DOCUMENTAÇÃO

PATRIARCA DE LISBOA

 

O CELIBATO E A NOVIDADE DO AMOR

 

De 1 a 4 de Setembro passado realizou-se em Fátima o VI Simpósio do Clero de Portugal, subordinado ao tema «Reaviva o dom que há em ti». Mais de 800 sacerdotes, bispos e alguns diáconos tiveram oportunidade de ouvir vários oradores que colocaram a tónica na identidade sacerdotal e na formação permanente. A conferência de encerramento esteve a cargo do Cardeal brasileiro Cláudio Hummes, Prefeito da Congregação para o Clero.

Pelo seu interesse e actualidade, damos a seguir um excerto da conferência pronunciada pelo Cardal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo.

 

12. É impossível falar do ministério sacerdotal no contexto do mundo actual, neste início de século e de milénio, sem considerarmos o desafio do celibato. Antes de mais, porque ele é contestado por uma cultura que não o compreende nem aceita, contestação que encontra expressões dentro da própria Igreja. Embora não haja aqui espaço para o tratamento sistemático do tema, não podemos deixar de apontar aqueles elementos essenciais para o enquadrar no ministério sacerdotal e situar este no quadro cultural que nos envolve.

Não é a primeira vez, ao longo da história, que o celibato, quer masculino, quer feminino, é contestado pela sociedade e pela cultura ambiente. O que muda são as formas e as motivações desta contestação. O celibato por amor do Reino dos Céus, como nós o compreendemos e procurarmos viver, não é compreensível sem a fé cristã em Cristo ressuscitado, que inaugura a via cristã de viver e dar sentido a tudo o que é humano.

No contexto do Antigo Testamento era inconcebível e a esterilidade era uma maldição. Tem a ver com o sentido da vida e da morte; esta, sendo inevitável, vence-se na descendência. Os filhos são uma bênção de Deus, pois a vida dos pais prolonga-se neles; não os ter significa a ameaça do aniquilamento. A mulher, matriz da vida, é a mais sacrificada com esta perspectiva, pois o sentido da sua vida e a sua dignidade concentram-se aí, em procriar, em garantir ao homem a descendência. A Lei de Moisés previa mesmo que, quando o marido morria sem ter dado descendência à sua esposa, o irmão a seguir tinha obrigação de desposar a viúva para lhe garantir a descendência (cf. Lc 20, 27ss). Era um direito da mulher que a poupassem à maldição da infecundidade. Esta mentalidade existe também no Império Romano, e noutras civilizações. Casar e ter filhos era um imperativo da natureza e da sociedade, diminuía o horizonte da liberdade.

No nosso tempo surgiram novas motivações para não aceitar, não diria o celibato, mas a continência. A chamada revolução sexual, foi desligando sexo e amor, controlou por métodos artificiais a fecundidade, desenvolveu uma cultura do prazer, fez da liberdade sexual o protótipo da liberdade individual, transpondo o seu sentido para a fruição pessoal, e não já como expressão da generosidade oblativa do amor pelo outro, pelos outros. Neste contexto, o celibato não basta ser afirmado, é preciso vivê-lo na linha da novidade cristã, da vida nova em Cristo ressuscitado, que é o âmbito de toda a vida da graça, incluindo o próprio ministério sacerdotal. Sublinharei alguns pontos a ter particularmente em conta na vivência deste carisma, no quadro actual da vivência do ministério sacerdotal.

 

13. O ponto de referência é a vivência cristã da afectividade e da sexualidade, caminho de santidade também para os que se casam, e não a liberdade sexual, quase sempre egocêntrica, do ambiente que vivemos. A referência do celibato só pode ser o matrimónio cristão como caminho de amor e de santidade. Quem vive a afectividade e a sexualidade em amor oblativo, para o que precisam da força do Espírito ressuscitado, pode compreender o celibato como caminho de vivência da afectividade e da sexualidade. Os outros só o podem rejeitar, porque nem desconfiam da sua beleza e sentido. Como estes são muitos, porventura a maior parte, o celibatário por amor do Reino dos Céus tem de aceitar não ser compreendido, ser fiel ao dom que lhe motivou uma escolha livre, sabendo que a sua vida tem o sentido profético de anúncio da novidade cristã.

Na «Familiaris Consortio», João Paulo II afirmou: «A revelação cristã conhece dois modos específicos de realizar a vocação da pessoa humana na sua totalidade do amor: o matrimónio e a virgindade. Quer um, quer outro, na sua respectiva forma própria, são uma concretização da verdade mais profunda do homem, do seu ser à imagem de Deus» (n. 11).

 

14. O celibato é uma escolha livre, uma via cristã, não pode ser imposto nem considerado como condição exigente que se aceita para se poder ser padre. A posição da Igreja é outra: não proíbe o casamento, mas escolhe os seus sacerdotes entre aqueles que optaram pela virgindade no seu caminho de amor. Que a afectividade e a sexualidade não são uma fatalidade, imposta pelas leis da natureza e da sociedade, mas são o campo de uma escolha livre, é o próprio Jesus quem o proclama, antes de mais sendo Ele próprio celibatário e proclamando que há aqueles que escolhem a via da continência por amor do Reino dos Céus (cf. Mt 19, 12). Ao proclamar a possibilidade desta escolha livre, o Senhor restitui ao casamento a sua dignidade de escolha livre. Sobretudo a mulher, que tinha a sua dignidade restringida à procriação, sente-se liberta e reconhecida na sua dignidade como pessoa. Não é por acaso que, na Igreja nascente, são as mulheres que escolhem a virgindade como caminho para seguir a Cristo, que suscitam o ideal da virgindade como caminho cristão de amor.

 

15. Na mentalidade contemporânea, não é tanto o celibato que choca, mas a continência no celibato. É esta que se torna caminho de convivência cristã, de amor generoso e total, tão próprio de um coração de pastor. Hoje há muita gente que não se casa por outros motivos, entre os quais uma maior liberdade social. No celibato por amor do Reino dos Céus, o testemunho é o da continência, pois só essa é expressão de um amor novo. O celibato sem continência é uma mentira. O mesmo se pode dizer do matrimónio cristão no que à «castidade conjugal» diz respeito. Para quem segue Cristo ressuscitado, descobre-se uma convergência e sintonia entre a vivência da afectividade e da sexualidade no matrimónio e na virgindade, escolhida e praticada.

 

16. Há uma fecundidade na virgindade por amor do Reino dos Céus. O celibato não é uma renúncia ao amor; é a escolha de um amor novo e este converge com o amor do Bom Pastor. A própria complementaridade homem-mulher encontra expressão de profundidade e de intimidade mística, onde o melhor de cada um exprime a comunhão dos santos. São Bento e Santa Escolástica, São Francisco e Santa Clara não são os únicos exemplos.

 

17. O celibato vivido é uma expressão profunda e libertadora do amor total ao rebanho que nos foi confiado, e é um dos aspectos em que o ministério sacerdotal é caminho de plenitude humana. A vivência deste dom pode ser o fruto de convergência e reencontro de todos os que, sinceramente, buscam um novo rosto de Igreja, quer os que, movidos pelo entusiasmo conciliar, tenham partido ao encontro do mundo, quer desiludidos com o mundo, tenham partido à procura da Igreja.

Procuremos todos descobrir a profundidade da Igreja, em Jesus Cristo, e procuremos compreender o nosso mundo, assinalando nele aberturas à mensagem de Jesus. Não queiramos ser como o mundo gostaria que fossemos; procuremos a nossa identidade no seguimento de Jesus e na liberdade dos filhos de Deus.

 

(Nota: Sobre este tema aconselhamos: Walter Kasper, Servitori della Gioia – Esistenza sacerdotale – Servizio sacerdotale, Queriniana, Brescia 2007, pp. 71-86; H. Simon, Libres d’être prêtres, ed. L’Atelier/Ed. Ouvrières, Paris 2001, pp. 65-83)

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

 

 


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