Solenidade de Todos os Santos

1 de Novembro de 2009

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor deu aos Santos a glória eterna, M. Carvalho, NRMS 59

 

Antífona de entrada: Exultemos de alegria no Senhor, celebrando este dia de festa em honra de Todos os Santos. Nesta solenidade alegram-se os Anjos e cantam louvores ao Filho de Deus.

 

Diz-se o Glória

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Hoje recordamos todos os Santos. A eles aplicam-se estas palavras da Segunda Leitura desta Eucaristia: «1 São João 3, 2»: «Caríssimos, agora somos filhos de Deus e já se manifestou que somos semelhantes a Deus, porque O vemos tal como Ele é». Como é maravilhoso atingir esta meta!

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que nos concedeis a graça de honrar numa única solenidade os méritos de Todos os Santos, dignai-Vos derramar sobre nós, em atenção a tão numerosos intercessores, a desejada abundância da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: No versículo 12 do Apocalipse lemos: «Ámen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amén.» Aqui, como ao longo de todo o Apocalipse, sente-se como a liturgia da Igreja faz eco à liturgia celeste, especialmente nas aclamações a Deus e ao Cordeiro.

 

Apocalipse 7, 2-4.9-14

2Eu, João, vi um Anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em alta voz aos quatro Anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: 3«Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus». 4E ouvi o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. 9Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. 10E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro». 11Todos os Anjos formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo: 12«Amen! A bênção e a glória, a sabedoria e a acção de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amen!». 13Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: «Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?». 14Eu respondi-lhe: «Meu Senhor, vós é que o sabeis». Ele disse-me: «São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro».

 

Numa grandiosa visão, o vidente de Patmos deixa ver que no meio de tantas desgraças e ainda antes que cheguem as piores, as que correspondem à abertura do 7º selo (cap.8), os cristãos, que formam uma imensa multidão, estão sob a protecção de Deus, mesmo quando perseguidos e sujeitos ao martírio.

2-4 «O selo (o sinete de marcar) do Deus vivo». Alusão ao timbre então usado pelos monarcas para imprimir o sinal de propriedade ou autenticidade: por vezes os escravos e soldados eram marcados na pele com um ferro em brasa. O símbolo está tomado destes costumes da época e sobretudo da profecia de Ezequiel (Ez 9, 4-6), por isso alguns Padres viram nesta marca, em forma de cruz (pela alusão ao tav de Ezequiel, a última consoante hebraica), o carácter baptismal. «Cento e quarenta e quatro mil» é um número simbólico; com efeito, os números do Apocalipse são habitualmente simbólicos, o que neste caso é evidente por se tratar de um jogo de números: 12 x 12000 (doze mil por cada uma das doze tribos de Israel). Estes 144.000, segundo uns, «representam toda a Igreja sem restrição» (Santo Agostinho), pois esta é o novo Israel de Deus (cf. Gal 6, 16) e são a mesma «multidão imensa que ninguém podia contar» (v. 9). Segundo outros, estes 144.000 são os cristãos procedentes do judaísmo, muito particularmente os que foram poupados das calamidades que assolaram a Palestina, por ocasião da destruição da nação judaica no ano 70.

11 «Os (24) Anciãos». Há grande variedade de opiniões para decifrar este símbolo, não se podendo sequer estabelecer se se trata de seres angélicos ou humanos. Santo Agostinho diz que «são a Igreja universal; os 24 anciãos são os superiores jerárquicos e o povo: 12 representam os Apóstolos e os bispos, e os outros 12 representam o restante da Igreja». «Os 4 Viventes» (à letra, «animais»), uma tradução preferível a: «os 4 animais», uma vez que o terceiro tem rosto humano (cf. Apoc 4, 7). A quem representam estes seres misteriosos, que reúnem características dos querubins de Ez 1 e dos serafins se Is 6? Podem muito bem simbolizar os quatro pontos cardeais, ou os quatro elementos do mundo (terra, fogo, água e ar), isto é, a totalidade do Universo. Deste modo, a presente «visão» apresenta-nos, unidos numa única adoração e louvor a Deus e a Cristo, os Anjos, a Humanidade resgatada e o próprio Universo material. A interpretação segundo a qual os Quatro Seres simbolizam os Quatro Evangelistas deve-se a Santo Ireneu e é uma acomodação espiritual do texto inspirado.

12 «Amen! Bênção, glória…»: Aqui, como ao longo de todo o Apocalipse, sente-se como a liturgia da Igreja faz eco à liturgia celeste, especialmente nas aclamações a Deus e ao Cordeiro.

14 «A grande tribulação». Tanto se pode tratar duma perseguição aos cristãos mais violenta no fim dos tempos, como das perseguições e das tribulações em geral no curso da história da Igreja. Mas é provável que o vidente de Patmos tenha presente em primeiro plano, as violentas perseguições de Nero e Domiciano, muito embora englobando nestas todas as outras.

«Lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro». «Não se designam só os mártires, mas todo o povo da Igreja – comenta Santo Agostinho –, pois não disse que lavaram as suas túnicas no seu próprio sangue, mas no sangue do Cordeiro, isto é, na graça de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor, conforme está escrito: e o seu sangue purifica-nos (1 Jo 1, 7)».

 

 

Salmo Responsorial      Sl 23 (24), 1-2.3-4ab.5-6 (R. cf. 6)

 

Monição: Seremos a geração dos que procuram o Senhor.

 

Refrão:         Esta é a geração dos que procuram o Senhor.

 

Do Senhor é a terra e o que nela existe,

o mundo e quantos nele habitam.

Ele a fundou sobre os mares

e a consolidou sobre as águas.

 

Quem poderá subir à montanha do Senhor?

Quem habitará no seu santuário?

O que tem as mãos inocentes e o coração puro,

o que não invocou o seu nome em vão.

 

Este será abençoado pelo Senhor

e recompensado por Deus, seu Salvador.

Esta é a geração dos que O procuram,

que procuram a face de Deus.

 

Segunda Leitura

 

Monição: O amor de Deus faz-nos Seus filhos e herdeiros do Céu.

 

1 São João 3, 1-3

Caríssimos: 1Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto. Se o mundo não nos conhece, é porque não O conheceu a Ele. 2Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. 3Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como Ele é puro.

 

A leitura é um dos textos clássicos da filiação adoptiva divina, uma exigência constante de santidade.

1 «E somo-lo de facto». S. João não se contenta com dizer que somos chamados filhos de Deus, o que bastaria para que um semita entendesse, pois para ele ser chamado (por Deus) equivalia a ser. S. João quer falar para que todos entendamos esta realidade sobrenatural que «o mundo», sem fé, não pode captar nem apreciar.

2 A filiação divina capacita-nos para a glória do Céu, pois não é uma mera adopção legal e extrínseca, como a adopção humana de um filho. A adopção divina implica uma participação da natureza divina (cf. 2 Pe 1, 4) pela graça. «Semelhantes a Deus», desde já; mas só na glória celeste se tornará patente o que já «agora somos». «O veremos tal como Ele é». Esta é a melhor definição da infinda felicidade do Céu, de que gozam todos os Santos que hoje festejamos: contemplar a Deus tal qual Ele é, não apenas as suas obras, mas a Ele próprio, «face a face» (cf. 1 Cor 13, 12).

3 «Purifica-se a si mesmo». A certeza da filiação divina conduz-nos à purificação e à imitação de Cristo, o Filho de Deus por natureza: «como Ele é puro»; efectivamente, os puros de coração hão-de ver a Deus (cf. Evangelho de hoje: Mt 5, 8).

 

Aclamação ao Evangelho        

 

Monição: As Bem-Aventuranças são o mais surpreendente código de felicidade. Não se trata de uma felicidade interior e profunda, embora ainda não possuída, de modo perfeito, e completo, na vida presente.

 

Aleluia

 

Cântico: J. Duque, NRMS 21

 

Vinde a Mim, vós todos os que andais cansados

e oprimidos e Eu vos aliviarei, diz o Senhor.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 5, 1-12a

Naquele tempo, 1ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos 2e Ele começou a ensiná-los, dizendo: 3«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. 4Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. 5Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. 11Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. 12aAlegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

 

As oito bem-aventuranças, a que se junta uma nona (v. 11) a reforçar a oitava, constituem como o frontispício do Sermão da Montanha (Mt 5 – 7), «a expressão mais perfeita da mensagem evangélica, um dos mais altos cumes do pensamento humano, talvez o mais elevado» (G. Danieli); com razão disse Gandhi: «foi o discurso da montanha que me reconciliou com o cristianismo». As bem-aventuranças, expressas na terceira pessoa do plural, têm em Mateus um carácter solene e universal, dirigidas a todas as pessoas e a todos os tempos, não apenas aos ouvintes imediatos. Elas condensam a grande novidade do Evangelho, em contraste flagrante com o próprio pensamento religioso judaico então vigente, para já não falarmos do espírito mundano e hedonista do paganismo de então e do de agora. Elas não são a expressão de qualquer espécie de «ressentimento» dos pobres e desafortunados em face dos poderosos, dos ricos e satisfeitos, mas são antes um grito de protesto e de provocação lançado ao conceito de felicidade baseada na posse das riquezas, no gozo dos prazeres, na força, no poder e na fama. De modo nenhum elas são uma «ética para uso dos débeis», mas são um ideal de vida para almas fortes e generosas, uma ética que, quando vivida a sério, é capaz de renovar as pessoas e a sociedade; como o demonstra a vida dos santos. Chamamos a atenção para a motivação da felicidade em cada uma das bem-aventuranças: «porque…»: a felicidade não está na pobreza, na aflição, na perseguição, mas no seguimento de Jesus, pobre, aflito, manso, faminto e sedento, misericordioso, puro, pacificador, perseguido, o que dá direito ao gozo das promessas de Cristo. Assim se exprime Bento XVI em Jesus de Nazaré: «As bem-aventuranças são a transposição da Cruz e da Ressurreição para a existência dos discípulos» (p. 110); e ainda: «Quem lê o texto com atenção nota que as bem-aventuranças são como que uma biografia interior oculta de Jesus, um retrato da sua figura […]. Nas bem-aventuranças aparece o mistério do próprio Cristo, chamando-nos à comunhão com Ele» (p. 111).

3 «Bem-aventurados». Esta tradução (em vez de «felizes») vinca a ideia de que o Senhor promete a felicidade na bem-aventurança eterna e, ao mesmo tempo, já nesta vida, ao dizê-la do presente: «deles é» (não diz «deles será»). Mas não se trata de uma felicidade qualquer: é uma felicidade incomparável, interior e profunda, embora ainda não possuída de modo perfeito e completo na vida terrena. As bem-aventuranças têm uma dimensão escatológica e actual: correspondem a um futuro já iniciado.

«Os pobres em espírito». Como bom catequista, Mateus não deixa de especificar «em espírito», para que fique bem claro que não é o caso de uma mera situação económico-social, mas de uma atitude interior de humildade diante de Deus, de reconhecimento da própria carência de méritos e da absoluta necessidade da misericórdia de Deus para ser salvo. O desprendimento dos bens e a austeridade de vida são uma consequência desta atitude de espírito própria de quem se apoia não nos bens criados, mas só em Deus. Ao dizer «em espírito» (tô pneûmati, um dativo de relação), e não, como no v. 8, «de coração» (tê kardía: no seu íntimo, diante de Deus, em contraposição com o exterior), a expressão conota um sentido dinâmico, de acção, e portanto uma pobreza que corresponde a uma opção, isto é, uma «pobreza voluntária». É de notar que a formulação de Mateus é uma expressão religiosa coincidente com a dos textos de Qumrã (cf. 1QM, 14, 7: ‘anawê rûah).

4-5 A ordem destes versículos não é transmitida da mesma maneira em todos os manuscritos, por isso a fórmula que aparecia antes nos catecismos tem outra ordem que corresponde a uns poucos de manuscritos gregos e à Vulgata, diferente da que temos aqui; pensa-se que a ordem original teria sido alterada, a fim de facilitar a memorização e a compreensão, juntando frases semelhantes, dado o paralelismo entre os pobres e os humildes (os mansos) e entre os que choram (os aflitos) e os que têm fome e sede.

«Os que choram», isto é, os aflitos. A consolação dos que estão aflitos é um dos bens messiânicos (Is 61, 1-3; cf. Lc 4, 1ss) que Jesus garante aos seus discípulos (cf. Jo 16, 20-22). A consolação é uma forma emotivamente concreta de designar a salvação esperada e trazida por Cristo (cf. Lc 2, 25; Act 3, 20; 2 Tes 2, 16-17). O verbo na passiva «serão consolados» é uma forma reverente de se referir a Deus como agente, sem ter de o nomear (passivum divinum), equivalente a «Deus os consolará».

«Os mansos», tradução que consideramos preferível à adoptada e proposta por um bom número de exegetas. Com efeito, se bem que a tradução «os humildes» corresponda ao hebraico (‘anawîm: pobres) da passagem paralela do Salmo 37, 10-11 (mas traduzido pelos LXX por praeîs: mansos, e assim também pela Vulgata e Neovulgata: mansueti), a verdade é que a mansidão é uma noção que tem grande relevo em Mateus, pois o próprio Jesus se apresenta como «manso e humilde» (Mt 11, 29), na linha das profecias de Is 42, 1-4 (citada em Mt 12, 18-21) e de Zac 9, 9 (citada em Mt 21, 5). Por isso não nos parece que em Mateus a 1ª e a 3ª bem-aventuranças sejam simplesmente equivalentes; «mansos» são os humildes, mas com um matiz particular: são os que vencem o mal com o bem, não com a violência, mas com o perdão e com a bondade, como se insiste no mesmo sermão da montanha (Mt 5, 21-26.38-42.43-48; 6, 12.14-15). Estes são, não apenas os que são afáveis, ou simplesmente os não violentos, mas especificamente os que sofrem serenamente e sem ira, ódio ou abatimento, as perseguições injustas e as contrariedades. «Possuirão a terra» (prometida como herança), isto é, «a pátria celeste», figurada na terra prometida ao povo eleito (cf. Hebr 4, 2, 11; 11, 10.16; 12, 22; 13, 14).

6 «Fome e sede de justiça», isto é, uma fome mais espiritual do que material, pela especificação: de justiça. Estamos assim diante duma noção de natureza religiosa, central no discurso da montanha (cf. 5, 10.20; 6, 1.31.33): a submissão à vontade de Deus e aos seus desígnios de amor, uma vida justa, inocente, santa e perfeita (cf. 5, 48).

7 «Os misericordiosos»: o tema da misericórdia é central no Evangelho, pois dela o homem é extremamente necessitado e também está muito presente em Mateus; com efeito, Jesus é cheio de misericórdia (cf. 9, 36; 9, 9-13; 12, 1-7) para com os necessitados que a Ele clamam (cf. 9, 27; 15, 22; 17, 15; 20, 30.34); e esta tem de ser a atitude do discípulo para obter a misericórdia divina (cf. 6, 14-15; 18, 23-35); e é pelas obras de misericórdia que todos hão-de ser julgados sem apelo (cf. 25, 31-46).

8 «Os puros de coração», dado o contexto dos ensinamentos de Jesus, não se trata de uma simples pureza ritual que satisfaz uma série de requisitos externos para se estar em condições de realizar actos de culto (recordem-se as prescrições de Lv 11 – 16 relativos a alimentos, nascimento, actividade sexual, doença e morte), mas de uma pureza moral, que não fica hipocritamente em exterioridades farisaicas (cf. Mt 23, 25-26), mas vai, na linha da pregação dos profetas (cf. Is 1, 15-16; 29, 13; Salm 24, 3-4; 51, 12; Prov 22, 11), até ao mais profundo do interior da pessoa, onde nascem os desejos e as intenções (cf. Mt 15, 1-20; 5, 28; 12, 34). A pureza do coração é fundamentalmente a rectidão total dos pensamentos, das palavras e das acções, não apenas as boas intenções, segundo o Salmo 24, 3-4, que parece estar na base desta bem-aventurança (cf. Tg 4, 8; 1 Tim 1, 5; 2 Tim 2, 22; Hebr 10, 22). Não se limita à castidade, mas pressupõe-na e exige-a de modo particular, para se entrar em comunhão com Deus – para «ver a Deus» (cf. Hebr 12, 14; Apoc 22, 3-4; 1 Jo 3, 3; Catecismo da Igreja Católica, nº 2517-2533).

9 «Os que promovem a paz». Alguns exegetas preferem a tradução pacíficos, indicando o espírito conciliador, sereno, tolerante, indulgente e paciente (cf. Tg 3, 3-18), mas a maioria pensa que se trata não só dos pacíficos, mas daqueles que se empenham em activamente promover a paz entre os homens (e também – podíamos acrescentar – a paz dos homens com Deus, fundamento sério de toda a paz no mundo); estes «serão chamados…», uma expressão semítica que corresponde a «serão de verdade filhos de Deus» (cf. Mt 5, 45).

10 «Os que sofrem perseguição por amor da justiça» (cf. 1 Pe 3, 14), isto é, ao fim e ao cabo, por causa de Jesus (cf. Mt 10, 24-28), por viver piamente (cf. 2 Tim 3, 12). Esta «justiça», como na 4ª bem-aventurança, não é a justiça dos homens, mas corresponde à plena adesão à vontade de Deus, numa vida recta e santa.

11-12 Depois das 8 bem-aventuranças anteriores, que formam um bloco (uma inclusão marcada pela fórmula «porque deles é o reino dos Céus»: vv. 3.10), há aqui uma ampliação e uma aplicação directa aos ouvintes da 8ª e última bem-aventurança.

Finalmente quero chamar a atenção para a observação de Bento XVI na sua já citada obra, ao introduzir o tema das bem-aventuranças: «As bem-aventuranças não raramente são apresentadas como a alternativa do Novo Testamento a respeito do Decálogo, por assim dizer a mais elevada ética dos cristãos ante os mandamentos do Antigo Testamento. Com tal concepção distorce-se totalmente o sentido das palavras de Jesus. Jesus sempre pressupôs como evidente a validade do Decálogo (ver, por exemplo, Mc 10, 19; Lc 16, 17); no Sermão da Montanha são assumidos e aprofundados os mandamentos da segunda tábua, mas não são abolidos (Mt 5, 21-48)…» (p-109).

 

Sugestões para a homilia

 

1. Na homilia do Papa Bento XVI, 1 de Novembro de 2005, lê-se: «Celebramos hoje a Solenidade de Todos os Santos, que nos faz saborear a alegria de participar na grande família dos amigos de Deus ou, como escreve São Paulo, de «tomar parte na herança dos santos na luz» (Cl 1, 12).

O Santo Padre quer ver-nos alegres neste dia, de um modo particular, porque participaremos na grande família dos amigos de Deus.

Mas será que nós usamos todos os meios para ser admitidos na grande família dos amigos de Deus?

Iremos saborear a alegria de viver na herança dos santos na luz?

Será fácil convencer-nos de que, para além da terra em que vivemos, existe o Céu?

Se não existe o Céu, não vale a pena viver nesta terra com tantos problemas.

 

2. Em que nos apoiamos para ter a esperança de entrar no Céu?

Vejamos o que nos diz a Segunda Leitura desta Eucaristia, «1 São João 3, 1-3».

«Caríssimos: Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto (São João 3, 1)».

A filiação divina capacita-nos para a glória do Céu, pois não é uma adopção legal e extrínseca, como a adopção humana de um filho. A adopção divina implica uma participação na natureza divina (2 Pe 1, 4), pela graça.

Continuamos a citar a (1.ª Epístola de São João): «Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, na altura em que se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é. (São João 1, 2)».

Perante o supra citado, vemos que esta é a melhor definição da infinita felicidade do Céu, de que gozam todos os Santos que hoje festejamos: Contemplar a Deus tal que é, não apenas as sua obras, mas a Ele próprio, face a face (1 Cor 13, 12).

 

Reparemos, agora, na última chamada de atenção do Apóstolo São João na sua 1 Epístola 1, 3: «Todo aquele que tem n'Ele: (em Deus) esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro como Ele (Deus) é puro».

 

Daqui se conclui que é possível entrar no Céu, para ver a Deus face a face, mas devemos estar bem purificados de nossos pecados no Sacramento da Penitência, ou Confissão.

 

3. Para entrar no Céu, para ver a Deus face a face, os cristãos têm, além do que ficou dito, muitas outras ajudas. Vamos enumerar algumas: A protecção de Nossa Senhora, dos Anjos e dos Santos. A Igreja, à qual pertencemos, e que coloca à nossa disposição os Sacramentos, a Bíblia Sagrada, a oração, a ajuda mútua, etc. Por outro lado temos a nossa consciência, que deve ser bem formada.

Não esqueceremos os Mandamentos da Lei de Deus, como normas orientadoras, para chegar e manter a santidade e também as Bem-Aventuranças de que nos fala o Evangelho desta Eucaristia.

Sobre as Bem-Aventuranças, vamos apresentar notas exegéticas da autoria de Geraldo Morujão, distinto colaborador da Celebração Litúrgica. Só apresentamos os comentários de algumas Bem-Aventuranças.

- Bem-Aventurados os pobres em espírito.

No Antigo Testamento, o pobre está delineado não só como uma situação económica social, mas como um valor religioso muito elaborado: é pobre quem se apresenta diante de Deus com uma atitude humilde, sem méritos pessoais, considerando a sua realidade de homem pecador, necessitado do perdão divino, da misericórdia de Deus para ser salvo. De qualquer modo a pobreza cristã exige o desprendimento dos bens materiais e uma austeridade no uso deles.

- Bem-Aventurados os humildes

A tradição preferiu um termo mais suave do que os «mansos», que são os que sofrem serenamente, sem ira, ódio ou abatimento, as perseguições injustas e as contrariedades. Só os humildes são capazes da virtude da mansidão, pois dão pouca importância a si mesmos.

- Bem-Aventurados os que choram.

Os que choram, ou os aflitos e muito particularmente os que têm o coração cheio de mágoa por terem ofendido a Deus e que, com vontade de reparação choram e deploram os seus pecados.

- Bem-Aventurados os que têm fome e sede de justiça.

A ideia de justiça na Sagrada Escritura é uma ideia de natureza religiosa: justo é aquele que cumpre a vontade de Deus, a justiça corresponde a santidade, vocação a que todos são chamados.

- Bem-Aventurados os puros de coração.

Estes são, em geral, os que têm uma intenção recta, os que são capazes de um amor puro, limpo e nobre, os que têm um olhar limpo e são, está, portanto, englobada a castidade, mas não só ela.

- Bem-Aventurados os que promovem a paz.

São os que promovem a paz entre os homens e dos homens com Deus, fundamento sério de toda a paz do mundo.

Se já cumprimos tudo o que referimos, ou tentamos cumprir com generosidade, não estamos fora do caminho que nos levará ao Céu.

 

Fala o Santo Padre

 

Queridos irmãos e irmãs!

Celebramos hoje com grande alegria a festa de Todos os Santos. Visitando um viveiro botânico, permanece-se admirado diante da variedade de plantas e flores, e é espontâneo pensar na fantasia do Criador que tornou a terra um maravilhoso jardim. Análogo sentimento nos surpreende quando consideramos o espectáculo da santidade: o mundo parece-nos um «jardim», onde o Espírito de Deus suscitou com admirável fantasia uma multidão de santos e santas, de todas as idades e condições sociais, de todas as línguas, povos e culturas. Cada um é diferente do outro, com a singularidade da própria personalidade humana e do seu carisma espiritual. Mas todos têm impressa a «marca» de Jesus (cf. Ap 7, 3), ou seja, o distintivo do seu amor, testemunhado através da Cruz. Estão todos na alegria, numa festa sem fim, mas, como Jesus, conquistaram esta meta passando através da fadiga e da prova (cf. Ap 7, 14), enfrentando cada qual a própria parte de sacrifício para participar na glória da ressurreição.

A solenidade de Todos os Santos foi-se afirmando ao longo do primeiro milénio cristão como celebração colectiva dos mártires. Já em 609, em Roma, o Papa Bonifácio IV tinha consagrado o Panteão dedicando-o à Virgem Maria e a todos os Mártires. Aliás, podemos ver este martírio em sentido lato, ou seja, como amor a Cristo sem hesitações, amor que se expressa na doação total de si a Deus e aos irmãos. Esta meta espiritual, para a qual todos os baptizados se sentem propensos, alcança-se seguindo o caminho das «bem-aventuranças» evangélicas, que a liturgia nos indica na solenidade de hoje (cf. Mt 5, 1-12a). É o mesmo caminho traçado por Jesus e que os santos se esforçaram por percorrer, conscientes dos seus limites humanos. Na sua existência terrena, de facto, foram pobres em espírito, sofredores pelos pecados, mansos, famintos e sedentos de justiça, misericordiosos, puros de coração, artífices de paz, perseguidos por causa da justiça. E Deus participou-lhes a sua mesma felicidade: pregustaram-na neste mundo e, no além, gozam dela em plenitude. São agora confortados, herdeiros da terra, saciados, perdoados, vêem Deus do qual são filhos. Numa palavra: «é deles o Reino dos céus» (cf. Mt 5, 3.10).

Neste dia sentimos reavivar em nós a atracção para o Céu, que nos estimula a apressar o passo da nossa peregrinação terrena. Sentimos acender nos nossos corações o desejo de nos unirmos para sempre à família dos santos, da qual já agora temos a graça de fazer parte. Como diz um célebre canto espiritual: «Quando vier a multidão dos teus santos, como gostaria, Senhor, de estar entre eles!». Possa esta bonita aspiração arder em todos os cristãos, e ajudá-los a superar todas as dificuldades, qualquer receio, todas as tribulações! Queridos amigos, ponhamos a nossa mão na mão materna de Maria, Rainha de todos os Santos, e deixemo-nos conduzir por ela rumo à pátria celeste, na companhia dos espíritos bem-aventurados «de todas as nações, povos e línguas» (Ap 7, 9). E unamos já na oração a lembrança dos nossos queridos defuntos que amanhã comemoraremos.

 

Bento XVI, Angelus, 1 de Novembro de 2008

 

Oração Universal

 

Irmãs e Irmãos:

Caminhando para o Céu, recordando hoje todos os Santos,

apresentemos a Deus Pai os problemas de toda a Humanidade, dizendo:

Levai-nos, Senhor, para o Céu

 

1.  Senhor, que destes à santas Virgens um grande amor à santidade,

fazei que os nossos jovens sejam castos e alegres,

oremos.

 

2.  Pelo exemplo dos Mártires, que derramaram o sangue por amor de Cristo,

sejamos todos fiéis aos compromissos batismais,

oremos.

 

3.  Para que a santidade seja considerada como meta

que todos podem e devem alcançar,

oremos.

 

4.  A santidade consiste em amar a Deus sobre todas as coisas

e amar o próximo como Cristo nos amou.

Para realizar este programa de vida, oremos.

 

5.  Por todos os cristãos, «Igreja de Cristo», santificada pelo Seu sangue,

sobretudo nos sacramentos da Confissão e Eucaristia,

seja recebida no Céu coroada de glória,

oremos.

 

6.  Por todos nós que celebramos esta Eucaristia, e apelos faltosos,

para que retomem a sua participação neste mais extraordinário encontro em Cristo,

oremos.

 

Deus todo poderoso, com a protecção de todos os Anjos e Santos

e as bênçãos da Santíssima Virgem, derramai sobre nós todas as graças de que precisamos.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo…

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Aceitai, Senhor, a nossa alegria, M. Carneiro, NRMS 73-74

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, os dons que Vos apresentamos em honra de Todos os Santos e fazei-nos sentir a intercessão daqueles que já alcançaram a imortalidade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que e Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

A glória da nova Jerusalém, nossa mãe

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai Santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte:

Hoje nos dais a alegria de celebrar a cidade santa, a nossa mãe, a Jerusalém celeste onde a assembleia dos Santos, nossos irmãos, glorificam eternamente o vosso nome. Peregrinos dessa cidade santa, para ela caminhamos na fé e na alegria, ao vermos glorificados os ilustres filhos da Igreja, que nos destes como exemplo e auxílio para a nossa fragilidade.

Por isso, com todos os Anjos e Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Para vivermos santamente, precisamos da Confissão frequente e da Eucaristia. A Eucaristia pelo menos aos domingos e dias santos de guarda.

 

Cântico da Comunhão: Louvai nações do universo, M. Simões, 63

Mt 5, 8-10

Antífona da comunhão: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

 

Cântico de acção de graças: Povos da terra, louvai ao Senhor, M. Simões, NRMS 55

 

Oração depois da comunhão: Nós Vos adoramos, Senhor nosso Deus, única fonte de santidade, admirável em todos os Santos, e confiadamente Vos pedimos a graça de chegarmos também nós à plenitude do vosso amor e passarmos desta mesa de peregrinos ao banquete da pátria celeste. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Todos podemos ser santos. Todos devemos ser santos. Temos no Céu um lugar reservado. Não o deixes ficar vazio.

 

Cântico final: Queremos ser construtores, Az. Oliveira, NRMS 35

 

 

 

Celebração e Homilia:          Adriano Teixeira

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                 Duarte Nuno Rocha

 

 


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