DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

VIAGEM APOSTÓLICA AOS CAMARÕES E ANGOLA

 

De 17 a 23 de Março passado, Bento XVI realizou a sua Viagem Apostólica aos Camarões e a Angola, que ficou marcada pela polémica acerca do preservativo e a SIDA e pelo drama da morte de duas raparigas no encontro com os jovens.

Damos a seguir o comentário que o próprio Papa fez na audiência geral da quarta-feira, 1-IV-09.

Subtítulos da Redacção de CL.

 

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Como anunciei no Angelus do domingo passado, hoje detenho-me a falar da recente Viagem Apostólica à África, a primeira do meu pontificado àquele continente. Ela limitou-se aos Camarões e Angola, mas idealmente com a minha visita eu quis abraçar todos os povos africanos e abençoá-los no nome do Senhor. Experimentei o tradicional caloroso acolhimento africano, que me foi dedicado em toda a parte, e aproveito de bom grado esta ocasião para expressar de novo a minha profunda gratidão aos Episcopados dos dois países, aos Chefes de Estado, a todas as Autoridades e a quantos de vários modos se prodigalizaram pelo sucesso desta minha visita pastoral.

A evangelização da África

A minha permanência em terra africana começou a 17 de Março em Yaoundé, capital dos Camarões, onde me encontrei imediatamente no coração da África, e não só geograficamente. De facto, este País resume muitas características daquele grande continente, a primeira de todas a sua alma profundamente religiosa, que irmana todos os numerosíssimos grupos étnicos que o povoam. Nos Camarões, mais de um quarto dos habitantes são católicos, e convivem pacificamente com as outras comunidades religiosas. Por isso o meu amado Predecessor João Paulo II, em 1995, escolheu a capital desta nação para promulgar a Exortação Apostólica Ecclesia in Africa, depois da primeira Assembleia sinodal dedicada precisamente ao continente africano. Desta vez, o Papa voltou lá para entregar o Instrumentum laboris da segunda Assembleia sinodal para a África, programada para Roma no próximo mês de Outubro e que terá como tema: «A Igreja em África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz: 'Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo' (Mt 5, 13-14)».

Nos encontros que, no intervalo de dois dias, tive com os Episcopados, respectivamente dos Camarões e de Angola e São Tomé e Príncipe, quis – mais ainda neste Ano Paulino – recordar a urgência da evangelização, que compete em primeiro lugar precisamente aos Bispos, ressaltando a dimensão colegial, fundada na comunhão sacramental. Exortei-os a ser sempre exemplo para os seus sacerdotes e para todos os fiéis, e a seguir atentamente a formação dos seminaristas, que graças a Deus são numerosos, e dos catequistas, que se tornam cada vez mais necessários para a vida da Igreja em África. Encorajei os Bispos a promover a pastoral do matrimónio e da família, da liturgia e da cultura, também para fazer com que os leigos sejam capazes de resistir ao ataque das seitas e dos grupos esotéricos. Quis confirmá-los com afecto na prática da caridade e na defesa dos direitos dos pobres.

Penso depois na solene celebração das Vésperas realizada em Yaoundé, na igreja de Maria Rainha dos Apóstolos, Padroeira dos Camarões, um templo grande e moderno, situado no lugar onde começou a obra dos primeiros evangelizadores dos Camarões, os Missionários Espiritanos. Na vigília da solenidade de São José, a cujos cuidados solícitos Deus confiou os seus tesouros mais preciosos, Maria e Jesus, glorificámos o único Pai que está nos céus, juntamente com os representantes das outras Igrejas e Comunidades eclesiais. Contemplando a figura espiritual de São José, que consagrou a sua existência a Cristo e à Virgem Maria, convidei os sacerdotes, as pessoas consagradas e os membros dos movimentos eclesiais a permanecerem sempre fiéis à sua vocação, vivendo na presença de Deus e na obediência jubilosa à sua Palavra.

Na Nunciatura Apostólica de Yaoundé tive a oportunidade de me encontrar também com os representantes da comunidade muçulmana nos Camarões, reafirmando a importância do diálogo inter-religioso e da colaboração entre cristãos e muçulmanos para ajudar o mundo a abrir-se a Deus. Foi um encontro deveras muito cordial.

A próxima Assembleia sinodal

Certamente um dos momentos culminantes da viagem foi a entrega do Instrumentum laboris da II Assembleia sinodal para a África, realizada a 19 de Março – dia de São José e meu onomástico – no estádio de Yaoundé, no final da solene Celebração eucarística em honra de São José. Isto aconteceu no conjunto do povo de Deus, «entre cânticos de alegria e de louvor de uma multidão em festa» – como diz o Salmo (42, 5), do qual fizemos uma experiência concreta. A Assembleia sinodal terá lugar em Roma, mas num certo sentido já teve início no coração do continente africano, no coração da família cristã que lá vive, sofre e espera. Por isso pareceu-me positiva a coincidência da publicação do «Instrumento de trabalho» com a festa de São José, modelo de fé e de esperança como o primeiro patriarca Abraão. A fé no «Deus próximo», que em Jesus nos mostrou o seu rosto de amor, é a garantia de uma esperança de confiança, para a África e para o mundo inteiro, garantia de um futuro de reconciliação, de justiça e de paz.

Depois da solene assembleia litúrgica e da jubilosa apresentação do Documento de trabalho, na Nunciatura Apostólica de Yaoundé pude encontrar-me com os Membros do Conselho Especial para a África do Sínodo dos Bispos e viver com eles um momento de comunhão intensa: reflectimos juntos sobre a história da África numa perspectiva teológica e pastoral. Era quase como uma primeira reunião do próprio Sínodo, num debate fraterno entre os diversos episcopados e o Papa sobre as perspectivas do Sínodo da reconciliação e da paz em África. De facto, o cristianismo – e isto podia-se ver – desde as origens lançou raízes profundas no solo africano, como confirmam os numerosos mártires e santos, pastores, doutores e catequistas que floresceram inicialmente no norte e depois, em épocas sucessivas, no resto do continente: pensamos em Cipriano, em Agostinho, na mãe Mónica, em Atanásio; e depois nos mártires de Uganda, em Josefina Bakhita e em muitos outros. Na época actual, que vê a África empenhada a consolidar a independência política e a construção das identidades nacionais num contexto já globalizado, a Igreja acompanha os africanos recordando a grande mensagem do Concílio Vaticano II, aplicado mediante a primeira e, agora, a segunda Assembleia sinodal especial. No meio de conflitos infelizmente numerosos e dramáticos que ainda afligem diversas regiões daquele continente, a Igreja sabe que deve ser sinal e instrumento de unidade e de reconciliação, para que toda a África possa construir junto um futuro de justiça, de solidariedade e de paz, concretizando os ensinamentos do Evangelho.

Um sinal forte da acção humanizadora da mensagem de Cristo é sem dúvida o Centro Cardeal Léger de Yaoundé, destinado à reabilitação das pessoas portadoras de deficiência. O seu fundador foi o Cardeal canadiano Paul Emil Léger, que ali se quis retirar depois do Concílio, em 1968, para trabalhar entre os pobres. Naquele Centro, posteriormente cedido ao Estado, encontrei numerosos irmãos e irmãs que enfrentam situações de sofrimento, partilhando com eles – mas também recebendo deles – a esperança que provém da fé, até em situações de sofrimento.

A favor da paz em Angola

A segunda etapa – e segunda parte da minha viagem – foi Angola, País que, sob certos aspectos, também é emblemático: com efeito, tendo saído de uma longa guerra interna, está agora empenhado na obra de reconciliação e de reconstrução nacional. Mas como poderiam ser autênticas esta reconciliação e reconstrução se fossem realizadas em desvantagem dos mais pobres, que têm direito como todos a participar dos recursos da sua terra? Eis por que, com esta minha visita, cujo primeiro objectivo foi obviamente confirmar na fé a Igreja, pretendi também encorajar o processo social em acção. Em Angola é palpável o que, várias vezes, os meus venerados Predecessores repetiram: tudo está perdido com a guerra, tudo pode renascer com a paz. Mas, para reconstruir uma nação, há necessidade de grandes energias morais. E aqui, mais uma vez, se manifesta a importância do papel da Igreja, chamada a desempenhar uma função educativa, trabalhando em profundidade para renovar e formar as consciências.

O Padroeiro da cidade de Luanda, capital de Angola, é São Paulo: por isso, escolhi celebrar a Eucaristia com os sacerdotes, os seminaristas, os religiosos, os catequistas e os agentes pastorais, no sábado 21 de Março, na igreja dedicada ao Apóstolo. Mais uma vez a experiência pessoal de São Paulo nos falou do encontro com Cristo Ressuscitado, capaz de transformar as pessoas e a sociedade. Mudam os contextos históricos – e é preciso ter isso em consideração –, mas Cristo permanece a verdadeira força de renovação radical do homem e da comunidade humana. Portanto, voltar para Deus, converter-se a Cristo, significa ir em frente, rumo à plenitude da vida.

Para expressar a proximidade da Igreja aos esforços de reconstrução de Angola e de muitas outras regiões africanas, em Luanda quis dedicar dois encontros especiais respectivamente aos jovens e às mulheres. Com os jovens, no estádio, foi uma festa de alegria e de esperança, infelizmente entristecida pela morte de duas jovens, que foram esmagadas no atropelo da entrada. A África é um continente muito jovem, mas demasiados dos seus filhos, crianças e adolescentes, já sofreram graves feridas, que só Jesus Cristo, o Crucificado-Ressuscitado, pode curar infundindo neles, com o seu Espírito, a força de amar e de se empenhar pela justiça e pela paz. Depois, prestei homenagem às mulheres pelo serviço que tantas delas oferecem à fé, à dignidade humana, à vida e à família. Reafirmei o seu pleno direito a empenharem-se na vida pública, sem que seja diminuído contudo o seu papel na família, missão fundamental que deve ser desempenhada sempre em partilha responsável com todos os outros elementos da sociedade e sobretudo com os maridos e pais. Eis portanto a mensagem que transmiti às novas gerações e ao mundo feminino, fazendo-a extensiva depois a todos na grande assembleia eucarística de domingo, 22 de Março, concelebrada com os Bispos dos Países da África Austral, com a participação de um milhão de fiéis. Se os povos africanos – disse-lhes –, como o antigo Israel, fundam a sua esperança na Palavra de Deus, ricos do seu património religioso e cultural, podem realmente construir um futuro de reconciliação e de pacificação estável para todos.

Queridos irmãos e irmãs, quantas outras considerações tenho no coração e quantas recordações me afloram à mente pensando nesta viagem! Peço-vos que deis graças ao Senhor pelas maravilhas que Ele realizou e continua a realizar na África graças à acção generosa dos missionários, dos religiosos, das religiosas, dos voluntários, dos sacerdotes, dos catequistas, em comunidades jovens cheias de entusiasmo e de fé. Peço-vos que rezeis também pelas populações africanas, que me são muito queridas, para que possam enfrentar com coragem os grandes desafios sociais, económicos e espirituais do momento presente. Confiemos tudo e todos à intercessão materna de Maria Santíssima, Rainha da África, e dos Santos e Beatos africanos.

 


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