ENCÍCLICA «CARITAS IN VERITATE»

ATÉ MAQUIAVEL CONCORDARIA COM O PAPA

 

 

Ettore Gotti Tedeschi

 

 

No passado dia 7 de Julho foi apresentada no Vaticano a terceira encíclica do Papa Bento XVI, «Caritas in veritate», publicada com data de 29-VI-09.

O novo documento propõe mais ética nas finanças, gratuidade como antídoto à lógica do lucro, injecção de solidariedade nos mecanismos do mercado: nenhuma receita milagrosa ou pretensão dogmática, mas a convicção racional de que «a adesão aos valores do Cristianismo é um elemento não só útil, mas indispensável para a construção de uma sociedade sã e de um verdadeiro desenvolvimento humano integral». O Papa relê a «Populorum progressio» de Paulo VI evidenciando a actualidade da sua mensagem a mais de 40 anos da publicação, uma vez que o progresso continua a ser um problema aberto.

Oferecemos aos leitores um comentário publicado em L’Osservatore Romano, ed. port., 18-VII-09. V. também as Secções «A Palavra do Papa» e «Acontecimentos eclesiais», Comentário.

 

 

Uma encíclica social é intemporal porque, em diferentes períodos e em condições que mudam, enfrenta um problema sempre prioritário: a exigência de dar um sentido às acções humanas. Exigência que se satisfaz, procurando e encontrando a verdade. Por este motivo, nos seus princípios a Caritas in veritate é intemporal: poderia ter sido escrita há um século, como poderia sê-lo daqui a cem anos. Mas, obviamente, um texto papal deste tipo tenciona responder também aos problemas dos tempos em que nasce.

Quando, em Março de 1891, Leão XIII publicou a Rerum novarum, muitos quiseram interpretá-la em chave anti-capitalista, pelas considerações que continha sobre os excessos da concentração do poder económico. Mas precisamente no mesmo período, em Julho de 1890, o Governo dos Estados Unidos promulgara o Sherman Act para regular os monopólios que impediam que o mercado funcionasse. Era uma curiosa coincidência entre avaliação económica e juízo moral, que deixa entender como as leis da economia não podem prescindir de uma conformidade natural com os princípios éticos.

Pode-se interpretar do mesmo modo a Caritas in veritate. Consciente das origens da actual situação económica, Bento XVI propõe a sua análise e chama a atenção para o perigo de um crescimento egoísta, consumista e insustentável: o próprio crescimento fictício que nestes anos levou a destruir a riqueza e a debilitar o homem. Curiosamente, como tinha acontecido no final do século XIX, também desta vez foi dos Estados Unidos que veio uma adesão indirecta ao ensinamento do Pontífice. Com efeito, o Presidente Obama – repropondo a complementaridade entre avaliação económica e moral – afirmou que os americanos devem deixar de viver acima das próprias possibilidades.

Mas quanto tempo durará a atenção às recomendações contidas na Caritas in veritate? O seu apelo será esquecido, assim que terminar a emergência? O texto foi publicado num momento de grave recessão económica, derivada de uma forte crise dos valores morais. Agora todos estão muito atentos e declaram-se de acordo com a sua mensagem. Mas é necessário algo mais para permitir que o espírito da encíclica arraigue. É preciso compreender o que significa a nível prático aplicar a ética da economia. Talvez seja inútil esperar uma mudança das pessoas, por causa de um ciclo económico negativo. Muitos daqueles que hoje reconhecem a importância da ética na economia, ainda ontem menosprezavam o mesmo apelo, sublinhando a importância exclusiva de gerar lucro; e ignorando que o aspecto ético diz respeito sobretudo ao como e ao porquê se gera o lucro.

Portanto, as propostas da Caritas in veritate poderão ser aceites e encontrar realização também nos períodos seguintes à crise actual, se se reconhecer que elas correspondem a um interesse geral e individual concreto. Ou seja, é preciso convencer-se de que a ética na economia produz resultados melhores. E isto não é de modo algum impossível, se se regula a competição desleal. Não é difícil demonstrar que a ética aplicada produz maior riqueza, que é até uma vantagem competitiva, que alcança resultados mais sustentáveis no tempo. O comportamento ético implica custos menores – considerem-se apenas os de controle – e permite criar um valor crescente, graças à transparência e à confiança que, por sua vez, produzem mais certezas e menos riscos.

Há quem difunda ainda a ideia de que a civilização da economia – ou seja, a aplicação de princípios éticos às actividades económicas – significa menor produção de riqueza, diminuição do processo económico, menos vantagens competitivas e uma escassa atenção à medida dos resultados com base no lucro. Na realidade, é verdade o contrário.

É a falta de ética que produz riscos de destruição da riqueza, e a história da crise contemporânea não deveria deixar dúvidas a este propósito. É o desperdício de recursos que gera perdas para a comunidade. É o desenvolvimento viciado que desencadeia anti-economias e injustiças. É a sujeição do cidadão às necessidades exclusivas do Estado que dá vida à debilidade e à consequente desconfiança em relação às instituições.

Portanto, o ensinamento da Caritas in veritate – a partir da introdução fundamental – pode encontrar uma aplicação extremamente concreta e útil. Porque, como Nicolau Maquiavel declara nos Discursos (III, I), «é princípio solene que, para reformar uma sociedade em decadência, é necessário reconduzi-la aos princípios que lhe deram a acção». Também ele estaria de acordo com o Papa.

 

 

 


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