TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

A IGREJA NA ÁFRICA ANTES DE TUDO CATÓLICA

 

 

Mons. Fortunatus Nwachukwu

Chefe Do Protocolo Da Secretaria De Estado

(Santa Sé)

 

 

Na perspectiva da segunda Assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a África, marcada para o próximo Outubro em Roma e a respeito da qual o Santo Padre foi aos Camarões entregar solenemente o «Instrumentum laboris», em 19 de Março passado, temos o gosto de transcrever o artigo publicado em «L’Osservatore Romano», ed. port., 14-III-09.

Certamente contribuirá para uma percepção mais realista da situação da Igreja neste continente e consequente acompanhamento com a oração.

 

 

Temos hoje uma certa proliferação de notícias sobre a África. Normalmente deveria ser algo positivo porque isto impede que o continente permaneça fechado no esquecimento do resto do mundo. Infelizmente, com frequência, as tais notícias sobre a África deixam muito a desejar. Por exemplo, existe uma exploração mediática do continente ou da sua miséria por parte de algumas personalidades do espectáculo e da política. Tornou-se quase uma moda fazer-se fotografar com os pobres, os doentes e os miseráveis do continente africano. Trata-se de um modo egoísta de fazer falar da África e dos africanos. E a finalidade parece ser mais promover a imagem da celebridade em questão do que atenuar os sofrimentos das populações visitadas. Destas aberrações é preciso distinguir o interesse sincero de todos os que com palavras e acções se empenham concretamente para melhorar a sorte dos africanos.

Além desta maneira egoísta de falar ou de fazer falar do continente, descobri num artigo publicado há alguns anos (cf. «Africa: le sfide per il cambiamento», em Nuntium 27, 3/2005, pp. 223-244) pelo menos outros três modos nos quais se costuma falar da África e dos africanos, representados respectivamente por três autores contemporâneos. Enquanto Kuki Gallmann (Sognavo l’Africa, Milão, Mondadori, 1993) fala do continente com amor e nostalgia, Gaston Kelman (Je suis noir et je n'aime pas le manioc, Paris, Max Milo, 2003) usa o humorismo e uma série de anedotas, contos e argúcias para enfrentar vários preconceitos que as pessoas de ascendência africana encontram fora, mas também dentro da África. Por sua vez, Stephen Smith (Négrologie: pourquoi l'Afrique meurt, Paris, Calmann-Lévy, 2003), com desprezo e pessimismo, fornece-nos uma autêntica necrologia (em oposição à «negrologia») da África contemporânea.

A Igreja na África

A linguagem da Igreja sobre a África é muito mais atenuada e realista. Faz notar os problemas do continente e empenha-se em encontrar e em aplicar soluções concretas. O interesse pela Africa não é novo para a Igreja visto que o próprio Jesus – Cabeça do Corpo que é a Igreja – se refugiou ali quando foi ameaçado de morte por parte da autoridade civil (Herodes). Aquele movimento em direcção ao continente africano se revelará precursor das três «viagens missionárias» que a Igreja realizará no decorrer dos séculos rumo à África. Em primeiro lugar, trata-se do movimento de alguns cristãos rumo ao Norte do continente depois da dispersão das primeiras comunidades a partir da Terra Santa e o consequente nascimento de uma Igreja que floresceu por mais de quinhentos anos. Depois, ocorreu a segunda visita quando os comerciantes ocidentais levaram a fé cristã, via mar, à África subsariana. Em cada uma dessas primeiras visitas, após um notável período de florescimento, a Igreja assistiu a um declínio devido às vicissitudes dos respectivos tempos. A última viagem iniciada no contexto do colonialismo – embora não identificável ou confundível com ele – nos últimos dois séculos, deu origem à Igreja hodierna na Africa.

Isto significa que no confronto com a Igreja das duas primeiras fases, a Igreja de hoje na Africa é ainda jovem e não se pode permitir cair no triunfalismo devido aos grandes números quer de fiéis quer de vocações à vida religiosa e consagrada. Ao contrário, é preciso continuar a aprofundar e reforçar a fé, identificando e enfrentando os problemas que tornaram frágil e conduziram ao declínio a Igreja das duas fases anteriores. Nesta óptica foi convocada a primeira Assembleia especial para a África do Sínodo dos Bispos, realizada em Roma de 10 de Abril a 8 de Maio de 1994.

Com a convocação e a celebração daquele Sínodo, a Igreja universal reconheceu, nas palavras pronunciadas por João Paulo II em Yaoundé, que «as jovens Igrejas da África [estavam] a alcançar uma verdadeira maturidade». Com efeito, como escrevi naquela ocasião (cf. «La Chiesa d' Africa diventa adulta», em Mondo e Missione, Dezembro de 1995, pp. 10-13), «a Igreja africana é contemporaneamente jovem e «está a alcançar uma verdadeira maturidade». E assim como cada pessoa em crescimento, esta Igreja passou anteriormente através das dores e crises da desamamentação e da puberdade, e agora gradualmente através da luta para enfrentar a sua nova adolescência». Com tal passagem ocorre também a dificuldade da relação da jovem Igreja com os «seus pais», isto é, com as Igrejas mais antigas que no último século lhe ofereceram o calor vital da fé que ainda a aquece. Por um lado, não é insólito encontrar nesta jovem Igreja pessoas que olham com desconfiança para quase tudo o que provém das Igrejas mais antigas, e que gostariam de conceber a maturidade da Igreja africana em termos de capacidade para desafiar as mais antigas. Por outro lado, não são poucos os que nas antigas Igrejas olham para a Igreja africana como se estivesse num estádio ainda imaturo e incapaz de dar um contributo efectivo para questões e matérias relativas à própria essência do povo de Deus, em campo quer doutrinal quer disciplinar. Portanto, com a primeira Assembleia para a África do Sínodo dos Bispos, foi como se a Igreja universal tivesse dito: «Sim, uma jovem Igreja pode ter algo a oferecer e então escutemos a Igreja africana».

A primeira Assembleia, embora se tenha detido sobre vários pontos nevrálgicos e positivos do continente, distinguiu-se por um elemento doutrinal-eclesial, isto é, a proposta ele conceber a Igreja como «a família de Deus». Desde então várias iniciativas foram empreendidas por diversos sectores e expressões da Igreja africana para aprofundar e difundir tal conceito. Não sem dificuldade, inclusive porque o próprio conceito de família foi atacado nas últimas duas décadas por aqueles que querem destruir o conceito aceite de família com a ideia de «famílias» no plural, pretendendo com isto abranger novas configurações. Depois, os acontecimentos no continente africano demonstraram que não foi suficiente difundir um conceito de Igreja como família sem ter instrumentos mais pragmáticos para o colocar em prática. Pensemos, por exemplo, nas guerras e nos horríveis conflitos fratricidas e étnicos que afligiram diversas partes do continente desde os tempos daquele Sínodo – Ruanda, Burundi, República Democrática do Congo, Quénia e África austral. A convocação para o mês de Outubro de 2009 para a segunda Assembleia para a África do Sínodo dos Bispos apresenta-se como uma ocasião propícia para tentar ir além dos princípios e formulações doutrinais em direcção a medidas, iniciativas e disposições de aplicações concretas.

O segundo Sínodo africano

Enquanto a primeira Assembleia especial para a África do Sínodo dos Bispos enfrentou a questão da Igreja na África e da sua missão evangelizadora em vista do ano jubilar de 2000, a segunda Assembleia programada em Roma de 4 a 25 de Outubro de 2009, deter-se-á sobre o tema «A Igreja na África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz. 'Vós sais o sal da terra... Vós sois a luz do mundo' (Mt 5, 13-14)». O Instrumentum laboris do encontro será entregue pessoalmente pelo Papa Bento XVI aos presidentes das Conferências episcopais africanas, no dia 19 de Março em Yaoundé (Camarões), por ocasião da sua próxima viagem ao continente (Camarões-Angola) de 17 a 23 de Março de 2009. É lógico que na cidade de Yaoundé onde o Papa João Paulo II entregou à Igreja africana a exortação final da primeira Assembleia especial, seja entregue também o Instrumentum laboris da próxima segunda Assembleia.

Trata-se de um documento de 94 parágrafos distribuídos em cinco capítulos, mais a introdução e a conclusão. Os cinco capítulos expõem diversos aspectos dos desafios da reconciliação, da justiça e da paz, que constituem o caminho pelo qual a Igreja na África e os católicos em particular, podem chegar a ser «o sal da terra» e «a luz do mundo». O documento sintetiza não só os aspectos problemáticos da situação africana mas também os positivos.

A insistência sobre a reconciliação, a justiça e a paz é muito actual, vistos os conflitos locais e regionais, e as evidentes injustiças e violências que persistem em diversas partes do continente. Trata-se de desafios que bloquearam, para não dizer derrotaram, os esforços de diversos sectores da sociedade africana. O entusiasmo que saudou a obtenção da independência por parte das nações africanas com frequência parece ofuscado pela falência, ou quase, de vários governos, quer políticos quer militares do continente. Tal situação faz com que a atenção agora seja dirigida à Igreja, a qual não se pode permitir falhar o seu objectivo, desiludindo assim as pessoas. Inclusive porque, se se falar de falência no contexto da história recente da África, tal expressão não pode ser aplicada aos missionários: eles não faliram. Ao contrário, a sua é uma história de heroísmos e sacrifícios, às vezes diante da perspectiva de uma morte muito provável, para poder transmitir o Evangelho e os instrumentos para a sua actuação, como escolas, hospitais e instituições semelhantes. A missão de apoiar e de alimentar a luz de fé e esperança que, para a Igreja, eles acenderam em diversas partes do continente constitui um desafio para cada cristão africano.

Dos vários desafios mencionados, é preciso evidenciar o do etnocentrismo ou do tribalismo que frequentemente está subjacente aos outros males – conflitos étnicos, nepotismo e corrupção, impunidade, mediocridade e tantos outros do continente africano. Trata-se de um problema agudo e tão difundido no continente que, em diversas regiões, até a Igreja não é poupada. Há anos, num contexto diferente, tive modo de atrair a atenção sobre uma possível resposta ao problema (cf. Mondo e Missione, op. cit., p. 12). Escrevi: «A Igreja africana hoje tem urgente necessidade de algo que a ajude a superar estas tendências à divisão. Este algo poderia ser a inculturação do amor. Poderiam também ser disposições canónicas apropriadas que desestimulem as divisões étnicas e acentuem a fraternidade e a comunhão cristã...».

Num momento em que se fala muito na África da inculturação do Evangelho e, por conseguinte, do amor, não seria totalmente fora de lugar pensar em disposições que acentuem a catolicidade da Igreja acima das pertenças étnicas. Inclusive a nível das hierarquias locais. Porventura não disse Jesus que «um profeta é menosprezado só na sua pátria e na sua família» (Mt 13, 56)?

De facto, os vínculos e os sentimentos étnicos são tão profundos e às vezes exageradamente sensíveis que qualquer medida que se tome para os contornar tende a provocar fortes oposições. Mas talvez sejam precisamente estas oposições e resistências que a Igreja deveria enfrentar com a mensagem do Evangelho, se quisermos prever um futuro de reconciliação, de justiça e de paz para o continente africano.

Por conseguinte, o próximo Sínodo africano representa uma porta de esperança.

 

 

 

 


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