TEMAS LITÚRGICOS

O RECEPTÁCULO DA EUCARISTIA

 

O tabernáculo e sua história

 

2ª parte,

(continuação do número anterior)

 

 

Mauro Piacenza

 

O tabernáculo sobre a mesa do altar

A última fase histórica da evolução do tabernáculo, como receptáculo eucarístico que passa a localizar-se sobre a mesa do altar, acontecerá no início do século XVI. O pioneiro dessa solução, na Itália, foi o piedoso bispo de Verona dom Matteo Giberti, que desejou empregá-la nas igrejas de sua diocese. Para sermos precisos em relação à história, já encontramos essa disposição nas Ordinationes dos Ermitães de Santo Agostinho, redigidas sob Alexandre IV (1254-1261): «Queremos que em todas as nossas igrejas o Corpo de Cristo seja conservado num cibório posto acima do altar-mor, dentro de píxides de marfim ou de outro material precioso, em quantidade módica, recoberto por um véu limpíssimo».

 

A disposição de dom Matteo Giberti teve ressonância particularmente na alta Itália, e bem cedo se estendeu também a outras dioceses, em primeiro lugar a Milão, por obra de São Carlos Borromeu, que dispôs que se transferisse a localização do Santíssimo Sacramento da sacristia para um altar do «Domo». Em Roma, essa iniciativa foi apoiada pelo papa Paulo IV. Em 1614, o Ritual de Paulo V impunha-a às igrejas da sua diocese, recomendando que fosse adoptada também nas outras. Fora da Itália, vários concílios deixaram à livre escolha o lugar onde se guardava o Santíssimo Sacramento; preferiu-se, em geral, usar tabernáculos de parede e, onde existiam, edículas eucarísticas.

 

Como se sabe, foram esses os anos da aplicação das normas do Concílio de Trento (1545-1563), que, neste caso, reagia contra a doutrina protestante que negava a permanência da presença real de Cristo nas espécies eucarísticas. Deve-se à exigência de afirmar a doutrina católica a difusão do posicionamento do tabernáculo, bem visível, sobre o altar-mor. A forma mais comum era a pequena casa, incorporada à parte elevada do altar, Ladeada por degraus (habitualmente dispostos em três níveis) sobre os quais eram postos castiçais para se acenderem círios, às vezes numerosos, sobretudo por ocasião das exposições eucarísticas solenes. Assim, a mesa tornou-se, visivelmente, quase uma parte menor do altar, cada vez mais monumental, no qual se deu grande desenvolvimento artístico a cruzes, castiçais, bustos-relicários ou imagens de santos e de anjos, grandes retábulos, etc. No século XVIII, as obras mais apreciadas eram as portinholas dos tabernáculos, em metais e pedras preciosas.

 

Perto da metade do século XVIII, o posicionamento do tabernáculo no altar já era prática comum em quase todas as igrejas, pelo que Bento XIV, na sua constituição Accepimus (16 de Julho de 1746), o declarava «disciplina vigente». Foi acolhido universalmente depois do decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, de 16 de Agosto de 1863, que proibia qualquer outra forma de receptáculo.

A disciplina actual

A disciplina actual acerca do lugar em que se deve conservar a Santíssima Eucaristia é fruto da renovação litúrgica realizada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II.

 

Na maior parte das nossas igrejas, por conhecidas razões históricas, o elemento central dominante no próprio altar foi, durante cerca de quatro séculos, o tabernáculo eucarístico. A adequação litúrgica das igrejas existentes, com o fim de exaltar o primado da celebração eucarística e, portanto, a centralidade do altar, deve reconhecer também a função específica da reserva eucarística. Considera-se necessário, portanto, que, por ocasião de eventuais reformas do edifício, seja dedicada particular atenção ao «lugar» e às características da reserva eucarística. Neste caso, o próprio facto de reservar um lugar para a conservação da Eucaristia deve ser entendido de modo a permitir que se sublinhe ainda mais o mistério da permanência da presença real e que se criem as condições para a sua adoração.

 

A localização e eventual edificação de um novo receptáculo eucarístico deverão facilitar a sua identificação e acesso directo, num ambiente de recolhimento que favoreça a adoração pessoal. Quando a capela eucarística não puder ser vista imediatamente da entrada, deve pensar-se em indicações oportunas que, de maneira clara e com bom gosto, guiem até ela. Na capela, como também no espaço para a celebração, nunca poderão faltar bancos adequados, com genuflexório, para que seja natural a possibilidade de adorar de joelhos. Até mesmo isto deve ser dito e realizado, na medida em que não param de insinuar-se práticas que têm como finalidade tornar bem árduo o gesto de rezar de joelhos. Até o sinal vem sendo eliminado. Por detrás de tudo isso há um atentado à fé na presença real. Como não intuí-lo?

 

Em todo o caso, deve lembrar-se que em qualquer igreja o tabernáculo para a reserva e para a adoração eucarística deve ser único.

 

O Santíssimo Sacramento deve ser conservado num lugar arquitectónico realmente importante, normalmente distinto da nave da igreja, apropriado à adoração e à oração, sobretudo pessoal, nobremente ornado e adequadamente iluminado.

 

O tabernáculo, além de ser único, deve ser também inamovível, sólido, inviolável e não transparente. Não deixe de pôr-se a seu lado o lugar para uma lâmpada perene, como sinal de adoração prestada ao Senhor. O conopéu e a decoração com flores também ajudam, sempre que necessário, a fazer com que se perceba a vida que pulsa dentro desse receptáculo.

 

Como alternativa à capela eucarística, que é a solução recomendada, pode considerar-se idónea uma solução que identifique um espaço dentro da nave da igreja (por exemplo, uma capela lateral de tamanho suficiente), que possa ser adaptado com dignidade, decoro e funcionalidade à oração e à adoração, e seja evidenciado de maneira oportuna (cf. Instrução geral do Missal Romano, Roma, 2004, nn. 314-317).

 

Talvez não seja inadequado mencionar neste momento os vasos sagrados destinados a acolher o Corpo e o Sangue do Senhor durante a missa (cálice, patena) e durante a adoração eucarística (ostensório). Recentemente, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos publicou uma instrução «sobre algumas coisas que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia», na qual fala também dos vasos sagrados, lembrando que devem ser feitos com materiais considerados nobres, de acordo com as várias regiões, e evitar vasos de uso comum ou sem qualquer valor artístico (citando cestinhos, vasos de vidro, barro, argila ou outro material frágil), e isso para que «com o seu uso se preste homenagem ao Senhor e se evite completamente o risco de diminuir aos olhos dos fiéis a doutrina da presença real de Cristo nas espécies eucarísticas» (Redemptionis sacramentum, 24 de Abril de 2004, n. 117).

 

In Boletim de Pastoral Litúrgica nº 129, referente a Janeiro-Março de 2008, pgs 9-16. Publicamos por gentileza da sua direcção.

 

 


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