DOCUMENTAÇÃO

 

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

 

ORDINARIATOS PESSOAIS

PARA FIÉIS PROVENIENTES DA IGREJA ANGLICANA

 

Nota informativa

 

No passado dia 20 de Outubro foi anunciada no Vaticano a próxima publicação de uma Constituição Apostólica para os fiéis provenientes da Igreja Anglicana. A explicação foi dada pelo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Levada, e pelo Secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Arcebispo Joseph Augustine di Noia.

Eis o texto da Nota informativa distribuída:

 

Com a preparação de uma Constituição Apostólica, a Igreja Católica responde aos numerosos pedidos que foram submetidos à Santa Sé por grupos de clérigos e fiéis anglicanos, provenientes de diversas regiões do mundo, que desejam entrar na comunhão plena e visível.

Nesta Constituição Apostólica, o Santo Padre introduziu uma estrutura canónica que provê a uma tal reunião corporativa através da instituição de Ordinariatos Pessoais, que permitirão aos fiéis ex-anglicanos entrarem na plena comunhão com a Igreja Católica, conservando ao mesmo tempo elementos do específico património espiritual e litúrgico anglicano. Segundo o teor da Constituição Apostólica, a vigilância e guia pastoral para tais grupos de fiéis ex-anglicanos será assegurada por um Ordinariato Pessoal, cujo Ordinário será normalmente nomeado do clero ex-anglicano.

A Constituição Apostólica, que em breve será publicada, representa uma resposta razoável e também necessária a um fenómeno global, oferecendo um único modelo canónico para a Igreja universal, adaptável a diversas situações locais e, na sua aplicação universal, equitativo para os ex-anglicanos. Este modelo prevê a possibilidade da ordenação de clérigos ex-anglicanos casados, como sacerdotes católicos. Motivos históricos e ecuménicos não permitem que homens casados sejam ordenados Bispos, quer na Igreja Católica, quer nas Igrejas Ortodoxas. Por conseguinte, a Constituição Apostólica determina que o Ordinário possa ser ou um sacerdote ou um Bispo não casado. Os seminaristas do Ordinariato serão preparados juntamente com outros seminaristas católicos, ainda que o Ordinariato possa abrir uma casa de formação com a finalidade de responder às particulares necessidades de formação no património anglicano. Deste modo, a Constituição Apostólica procura criar um equilíbrio entre o interesse de conservar o precioso património anglicano litúrgico e espiritual por um lado, e a preocupação de que estes grupos e o seu clero sejam incorporados na Igreja Católica.

O Cardeal William Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé que preparou esta iniciativa, afirmou: «Procurámos ir ao encontro, de modo unitário e equitativo, dos pedidos de uma união plena que nos foram submetidas por parte de fiéis ex-anglicanos provenientes de diversas regiões do mundo nos últimos anos. Com esta proposta, a Igreja pretende responder às legítimas aspirações destes grupos anglicanos a uma comunhão plena e visível com o Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro».

Estes Ordinariatos pessoais serão instituídos, segundo as necessidades, com a prévia consulta das Conferências Episcopais locais, e as suas estruturas serão de certo modo semelhantes às dos Ordinariatos Militares, que foram erigidos em muitos países para prover ao cuidado pastoral dos membros das forças armadas e dos seus familiares no mundo inteiro. «Os anglicanos que entraram em contacto com a Santa Sé manifestaram claramente o seu desejo de uma comunhão plena e visível na Igreja una, santa, católica e apostólica. Ao mesmo tempo, eles falaram-nos da importância das suas tradições anglicanas, relativas à espiritualidade e ao culto para o seu próprio caminho de fé», afirmou o Cardeal Levada.

A iniciativa desta nova estrutura está em sintonia com o empenho em prol do diálogo ecuménico, que continua a ser uma prioridade para a Igreja Católica, de forma particular através dos esforços do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. «Esta iniciativa provém de vários grupos de anglicanos», acrescentou o Cardeal Levada. «Eles declararam que compartilham a comum fé católica, como está expressa no Catecismo da Igreja Católica, e que aceitam o ministério petrino como um elemento desejado por Cristo para a Igreja. Para eles, chegou a hora de manifestarem esta união implícita duma forma visível de comunhão plena».

Segundo o Cardeal Levada, «o Santo Padre Bento XVI espera que os clérigos e fiéis leigos anglicanos, desejosos da união com a Igreja Católica, encontrem nesta estrutura canónica a oportunidade de preservarem aquelas tradições anglicanas que são preciosas para eles e em conformidade com a fé católica. Enquanto exprimem de modo diferente a fé professada em comum, tais tradições constituem um dom que deve ser compartilhado na Igreja universal. A união com a Igreja não requer a uniformidade que ignora as diversidades culturais, como demonstra a história do Cristianismo. Além disso, as numerosas e diversas tradições hoje presentes no interior da Igreja Católica estão todas radicadas no princípio formulado por São Paulo na sua Carta aos Efésios: «Um só Senhor, uma única fé, um só baptismo» (4, 5). Por conseguinte, a nossa comunhão é reforçada por semelhantes diversidades legítimas, e portanto estamos felizes porque estes homens e estas mulheres oferecem as suas contribuições particulares para a nossa comum vida de fé».

Informações relacionadas

Desde o século XVI, quando o rei Henrique VIII declarou a independência da Igreja de Inglaterra da autoridade do Papa, a Igreja de Inglaterra criou as suas próprias confissões doutrinais, hábitos litúrgicos e práticas pastorais, incorporando muitas vezes ideias da Reforma que teve lugar no continente europeu. A expansão do Reino britânico, unida ao apostolado missionário anglicano, levou depois ao nascimento de uma Comunhão anglicana a nível mundial.

Ao longo dos mais de 450 anos da sua história, a questão da reunião entre anglicanos e católicos nunca foi posta de lado. Nos meados do século XIX, o Movimento de Oxford (na Inglaterra) mostrou um renovado interesse pelos aspectos católicos do anglicanismo. No início do século XX, o Cardeal Mercier da Bélgica estabeleceu diálogos públicos com os anglicanos, com a finalidade de estudar a possibilidade de uma união com a Igreja Católica, sob a bandeira de um anglicanismo «reunido, mas não absorvido».

O Concílio Ecuménico Vaticano II alimentou posteriormente a esperança de uma união, de modo particular através do Decreto sobre o ecumenismo (n. 13) que, fazendo referência às Comunidades separadas da Igreja Católica no período da Reforma, reiterou: «Entre aquelas [comunhões] nas quais continuam a subsistir parcialmente as tradições e as estruturas católicas, ocupa um lugar especial a Comunhão anglicana».

A partir do Concílio, as relações entre anglicanos e católicos romanos criaram um clima de compreensão e cooperação mútua. A Anglican-Roman Catholic International Commission (ARCIC) emanou uma série de declarações doutrinais ao longo dos anos, na esperança de criar a base para uma união plena e visível. Para muitos dos membros pertencentes às duas Comunhões, as declarações da ARCIC puseram à disposição um instrumento no qual pode ser reconhecida a expressão comum da fé. É em tal moldura que se deve enquadrar a nova iniciativa.

Nos anos sucessivos ao Concílio, alguns anglicanos abandonaram a tradição de conferir as Ordens sagradas somente aos homens, chamando ao presbiterado e ao episcopado também as mulheres. Mais recentemente, alguns segmentos da Comunhão Anglicana afastaram-se do comum ensinamento bíblico a respeito da sexualidade humana – antes claramente expresso no documento da ARCIC «Vida em Cristo» –, conferindo as Ordens sagradas a clérigos abertamente homossexuais e abençoando as uniões entre pessoas do mesmo sexo. Contudo, enquanto a Comunhão anglicana deve enfrentar estes novos e difíceis desafios, a Igreja católica permanece plenamente empenhada no seu diálogo ecuménico com a Comunhão Anglicana, de maneira particular através da actividade do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

Entretanto, muitos anglicanos entraram individualmente na plena comunhão com a Igreja Católica. Às vezes entraram também grupos de anglicanos, conservando uma determinada estrutura «corporativa». Isto aconteceu, por exemplo, no caso da diocese anglicana de Amritsar, na Índia, e em algumas paróquias nos Estados Unidos da América que, embora mantendo uma identidade anglicana, entraram na Igreja Católica no contexto de uma chamada «providência pastoral», adoptada pela Congregação para a Doutrina da Fé e aprovada pelo Papa João Paulo II em 1982. Nestes casos, a Igreja Católica dispensou frequentemente do requisito do celibato, admitindo que os clérigos anglicanos casados que desejavam continuar o serviço ministerial como sacerdotes católicos fossem ordenados na Igreja Católica.

Neste contexto, os Ordinariatos Pessoais instituídos segundo a citada Constituição Apostólica podem ser vistos como um ulterior passo rumo à realização da aspiração da união plena e visível na única Igreja, que é uma das finalidades principais do movimento ecuménico.

 

Vaticano, 20 de Outubro de 2009

 


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