TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

O PODER DO SACERDOTE

 

 

Jorge Margarido Correia *

 

 

 

Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra.

Ide e fazei discípulos de todas as nações,

baptizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo,

ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei.

Eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos (Mt 28, 18-20).

 

 

Este mandato foi dirigido a toda a Igreja e a cada um dos cristãos, mas de um modo muito especial àqueles que iriam ter como missão tornar pessoalmente presente o sacerdócio de Cristo ao longo dos tempos. É pois um texto importante para entender o dom para a Igreja que significa o sacerdócio ministerial, neste Ano especialmente a ele dedicado.

O Senhor transmite um poder que lhe foi conferido quando da sua Ressurreição. Mas...

Que poder é este?

Não se trata do poder apetecido pelos que querem governar o mundo, esse poder que muitas vezes é objecto de verdadeira 'adoração' idolátrica, tal como o Santo Padre alertava os jovens reunidos em Sidney no verão passado: «Pensareis que no mundo de hoje é improvável que as pessoas adorem outros deuses. Mas às vezes fazem-no sem se darem conta disso. Os falsos 'deuses' estão quase sempre ligados à adoração de três realidades: os bens materiais, o amor possessivo e o poder».

Pelo contrário, explicava ele numa entrevista concedida uns anos antes, «Jesus fala do mandar junto com o servir (cf. Mt 20, 25-28). No momento em que chega o Senhor do mundo e exerce a tarefa de escravo tal como a lavagem dos pés – um sinal de que nos lava a vida inteira através dos pés –, vislumbramos uma imagem totalmente distinta. Deus, que é o poder por antonomásia, não deseja pisar-nos, mas antes ajoelha-se diante de nós para nos erguer ao alto. O mistério da grandeza de Deus manifesta-se precisamente na sua capacidade de humildade. Não necessita de dirigir-se ao trono e sentar-se nele. Deste modo, Deus quer afastar-nos das nossas ideias de poder e de domínio.» (cf. J. Ratzinger, Deus e o Mundo).

Fundamentalmente, o poder de Deus que Cristo transmite aos sacerdotes é o poder de salvar, de perdoar os pecados, como explicava o Santo Padre num dos seus Encontros com o Clero de Roma (7-II-08): «O sacramento da Penitência dá-nos a ocasião de nos renovarmos profundamente com o poder de Deus – ego te absolvo –, que é possível porque Cristo assumiu sobre si estes pecados, estas culpas. Parece-me que hoje esta é uma grande necessidade. Podemos ser curados. As almas que estão feridas e doentes, como é a experiência de todos, têm necessidade não só de conselhos mas de uma verdadeira renovação, que só pode vir do poder de Deus, do poder do Amor crucificado»

Por isso, o Senhor Ressuscitado pode dizer: «foi-me dado todo o poder». Mas a pergunta inicial subsiste, que poder é esse, como foi adquirido? Proponho-me encontrar a resposta em dois textos: o Salmo II e o Hino cristológico de Filipenses 2, a partir de textos da Introdução ao Cristianismo, de J. Ratzinger). Aí se pode perceber qual o poder que Jesus obteve com a sua morte e ressurreição.

Salmo II: «Tu és meu Filho, hoje mesmo te gerei»

Possivelmente, foi no contexto da fé na ressurreição que essa passagem dos salmos foi aplicada pela primeira vez a Jesus. Os primeiros cristãos entenderam ser esse o momento em que o oráculo do Salmo II se transformou finalmente em realidade. Mas nem por isso o paradoxo se torna menor. Acreditar que Aquele que morreu no Gólgota é o mesmo a quem são dirigidas essas palavras parece ser uma contradição inaudita. O que significa a aplicação das palavras do Salmo? Elas indicam a convicção de que a esperança de Israel num rei que haveria de vir se cumpriu n’Aquele homem que morreu na cruz e que, aos olhos da fé, ressuscitou dos mortos, que viu o sentido da existência humana não no poder e na luta pela sua manutenção, mas sim no ser radical em prol dos outros, conforme Ele mostrou pela cruz – a esse ponto, portanto, Deus disse: «Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei». No crucificado, os fiéis descobrem o sentido daquele oráculo e o sentido da escolha filial: ela não quer dizer privilégio e poder para si, mas sim para servir os outros. O oráculo é dirigido precisamente Àquele que experimentou o fracasso completo, que, pendurado no patíbulo, não teve nem um pedaço de chão debaixo dos pés, cujas roupas foram sorteadas e que pareceu ser abandonado até por Deus; a Esse se aplicam as palavras «Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei». Tu és meu filho, hoje mesmo – naquele lugar – te gerei. «Pede-me e eu te darei as nações por herança e os confins da terra por domínio».

Filipenses 2: Reinar servindo

Ao mesmo tempo, percebe-se que a ideia de realeza, aplicada a Jesus sob a forma de «filho», vem associada à ideia de servo. Como rei, ele é servo e, como servo de Deus, ele é rei... (A palavra grega pais, usada para designar o servo de Deus, também pode significar criança).

Esta associação dos termos «filho» e «servo», das ideias de magnificência e de serviço, que levou a uma interpretação completamente nova tanto da ideia de rei quanto da ideia de filho, encontrou a sua formulação provavelmente mais grandiosa na Carta aos Filipenses (2, 5-11): «o Qual, sendo de condição divina, não reivindicou o direito de ser igual a Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-Se semelhante aos homens; e tido pelo aspecto como homem, humilhou-Se a Si mesmo, fazendo-Se obediente até à morte, e morte de cruz!».... Nele se faz referência ao exemplo fundamental de Jesus Cristo, que não Se valeu da sua condição de igualdade com Deus; antes se rebaixou à condição de servo, despojando-se de tudo o que lhe era próprio... Mas o texto continua dizendo que foi justamente por isso que Ele Se tornou o Senhor do universo, de todo o cosmos. «Por isso, também Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todo o nome, de modo que, ao nome de Jesus, todo o joelho se dobre nos céus, na terra e nos infernos, e toda a língua confesse: Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai»... Assim, Aquele que obedeceu por livre e espontânea vontade aparece como Aquele que verdadeiramente domina; Aquele que Se rebaixou em extremo, esvaziando-Se de Si mesmo, tornou-Se precisamente por isso o Senhor do mundo... O Senhor diante do qual o universo dobra o joelho é o Cordeiro imolado que representa a existência que é puro acto, puro ser para os outros.

O poder do sacerdote

Voltando ao Salmo II, «A ressurreição de Jesus é aquele hoje esperado no Salmo. Agora Deus constituiu o seu rei, ao qual concede na realidade os povos em herança. Mas este domínio sobre os povos da terra já não tem qualquer carácter político. Este rei não destroça os povos com o seu ceptro de ferro (Sal 2, 9); Ele reina a partir da cruz, de forma totalmente nova... este rei não tem outra maneira de reinar senão através da fé e do amor. Assim, esta palavra de Deus – ‘tu és meu filho, hoje mesmo te gerei’ – agora pode ser entendida de maneira completamente nova e definitiva. A expressão ‘Filho de Deus’ separa-se da esfera política e torna-se expressão de uma união particular com Deus, que se manifesta na cruz e na ressurreição» (Bento XVI, Jesus de Nazaré).

É deste poder que o sacerdote participa. A fonte do ministério sacerdotal na Igreja é o próprio Cristo. Foi Ele que o instituiu e lhe deu autoridade e missão, orientação e finalidade. «Cristo Senhor, para apascentar e aumentar continuamente o povo de Deus, instituiu na sua Igreja vários ministérios, para bem de todo o Corpo. Com efeito, os ministros que estão dotados do poder sagrado estão ao serviço dos seus irmãos, para que todos quantos pertencem ao povo de Deus [...] alcancem a salvação» (LG, 18).

Ninguém, nenhum indivíduo ou comunidade, pode anunciar a si mesmo o Evangelho. «A fé surge da pregação» (Rom 10, 17). Por outro lado, ninguém pode dar a si próprio o mandato e a missão de anunciar o Evangelho. O enviado do Senhor fala e actua, não por autoridade própria, mas em virtude da autoridade de Cristo; não como membro da comunidade, mas falando à comunidade em nome de Cristo. Ninguém pode conferir a si mesmo a graça; ela deve ser-lhe dada e oferecida. Isto supõe ministros da graça, autorizados e habilitados em nome de Cristo. É d'Ele que os bispos e presbíteros recebem a missão e a faculdade (o «poder sagrado») de agir na pessoa de Cristo Cabeça... A este ministério, no qual os enviados de Cristo fazem e dão, por graça de Deus, o que por si mesmos não podem fazer nem dar, a tradição da Igreja chama «sacramento». O ministério da Igreja é conferido por um sacramento próprio (cf. CEC, 874-875).

O poder como serviço

Intrinsecamente ligado à natureza sacramental do ministério eclesial está o seu carácter de serviço. Com efeito, inteiramente dependentes de Cristo, que lhes dá missão e autoridade, os ministros são verdadeiramente «servos de Cristo» (cf Rom 1, 1), à imagem do mesmo Cristo que por nós livremente tomou «a forma de servo» (Flp 2, 7). «E uma vez que a palavra e a graça, de que são ministros, não são deles, mas de Cristo que lhas confiou para os outros, eles tornar-se-ão livremente servos de todos (cf. 1 Cor 9, 19)» (CEC, 876).

Portanto este sacerdócio é ministerial. «O encargo que o Senhor confiou aos pastores do seu Povo é um verdadeiro serviço» (LG 24). «O sacramento da Ordem comunica um poder sagrado, que não é senão o de Cristo. O exercício desta autoridade deve, pois, regular-se pelo modelo de Cristo, que por amor Se fez o último e servo de todos (cf. Mc 10, 43-45)». (CEC, 1551).

Aqui radica também a dignidade-identidade do sacerdote: «O sacerdócio leva a servir a Deus num estado que, em si mesmo, não é melhor nem pior do que os outros; é diferente. Mas a vocação de sacerdote aparece revestida duma dignidade e duma grandeza que nada na terra supera. Santa Catarina de Sena põe na boca de Jesus Cristo estas palavras: não quero que diminua a reverência que se deve professar aos sacerdotes, porque a reverência e o respeito que se lhes manifesta, não se dirige a eles, mas a Mim, em virtude do Sangue que lhes dei para que o administrem... Alguns afadigam-se à procura, como dizem, da identidade do sacerdote. Que claras resultam estas palavras da Santa de Sena! Qual é a identidade do sacerdote? A de Cristo. Todos os cristãos podem e devem ser, não já alter Christus, mas ipse Christus: outros Cristos, o próprio Cristo! Mas no sacerdote isto dá-se imediatamente, de forma sacramental» (S. Josemaria, Sacerdotes para a Eternidade, 38).

«Só nós temos esse admirável poder de consagrar, de tornar presente o Gólgota da Redenção, em dado momento da história, e num determinado espaço do universo. Só nós temos esse admirável poder de perdoar os pecados, personificando deste modo o próprio Jesus Cristo, pois só Deus pode perdoar os pecados» (D. Alberto Cosme do Amaral, 31-III-88).

O Ano sacerdotal

Voltemos ao mandato apostólico. Dizia o Santo Padre, que esse mandato «é constitutivo: ‘Ide, pois, pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a todas as criaturas’ (Mc 16, 15). Como sabemos, este mandato não é um simples encargo confiado a colaboradores; as suas raízes são ainda mais profundas e devem ser procuradas muito mais longe. A dimensão missionária do presbítero nasce da sua configuração sacramental com Cristo Cabeça: ela traz consigo, como consequência, uma adesão cordial e total àquela que a tradição eclesial reconheceu como a apostolica vivendi forma. Ela consiste na participação numa 'vida nova', espiritualmente entendida, naquele 'novo estilo de vida' que foi inaugurado pelo Senhor Jesus e foi feito próprio pelos Apóstolos (...) Precisamente em vista de favorecer esta tensão dos sacerdotes para a perfeição espiritual da qual sobretudo depende a eficácia do seu ministério, decidi proclamar um especial ‘Ano sacerdotal’, que irá de 19 de Junho próximo ao dia 19 de Junho de 2010» (Bento XVI, Discurso à Assembleia Plenária da SC do Clero, 16-III-09).

O Santo Padre concedeu durante esse ano a possibilidade de obter indulgências plenárias aos «sacerdotes que se empenhem com orações e boas obras, em obter do Sumo e Eterno Sacerdote Cristo, a graça de resplandecer com a Fé, a Esperança, a Caridade e outras virtudes, e mostrem com o comportamento de vida, mas também com o aspecto exterior, que estão a dedicar-se plenamente ao bem espiritual do povo... e que devotamente recitarem pelo menos as Laudes matutinas ou as Vésperas diante do Santíssimo Sacramento, exposto à pública adoração ou reposto no tabernáculo e, a exemplo de São João Maria Vianney, se oferecerem com ânimo pronto e generoso à celebração dos sacramentos, sobretudo da Confissão» (cf. Decreto da Penitenciaria Apostólica).

«Eu peço a Deus Nosso Senhor que nos dê, a todos os sacerdotes, a graça de realizar santamente as coisas santas, e de reflectir também na nossa vida as maravilhas das grandezas do Senhor. Nós, que celebramos os mistérios da Paixão do Senhor, temos de imitar o que fazemos. E então a hóstia ocupará o nosso lugar diante de Deus, se nós mesmos nos fizermos hóstias» (S. Josemaria, Sacerdotes para a Eternidade, 39).

Eucaristia, Sacerdócio e a Virgem Maria

«Como podemos nós esquecer que aquele Corpo entregue e aquele Sangue derramado são ‘fruto do ventre sagrado da Virgem Puríssima Santa Maria’?... Nazaré aponta o Gólgota, e este projecta-se no Altar...»

«Quando Jesus disse: ‘Mulher, eis o teu filho’ e ao discípulo, ‘Eis a tua mãe’, era o sacerdote João que estava em causa, era cada um de nós! Cada homem sem dúvida, mas cada sacerdote, por um título único e inconfundível: o da ordenação sacerdotal... A partir daquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa. Nós temos de executar, como João, o testamento de Jesus, que no momento de morrer nos entregou a Sua Mãe» (D. Alberto Cosme do Amaral, 31-III-88).

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial