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A  REALEZA  DE  CRISTO

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

A história da Igreja é a história da Redenção, pois a Igreja não é mais – nem menos – do que a Humanidade redimida, como dizia Santo Agostinho. O que veio trazer a Igreja ao mundo? Veio trazer Deus, resumiu magistralmente Bento XVI. A missão da Igreja é uma missão sobrenatural, a da Salvação. Das almas. A Igreja não foi instituída por Cristo para a salvação do «mundo», no sentido sociológico do termo. Não veio para fazer um mundo melhor, dinamizar cristãmente a política, sanear a economia, humanizar a sociedade, estabelecer a paz entre as nações, etc.

Por sinal, a fé cristã, com o seu conhecimento profundo do homem, com os seus princípios morais e com as suas inúmeras iniciativas solidárias – fraternas –, tem sido o mais activo e positivo fermento social de todos os tempos. De tal maneira que a própria linguagem política de hoje – igualdade, liberdade, solidariedade, dignidade e direitos humanos, corresponsabilidade social e internacional – a ela se devem, nela radicam, e sem ela se esvaziam. Sem a paternidade divina, os homens seriam bichos e nunca irmãos; sem Cristo, a grande lei seria a luta pelo poder entre inimigos e o domínio do forte sobre o fraco. Por mais que isto pareça retratar o mundo actual, não há ideólogo nem político que se atreva a fazer desta lei da selva a sua bandeira; todos invocam os princípios que a Igreja nos ensinou. Muitos deles, pretendendo viver e pensar como se Deus não existisse nem o Verbo tivesse incarnado, na linguagem, pelo menos, falam como se Deus existisse realmente e Cristo nos tivesse feito irmãos. Não serão cristãos na prática nem no pensamento, mas não conseguem descobrir melhor linguagem do que a que a do Evangelho. E, se acusam a Igreja, é sempre em nome da própria doutrina cristã. 

A missão da Igreja, porém, não é melhorar a política nem a economia; não é essa sua missão; isso é apenas um dos seus frutos. E não cessa de o fomentar com a doutrina, nem de o procurar com o impulso dos seus filhos, pois está mais interessada do que ninguém no bem comum: quanto melhor for a sociedade – em todos os planos, e não só no material – mais fácil é ao homem – «o homem todo e todos os homens» – ser digno de si e caminhar para Deus, em Cristo, a Quem o mundo pertence. «Quando o Estado promove, ensina e até impõe formas de ateísmo prático, tira aos seus cidadãos a força moral e espiritual indispensável para se empenhar no desenvolvimento humano integral e impede-os de avançarem com renovado dinamismo no próprio compromisso de uma resposta humana mais generosa ao amor divino» («Caritas in Veritate», 29).

Dir-se-á que muitos dos males sociais provêem de membros da Igreja. Sem dúvida; somos pecadores, como todos, e assim o reconhecemos publicamente. Dizia Chesterton que o drama dos ateus é o de não terem a quem agradecer (todos os bens que recebem); mas talvez o seu maior drama seja a de não terem a Quem pedir perdão.

 

 


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