. Mas se me perguntarem qual é o seu nome, que hei-de responder-lhes?» 14Disse Deus a Moisés: «Eu sou ‘Aquele que sou’». E prosseguiu: «Assim falarás aos filhos de Israel: O que Se chama ‘Eu sou’ enviou-me a vós». 15Deus disse ainda a Moisés: «Assim falarás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, Deus de vossos pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, enviou-me a vós. Este é o meu nome para sempre, assim Me invocareis de geração em geração’».

 

Moisés encontrava-se numa situação de fugitivo do faraó e refugiado junto de Jetro, sacerdote de Madiã, tendo casado com umas das suas filhas, Séfora. «Madiã» era um reduto de tribos nómadas madianitas, situado a sudeste do golfo de Akabá (Eilat), mas parece mais lógico que Jetro vivesse nalgum oásis da península do Sinai.» O Monte de Deus, o Horeb», na tradição javista habitualmente chamado Sinai, é a montanha de Deus, porque Deus aqui se revela (cf. Ex 19). A sua localização é muito discutida, mas a antiga tradição identificou-o com o djebel Musa (montanha de Moisés: 2.224 metros).

2 «O Anjo do Senhor numa chama ardente». É por vezes esta uma forma de designar o próprio Deus, enquanto se manifesta ao homem (cf. Gn 16, 7.13). Estamos perante uma forma de expressão deveras estranha para a nossa mentalidade: designar a Deus com o nome do seu mensageiro! No fundo parece haver uma concepção exacta de que nesta vida a criatura não pode ver a Deus, sendo frequente na Sagrada Escritura anotar que não se pode ver a Deus sem morrer (Gn 16, 13; 32, 31; Ex 33, 20; Jz 6, 22.23; 13, 21-22). Por isso se diz que Moisés cobriu o rosto (v. 6). No entanto, a existência dos anjos consta claramen­te de outras passagens da S. E.. Notar que o fogo, chama ardente, como elemento menos material, tornou-se um símbolo da santidade divina, da sua transcendência.

5 «Tira as sandálias». Atitude de respeito prescrita para os sacerdotes judeus poderem entrar no santuário e que ainda hoje adoptam os árabes para entrar num lugar sagrado.

14 «Eu sou ‘Aquele que sou’... O que se chama ‘Eu sou’ enviou-me». Em hebraico «Eu sou» diz-se’ehyéh. Uma forma muito discutida do verbo, mista e arcaica, na terceira pessoa, dá yahwéh, que é a forma que aparece no v. 15, traduzida habitualmente por «Senhor», segundo a tradução grega (Kyrios) adoptada pelos LXX e também preferida pelas traduções modernas que assim evitam ferir a sensibilidade judaica; de facto, os judeus, por respeito, nunca pronunciam o nome de Yahwéh, mas dizem Adonai (Senhor).

Também se discute qual o sentido do nome com que Deus se auto-designa: 1) Uns entendem: Eu sou Aquele que faz existir (dá o ser), isto é, Eu sou o Criador, uma interpretação pouco provável, pois o verbo hebraico correspondente (hayáh) não se usa na conjugação chamada hifil (a forma causativa). 2) Outros traduzem: «Eu serei o que sou», significando assim a imutabilidade e eternidade divina, mas, ainda que o imperfeito hebraico se possa traduzir tanto pelo presente como pelo futuro, não parece legítimo que na mesma frase se use diversa tradução para a mesma forma verbal. 3) Outros preferem uma tradução: «Eu sou porque sou», isto é, em Mim está toda a razão da minha existência, traduzindo o pronome relativo «que» (’axer) não como pronome, mas como conjunção causal, uma coisa pouco frequente. 4) Finalmente, temos aqueles que traduzem: «Eu sou Aquele que sou» (tradução mais habitual), ainda que haja divergências na interpretação; assim: a) uns entendem: Eu sou um ser inefável, indefinível através de qualquer nome, tendo em conta a mentalidade segundo a qual conhecer o nome duma divindade implicava um domínio mágico sobre ela: Deus, com esta maneira de falar, subtraía-se a dar o seu nome, revelando assim a sua transcendência (esta opinião não se coaduna bem com o contexto: v. 15); b) outros entendem: Eu sou Aquele que sou, em contraste com os deuses pagãos que não são, não têm existência real, pois «Eu sou, e serei contigo» (v. 12) para defender, guiar, proteger e salvar o meu povo. c) e também há quem entenda Eu sou Aquele que sou significando Aquele a quem compete a existência sem quaisquer restrições, realidade que a filosofia e a teologia vêm a explicitar dizendo que Deus é o ser necessário e absoluto, o ser a cuja essência pertence a existência, interpretação esta que, embora se coadune com a tradução grega dos LXX, Eu sou Aquele que existe, corresponde mais à reflexão filosófico-teológica do que à mentalidade semítica.

A pronúncia do nome divino Jeová não é correcta e procede do século XVI, quando os estudiosos leram as consoante do tetragrama divino, YHWH (4 consoantes) com as vogais do nome Adonai. Com efeito, quando, a partir do séc. VI p. C. os massoretas colocaram os sinais vocálicos no texto hebraico (que se escrevia só com consoantes), tiveram o cuidado de não colocar no nome de Yahwéh as suas vogais próprias, a fim de que um leitor distraído não pronunciasse o inefável nome divino, mas lesse Adonai. Note-se que o nome de Jesus (Yehoxúa) é teofórico, entrando na sua composição o nome Yahwéh: Yahwéh-salva. É por isso que, quando os cristãos invocam a Jesus, estão a utilizar e a santificar o nome de Yahwéh, e também é por isso que só no nome (na pessoa) de Jesus está a salvação (Act 4, 12). Por outro lado, Jesus nunca se dirige Deus com o nome de Yahwéh, ou o seu correspondente Senhor, mas com o nome que indica a distinção pessoal, Pai. Seria absurdo e ridículo pensar que, para alguém se salvar, tenha de usar o nome de Yahwéh no trato com Deus; Jesus, que veio para nos salvar, não impôs a obrigação de usarmos o nome de Yahwéh, como condição de salvação e a Igreja que continua a missão de Jesus nunca urgiu tal tratamento para Deus.

 

Salmo Responsorial    Sl 102 (103), 1-4.6-8.11(R. 8a)

 

Monição: Bendigamos ao Senhor porque perdoa os nossos pecados e cura as nossas feridas pois é um Deus clemente e compassivo.

 

Refrão:        O Senhor é clemente e cheio de compaixão.

 

Bendiz, ó minha alma, o Senhor

e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor

e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

 

Ele perdoa todos os teus pecados

e cura as tuas enfermidades.

Salva da morte a tua vida

e coroa-te de graça e misericórdia.

 

O Senhor faz justiça

e defende o direito de todos os oprimidos.

Revelou a Moisés os seus caminhos

e aos filhos de Israel os seus prodígios.

 

O Senhor é clemente e compassivo,

paciente e cheio de bondade.

Como a distância da terra aos céus,

assim é grande a sua misericórdia para os que O temem.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A segunda leitura avisa-nos que o cumprimento de ritos externos e vazios não é importante; o que é importante é a adesão verdadeira a Deus, a vontade de aceitar a sua proposta de salvação e de viver com Ele numa comunhão íntima.

 

1 Coríntios 10, 1-6.10-12

Irmãos: 1Não quero que ignoreis que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, passaram todos através do mar e na nuvem e no mar, 2receberam todos o baptismo de Moisés. 3Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual. 4Bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava: esse rochedo era Cristo. 5Mas a maioria deles não agradou a Deus, pois caíram mortos no deserto. 6Esses factos aconteceram para nos servir de exemplo, a fim de não cobiçarmos o mal, como eles cobiçaram. 10Não murmureis, como alguns deles murmuraram, tendo perecido às mãos do Anjo exterminador. 11Tudo isto lhes sucedia para servir de exemplo e foi escrito para nos advertir, a nós que chegámos ao fim dos tempos. 12Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair.

 

A leitura é tirada daquela parte da carta onde Paulo procura dar resposta a um problema prático que então ali se punha: se era lícito ou não comer as carnes que, depois de terem sido oferecidas num templo pagão a um ídolo, eram vendidas na praça, os chamados idolótitos. O Apóstolo, depois de ter explicado os princípios gerais, a saber, que se podiam comer, pois os ídolos não são nada (8, 1-6), adverte que era preciso ter em conta aqueles irmãos, fracos e timoratos, que se pudessem vir a escandalizar com isso (8, 7-13), e passa a ilustrar a doutrina exposta, primeiro, com o seu exemplo de renunciar a direitos para bem dos fiéis (9, 1-27), depois, com as lições da história de Israel (10, 1-13): apesar de os israelitas na peregrinação do deserto terem sido favorecidos com tantos prodígios, «a maioria dele não agradou a Deus» e pereceu (v.5). E isto é uma lição para todos nós, para que não venhamos a arvorar-nos em fortes, pois também podemos vir a ser infiéis ao Senhor e a «cair» (v. 12). Os exegetas têm posto em relevo a actualidade dos escritos paulinos, pois S. Paulo, mesmo quando trata de assuntos ocasionais, que não nos dizem respeito, como neste caso, sempre apela para princípios válidos para todos os tempos e lugares.

2 «Na nuvem e no mar receberam todos o baptismo de Moisés», isto é, foram vinculados a Moisés aqueles antigos judeus pelo facto de, sob a sua chefia, se terem salvo com travessia das águas do «Mar» Vermelho e com a «nuvem» (sinal da presença protectora Deus). E isto a tal ponto que ficaram a constituir o que Actos 7, 38 chama a «igreja do deserto». Tudo isto era a figura, ou exemplo (vv. 6.11) dos cristãos, baptizados em Cristo e formando o novo e definitivo povo eleito, que é a Igreja.

3 «Alimento espiritual». O maná é chamado espiritual, pelo carácter sobrenatural de que se revestia a sua abundância e por ser também uma figura da SS. Eucaristia. A «bebida espiritual», a água do Êxodo, também é espiritual por milagrosa e pelo seu significado espiritual: uma figura do Espírito que Cristo dá aos crentes (cf. Jo 4, 10; 7, 37-39; 16, 7; 20, 22).

4 «O rochedo espiritual que os acompanhava». Parece que S. Paulo se soube aproveitar duma tradição rabínica que consta da Tosefta, segundo a qual a pedra da qual brotou água (Ex 17, 6) acompanhava os israelitas na sua peregrinação no deserto. Como os mestres rabinos costumavam identificar este rochedo com Yahwéh (cf. Êx 17, 6), a «Rocha de Israel» (Salm 18(17), 3), S. Paulo, para quem «esse rochedo era Cristo», insinua não só a preexistência de Cristo, mas também a sua divindade, a sua identificação com Yahwéh.

5 «Caíram mortos». Cf. Nm 14; 26, 65-65.

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 17

 

Monição: O Evangelho contém um convite a uma transformação radical da existência, a uma mudança de mentalidade, a um re-centrar a vida de forma que Deus e os seus valores passem a ser a nossa prioridade fundamental. Se isso não acontecer, diz Jesus, a nossa vida será cada vez mais controlada pelo egoísmo que leva à morte.

 

 

Cântico: J. Santos, NRMS 40

 

Arrependei-vos, diz o Senhor;

está próximo o reino dos Céus.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 13, 1-9

1Naquele tempo, vieram contar a Jesus que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus, juntamente com o das vítimas que imolavam. 2Jesus respondeu-lhes: «Julgais que, por terem sofrido tal castigo, esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus? 3Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos do mesmo modo. 4E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5Eu digo-vos que não. E se não vos arrependerdes, morrereis todos de modo semelhante». 6Jesus disse então a seguinte parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi procurar os frutos que nela houvesse, mas não os encontrou. 7Disse então ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la. Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’ 8Mas o vinhateiro respondeu-lhe: ‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. 9Talvez venha a dar frutos. Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

 

Jesus contraria a opinião corrente de então e de hoje, que atribui todas as desgraças a um castigo de Deus; Ele antes quer que se vejam como um aviso de Deus, por isso aproveita estes acontecimentos para fazer um forte apelo à conversão.

1 «Pilatos mandara derramar o sangue...» Facto apenas conhecido por S. Lucas, mas que estava de acordo com o carácter violento e repressivo do procurador romano. Um acto semelhante, o mandar matar uns samaritanos por ocasião duma peregrinação ao Monte Garizim, no ano 35, foi a ocasião para os judeus conseguirem do imperador destituição de Pilatos, segundo conta Flávio Josefo (cf. Antiquitates, XVIII).

4 «A torre de Siloé, ao cair...» Facto também só conhecido por este relato. Siloé é o nome duma piscina a Sueste de Jerusalém, na parte interior da muralha que naquele sítio teria provavelmente algum torreão que então caiu.

5 «Eu digo-vos que não». Deus nem sempre castiga nesta vida os mais culpados. As calamidades e os males que nos sobrevêm podem ser uma prova a que Deus nos sujeita, uma ocasião de expiarmos os nossos pecados e uma chamada à conversão: «se não vos converterdes…»

6-9 Com a parábola (exclusiva de S. Lucas) da figueira sem frutos, o Senhor pretende ensinar que é urgente que nos convertamos: Deus é paciente na sua misericórdia (cf. Pe 3, 9; Ez 33, 11; Jl 2, 13; Sab 11, 23), mas não podemos adiar o arrependimento para uma hora que pode já ser tardia. É urgente que dêmos frutos de santidade, pondo de lado a preguiça e o comodismo que tornam a vida inútil e estéril; Deus não deixa impune a falta de correspondência à cava e ao adubo da sua graça: «mandá-la-ás cortar».

 

Sugestões para a homilia

 

1. Duas falsas imagens

2. Duas atitudes de mudança

Duas falsas imagens

Duas tragédias faziam a notícia da época. A Jesus acorrem alguns para dar conta do sucedido. O castigo não podia ser mais cruel. E a decisão de Pilatos mais polémica. Vêm então a Jesus, para uma opinião. Mas Jesus percebendo-lhes a astúcia e a presunção, aproveita estes sinais para lançar à cara e de caras e mais uma vez um apelo à conversão: «se não vos converterdes, morrereis todos do mesmo modo».

 

E isto por uma razão muito simples. É que aqueles que lhe dão a notícia iam convencidos de duas coisas: que o castigo era divino e era a paga pelo pecado alheio. No fundo, está em causa uma falsa imagem de Deus e uma falsa imagem de si próprios. Falsa imagem de Deus, porque o imaginavam vingativo, impaciente, impiedoso e implacável. Ao pecado do homem suceder-se-ia a vingança e castigo de Deus. Falsa imagem de si próprios porque lá no fundo se tinham por mais justos e mais santos, só pelo facto de não terem sido eles os atingidos por tais tragédias.

 

Jesus corrige uma e outra imagem. E começa por abalar esta «presunção» de superioridade moral sobre os outros, lembrando que as vítimas não eram nem mais culpados nem mais pecadores. Mas que todos e também eles estivessem «alerta», atentos a todos os sinais, que se «pusessem à tabela» porque se não se arrependessem morreriam de maneira semelhante. Quer dizer, ninguém diga que está bem, porque ninguém está livre nem seguro e muito menos isento de pecado. S. Paulo, contra esta presunção de que está tudo garantido, de que são os outros que estão em pecado e é aos outros que cabe arrepender-se, acaba por dizer: «quem se julga de pé tenha cuidado para não cair». Quer dizer, o homem nunca está convertido e quando se julgar feito e perfeito, está perto do podre e a será fatal a sua queda...

Duas atitudes de mudança

Mas Jesus vai mais longe. E com a parábola da figueira, revela a verdadeira imagem de Deus. Um Deus clemente e cheio de compaixão, que dá ao homem o tempo para que se converta. Está presente neste texto a enorme paciência de Deus. Há ainda e sempre uma oportunidade. E antes que seja tarde, devemo-la aproveitar. A longanimidade de Deus é um apelo permanente à conversão. Cá estão duas atitudes importantes para a nossa conversão quaresmal:

 

1. Descobrir Deus como Deus. Ao revelar a Moisés o mistério do seu Ser, Deus manifesta-se como Alguém que caminha ao nosso ritmo e sabe esperar por nós. Quem não descobrir este Deus nunca perceberá a necessidade de mudar, de se voltar para Ele.

 

2. Assumir a nossa parte de responsabilidade nos males deste tempo. E estes males revelam que todos temos muita coisa a mudar: os critérios de julgar, as formas de ser, os modos de agir. E mudar em coisas muito simples e concretas...e isto é para mim! Ver bem: converter-se em quê, de quê, a quem, como e agora...»

 

Isto de pensar que a conversão é para os outros, que nós estamos «sãos e salvos», sem culpa nem pecado, além de uma enorme falta de verdade é uma ousada presunção. «E presunção e água benta cada um toma a que quer». S. Paulo diz de maneira mais elegante a mesma coisa: «quem julga estar de pé tenha cuidado para não cair»!

 

Fala o Santo Padre

 

«Cristo convida a responder ao mal, com um sério exame de consciência

e com o compromisso de purificar a própria vida.»

A página do Evangelho de Lucas, que é proclamada neste terceiro Domingo de Quaresma, narra o comentário de Jesus a dois factos de crónica. O primeiro: a revolta de alguns Galileus, que tinha sido reprimida por Pilatos no sangue; o segundo: o desabamento de uma torre em Jerusalém, que causara dezoito vítimas. Dois acontecimentos trágicos bem diversos: um provocado pelo homem, o outro acidental. Segundo a mentalidade do tempo, o povo pensava que a desgraça se tivesse abatido sobre as vítimas por causa de algumas suas culpas graves. Mas Jesus diz: «Julgais que esses galileus eram maiores pecadores que todos os outros galileus, por terem assim sofrido?... E aqueles dezoito... eram mais culpados que todos os outros habitantes?» (Lc 13, 2.4). E em ambos os casos conclui: «Não, Eu vo-lo digo, mas, se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo» (13, 3.5).

Eis, portanto, o ponto ao qual Jesus deseja guiar os seus ouvintes: a necessidade da conversão. Não a propõe em termos moralistas, mas realistas, como a única resposta adequada a acontecimentos que põem em crise as certezas humanas. Perante certas desgraças adverte Ele não serve descarregar a culpa sobre as vítimas. A verdadeira sabedoria é antes deixar-se interpelar pela precariedade da existência e assumir uma atitude de responsabilidade: fazer penitência e melhorar a nossa vida. É esta a sabedoria, é esta a resposta mais eficaz ao mal, de qualquer tipo, interpessoal, social e internacional. Cristo convida a responder ao mal antes de tudo com um sério exame de consciência e com o compromisso de purificar a própria vida. Caso contrário diz morreremos, todos morreremos do mesmo modo. De facto, as pessoas e as sociedades que vivem sem nunca se questionarem têm como único destino final a ruína. A conversão, ao contrário, mesmo se não preserva dos problemas e das desventuras, permite enfrentá-los de «modo» diferente. Antes de tudo ajuda a prevenir o mal, cortando certas ameaças. E, contudo, permite vencer o mal com o bem, se nem sempre no plano dos factos que por vezes são independentes da nossa vontade certamente no plano espiritual. Em síntese: a conversão vence o mal na sua raiz que é o pecado, mesmo se nem sempre pode evitar as suas consequências.

Rezemos a Maria Santíssima, que nos acompanha e nos ampara no itinerário quaresmal, para que ajude cada cristão a redescobrir a grandeza, diria a beleza da conversão. Ajude-nos a compreender que fazer penitência e corrigir o próprio comportamento não é simples moralismo, mas o caminho mais eficaz para nos transformar-mos em pessoas melhores, e também a sociedade.

Expressa isto muito bem uma feliz sentença: acender um fósforo tem mais valor do que amaldiçoar a escuridão.

 

Papa Bento XVI, Angelus, Domingo, 11 de Março de 2007

 

Oração Universal

 

Neste Domingo em que muitos dos nossos irmãos são eleitos

para receberem os sacramentos da Vida Nova na noite pascal,

elevemos ao Deus da misericórdia a prece confiante do seu povo penitente:

 

1.  Pela Igreja: para que testemunhe a esperança, na paciência do amor,

que não esmorece diante do fracasso, e na humildade do serviço,

que aceita e se confia ao mistério de Deus. Oremos irmãos.

 

2.  Pelos que são vítimas da impiedade dos homens:

para que não se resignem perante a dor; antes se entreguem a uma luta paciente

e bem orientada contra toda a forma de injustiça. Oremos irmãos.

 

3.  Pelos catecúmenos «eleitos», que se apresentam agora

para a celebração do Baptismo, Confirmação e Eucaristia na noite pascal:

para que, ao completarem a sua preparação, dêem frutos de vida nova. Oremos irmãos.

 

4.  Por todos nós: para que tenhamos paciência connosco próprios e com os outros,

como Deus a tem sempre connosco, lutando sem desfalecer,

por mudar a nossa vida, com a ajuda de Deus. Oremos irmãos.

 

Senhor, nosso Deus, olhai para os catecúmenos da Vossa Igreja.

Convertei-os e convertei-nos pela vossa misericórdia. Não permitais que eles e nós nos deixemos

enganar pela astúcia do demónio, mas livrai-nos do espírito da mentira, para que,

reconhecendo os nossos pecados, sejamos purificados no Vosso Espírito

e entremos pelo caminho da salvação. Por NSJC.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Confesso o meu pecado, J. Santos, NRMS 61

 

Oração sobre as oblatas: Concedei, Senhor, por este sacrifício, que, ao pedirmos o perdão dos nossos pecados, perdoemos também aos nossos irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Jesus não apela somente à conversão, mas propõe ao homem o caminho a empreender para amar Deus e amar os seus irmãos. Pela participação na sagrada comunhão, aprendamos de Cristo este empreendimento do amor.

 

Cântico da Comunhão: Bem-aventurados os que têm fome, M. Luís, NRMS 53

Salmo 83, 4-5

Antífona da comunhão: As aves do céu encontram abrigo e as andorinhas um ninho para os seus filhos, junto dos vossos altares, Senhor dos Exércitos, meu Rei e meu Deus. Felizes os que moram em vossa casa e a toda a hora cantam os vossos louvores.

 

Cântico de acção de graças: Deixai-me saborear, F. da Silva, NRMS 17

 

Oração depois da comunhão: Recebemos o penhor da glória eterna e, vivendo ainda na terra, fomos saciados com o pão do Céu. Nós Vos pedimos, Senhor, a graça de manifestarmos na vida o que celebramos neste sacramento. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Paciência, alegria e Perdão. Eis os atributos do amor, para estes três domingos, em que entramos no coração da Quaresma, para conhecer e descobrir o amor de Deus. Com o apelo da conversão, correspondemos à paciência de Deus. Jesus, na sua divina paciência, dá-nos, este ano, mais uma oportunidade de vida, apelando-nos à conversão. Deixemos que este apelo cave fundo o nosso coração.

 

Cântico final: Ó Cruz vitoriosa, F. da Silva, NRMS 29

 

 

Homilias Feriais

 

3ª SEMANA

 

2ª Feira, 8-III: Frutos do cumprimento da vontade de Deus.

2 Re 5, 1-15 / Lc 4, 24-30

Vai banhar-te e ficarás purificado. Então, ele (Naamã) desceu e mergulhou sete vezes no Jordão…e ficou purificado.

As Leituras de hoje referem o milagre da cura de Naamã. Embora ele, ao princípio, se tenha recusado obedecer, depois rectificou, obedeceu e ficou purificado.

Todos nós ficámos igualmente purificados dos nossos pecados pela obediência de Cristo: «Pela sua obediência até à morte, Jesus realizou a acção substitutiva do Servo sofredor, que oferece a sua vida como sacrifício de expiação, ao carregar com o pecado das multidões... Jesus reparou as nossas faltas e satisfez ao Pai pelos nossos pecados» (CIC, 615).

 

3ª Feira, 9-III: A medida do perdão.

Dan 3, 25. 34-43 / Mt 18, 21-35

Não nos deixeis ficar envergonhados, mas tratai-nos segundo a vossa brandura e segundo a vossa misericórdia.

Ananias, em nome do povo de Deus, invoca a misericórdia do Senhor (Leit.). E fica perdoado. E nós, como perdoamos aos outros? (Ev.)

Para conseguirmos perdoar àqueles que nos ofenderam, temos que chegar ao fundo do coração: «A parábola do servo desapiedado, que conclui com o ensinamento do Senhor, termina com estas palavras: ‘assim procederá convosco o meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão, do fundo do coração’ (Ev). É aí, de facto, no fundo do coração que tudo se ata e desata» (CIC, 2843).

 

4ª Feira, 10-III: Benefícios do cumprimento da Lei.

Dt 4, 1. 5-9 / Mt 5, 17-19

Não penseis que eu tenha vindo para revogar a Lei ou os Profetas: não vim revogar, mas dar pleno cumprimento.

«A Lei evangélica dá cumprimento aos mandamentos da Lei… Assim, o Evangelho leva a Lei á sua plenitude, pela imitação da perfeição do Pai celeste, pelo perdão dos inimigos e pela oração pelos perseguidores, à maneira da generosidade divina» (CIC, 1967).

Tenhamos presente que quem cumpre a Lei ganha sabedoria e entende melhor os acontecimentos; os preceitos dela são justos e melhores do que nenhuma outra; e são a chave que abre a porta de entrada para a vida eterna (Leit.).

 

5ª Feira, 11-III: A escuta da Palavra de Deus.

Jer 7, 23-28 / Lc 11, 14-23

Escutai a minha voz. Segui inteiramente o caminho que vou traçar-vos, a fim de serdes felizes. Mas eles não ouviram nem prestaram atenção.

Deus não se cansa de nos falar, apesar de muitas vezes não O ouvirmos. Enviou todos os profetas (Leit). Coube depois a Jesus proclamar a Boa-Nova. Não lhe fechemos os nossos corações (S. 94).

Procuremos prestar atenção à palavra de Deus na leitura da Bíblia, na proclamação da Palavra durante a celebração eucarística, para sairmos das trevas e do desânimo, para que ela seja para nós uma nova maneira de agirmos, para aumentar o desejo de ficarmos perto do Senhor.

 

6ª Feira, 12-III: Voltar de novo para Deus.

Os 14, 2-10 / Mc 12, 28-34

Perdoai-nos todas as nossas faltas e aceitai o que temos de bom.

O profeta Oseias pede ao povo de Israel que volte para Deus, que não se alie a outros povos poderosos, que tenha confiança no Senhor. Deus compromete-se a ajudá-lo: «amá-los-ei generosamente, pois a minha indignação vai desviar-se deles» (Leit.).

Jesus confirma que Deus é o único Senhor e que é necessário amá-lo sobre todas as coisas e com todo o empenho (Ev.). Nesta Quaresma pede-nos que voltemos para Deus, que meditemos no seu amor generoso: «procuremos ir olhando sempre para os seus favores, porque nos desperta para amá-lo» (S. Teresa de Ávila).

 

Sábado, 13-III: Os sacrifícios agradáveis a Deus.

Os 6, 1-6 / Lc 18, 9-14

Pois eu quero amor e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.

Estas palavras do profeta estão em sintonia com a parábola do fariseu e do publicano: o sacrifício sem amor não agrada a Deus (Ev.).

Como agradar a Deus? «Todas actividades dos leigos, orações, iniciativas apostólicas, a sua vida conjugal e familiar, o seu trabalho de cada dia, os seus lazeres do espírito e do corpo, se forem vividos no Espírito de Deus, e até as provações da vida, se pacientemente suportadas, tudo se transforma em sacrifício espiritual, agradável a Deus, por Jesus Cristo» (CIC, 901).

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Nuno Westwood

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 

 


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