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O  PODER  DO  SACERDÓCIO

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

«O interior do homem é um mistério, e o seu coração um abismo» (S 64, 7) Esta é a diferença entre o homem e o animal: a consciência do mistério que somos para nós mesmos e do abismo sem fundo das nossas aspirações, nunca satisfeitas. O homem é o único animal que se compara com os outros e com o universo, e se vê vertiginosamente insignificante. O único a reconhecer a sua precariedade, a sua contingência, a sua pequenez, o seu nada. O único animal ansioso e insaciável. Dêem-lhe o mundo, e quer mais. Quanto mais conhece, mais sofre com o que ignora. Quanto mais saboreia, mais quer gozar. Só tem cinco sentidos e precisaria de mil. Tudo lhe interessa, a tudo se apega, e tudo lhe foge. O tempo consome-o; a vida é um instante; não dá para nada…

Esta é precisamente a grandeza do homem: a sua fome e sede do infinito! As mãos vazias à espera de tudo! É verdade: «Como a corça suspira pelas águas vivas, assim anseia a minha alma por Vós, meu Deus!» (S 41, 2) É verdade: desde que nascemos, por Ele suspiramos. Nada e ninguém nos satisfaz; em tudo e em todos vemos defeito. Só Ele, só Ele, nos saciaria… Se isto é impossível, para que presta a vida?

Sim, aí reside a nossa grandeza: não sendo mais que um sonho de Deus, sonhamos com Ele, aspiramos a Ele, como se fôssemos Deus em negativo, pura ausência e anseio do absoluto; aquilo a que os teólogos chamam «potência obediencial». Não somos nada, nem somos capazes de nada que valha, e permaneça, e realize em plenitude um único dos nossos anseios… mas, por isso mesmo, por este abismo, por este imenso vazio que somos, capazes de receber o Amor com que sonhamos.

Os outros animais não. Para eles só existem o presente e meia dúzia de necessidades básicas, fáceis de satisfazer. O próprio empenho em nos equipararmos aos bichos, aos brutos, aos «primatas», manifesta o desespero humano de conseguirmos uma felicidade correspondente à nossa verdadeira e estranha natureza. Essa teimosia de afastar Deus do pensamento, da cultura, da ciência, da vida pública, o que significa senão «saudades» d’Ele?

 

Não nos deixemos enganar pelo fingimento da indiferença religiosa, do ateísmo declarado, da revolta moral. Por mais que se abaixe, o homem é e vê-se mais alto do que tudo o que o rodeia, e só nós, os sacerdotes, lhe podemos dar, desde já, Aquele por Quem aspira desde a infância: Deus bendito, Deus Irmão, Deus Amor.

Embora todos os cristãos lhe possam dar «a razão da nossa esperança» (cf. 1 Ped 3, 15) – e inclusivamente a própria vida sobrenatural, através do Baptismo –, só nós, os sacerdotes, podemos encher totalmente o abismo do seu coração sequioso de infinito. Ai de nós, se não enchemos o nosso, mas que alegria sabermos que as nossas misérias pessoais não nos impedem de oferecer aos outros tudo o que anseiam, e que tantos nem ousam esperar!

Neste Ano Sacerdotal, em que o Santo Padre nos visitará, unidos a ele e a Maria, Mãe dos sacerdotes, que sete vezes nos visitou em Fátima, renovaremos a nossa gratidão por esta imensa bênção que é, «para todo o povo» (Lc 2, 10), o dom do sacerdócio ministerial.

 


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