A PALAVRA DO PAPA

UM ANO SACERDOTAL

 

Caros irmãos e irmãs

 

Na sexta-feira passada, 19 de Junho, solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus e Dia tradicionalmente dedicado à oração pela santificação dos sacerdotes, tive a alegria de inaugurar o Ano sacerdotal, proclamado por ocasião do 150.º aniversário do «nascimento para o Céu» do Cura d'Ars, São João Baptista Maria Vianney. Entrando na Basílica do Vaticano para a celebração das Vésperas, quase como primeiro gesto simbólico, detive-me na Capela do Coro para venerar a relíquia deste santo Pastor de almas: o seu coração. Por que motivo um Ano sacerdotal? Por que precisamente na recordação do Santo Cura d'Ars que, aparentemente, nada realizou de extraordinário?

A Providência Divina fez com que a sua figura ficasse ao lado da de São Paulo. Com efeito, enquanto está prestes a terminar o Ano Paulino, dedicado ao Apóstolo das nações, modelo de evangelizador extraordinário que realizou diversas viagens missionárias para difundir o Evangelho, este novo Ano jubilar convida-nos a olhar para um pobre camponês que se tornou um humilde pároco, que realizou o seu serviço pastoral num pequeno povoado. Se os dois Santos diferem muito pelos percursos de vida que os caracterizaram – um passou de região em região para anunciar o Evangelho, o outro recebeu milhares e milhares de fiéis, permanecendo sempre na sua pequena paróquia –, contudo existe algo de fundamental que os irmana: é a sua identificação total com o próprio ministério, a sua comunhão com Cristo, que levava São Paulo a dizer: «Estou crucificado com Cristo! Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim» (Gal 2, 19-20). E São João Maria Vianney gostava de repetir: «Se tivéssemos fé, veríamos Deus escondido no sacerdote como uma luz por detrás do vidro, como o vinho misturado com a água». A finalidade deste Ano Sacerdotal – como escrevi na Carta enviada aos sacerdotes para esta ocasião – é, portanto, favorecer a tensão de todo o presbítero «para a perfeição espiritual da qual depende sobretudo a eficácia do seu ministério», e ajudar em primeiro lugar os sacerdotes, e com eles todo o Povo de Deus, a redescobrirem e revigorarem a consciência do extraordinário e indispensável dom de Graça que o ministério ordenado representa para quem o recebeu, para toda a Igreja e para o mundo, que sem a presença real de Cristo se teria perdido.

Duas concepções do sacerdócio

Indubitavelmente, mudaram as condições histórias e sociais em que veio a encontrar-se o Cura d'Ars, e é justo perguntar-se como podem os sacerdotes imitá-lo na identificação com o seu próprio ministério nas actuais sociedades globalizadas. Num mundo em que a visão comum da vida compreende cada vez menos o sagrado, em cujo lugar a «funcionalidade» se torna a única categoria decisiva, a concepção católica do sacerdócio poderia correr o risco de perder a sua consideração natural, por vezes também no interior da consciência eclesial. Não raro, quer nos ambientes teológicos, quer também na concreta prática pastoral e de formação do clero, confrontam-se – e por vezes se opõem – duas diferentes concepções do sacerdócio. A este propósito, salientei há alguns anos que existem, «por um lado, uma concepção social-funcional que define a essência do sacerdócio com o conceito de ‘serviço’: o serviço à comunidade, no cumprimento de uma função... Por outro lado, existe a concepção sacramental-ontológica que, naturalmente, não nega o carácter de serviço do sacerdócio, mas o vê ancorado no ser do ministro e considera que este ser é determinado por um dom concedido pelo Senhor através da mediação da Igreja, cujo nome é sacramento» (J. Ratzinger, Ministero e vita del Sacerdote, em Elementi di Teologia fondamentale. Saggio su fede e ministero, Bréscia 2005, pág. 165). Também o deslizamento terminológico da palavra «sacerdócio» para as de «serviço, ministério, encargo», é sinal desta diferente concepção. Além disso, à concepção ontológico-sacramental, está ligado o primado da Eucaristia, no binómio «sacerdócio-sacrifício», enquanto à outra corresponde o primado da palavra e do serviço do anúncio.

Bem vistas as coisas, não se trata de duas concepções opostas, e a tensão que contudo existe entre elas deve ser resolvida a partir de dentro. Assim, o Decreto Presbyterorum ordinis, do Concílio Vaticano II, afirma: «É precisamente pelo anúncio apostólico do Evangelho que o Povo de Deus é convocado e congregado, de modo que todos... possam oferecer-se a si mesmos como «hóstia viva, santa e agradável a Deus» (Rom 12, 1). E é precisamente pelo ministério dos presbíteros que o sacrifício espiritual dos fiéis se torna perfeito, em união com o sacrifício de Cristo, único Mediador. Com efeito, este sacrifício, pela mão dos presbíteros e em nome de toda a Igreja, é oferecido na Eucaristia de modo incruento e sacramental, até ao dia da vinda do Senhor» (n. 2).

Anúncio e sacrifício

Então, interroguemo-nos: «O que significa propriamente, para os sacerdotes, evangelizar? Em que consiste o chamado primado do anúncio?». Jesus fala do anúncio do Reino de Deus como da verdadeira finalidade da sua vinda ao mundo e o seu anúncio não é apenas um «discurso». Inclui, ao mesmo tempo, o seu próprio agir: os sinais e os milagres que realiza indicam que o Reino chega ao mundo como uma realidade presente, que em última análise coincide com a sua própria pessoa. Neste sentido, é necessário recordar que, também no primado do anúncio, palavra e sinal são indivisíveis. A pregação cristã não proclama «palavras», mas a Palavra, e o anúncio coincide com a própria pessoa de Cristo, ontologicamente aberta à relação com o Pai e obediente à sua vontade. Portanto, um autêntico serviço à Palavra exige da parte do sacerdote que tenda para uma aprofundada abnegação de si mesmo, a ponto de dizer com o Apóstolo: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim». O presbítero não pode considerar-se «senhor» da palavra, mas servo. Ele não é a palavra, mas – como proclamava João Baptista, cuja Natividade celebramos precisamente hoje – é «voz» da Palavra: «Voz que brada no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas» (Mc 1, 3).

Pois bem, ser «voz» da Palavra não constitui para o sacerdote um mero aspecto funcional. Pelo contrário, pressupõe um substancial «perder-se» em Cristo, participando no seu mistério de morte e de ressurreição com todo o próprio eu: inteligência, liberdade, vontade e oferta do próprio corpo, como sacrifício vivo (cf. Rom 12, 1-2). Somente a participação no sacrifício de Cristo, na sua kénosi, torna autêntico o anúncio! E este é o caminho que deve percorrer com Cristo para chegar a dizer ao Pai, juntamente com Ele: «não se faça o que Eu quero, mas o que tu queres» (Mc 14, 36). Então, o anúncio requer sempre também o sacrifício de si, condição para que o anúncio seja autêntico e eficaz.

Alter Christus, o sacerdote está profundamente unido ao Verbo do Pai que, encarnando, assumiu a forma de servo, se tornou servo (cf. Flp 2, 5-11). O sacerdote é servo de Cristo, no sentido de que a sua existência, configurada com Cristo ontologicamente, assume um carácter essencialmente de relação: ele está em Cristo, por Cristo e com Cristo ao serviço dos homens. Precisamente porque pertence a Cristo, o presbítero está radicalmente ao serviço dos homens: é ministro da sua salvação, da sua felicidade, da sua autêntica libertação, amadurecendo nesta progressiva assunção da vontade de Cristo, na oração, no «estar coração com coração» com Ele. Assim, esta é a condição imprescindível de todo o anúncio, que requer a participação na oferenda sacramental da Eucaristia e a obediência dócil à Igreja.

Com as lágrimas nos olhos, o Santo Cura d'Ars repetia com frequência: «Como é assustador ser sacerdote!». E acrescentava: «Como é lastimável um sacerdote que celebra a Missa como se fosse um facto ordinário! Como é desgraçado um sacerdote sem vida interior!». Possa o Ano Sacerdotal levar todos os presbíteros a identificarem-se totalmente com Jesus crucificado e ressuscitado para que, à imitação de São João Baptista, estejam prontos a «diminuir» a fim de que Ele cresça; para que, seguindo o exemplo do Cura d'Ars, sintam de maneira constante e profunda a responsabilidade da sua missão, que é sinal e presença da misericórdia infinita de Deus. Confiemos a Nossa Senhora, Mãe da Igreja, o Ano sacerdotal há pouco iniciado e todos os sacerdotes do mundo.

 

 

 

 

 


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