Anunciação do Senhor

25 de Março de 2004


Solenidade


RITOS INICIAIS


Cântico de entrada: Acolhe, Virgem piedosa, M. Carneiro, NRMS 101

Hebr 10, 5.7

Antífona de entrada: Ao entrar no mundo, o Senhor disse: Eu venho, meu Deus, para fazer a vossa vontade.


Diz-se o Glória.


Introdução ao espírito da Celebração


Deus não entrou no mundo pela força; quis «propor-se». O «sim» de Maria realiza definitivamente a aliança. Nela está todo o povo da promessa: o antigo (hebreus) e o novo (a Igreja). «O Senhor está com ela», isto é, Deus é nosso Deus e nós somos para sempre seu povo.

As leituras da liturgia de hoje orientam-nos já para o mistério da Páscoa. O primeiro, o único «sim» do Filho, que, entrando neste mundo, disse: «Eis que venho para fazer a tua vontade» (Sl 39; Hb 10, 4-10), recebe a resposta do Pai, o qual, depois da oferta dolorosa da Paixão, selará com a ressurreição, no Espírito, a salvação apresentada a todos através da Igreja.

A Encarnação é também o mistério da colaboração responsável de Maria na salvação recebida como dom. Revela-nos que Deus, para salvar-nos, escolheu essa pedagogia, a de passar através dos homens: «e o Verbo se fez carne e veio habitar no meio de nós... e nós vimos a sua glória» (Jo 1, 14).


Oração colecta: Deus, Pai santo, que na vossa benigna providência quisestes que o vosso Verbo assumisse verdadeira carne humana no seio da Virgem Maria, concedei-nos que, celebrando o nosso Redentor como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mereçamos também participar da sua natureza divina. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Liturgia da Palavra


Primeira Leitura


Monição: O profeta quer dissuadir o rei do seus intentos malignos e propõe-lhe pedir a Deus um sinal da Sua presença. Mas Acaz não demonstra ter fé. Então Deus anuncia a Acaz o castigo, confirmando ao mesmo tempo a Sua fidelidade: apesar da infidelidade dos homens, haverá um herdeiro para David.


Isaías 7, 10-14 8, 10

Naqueles dias, 10o Senhor mandou ao rei Acaz a seguinte mensagem: 11»Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas». 12Acaz respondeu: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». 13Então Isaías disse: «Escutai, casa de David: Não vos basta que andeis a molestar os homens para quererdes também molestar o meu Deus? 14Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será ‘Emanuel’, porque Deus está connosco».


Este célebre texto messiânico é extraído do início do «Livro do Emanuel», assim chamado pela misteriosa figura central do Immánu-El (Deus connosco), um «menino» descrito com traços que excedem tudo o que a história da monarquia hebraica regista (Is 7, 1 - 12, 6), daí o seu carácter messiânico, em quem os cristãos vêem uma figura do Salvador.

10-13 Como prova de que o rei Acaz não virá a ser destronado e substituído pelo filho de Tabel, estranho à linhagem davídica (estamos na conjura siro-efraimita contra o rei de Judá), o profeta Isaías propõe ao rei que peça um sinal divino, o mais extraordinário que seja (cf. v. 11). O rei, com hipócrita religiosidade, nega-se a pedir esse sinal, porque não acredita em sinais, em coisas sobrenaturais. Foi por esta ocasião (o que não quer dizer exactamente o mesmo momento) em que o Profeta, dirigindo-se à linhagem (casa) de David, anunciou que o Senhor dará um sinal verdadeiramente extraordinário e que o trono de David se consolidará eternamente (cf. 2 Sam 7, 16).

14 Esse «sinal» é a virgem que concebe. Muito se tem discutido e escrito sobre este sinal. Uma coisa é certa, é que o crente não pode prescindir de algum sentido messiânico (directo ou indirecto) desta célebre passagem isaiana. De facto, a própria exegese bíblica mostra que estamos no chamado «Livro do Imanuel» (Is 7 - 12), uma secção de carácter vincadamente messiânico por apontar para um descendente de David em quem se concentram as promessas da salvação de Deus, o Imanuel (o Deus connosco); embora, em primeiro plano, possa ser visado o próprio filho do rei Acaz, Ezequias, ele é considerado uma figura ou tipo do Messias. A tradução grega dos LXX (inspirada por Deus?) utilizou um termo específico para designar a virgindade desta mãe, chamando-a parthénos, quando o termo hebraico original não designa mais que a sua idade juvenil: ‘almáh. A célebre tradução grega em que se apoiavam os primeiros apologistas cristãos para demonstrarem aos judeus que Jesus é o Messias prometido, veio a ser rejeitada pelos judeus, que a substituíram por outras versões (ou antes adaptações gregas, Áquila, Símaco e Teodocião) e o dia festivo para comemorar a tradução dos LXX passou a ser um dia de luto. A interpretação mais tradicional defende o sentido literal (não se contentando com o sentido chamado típico ou pleno, suficientes para se garantir o sentido messiânico da passagem) e faz finca-pé em que Deus tinha oferecido pelo Profeta um sinal prodigioso, e eis que o dá; ora esse sinal só é prodigioso se a concepção e o nascimento do Menino acontece sem destruir a virgindade da Mãe; aliás é ela a pôr o nome ao filho, coisa que pertence sempre ao pai (que aqui não aparece). O próprio nome do filho insinua a sua divindade, «Deus connosco»: é a mesma personagem extraordinária anunciada em Is 9, 5-6: «Deus forte, príncipe da paz...».


Salmo Responsorial Sl 39 (40), 7-8a.8b-9.10.11 (R. 8a.9a)


Monição: O Salmo acentua a ideia de que a imolação da vítima não é agradável a Deus se não for acompanhada no cumprimento da Sua vontade.


Refrão: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.


Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,

mas abristes-me os ouvidos

não pedistes holocaustos nem expiações,

então clamei: «Aqui estou».


De mim está escrito no livro da Lei

que faça a vossa vontade.

Assim o quero, ó meu Deus,

a vossa lei está no meu coração».


Proclamei a justiça na grande assembleia,

não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.


Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,

proclamei a vossa fidelidade e salvação.

Não ocultei a vossa bondade e fidelidade

no meio da grande assembleia.


Segunda Leitura


Monição: Deus chama-nos a uma vida nova. É o projecto divino a nosso respeito, segundo o Seu próprio desígnio e a Sua graça. O caminho para esta vida é-nos indicado pelo próprio Jesus.


Hebreus 10, 4-10

Irmãos: 4É impossível que o sangue de touros e cabritos perdoe os pecados. 5Por isso, ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo. 6Não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado. 7Então Eu disse: ‘Eis-Me aqui no livro sagrado está escrito a meu respeito: Eu venho, meu Deus, para fazer a tua vontade’». 8Primeiro disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, não Te agradaram holocaustos nem imolações pelo pecado». E no entanto, eles são oferecidos segundo a Lei. 9Depois acrescenta: «Eis-Me aqui: Eu venho para fazer a tua vontade». Assim aboliu o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10É em virtude dessa vontade que nós somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre.


O autor de Hebreus está no final da primeira parte da obra, precisamente quando discorre sobre a superioridade do sacrifício de Cristo relativamente a todos os sacrifícios da Lei Antiga (8, 1 - 10, 18), sob o ponte de vista da eficácia, argumentando, à boa maneira rabínica, a partir dos Salmos 40, 7-9 e 110, 1. Perante a ineficácia dos sacrifícios da Antiga Lei, o próprio Deus decide vir à Terra, na pessoa do Filho para poder oferecer, da parte da humanidade (Cristo é perfeito homem), um sacrifício de eficácia infinita (Cristo é perfeito Deus), oferecido de uma vez para sempre (v. 10), e assim aboliu o primeiro culto, o levítico (v. 9). Recorde-se que o Sacrifício do Calvário é único pelo seu infinito valor, o Sacrifício da Missa não é outro sacrifício diferente, mas o mesmo sacrifício que se torna presente sacramentalmente a todos os tempos nos nossos altares, aplicando-nos os méritos da Cruz.

7 «Eis-me aqui». Palavras do Salmo 40 (39) que o autor inspirado aplica a Jesus, e que a Liturgia hoje põe no coração do Filho de Deus, ao incarnar no seio da Santíssima Virgem.


Aclamação ao Evangelho Jo 1, 14ab


Monição: Em plena conformidade com a primeira leitura, o trecho de Lucas indica o cumprimento da promessa feita por Deus a David. Em Jesus realizam-se todas as promessas, o que é obra exclusiva de Deus e não do homem, embora não se dê sem o concurso humano representado aqui pela aceitação de Maria.


Aleluia


O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós

e nós vimos a sua glória.


Cântico: J. Santos, NRMS 40



Evangelho


São Lucas 1, 26-38

Naquele tempo, 26o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José. 27O nome da Virgem era Maria. 28Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». 29Ela ficou perturbada com estas palavras e pensava que saudação seria aquela. 30Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim». 34Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?». 35O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. 36E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril 37porque a Deus nada é impossível». 38Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor faça-se em mim segundo a tua palavra».


A narrativa da Anunciação reveste-se de uma densidade tal que cada palavra encerra uma riqueza e profundidade impressionante, o que condiz bem com o acontecimento mais transcendente da História, o preciso momento em que, com o sim da Virgem Maria, o Eterno entra no tempo, o Criador se faz criatura.

26 «O Anjo Gabriel». O mesmo que anunciou a Zacarias o nascimento de João. Já era conhecido o seu nome no A.T. (Dan 8, 16-26; 9, 21-27). O seu nome significa «homem de Deus» ou também «força de Deus».

28 Coadunando-se com a transcendência da mensagem, a tripla saudação a Maria é absolutamente inaudita:

«Ave»: Vulgarizou-se esta tradução, correspondente a uma saudação comum (como ao nosso «bom dia»; cf. Mt 26, 49), mas que não parece ser a mais exacta, pois Lucas, para a saudação comum usa o semítico «paz a ti» (cf. Lc 10, 5); a melhor tradução é «alegra-te» – a tradução literal do imperativo grego khaire –, de acordo com o contexto lucano de alegria e com a interpretação patrística grega, não faltando mesmo autores modernos que vêm na saudação uma alusão aos convites proféticos à alegria da «Filha de Sião» (Sof 3, 14; Jl 2, 21-23; Zac 9, 9).

Ó «cheia de graça», Esta designação tem muita força expressiva, pois está em vez do nome próprio, por isso define o que Maria é na realidade. A expressão portuguesa traduz um particípio perfeito passivo que não tem tradução literal possível na nossa língua: designa Aquela que está cumulada de graça, de modo permanente; mais ainda, a forma passiva parece corresponder ao chamado passivo divino, o que evidencia a acção gratuita, amorosa, criadora e transformante de Deus em Maria: «ó Tu a quem Deus cumulou dos seus favores». De facto, Maria é a criatura mais plenamente ornada de graça, em função do papel a que Deus A chama: Mãe do próprio Autor da Graça, Imaculada, concebida sem pecado original, doutro modo não seria, em toda a plenitude, a «cheia de graça», como o próprio texto original indica.

«O Senhor está contigo»: a expressão é muito mais rica do que parece à primeira vista; pelas ressonâncias bíblicas que encerra, Maria é posta à altura das grandes figuras do Antigo Testamento, como Jacob (Gn 28, 15), Moisés (Ex 3, 12) e Gedeão (Jz 6, 12), que não são apenas sujeitos passivos da protecção de Deus, mas recebem uma graça especial que os capacita para cumprirem a missão confiada por Ele.

Chamamos a atenção para o facto de na última edição litúrgica ter sido suprimido o inciso «Bendita es tu entre as mulheres», pois este não aparece nos melhores manuscritos e pensa-se que veio aqui parar por arrasto do v. 42 (saudação de Isabel). A Neovulgata, ao corrigir a Vulgata, passou a omiti-lo.

29 «Perturbou-se», ferida na sua humildade e recato, mas sobretudo experimentando o natural temor de quem sente a proximidade de Deus que vem para tomar posse da sua vida (a vocação divina). Esta reacção psicológica é diferente da do medo de Zacarias (cf. Lc 1, 12), pois é expressa por outro verbo grego; Maria não se fecha no refúgio dos seus medos, pois nela não há qualquer espécie de considerações egoístas, deixando-nos o exemplo de abertura generosa às exigências de Deus, perguntando ao mensageiro divino apenas o que precisa de saber, sem exigir mais sinais e garantias como Zacarias (cf. Lc 1, 18).

32-33 «Encontraste graça diante de Deus»: «encontrar graça» é um semitismo para indicar o bom acolhimento da parte dum superior (cf. 1 Sam 1, 18), mas a expressão «encontrar graça diante de Deus» só se diz no A. T. de grandes figuras, Noé (Gn 6, 8) e Moisés (Ex 33, 12.17). O que o Anjo anuncia é tão grandioso e expressivo que põe em evidência a maternidade messiânica e divina de Maria (cf. 2 Sam 7, 8-16; Salm 2, 7; 88, 27; Is 9, 6; Jer 23, 5; Miq 4, 7; Dan 7, 14).

34 «Como será isto, se Eu não conheço homem?» Segundo a interpretação tradicional desde Santo Agostinho até aos nossos dias, tem-se observado que a pergunta de Maria careceria de sentido, se Ela não tivesse antes decidido firmemente guardar a virgindade perpétua, uma vez que já era noiva, com os desposórios ou esponsais (erusim) já celebrados (v. 27). Alguns entendem a pergunta como um artifício literário e também «não conheço» no sentido de «não devo conhecer», como compete à Mãe do Messias (cf. Is 7, 14). Pensamos que a forma do verbo, no presente, «não conheço», indica uma vontade permanente que abrange tanto o presente como o futuro. Também a segurança com que Maria aparece a falar faz supor que José já teria aceitado, pela sua parte, um matrimónio virginal, dando-se mutuamente os direitos de esposos e renunciando a consumar a união; mas nem todos os estudiosos assim pensam, como também se vê no recente e interessante filme Figlia del suo Figlio.

35 «O Espírito Santo virá sobre ti…». Este versículo é o cume do relato e a chave do mistério: o Espírito, a fonte da vida, «virá sobre ti», com a sua força criadora (cf. Gn 1, 2; Salm 104, 30) e santificadora (cf. Act 2, 3-4); «e sobre ti a força do Altíssimo estenderá a sua sombra» (a tradução litúrgica «cobrirá» seria de evitar por equívoca e pobre; é melhor a da Nova Bíblia dos Capuchinhos): o verbo grego (ensombrar) é usado no A. T. para a nuvem que cobria a tenda da reunião, onde a glória de Deus estabelecia a sua morada (Ex 40, 34-36); aqui é a presença de Deus no ser que Maria vai gerar (pode ver-se nesta passagem o fundamento bíblico para o título de Maria, «Arca da Aliança»).

«O Santo que vai nascer…». O texto admite várias traduções legítimas; a litúrgica, afasta-se tanto da da Vulgata, como da da Neovulgata; uma tradução na linha da Vulgata parece-nos mais equilibrada e expressiva: «por isso também aquele que nascerá santo será chamado Filho de Deus». I. de la Potterie chega a ver aqui uma alusão ao parto virginal de Maria: «nascerá santo», isto é, não manchado de sangue, como num parto normal. «Será chamado» (entenda-se, «por Deus» – passivum divinum) «Filho de Deus», isto é, será realmente Filho de Deus, pois o que Deus chama tem realidade objectiva (cf. Salm 2, 7).

38 «Eis a escrava do Senhor…». A palavra escolhida na tradução, «escrava» talvez queira sublinhar a entrega total de Maria ao plano divino. Maria diz o seu sim a Deus, chamando-se «serva do Senhor»; é a primeira e única vez que na história bíblica se aplica a uma mulher este apelativo, como que evocando toda uma história maravilhosa de outros «servos» chamados por Deus que puseram a sua vida ao seu serviço: Abraão, Jacob, Moisés, David… É o terceiro nome com que Ela aparece neste relato: «Maria», o nome que lhe fora dado pelos homens, «cheia de graça», o nome dado por Deus, «serva do Senhor», o nome que Ela se dá a si mesma.

«Faça-se…». O «sim» de Maria é expresso com o verbo grego no modo optativo (génoito, quando o normal seria o uso do modo imperativo génesthô), o que põe em evidência a sua opção radical e definitiva, o seu vivo desejo (matizado de alegria) de ver realizado o desígnio de Deus.


Sugestões para a homilia


«Cristo libertou-nos para sermos livres» (Gal 5, 1)

«Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38)


«Cristo libertou-nos para sermos livres» (Gal 5, 1)

Falamos muito de opção pelos pobres e de opção pelo povo. Não pensemos, contudo, que isto seja uma criação nossa. O primeiro a ter feito essas opções foi o próprio Deus. A festa que hoje celebramos é um maravilhoso exemplo dessa forma de agir de Deus na sua relação com as pessoas.

A Anunciação marca o momento em que todo o plano da salvação, a vontade de Deus de conduzir a humanidade a uma nova vida em plenitude e harmonia, depende da palavra de uma pessoa. Deus, que nos criou livres, confia a tal ponto na nossa liberdade que nos consulta, pede-nos permissão para levar adiante o Seu plano. Deus não invade o nosso mundo com a Sua força todo-poderosa e terrível. Deus aproxima-Se sem fazer ruído, bate à nossa porta e faz tudo depender da nossa resposta e colaboração. Que grande exemplo de respeito!

Mas não só isso. Ele não procurou os poderosos deste mundo, os que oficialmente tinham poder de abrir as portas dos seus reinos à presença de Deus, os que tinham o poder de obrigar as pessoas a seguir uma determinada fé. Deus dirige-Se aos humildes e simples.

Uma pobre jovem da Galileia é a destinatária da mensagem do anjo. Só o facto do envio do anjo é um sinal de como Deus acredita em nós. Ele acredita na nossa liberdade, aposta na nossa responsabilidade. Deus, que nos criou livres, respeita de tal modo a nossa liberdade que não quer salvar-nos sem o nosso consentimento. Quando Se aproxima de nós não o faz de modo paternalista e autoritário. Não nos trata como crianças. Deus entra em relação com cada um de nós, convidando-nos a ser livres e responsáveis. Bate à nossa porta e só entra se a abrirmos. Essa é a nossa oportunidade. É a nossa responsabilidade. São Paulo dirá que «Cristo libertou-nos para sermos livres» (Gal 5, 1).

Com muitas limitações, é certo, toda pessoa tem em si uma semente de Deus: a liberdade. Esforçar-nos para ser plenamente livres e promover a liberdade dos nossos irmãos são possivelmente os nossos primeiros deveres como cristãos.


«Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38)

Maria soube certamente exercer a sua liberdade e responder livremente à oferta de Deus e, nesse sentido, ensina-nos o caminho para uma liberdade madura.

Maria crê e por isso diz sim. É uma fé que se faz vida, que se faz compromisso com Deus, que se manifesta com a maternidade divina, e compromisso com o próximo, que espera a sua ajuda na pessoa da sua prima Isabel (Cf. Lc 1, 30-56). Maria abandona-se livre e conscientemente à iniciativa de Deus, que realizará n’Ela as suas maravilhas, «mirabilia Dei».

Perante a atitude da Virgem, somos convidados a reflectir: Deus tem um projecto para cada um, a cada um dirige o seu «chamamento». O importante é saber reconhecer este chamamento, saber acolher, saber ser fiéis, saber dizer «sim» como Maria.

Por isso, queremos dizer como o Papa João Paulo II na noite de 12 de Maio de 1991, em Fátima: «A Vós, Maria, totalmente dependente de Deus e orientada para Ele, ao lado do Seu e Vosso Filho, saudamos como ‘a ícone mais perfeita da liberdade e da libertação da humanidade e do universo’».


Fala o Santo Padre


«O Verbo fez-se homem»

[…]

2. Desejamos hoje dar graças a Deus de modo especial pelo dom da salvação, que Cristo trouxe ao mundo com a sua Encarnação: «Et Verbum caro factum est O Verbo fez-se homem». Da contemplação deste mistério todos os crentes podem haurir uma nova energia espiritual para proclamar e testemunhar sem cessar Cristo, nossa única salvação, e servir fielmente o «Evangelho da vida» que ele nos confia.

Face a uma cultura da morte e aos ataques que, infelizmente, se multiplicam contra a vida do homem, nunca falte o empenho de a defender em cada uma das suas fases, desde o primeiro instante da concepção até ao seu fim. Oxalá a humanidade conheça uma renovada primavera da vida no respeito e no acolhimento de cada ser humano, em cujo rosto brilha a imagem de Cristo! Para isto rezamos juntos Àquela que «é uma mensagem de viva consolação para a Igreja na sua luta contra a morte» (Evangelium vitae, 105). […]


João Paulo II, Angelus, Roma, 25 de Março de 2001



Diz-se o Credo.

Às palavras «e encarnou ...», ajoelha-se.


Oração Universal


Irmãos caríssimos,

recebemos com alegria o anúncio da nossa redenção.

Peçamos a Deus que ouça as orações

de todos os que celebram as maravilhas da encarnação de Cristo:


R. Senhor, escutai a nossa prece.


1. Pela Igreja de Deus, para que seja santa e imaculada

e todos os cristãos tenham Maria como modelo e escola de virtudes,

oremos ao Senhor.


2. Por todos aqueles a quem ainda não foi anunciado o Evangelho,

para que Deus lhes envie os mensageiros da Sua Palavra,

oremos ao Senhor.


3. Por todos os doentes e os que sofrem,

para que encontrem em Nossa Senhora o conforto de sua fé,

a certeza para a sua esperança,

oremos ao Senhor.


4. Por todas as crianças,

para que encontrem nas suas famílias «igrejas domésticas»,

onde possam crescer em sabedoria, estatura e graça,

oremos ao Senhor.


5. Por esta santa assembleia,

para que cada um de nós esteja sempre atento à Palavra de Deus

e saiba pôr sempre em prática a vontade de Deus nas suas vidas,

oremos ao Senhor.


(outras intenções)



Senhor, lembrai-Vos da vossa Igreja

e dignai-Vos atender as nossas orações;

hoje as confiamos Àquela a quem o anjo anunciou

que seria Mãe do vosso Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor,

Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Liturgia Eucarística


Cântico do ofertório: Rainha da Graça, Az. Oliveira, NRMS 75


Oração sobre as oblatas: Recebei, Senhor, os dons da vossa Igreja, que reconhece a sua origem na Encarnação do vosso Filho e fazei-lhe sentir a alegria de celebrar nesta solenidade os mistérios do seu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Prefácio


O mistério da Encarnação


V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.


V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.


V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.


Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor. Pela Anunciação do mensageiro celeste, a Virgem Imaculada acolheu com fé a vossa Palavra e pela acção admirável do Espírito Santo trouxe em seu ventre com amor inefável o Primogénito da nova humanidade, que vinha cumprir as promessas feitas a Israel e revelar-Se ao mundo como a esperança de todos os povos.

Por isso com os Anjos, que adoram a vossa majestade e exulta eternamente na vossa presença, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

Santo, Santo, Santo...


Santo: F. da Silva, NRMS 38


Monição da Comunhão


Repetindo em cada Missa: «Fazei isto em memória de Mim!», o Senhor ensina-nos a «darmos» também o nosso corpo e o nosso sangue aos irmãos. Tornamos assim digna de fé a salvação de Deus, encarnando-a também nos pequenos «sim» que todos os dias repetimos, a exemplo de Maria.


Cântico da Comunhão: Louvemos o Senhor, Cantemos o Senhor, J. Santos, NRMS 81

Is 7,14

Antífona da comunhão: A Virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emanuel, Deus connosco.


Cântico de acção de graças: O Senhor fez em mim maravilhas, Az. Oliveira, NRMS 45


Oração depois da comunhão: Confirmai em nós, Senhor, os mistérios da verdadeira fé, para que, tendo proclamado que Jesus Cristo, concebido da Virgem Maria, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cheguemos, pelo poder da sua ressurreição, às alegrias da vida eterna. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.



Ritos Finais


Monição final


Na variedade e riqueza das diversas vocações, todos somos chamados a seguir o exemplo de Maria, a acolher a Deus na própria vida e a percorrer com Ele os caminhos do mundo, anunciando o Seu Evangelho e dando testemunho do Seu amor.

Que este seja o compromisso que todos juntos tomamos hoje, pondo-o com confiança nas mãos maternas de Maria. Que a sua intercessão nos obtenha o dom de uma fé forte e a coragem de um «sim» contínuo e livre ao Senhor que em nós opera maravilhas.


Cântico final: Ó Mãe da Igreja, F. da Silva, NRMS 101



Homilias Feriais


6ª feira, 26-III: A cooperação na paixão de Cristo.

Sab 2, 1. 12-22/ Jo 7, 1-2. 10. 25-30

Se esse justo é filho de Deus, Deus estará a seu lado e o livrará das mãos dos seus adversários... Condenemo-lo a morte infamante, pois ele diz que será socorrido.

Este pensamento dos ímpios, narrado no livro da Sabedoria, repete-se na paixão e morte de Cristo (cf. Leit.).

O Senhor aceitou livremente a sua paixão e morte, por amor do Pai e dos homens, a quem o Pai quer salvar. E, como pela sua Encarnação, está de certo modo unido a cada homem, a todos dá a possibilidade de se associarem a Ele: «De facto, quer associar ao seu sacrifício redentor aqueles mesmos que são os primeiros beneficiários. Isto realiza-se, em sumo grau, em sua Mãe, associada mais intensamente do que ninguém, ao mistério do se sacrifício redentor» (CIC, 618).


Sábado, 27-III: O Cordeiro e o sacrifício pascal.

Jer 11, 18-20 / Jo 7, 40-53

Eu era como dócil Cordeiro levado ao matadouro, sem saber da conjura que teciam contra mim.

Foi João Baptista que viu em Jesus o ’Cordeiro de Deus’ que tira o pecado do mundo.«Manifestou deste modo que Jesus é, ao mesmo tempo, o servo sofredor, que se deixa levar ao matadouro (cf. Leit. do dia) sem abrir a boca, carregando os pecados das multidões, e o cordeiro pascal, símbolo da redenção de Israel na primeira Páscoa» (CIC, 608).

Estamos a preparar-nos para a paixão e morte do Senhor e devemos pensar que «a morte de Cristo é, ao mesmo tempo ,o sacrifício pascal... por meio do cordeiro que tira o pecado do mundo, e o sacrifício da nova Aliança que restabelece a comunhão entre o homem e Deus» (CIC, 613).







Celebração e Homilia: Nuno Westwood

Comentários Bíblicos: Geraldo Morujão

Homilias Feriais: Nuno Romão

Sugestão Musical: Duarte Nuno Rocha


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