TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

 

O EVANGELHO DO SOFRIMENTO

NO MAGISTÉRIO E NA VIDA DO PAPA JOÃO PAULO II

 

 

Cardeal José Saraiva Martins

Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos

 

 

 

Nos dias 13-14 de Dezembro de 2003, no Centro de Espiritualidade «Padre Pio», de San Giovanni Rotondo (Itália), teve lugar uma Assembleia sobre o Magistério de João Paulo II, no XXV aniversário do seu Pontificado.

Esta iniciativa foi promovida pelo Instituto Secular «Servos do Sofrimento», nascido sob a inspiração do Padre Pio com a finalidade de evangelizar o mundo dos doentes e erigido canonicamente em 1993.

Oferecemos a seguir a intervenção central, a cargo do Cardeal José Saraiva Martins, tomada da página da Internet da Congregação para as Causas dos Santos.

 

 

Desde a infância, o Santo Padre conheceu o sofrimento, encontrando-o talvez pela primeira vez de maneira intensa com a morte prematura da sua mãe. A segunda guerra mundial e a pobreza, além das árduas vicissitudes do comunismo então imperante na Polónia formaram o jovem Karol na dura «escola do sacrifício e da dor» [1]. Ele mesmo, por ocasião do quinquagésimo aniversário de Ordenação sacerdotal, pôde escrever: «A fim de evitar a deportação para os trabalhos forçados na Alemanha, no Outono de 1940 comecei a trabalhar como operário numa pedreira ligada à fábrica química Solvay ... Eu estava presente quando, durante a explosão de uma carga de dinamite, as pedras atingiram um operário e o mataram. Fiquei profundamente perturbado com isto: 'Levantaram o corpo. Passaram em silêncio. Dele emanava cansaço e um sentido de injustiça'...» [2].

Contudo, o sofrimento nos anos juvenis do Santo Padre consolidou-se inclusivamente na sua força salvífica de realidade geradora de vida. Precisamente a propósito da sua opção vocacional, ele expressou-se com os seguintes termos: «... o meu sacerdócio, desde a hora do seu nascimento, inscreveu-se no grande sacrifício de muitos homens e mulheres da minha própria geração. A Providência poupou-me as experiências mais difíceis; por isso, é muito maior o sentido da minha dívida às pessoas que conheci, do mesmo modo que às muito mais numerosas que não conheci, sem distinção de nação e de língua que, com o seu sacrifício sobre o grandioso altar da história, contribuíram para a realização da minha vocação sacerdotal. De certa forma, elas introduziram-me neste caminho, indicando-me na dimensão do sacrifício a verdade mais profunda e essencial do sacerdócio de Jesus Cristo» [3].

Em linha de continuidade, o seu Pontificado recebeu depressa uma característica muito particular. Por volta das 17 horas do dia 13 de Maio de 1981, ao atravessar a Praça de São Pedro para saudar os fiéis ali reunidos, do revólver do terrorista turco Ali Agca, foi disparado um tiro que o feriu gravemente. Enquanto de toda a Igreja se elevavam preces ao Senhor para obter a salvação da vida do Vigário de Cristo, na Polónia outro pastor, o Servo de Deus Cardeal Wyszynski, jazia enfermo, quase no fim da sua vida. Ele tinha predito ao novo Sumo Pontífice que faria a Igreja entrar no novo Milénio; precisamente no momento em que o Bispo de Roma se encontrava internado num leito hospitalar, o Purpurado polaco morria no dia 28 de Maio de 1981.

Estes episódios marcaram profundamente o Pontificado de João Paulo II, a tal ponto que, tendo-se restabelecido em boas condições de saúde, depressa lançou mãos à obra e projectou uma Carta Apostólica dedicada exactamente ao sentido cristão do sofrimento humano. Foi assim que apareceu a Carta Apostólica Salvifici doloris, assinada pelo Sumo Pontífice no dia 11 de Fevereiro de 1984. Trata-se de um documento programático, esclarecedor, elaborado num período em que o consumismo e as doutrinas ateias corriam o risco de influenciar profundamente a vida dos fiéis e até mesmo o ensinamento daqueles que eram encarregados da formação do povo de Deus...

 

I. O sofrimento no ensinamento do Santo Padre: Salvifici doloris

 

Na introdução da Carta Apostólica Salvifici doloris, o Santo Padre recordava a todos as palavras surpreendentes de São Paulo aos Colossenses: «Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja» [4].

Os sofrimentos de valor infinito de Cristo Homem-Deus não têm necessidade de outras dores para salvar, constituindo a única causa de salvação para todos. O poder ilimitado dos seus sofrimentos confere aquilo que falta aos sofrimentos de cada homem que sofre. Todavia, há que efectuar a fruição dos dons produzidos pela cruz de Jesus Cristo. Jesus, por assim dizer, preparou uma mesa, onde não falta qualquer bem, senão alguém que ocupe o lugar à mesa e se nutra com o alimento preparado também para ele. O convidado, revestido dos sofrimentos que o próprio Deus oferece a cada um como hábito, completa a mesa.

Cristo salva por intermédio da morte do seu Corpo de carne; o homem é salvo e ajuda a salvar com os sofrimentos de Jesus Cristo, que oferece a cada um o privilégio de sofrer como Ele e juntamente com Ele, em ordem a continuar a salvar nele, também mediante o sofrimento da sua própria carne. Os sofrimentos do cristão, vividos conjuntamente com os padecimentos de Jesus, permitem conceder os benefícios de Cristo ao seu Corpo místico. Por conseguinte, a Igreja não apenas é Corpo de Cristo que é salvo através dos sofrimentos do Homem-Deus, mas é também o seu Corpo Místico que continua a salvar o mundo mediante os padecimentos de cada um dos seus membros. Assim, eles completam por vocação recebida do Senhor, os mesmos sofrimentos de Jesus Cristo.

Como já tive a oportunidade de escrever no volume «A Igreja no alvorecer do Terceiro Milénio», «acrescentando o adjectivo místico ao Corpo de Cristo, deseja-se ressaltar, sem pôr em dúvida a sua visibilidade, a dimensão espiritual e visível da Igreja. Indica-se que, sob forma de uma comunidade humana, se esconde uma realidade divina, que não pode ser compreendida pela experiência sensível, mas unicamente pela fé. Afirma-se que, além de ter, como qualquer outra forma de associação humana, uma finalidade e interesses comuns a todos os membros, a Igreja é, de resto, animada pela Graça divina que, por vontade do próprio Deus, se revestiu de elementos sensíveis no seio de uma comunidade de fiéis, tornando-se por meio deles acessível à experiência dos homens» [5]. É neste sentido que a redenção de Jesus – levada a cabo de maneira completa «em virtude do [seu] amor satisfatório» [6] – permanece constantemente aberta a todo o amor que se exprime no sofrimento humano. Na dimensão do amor, a redenção já realizada até às últimas consequências, completa-se num certo sentido de maneira permanente.

Impressionam profundamente as expressões do Santo Padre sobre o valor do sofrimento, quando afirma que «parece fazer parte da própria essência do sofrimento redentor de Cristo: o facto de ele solicitar a ser incessantemente completado» [7]. Deste modo, «todo o sofrimento humano, em razão da sua união com Cristo no amor, completa o sofrimento de Cristo. Completa-o como a Igreja completa a obra redentora de Cristo» [8]...

 

II. O sofrimento no Magistério vivo do Santo Padre

 

Durante a alocução do Angelus de 29 de Maio de 1994, depois de uma hospitalização de algumas semanas na Policlínica «Gemelli» de Roma, o Santo Padre fez uma importante referência ao sofrimento, evocando os momentos de dor e de apreensão que tinham acompanhado o atentado de que fora vítima no dia 13 de Maio de 1981.

«...Gostaria que hoje, através de Maria, se expressasse a minha gratidão por esta dádiva do sofrimento, novamente ligado ao mês mariano de Maio. Desejo dar graças por este dom. Compreendi que se trata de um dom necessário. O Papa devia encontrar-se na Policlínica ‘Gemelli’, devia estar ausente desta janela durante quatro semanas, quatro domingos, e devia sofrer: como teve de sofrer há treze anos, assim também hoje. Meditei, voltei a pensar em tudo isto durante o período em que fiquei internado no hospital. E encontrei ao meu lado a grande figura do Cardeal Wyszynski ... No início do meu Pontificado, ele disse-me: ‘Se o Senhor te chamou, tu deves introduzir a Igreja no Terceiro Milénio'»... Então compreendi que devo introduzir a Igreja de Jesus Cristo neste Terceiro Milénio com a oração e com diversas iniciativas, mas entendi que não basta: era necessário introduzi-la com o sofrimento, com o atentado há treze anos e com este sacrifício. Por que agora, por que no corrente ano, por que neste Ano da Família? Precisamente porque a família é ameaçada, porque a família é agredida. O Papa deve ser agredido, o Papa deve sofrer, para que cada família e o mundo inteiro compreendam que existe um Evangelho, diria eu, superior: o Evangelho do sofrimento, com que se deve preparar o futuro, o terceiro milénio das famílias, de cada uma das famílias e de todas as famílias.

«Eu queria acrescentar estas reflexões no meu primeiro encontro convosco, caríssimos romanos e peregrinos, no final deste mês mariano, porque eu devo este dom do sofrimento à Virgem Santíssima, e disto estou grato. Compreendo que era importante apresentar este tema diante dos poderosos do mundo. Devo encontrar de novo estes poderosos do mundo e devo falar-lhes. Com que argumentações? Resta-me esta argumentação do sofrimento. E gostaria de lhes dizer: compreendei-o, entendei por que motivo o Papa esteve de novo no hospital, novamente no sofrimento, compreendei-o, repensai-o!».

Esta alocução do Papa tem realmente o teor de uma profecia! O Evangelho do sofrimento no Magistério de João Paulo II não foi simplesmente o capítulo de uma Carta Apostólica, não representou apenas um parágrafo de um documento oficial. Foi muito mais: ele tornou-se carne e sangue na própria pessoa do Sumo Pontífice, tornou-se o Magistério vivo. Ele anunciou-o nos seus anseios pelo mundo repleto de guerras e surdo aos seus indefessos apelos de paz; nele, tornou-se uma tarefa missionária em contacto com os dramas do povo de Deus, ao qual ele soube falar de esperança.

Contudo, o Evangelho «superior» do sofrimento foi proclamado clara e fortemente pelos seus próprios padecimentos físicos, pela cruz da doença vivida com coragem e de maneira incondicional no seu mandato de Pastor da Igreja universal, usque ad sanguinis effusionem ... [9]. Somente hoje, talvez, compreendemos a linguagem arcana a que Deus recorre, dotando o anúncio do Papa de uma nova «argumentação do sofrimento»: Ele tornou o seu servo ainda mais eloquente, mais semelhante ao seu Filho unigénito, como sempre faz com quem O ama de maneira incondicional. Assim fez com São Pio, a quem deu durante 58 anos os sinais da conformidade com Cristo, e assim fez com João Paulo II, transformando um homem extraordinário num imitador fiel do Crucificado-Ressuscitado. Diante dos seus passos cansados mas tenazes, perante as suas palavras de sofrimento mas obstinadamente verdadeiras, até mesmo o mundo se cala e aprende. «O Papa devia sofrer», disse João Paulo II no dia 29 de Maio de 1994, talvez porque quando todas as palavras se esgotam, quando todos os apelos resultam ineficazes, somente a cruz consegue penetrar na obstinação do coração humano, corroído pelo ódio e pelo egoísmo. Para introduzir e acompanhar a Igreja no Terceiro Milénio, não são suficientes as iniciativas, até as mais geniais, e nem mesmo a oração: é necessário o sofrimento dos filhos de Deus, os padecimentos dos Santos, a dor do Vigário de Cristo e de «todos aqueles que sofrem com Cristo, unindo os próprios sofrimentos humanos ao seu sofrimento salvífico» [10].

 

III. O sofrimento e o santo Rosário

 

No final do corrente ano de 2003, que o Santo Padre dedicou à recitação do Rosário, tão caro a Maria, não podemos deixar de recordar que o Rosário constitui o instrumento indefectível de quem quer aprender «o sentido do sofrimento salvífico» [11]. Em Oristano, no dia 18 de Outubro de 1985, o Papa afirmava:

«Exorto-vos profundamente, doentes... a rezar todos os dias a Nossa Senhora com o santo Rosário. Dado que a saúde é um bem que faz parte do projecto primitivo da criação, recitar o Rosário pelos doentes, a fim de que possam ser curados ou pelo menos obter o alívio para os seus males, é obra singularmente humana e cristã... E quando a enfermidade perdura e o sofrimento persiste, o Rosário recorda-nos também que a redenção da humanidade tem lugar por meio da cruz... Vale mais o sofrimento silencioso e escondido de um enfermo, do que muitos debates e contestações... E esta é também a mensagem que Nossa Senhora deixou aos pequenos videntes: o sofrimento e o Rosário pela Igreja e pelos pecadores» [12]. Os simples, até mesmo as crianças [13], nas pessoas dos Beatos Francisco e Jacinta Marto [14], foram convidados «a oferecer as terríveis dores que os afligiam no espírito de penitência pela conversão dos pecadores» [15].

Através do Rosário, o cristão coloca-se na escola de Maria, grande Mestra na cátedra da cruz: «...A Virgem das Dores, em pé ao lado da cruz, fala-nos do significado do sofrimento no plano divino da redenção. Ela foi a primeira que soube e quis participar no mistério salvífico, 'associando-se com ânimo materno ao sacrifício de Cristo, amorosamente consente na imolação da vítima que Ela gerou' [16]. Intimamente enriquecida por esta experiência inefável, Ela aproxima-se de quem sofre, toma-o pela mão, convida-o a subir com Ela o Calvário e a deter-se diante do Crucificado...» [17].

Por conseguinte, o Rosário, o sofrimento e a inocência tornam-se termos constantemente solidários nas biografias dos apaixonados de Deus e nas atenções pastorais do Papa João Paulo II. O próprio São Pio de Pietrelcina, que o Santo Padre pessoalmente desejou canonizar no dia 16 de Junho de 2002, amou em profundidade o Rosário, tão caro a Maria. A um jornalista de «Irmã Rádio» – uma famosa transmissão radiofónica de há algum tempo – ele prometeu recitar todos os dias um terço do santo Rosário por todos os enfermos do mundo. Em continuidade com a mensagem de Fátima, São Pio ofereceu-se inteiramente ao Senhor e tudo aquilo que ele possuía pela salvação de numerosos pecadores, vivendo em plenitude uma missão que parece conter muitos elementos de contacto com as aparições aos três pastorinhos portugueses.

 

IV. Conclusão

 

Depois de ter sofrido pela redenção de todos, Jesus Cristo deu também uma Mãe aos homens, em vista de os educar na escola do Evangelho do sofrimento, oferecendo ao mundo inteiro o Rosário para confortar as pessoas que sofrem e salvar as almas em necessidade, e indicando em São Pio servo sofredor e nos Santos em geral, o caminho para participarem na sua obra de salvação. Hoje, ele oferece à Igreja e ao mundo o ensinamento e o testemunho do Vigário de Cristo, do apaixonado de Deus, do propagador do Evangelho do sofrimento.

A Eucaristia, a Igreja, Maria, o santo Rosário, os Santos, Padre Pio, o sofrimento, o homem no seu mistério e com a sua dignidade de pessoa: estas são as grandes paixões do Papa João Paulo II...

 



[1] Padre Pio de Pietrelcina, Epistolário, vol. III, San Giovanni Rotondo 1987, pág. 106.

[2] João Paulo II, Dom e Mistério, Cidade do Vaticano 1996, pág. 15.

[3] Ibid., pág. 47.

 

[4] Col 1, 24.

[5] Saraiva Martins, Card. José, A Igreja no alvorecer do Terceiro Milénio. Reflexões teológico-pastorais, Cidade do Vaticano 2001, pág. 18.

[6] João Paulo II, Salvifici doloris, 24.

[7] Ibidem.

[8] Ibidem.

[9] Cf. João Paulo II, Discurso proferido no dia 22 de Outubro de 2003, em:  ed. quot. de L'Osservatore Romano, de 23.10.2003, n. 4.

[10] João Paulo II, Salvifici doloris, 26.

[11] João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae, 25.

[12] João Paulo II, O Evangelho do Sofrimento (sob os cuidados de L. Sapienza), Roma 1983, pp. 136-137.

[13] Nas vicissitudes da morte prematura da Serva de Deus Maria Pilar Cimadevilla y López-Dóriga, falecida com apenas dez anos de vida e recentemente debatida durante um Congresso teológico junto da sede da Congregação para as Causas dos Santos, é possível vislumbrar a mesma união: «rosário, sofrimento e inocência» (cf. Congregatio de Causis Sanctorum, Matriten. Beatificationis et Canonizationis Servae Dei Mariae a Columna Cimadevilla et López-Dóriga, Relatio et Vota Congressus Peculiaris Super Virtutibus die 28 octobris an. 2003 habiti, Roma 2003, pág. 66).

[14] De absoluta relevância são as palavras do Santo Padre, proferidas por ocasião do 80º aniversário das aparições da Virgem Santa em Fátima, quando teve modo de frisar que as aparições marianas de 1917 representam um dos sinais dos tempos, capazes de expressar «um renovado e intenso sentido de solidariedade e de interdependência recíproca no Corpo Místico de Jesus Cristo, que se vai consolidando junto dos baptizados» (cf. Síntese do discurso pontifício mencionada em: António dos Santos, «Fátima e a modernidade: Profecia e Escatologia», em: Veritas in Caritate. Colectânea de estudos em honra do Cardeal José Saraiva Martins, Cidade do Vaticano 2003, pág. 98).

[15] Saraiva Martins, Card. José, Conclusão da Assembleia sobre «Eucaristia, Santidade e Santificação», em: Congregação para as Causas dos Santos, Cidade do Vaticano 2000, pág. 364.

[16] Concílio Ecuménico Vaticano II, Lumen gentium, 58.

[17] Cf. Síntese do discurso pontifício mencionada em: Greco, A. Sofferenza ed evangelizzazione nel Magistero di Giovanni Paolo II, Tarento 1998, pp. 34-35.


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