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A  cONTEMPLAÇÃO  DO  NATAL

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Quando nasce Jesus os Anjos rejubilam e chamam os pastores para O adorarem. Mais tarde, talvez já instalada em Belém a Sagrada Família, são chamados os Magos. A lição é clara: Cristo é o Salvador de todos, judeus e gentios, sábios e ignorantes, ricos e pobres. Mas porquê logo os pastores, a gente mais rude do Povo Escolhido? Porquê logo os Magos, pagãos adoradores dos astros? Pois em tudo havemos de ver a Providência e a Sabedoria divinas e nos é lícito tentar compreender os seus caminhos… O notório contraste entre uns e outros deve ter algum significado. Ou será que entre uns e outros há uma clara semelhança?

Uma, pelo menos, podemos descobrir: tanto os pastores como os magos são almas contemplativas. No silêncio do monte e na quietude dos prados, ou no silêncio das noites estreladas, sobre os seus zigurates, tanto uns como outros estão habituados a contemplar o mistério do mundo. Os seus olhos não se cansam de ver, de perscrutar e admirar o imenso firmamento, que se estende sobre nós como «um pálio aberto», na bela expressão de Olavo Bilac. A vista não se cansa de percorrer distâncias incalculáveis, e a alma voa para além do que vê, mas pressente, e como que adivinha… Que grandeza! Que beleza! Que harmonia! E que bem o diz o poeta nesse famoso soneto:

«Ora, direis, ouvir estrelas! Certo,

perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,

que, para ouvi-las, muita vez desperto,

e abro a janela, pálido de espanto!...»

E quando o olhar pousa na terra, que riqueza! Que miudezas tão maravilhosas! Que variedade! Que vida! Que graciosidade e que magnificência!...

Os magos tentariam exprimir o seu assombro pela matemática e a geometria; os pastores, com as suas flautas. Aliás, o que é a música, senão uma expressão da inefável harmonia do Universo?

«E eu vos direi: amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido,

capaz de ouvir e de entender estrelas!»

 

Haverá estrela mais formosa do que a luz do Presépio?

Nasceu o Deus Menino. Quem melhor do que eles O sabe ver? Quem está mais habituado ao assombro, e é capaz de manter o assombro toda a vida?

Que profunda – e tão fácil – pode ser a oração do silêncio interior! Porque teimamos sempre em palavras e reflexões quando rezamos? Se as palavras e os pensamentos têm justamente por fim a contemplação amorosa?

 

 

 


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