A  abrir

um  grande  pontificado

 

Hugo de Azevedo

 

O 78º aniversário de S.S. João Paulo II no dia 16 de Outubro obriga-nos a uma especial acção de graças por um dos mais longos e importantes pontificados da História, pontificado que poderá ficar marcado com a primeira das suas exortações: «Não tenhais medo!» Se estas palavras se nos gravaram indelevelmente, foi porque ele as sublinhou dia após dia com o seu exemplo, com uma energia surpreendente e uma alegria contagiosa, fruto da sua grande fé, de uma viva esperança e uma caridade extraordinária.

A Virgem Santíssima, a Quem ele sempre se confiou, ao desviar a bala que o mataria certamente, muito cedo lhe concedeu a autoridade inequívoca do martírio, o máximo testemunho cristão. Se já antes a sua figura atlética e animosa e o seu passado heróico lhe conferiam uma autoridade moral insofismável, a partir de então ninguém, crente ou descrente, se atreveu a pô-la em dúvida. Foi um grande bem para toda a Igreja.

O que caracteriza o nosso tempo é, de facto, o medo. Talvez sem nos apercebermos disso, o pânico instalou-se no mundo desde a última guerra mundial. Não lhe sucedeu, sequer por breves anos (como após a guerra de 14-18), um período de optimismo geral. Desde Hiroshima já ninguém mais apostou numa paz duradoura: as guerras não cessaram, as tensões internacionais e as violências multiplicaram-se, os perigos e as ameaças aumentaram... E hoje não há nenhum aspecto da vida social que nos dê sossego. A queda do muro berlinense foi a única festa deste período. Mas, uma vez derrubado, quantos problemas e preocupações! E agora, em vez de paz, o terrorismo sem fronteiras!... E sem solução à vista. Não havemos de ter medo?

«Não tenhais medo!», continua o Santo Padre a exortar-nos com a mesma segurança do princípio. Precisamente porque o mundo está mal é que não devemos ter medo. Justamente porque há violência e ódios, não podemos ser covardes. Exactamente porque os perigos e as ameaças nos cercam. Se somos «milites Christi», soldados de Cristo, o que espera de nós Cristo senão a bravura?

E o Santo Padre explicou-nos bem qual deve ser a bravura cristã: a audácia da caridade, a confiança na graça divina – pois «onde abundou o pecado, superabundou a graça» – e a confiança no homem. Em cada homem! Em cada irmão.

Para a História João Paulo II será o Papa das multidões, da juventude, do derrube da cortina de ferro, da viragem do milénio, do Catecismo conciliar, do ecumenismo, do perdão e da «purificação da memória», o Papa filósofo, defensor da Razão e da Verdade, o Papa das canonizações, etc. Mas quem o conheceu recordá-lo-á sobretudo como o Papa da oração e do olhar penetrante, esse olhar inesquecível, sobre cada um, como amigo «único e irrepetível», em quem Deus pôs todas «as suas complacências». Um olhar afectuoso e exigente, esperançoso e confiante, que enche de ânimo sobrenatural e humano quem o recebe, e, sem palavras, lhe diz: «Não tenhas medo!»

 

 


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