Ciência e Fé

A TESE DO INTELLIGENT DESIGN

 

 

Pe. Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap.

 

 

A partir da maravilhosa harmonia do Universo, também à escala microscópica e astronómica, pode-se inferir cientificamente a infinita perfeição do seu Artífice? Os cientistas não estão de acordo. Também há teólogos católicos que sabem que o Universo foi criado por Deus no tempo, mas afirmam que a existência do Criador é um salto filosófico e não científico.

Contudo, podia-se perguntar: da análise dos factos observáveis e apurados depois de um crime, pode o investigador chegar cientificamente a descobrir o seu autor, o modo como o realizou e até a intenção? Não será a existência de Deus também um problema «policial»?

O Pe. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, tratou este tema numa perspectiva teológica na primeira pregação (13-III-09) que dirigiu na Quaresma passada à Cúria Romana, na presença do Papa Bento XVI, na capela «Redemptoris Mater». Comentava ele a passagem de Rom 8, 22: «Toda a criação geme e sofre como que em dores de parto». Oferecemos aos nossos leitores o respectivo excerto, como contributo para este ano em que se comemoram Galileu e Darwin.

 

 

(…..)

A tese do intelligent design: ciência ou fé?

Esta visão de fé e profética do Apóstolo oferece-nos a ocasião de tocar o problema hoje tão debatido sobre a presença ou não de um sentido e de um projecto divino interno à criação, sem querer com isso sobrecarregar o texto paulino de significados científicos ou filosóficos que evidentemente não tem. A celebração do bicentenário do nascimento de Darwin (12 de Fevereiro de 1809) torna ainda mais actual e necessária uma reflexão neste sentido.

Na visão de Paulo, Deus está no princípio e no final da história do mundo; guia-o misteriosamente a um fim, fazendo servir a este inclusive as oscilações da liberdade humana. O mundo material está em função do homem e o homem está em função de Deus. Não se trata de uma ideia exclusiva de Paulo. O tema da libertação final da matéria e da sua participação na glória dos filhos de Deus encontra um paralelo no tema dos «céus novos e a terra nova» da Segunda Carta de Pedro (3, 13) e do Apocalipse (21, 1).

A primeira grande novidade desta visão é que esta fala de libertação por parte da matéria, não de libertação da matéria, como ao contrário acontecia em quase todas as concepções antigas da salvação: platonismo, gnosticismo, docetismo, maniqueísmo, catarismo. Santo Ireneu combateu toda a vida contra a afirmação gnóstica segundo a qual «a matéria é incapaz de salvação» [1]

No diálogo actual entre ciência e fé, o problema apresenta-se em termos diversos, mas a substância é a mesma. Trata-se de saber se o cosmos foi pensado e querido por alguém ou se é fruto «do acaso e da necessidade»; se o seu caminho mostra sinais de uma inteligência e avança para um desenlace preciso, ou se evolui, por assim dizer, cegamente, obedecendo só a leis próprias e a mecanismos biológicos.

A tese dos crentes a este respeito acabou por cristalizar-se na fórmula que em inglês aparece como intelligent design, o desígnio inteligente, entende-se, do Criador. O que criou tanta discussão e rejeição desta ideia foi, na minha opinião, o facto de não se distinguir com bastante clareza o desígnio inteligente como teoria científica, do desígnio inteligente como verdade de fé.

Como teoria científica, a tese do «desígnio inteligente» afirma que é possível provar pela análise própria da criação, portanto cientificamente, que o mundo tem um autor externo a si mesmo e mostra os sinais de uma inteligência ordenadora. Esta é a afirmação que a maioria dos cientistas entende (e a única que pode!) rejeitar, não a afirmação de fé, que o crente tem da revelação e da qual também a sua inteligência sente a íntima verdade e necessidade.

Se, como pensam muitos cientistas (não todos!), é pseudo-ciência fazer do «desígnio inteligente» uma conclusão científica, também é pseudo-ciência aquela que exclui a existência de um «desígnio inteligente» com base nos resultados da ciência. A ciência poderia avançar na pretensão se pudesse por si só explicar tudo: não só o «como» do mundo, mas também o «quê» e o «porquê». Isto a ciência sabe bem que não está em seu poder fazê-lo. Inclusive quem elimina do seu horizonte a ideia de Deus, não elimina com isso o mistério. Resta sempre uma pergunta sem resposta: por que o ser e não o nada? O próprio nada é talvez para nós um mistério menos impenetrável que o ser, e o acaso, um enigma menos inexplicável que Deus?

Num livro de divulgação científica, escrito por um não-crente, li esta significativa afirmação: se percorremos para trás na história do mundo, como se passam as páginas de um livro desde a última página para trás, chegados ao final, percebemos que é como se faltasse a primeira página, o incipit. Sabemos tudo sobre o mundo, excepto por que e como começou. O crente está convencido de que a Bíblia nos proporciona precisamente esta página que falta; nela, como no frontispício de todo o livro, está indicado o nome do autor e o título da obra!

Uma analogia pode ajudar-nos a conciliar a nossa fé na existência de um desígnio inteligente de Deus sobre o mundo com a aparente casualidade e imprevisibilidade posta à luz por Darwin e pela ciência actual. Trata-se da relação entre graça e liberdade. Como no campo do espírito a graça deixa espaço à imprevisibilidade da liberdade humana e actua também através dela, assim no campo físico e biológico tudo está confiado ao jogo das causas segundas (a luta pela sobrevivência das espécies segundo Darwin, a casualidade e a necessidade segundo Monod), ainda que este mesmo jogo esteja previsto e feito precisamente pela providência de Deus. Num e noutro caso, como diz o provérbio, «Deus escreve direito por linhas tortas».

 

(…..)

 

Nota: Talvez o contributo do Pe. Raniero Cantalamessa permita explicar por que razão os cientistas se dividem em aceitar ou rejeitar a tese do «intelligent design». Sem falar daqueles que não aceitam para não mudarem a sua orientação de fé em relação a Deus, os próprios cientistas que acreditam em Deus podem reconhecer ou não que os dados científicos permitem inferir o «intelligent design». Não acontece assim com as teorias científicas? Estas são explicações fiáveis da realidade, não pretendem ser a própria realidade; poderão aperfeiçoar-se ou até mudar consoante novos dados científicos.

De modo análogo, parece que o investigador de um crime pode chegar cientificamente ao autor; mas pode enganar-se, e o tribunal pode requerer algo mais para declarar o réu culpado.

Portanto, seria legítimo aceitar ou rejeitar o «intelligent design» como teoria científica; ainda que seja uma verdade filosófica e teológica.

 

M.F.

 

 

 

 

[1] Cf. S. Ireneo, Adv. haer. V, 1,2; V, 3,3.


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial