SÍNODO DOS BISPOS

II SÍNODO DOS BISPOS PARA A ÁFRICA

 

 

De 4 a 25 de Outubro passado, decorreu no Vaticano a II Assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a África, sob o tema «A Igreja em África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz: 'Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo' (Mt 5, 13.14)».

Participaram 244 Padres sinodais, dos quais 197 provinham do continente africano; 34 da Europa, 10 da América, 2 da Ásia e um da Oceânia. Entre eles, 25 eram Chefes de organismos da Cúria Romana. De Portugal esteve D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. 

Damos uma pequena selecção de intervenções durante o Sínodo e alguma das 57 Proposições apresentadas ao Santo Padre como fruto das deliberações sinodais.

 

 

Cardeal Jean-Louis Tauran, Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso (7-X-09)

A Religião Tradicional Africana (RTA) exerce ainda uma forte influência sobre os africanos que são naturalmente religiosos.

Muito antes da chegada do cristianismo e do Islão, as populações reconheciam a existência de um Ser Supremo, o «Grande Vivente»: os missionários cristãos não fizeram com que os africanos descobrissem Deus (eles já tinham uma ideia d'Ele): antes, levaram-lhes Jesus Cristo, aquele «Deus que possui um rosto humano» (Spe salvi, 31).

O Islão está em constante crescimento graças a três instrumentos: as irmandades, as escolas corânicas e as mesquitas. É geralmente tolerante, excepto em algumas situações bem conhecidas (Nigéria).

A actividade das seitas, por causa da simplicidade das suas crenças, seduz muitos africanos que vivem na precariedade. Diante desta situação, os bispos não deixam de reagir e o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso esforça-se por ajudá-los a difundir um ensinamento sobre as diferentes religiões na África, na formação para o sacerdócio e a vida religiosa, organizando no lugar encontros de formação para os formadores.

Seria oportuno que a Assembleia sinodal incentivasse o estudo da RTA, que convidasse a um maior cuidado pastoral em prol daqueles que vivem no contexto da RTA e sugerisse o que é possível fazer juntos em vista do bem comum.

A Igreja católica possui um instrumento particularmente adequado para fomentar a reconciliação, a justiça e a paz: as escolas e as universidades católicas.

O crescimento das seitas pode ser considerado como um convite aos pastores a cuidarem mais a transmissão do conteúdo da fé no contexto cultural africano. Se quisermos responder à pergunta o que tem de novo o Evangelho para oferecer aos africanos? É indispensável conhecer e apreciar as raízes religiosas dos povos deste continente, visto que, segundo um provérbio africano, «somente afundando as suas raízes na terra fértil, a árvore poderá crescer».

 

Mons. Robert Sarah, Arcebispo emérito de Conakry (Guiné), Secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos (7-X-09)

A teoria do género é uma ideologia sociológica ocidental dos relacionamentos homem-mulher, que se opõe à identidade esponsal da pessoa humana, à complementaridade antropológica entre homem e mulher, ao matrimónio, à maternidade e à paternidade, à família e à procriação. Ela é contrária à cultura africana e às verdades humanas iluminadas pela Revelação divina em Jesus Cristo.

A ideologia do género separa o sexo biológico da identidade masculina ou feminina, afirmando que isto não é intrínseco à pessoa, mas que é uma construção social. Aquela identidade poderia – e deveria – ser desobstruída para permitir que a mulher aceda a uma igualdade de poder social com o homem, e que o indivíduo, «escolha» a sua própria orientação sexual. Os relacionamentos homem-mulher seriam assim governados por uma luta de poder.

Em nome desta ideologia irrealista e desencarnada, que renega o projecto de Deus, afirma-se que no início nós somos indeterminados: é a sociedade que faz o género masculino e feminino, segundo as várias opções do indivíduo. O direito de escolha é o valor supremo desta nova ética, a homossexualidade torna-se uma opção socialmente aceitável e a possibilidade dessa opção é deste modo promovida.

A nova ideologia é dinâmica e por vezes impõe-se também nas culturas e na política. Ela exerce pressões sobre o legislador, para que faça leis favoráveis ao acesso universal às informações e aos serviços contraceptivos e abortivos (a ideia de «saúde reprodutiva»), assim como à homossexualidade.

Na cultura africana, o homem nada é sem a mulher, e a mulher nada é sem o homem. Quer um, quer outro nada são, se a criança não estiver no centro da família constituída por um homem e por uma mulher, célula fundamental da sociedade. A ideologia do género desestabiliza o sentido da vida conjugal e familiar que a África soube preservar até ao presente.

A sociedade precisa da verdade nos relacionamentos. Não há paz, nem justiça, nem estabilidade na sociedade sem família, sem cooperação entre o homem e a mulher, sem o pai e a mãe. Em nome da não-discriminação, esta ideologia cria graves injustiças e compromete a paz.

A Africa deve proteger-se da contaminação do cinismo intelectual do Ocidente. É nossa responsabilidade pastoral esclarecer a consciência dos africanos quanto aos perigos desta ideologia mortal.

 

Cardeal Ennio Antonelli, Presidente do Pontifício Conselho para a Família (8-X-09)

Com uma expressão muito incisiva, na Homilia da Missa de Inauguração, na Basílica de São Pedro, o Santo Padre assinalou que o primeiro mundo «está a exportar resíduos espirituais tóxicos» para a África e para outras regiões em vias de desenvolvimento. Um desses resíduos tóxicos é a chamada «teoria do género», que bem camuflada começa a infiltrar-se nas associações, nos governos e até mesmo em alguns ambientes eclesiais do continente africano, como assinala o Pontifício Conselho para a Família.

Agentes de várias instituições e organizações internacionais começam por mencionar problemas reais aos quais é necessário remediar, como as injustiças e violências sofridas pelas mulheres, a mortalidade infantil, a subalimentação e a fome, além dos problemas de habitação e de trabalho. Depois, sugerem perspectivas de solução baseadas nos valores da igualdade, da saúde, da liberdade: palavras sacrossantas, mas que, carregadas de novos significados antropológicos, tornaram-se ambíguas: por exemplo, «igualdade das pessoas» não significa apenas igual dignidade e titularidade dos direitos fundamentais do homem, mas também irrelevância da diferença natural entre homens e mulheres, uniformidade de todos os indivíduos como se fossem sexualmente indistintos e, portanto, equivalência de todas as orientações e comportamentos sexuais: heterossexual, homossexual, bissexual, transsexual, polimorfo. Cada indivíduo teria o «direito» de realizar livremente (ou, eventualmente, de mudar) as suas escolhas, segundo as suas pulsões, os seus desejos e preferências.

A «ideologia do género» é difundida através de centros de saúde reprodutiva, de encontros locais de formação, de programas televisivos internacionais de formação. É solicitada a colaboração dos governos africanos e das associações locais, inclusive eclesiais, que normalmente não compreendem as suas implicações antropológicas, eticamente inaceitáveis.

O meu pronunciamento quer ser um convite à vigilância, uma exortação a oferecer instruções minuciosas aos sacerdotes, aos seminaristas, aos religiosos e às religiosas, à Caritas e aos outros agentes pastorais laicos.

 

D. Jorge Ferreira Ortiga, Arcebispo de Braga, Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (8-X-09)

Portugal e a Europa devem reinterpretar a aventura missionária, assumindo atitudes novas e comprometidas com a vida dos povos que evangelizaram.

No passado, com maior ou menor fidelidade, deram a conhecer Jesus Cristo e a Sua doutrina. Hoje devem continuar a partir para ver Cristo nas necessidades reais e concretas, fazendo o que devem fazer a Cristo (cf. Instrumentum laboris, 35).

Ir ao encontro de Cristo nos necessitados através de uma dedicação total deve ter uma dimensão universal, que não permite acepção de pessoas mesmo por motivos religiosos.

Partir é sinónimo de coragem e nunca admite cansaços. Só assim a civilização do amor se irá concretizando.

Se a Europa deve partir ao encontro das necessidades, as comunidades locais devem organizar-se eliminando demasiadas burocracias e chegando, particularmente, a quem não tem voz para exigir.

Dar é importante, dar-se num voluntariado com preparação permite que os povos consigam construir a sua felicidade.

Pode ter chegado a hora de uma autêntica geminação das comunidades ou dioceses através da partilha de bens materiais e de pessoas que se disponibilizam para servir na escola, saúde; etc.

A Europa deve regressar à Africa, não só para levar o conhecimento de Cristo, mas para encontrar-se com Ele em todos os povos e na lógica das Bem-aventuranças e da descrição do Juízo Final: «Tive fome e destes-me de comer.... Todas as vezes que o deixastes de fazer a um destes pequeninos foi a mim que o deixastes de fazer» (Mt 25, 35 e 45).

 

Cardeal André Vingt-Trois, Arcebispo de Paris, Presidente da Conferência Episcopal Francesa (8-X-09)

As relações entre as nossas Igrejas inserem-se numa história mais do que secular. Mas as nossas relações evoluíram muito depois da primeira evangelização. As nossas Igrejas europeias puderam alegrar-se ao ver as Igrejas africanas subsarianas atingir a maturidade com uma própria hierarquia, clero, comunidades religiosas, leigos, profundamente envolvidos na vida das paróquias e no anúncio do Evangelho em terras africanas.

Desde há alguns anos, as nossas relações desenvolvem-se num autêntico intercâmbio de dons. Certamente, muitas dioceses ou paróquias francesas estão comprometidas em ajudar de modo concreto as diversas Igrejas na África, mas hoje muitas das nossas paróquias recebem uma ajuda importante das dioceses africanas.

Esta ajuda apresenta-se principalmente sob duas formas. A primeira é o número de católicos africanos emigrados na França. A segunda é que os sacerdotes africanos ocupam um lugar cada vez mais importante no plano pastoral francês. Além dos sacerdotes estudantes (mais de 250 sacerdotes), que são numerosos nas cidades universitárias, recebemos cada vez mais sacerdotes africanos Fidei donum. Actualmente são mais de 600, enquanto os sacerdotes franceses Fidei donum não são mais de 70.

O chamamento dos sacerdotes africanos e o relativo acolhimento supõem uma preparação e uma atenção muito especiais. Gostaria, em particular, de ressaltar um ponto muito importante. É necessário que as relações entre os dois bispos (o bispo na África e o bispo na França) sejam o mais claras possíveis. Todas as vezes que se descuidam essas condições preliminares isso vai em detrimento da missão e do sacerdote.

As dificuldades que encontramos não devem esconder a riqueza das relações entre as nossas Igrejas nem impedir-nos de dar graças pelo intercâmbio de dons que vivemos.

 

 

 


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