TEMAS LITÚRGICOS

O RECEPTÁCULO DA EUCARISTIA [1]

 

O tabernáculo e sua história

 

Mauro Piacenza

 

 

 

 

Ab assuetis non fit passio, reza um antigo ditado: «Das coisas habituais não nasce paixão»; e, para nós, é uma coisa habitual, um hábito consolidado ver o tabernáculo no centro do altar. Ele nem sempre esteve nessa posição, e ainda hoje, depois do Concílio Vaticano II, voltamos por vezes a ver o tabernáculo numa capela fora da nave principal da igreja ou, pelo menos, fora do altar-mor.

 

Parece-me útil voltar atrás, na história litúrgica, percorrendo as etapas de uma evolução que sempre esteve ligada à história do altar.

 

A existência de um único altar nas igrejas é atestada até ao século VI; em seguida, os alta-res aumentam em número, mas continua a haver um respeito absoluto pela mensa dominica, que exclui tudo o que é estranho à celebração do Santo Sacrifício. Perto do final do século IX, começa a pôr-se sobre a mesa do altar, de maneira permanente, um novo elemento muito significativo: as relíquias dos santos. Logo a seguir, acrescentam-se outros elementos, de modo, no início do século X, um importante documento, de origem galicana, conhecido pelo nome de Admonitio Synodalis, que se tornou lei geral para todas as Igrejas do Ocidente, prescreve que sobre o altar «devem colocar-se apenas as urnas dos santos (capsae), o evangeliário e a píxide com o Corpo do Senhor para a comunhão dos doentes; qualquer outra coisa deve ser posta num lugar conveniente».

 

Teremos de esperar pelo século XVI para encontrar o tabernáculo fixo sobre o altar-mor e, mais tempo ainda, para o ver colocado no centro da mesa, última fase do desenvolvimento histórico do altar. Tendo em conta a recente encíclica e a consequente instrução sobre a Eucaristia, proponho-me traçar – embora numa síntese rápida a história do receptáculo eucarístico, tanto no que diz respeito à sua posição como em relação aos vasos sagrados em que se guarda a Eucaristia.

Período das catacumbas

Sabemos com certeza, pelo testemunho unânime dos Padres dos primeiros séculos, que, durante as perseguições, os cristãos conservavam com muito amor a Eucaristia em suas casas. Terminada a celebração eucarística, distribuía-se o pão consagrado, que os fiéis guardavam dentro de pequenos vasos, ou pequenas caixas, para depois comungar quando sentiam necessidade. O arqueólogo G. B. de Rossi, referindo-se a um texto de São Cipriano e às Actas dos mártires de Nicomédia, sob Dioclesiano, chama esses pequenos vasos arca ou arcula. O cardeal Bona, em seu Rerum liturgicarum, n. 17, cita o texto das disposições publicadas por um bispo de Corinto, que permitem conhecer o rito de uma comunhão doméstica. «Se a vossa casa for dotada de um oratório, depositareis sobre o altar o vaso que contém a Eucaristia. Se faltar o oratório, coloque-se sobre uma mesa decente. Estendereis um pequeno véu sobre a mesa e lá depositareis as sagradas partículas; queimareis alguns grãos de incenso e cantareis o trisagion [o nosso Sanctus, ndr.] e o Símbolo; então, depois de terdes feito as genuflexões, em sinal de adoração, tomareis religiosamente o Corpo de Jesus Cristo». Santo Eusébio informa-nos que os sacerdotes conservavam a Eucaristia em suas casas para levar a comunhão aos doentes.

 

Por testemunhos antigos, sabemos também que a Eucaristia era levada suspensa do pescoço, quer dentro de panos feitos de linho que Santo Ambrósio chama oraria, quer em vasos de ouro, prata, marfim, madeira, e também de argila, ditos comummente encolpia. O encolpium era uma pequena caixa que continha as relíquias e também o livro dos Evangelhos, que os fiéis traziam ao pescoço por devoção. Conhecemos alguns desses encolpia encontrados nos túmulos do cemitério do Vaticano, de formato cúbico, munidos de suspensório e ornados, na parte da frente, pelo monograma de Cristo ladeado pelas letras alfa e ómega.

Época das basílicas

Quando, com a paz de Constantino, os cristãos puderam celebrar com toda a liberdade os ritos sagrados e construir lugares de culto, sabemos que, pelo que nos testemunham os Padres, bem cedo se estabeleceu a prática de conservar a Eucaristia nas próprias igrejas, ainda que, segundo Barónio, o costume de conservar a Eucaristia nas casas particulares só tenha cessado definitivamente no início do século VI. São João Crisóstomo informa-nos que, algumas vezes, se conservava a Eucaristia sob as duas espécies; e por Santo Ambrósio sabemos que, em Milão, o preciosíssimo Sangue se guardava num vaso de ouro em forma de pequeno barril, chamado dolium. A sacralidade e a preciosidade constituem uma constante. E a lógica da fé e do amor.

 

O receptáculo eucarístico, nas primeiras basílicas, teve duas formas: a torre e a pomba. Discute-se, entre os eruditos, sobre qual das duas formas surgiu primeiro, mas, com toda a probabilidade, a torre serviu de recipiente para a pomba, que continha o pão eucarístico. A hipótese é comprovada pelo material usado na sua fabricação: as torres eram de prata e as pombas de ouro. O bibliotecário Anastácio escreve no De vita Pontificum que Constantino doou à Basílica de São Pedro uma torre e uma pomba de ouro puríssimo, decorada com duzentas e cinquenta pérolas brancas; Inocêncio I mandou construir para a igreja dos Santos Gervásio e Protásio uma torre de prata e uma pomba de ouro, e o papa Hilário doou à Basílica do Latrão uma torre de prata e uma pomba de ouro. Discute-se também qual era o lugar em que se punham as torres e as pombas. Citando uma passagem das Constituições Apostólicas, que remontam ao século IV, há quem considere que fossem guardadas no pastophorium, ou seja, no lugar mais retirado e inacessível da igreja: «E, quando todos e todas tiverem comungado, os diáconos, depois de recolherem o que sobra, depô-lo-ão no pastophorium». Há quem identifique o lugar da conservação com o sacrarium. Uma passagem de São Jerónimo esclarece que se trata do mesmo lugar: «Quare 'sacrarium', in quo iacet Christi corpus, qui verus est Ecclesiae et animarum nostrarum sponsus, proprie thalamus seu 'pastophorium' appellatur». Trata-se de um local nobremente reservado, fora da nave da igreja.

 

As espécies eucarísticas eram introduzidas na pomba por uma pequena abertura em seu dorso, fechada com cuidado por uma tampa com dobradiça. As torres e as pombas eram suspensas, por pequenas correntes, no centro do cibório que cobria o altar. Deve sublinhar-se, neste sentido, que por cibório (do latim ciborium, mais tardiamente tegurium e tiburium) se deve entender o pavilhão de forma quadrada que, desde os tempos de Constantino, se eleva sobre o altar, partindo dos quatro lados, para lhe conferir elegância e sumptuosidade. Algumas vezes, sobre o cibório erguia-se um outro, de pequenas dimensões, que tinha o nome de peristerium (pombal), na medida em que guardava a pomba eucarística. As quatro cortinas que cingiam o cibório, chamadas por essa característica tetravela, continuaram a ser usadas até aos últimos anos do século IX. O cibório, na arte cristã, tem uma história particular da qual não podemos tratar neste momento. Não podemos, porém, deixar de citar, exaltando a arte barroca, o cibório de Lorenzo Bernini, que se lança majestosamente a vinte e nove metros de altura no céu da cúpula de Michelangelo. A fé eucarística faz-se arte e a arte ilustra a fé eucarística. Quanto temos de aprender! Mas essa lição não se aprende apenas durante as indispensáveis aulas de arquitectura e das várias artes que a ela estão ligadas. E indispensável a cátedra da grande teologia e a do genuflexório, da oração, da vida da graça, da pietas, da apaixonada imersão na vitalidade pascal do ano litúrgico, no grande sentido da perene traditio Ecclesiae. É preciso familiarizar-se com o horizonte da eternidade, com o qual se mede tudo o que é passageiro.

Período românico

No período românico, às duas formas já em uso – torre e pomba – acrescenta-se a píxide. Com esse nome, designa-se geralmente o vaso sagrado, de qualquer forma ou tamanho, que contém a Eucaristia. O substantivo grego, porém, tem o significado preciso de caixa, o que elimina qualquer ambiguidade do termo genérico «receptáculo», diferenciando claramente esse vaso da torre e da pomba. As pombas românicas, ao contrário das antigas, são providas de um pedestal que, algumas vezes, apresenta a borda ligeiramente realçada. Acerca do uso da pomba como lugar de reserva da eucaristia, deve sublinhar-se que, se na Idade Média isso era comum em França, mas não na Itália, onde, do século XI ao século XVI, se preferiu fazer uso de armários fixados na parede ou do secretarium, uma digna sacristia.

 

Não podemos dizer que o uso da píxide tenha suplantado o da torre e da pomba; além do mais, a píxide nada mais era que uma torre de tamanho médio. Normalmente, consistia numa caixa redonda, algumas vezes quadrada, fechada por uma tampa na maioria das vezes cónica, mas também achatada. Justamente por essas características, era de uso muito prático e também de menor custo. A píxide, algumas vezes, era ligada ao bico da pomba, como sinal evidente da presença das espécies eucarísticas em seu interior. Há também exemplos de píxides sustentadas por um pedestal, especialmente durante o século XII, donde o nome de pisside pediculata.

 

Os receptáculos eucarísticos – torres, pombas e píxides – no período românico eram suspensos sobre o altar, mas, tendo desaparecido o antigo cibório, modificou-se também a maneira de os suspender. Geralmente, fixava-se uma haste em forma de cruz no retábulo, em cuja voluta se dependurava o receptáculo. Não faltam exemplos de outras soluções, também de certo valor artístico, que demoraríamos muito a descrever.

 

No período românico, o ouro e a prata foram os materiais mais usados na fabricação dos receptáculos eucarísticos, qualquer que tenha sido a sua forma. Para decorar as píxides, utilizavam-se também pedras preciosas. Mas também se usava madeira.

Período gótico

Durante este período, a maneira de conservar o Santíssimo Sacramento apresenta diversas soluções. O receptáculo – torre, pomba ou píxide é suspenso acima do altar, envolvido por um véu. Algumas vezes, o receptáculo era posto sobre o altar, como fica claro nos Estatutos Sinodais de Liege, de 1287: «Corpus Domini in honesto loco, sub altari vel in armariolo sub clave custodiat». Normalmente, porém, o receptáculo guardava-se num pequeno armário ou edícula, escavada na parede, à direita ou à esquerda do altar.

Tinha-se o cuidado, especialmente nas igrejas de certa importância, de enfeitar a porta do pequeno armário com adornos elegantes e pinturas, emoldurando tudo com um arco agudo sustentado por pequenos pilares revestidos de arcos e encimados por setas. Procurava-se sempre decorar com pinturas tanto o interior como a porta do pequeno armário. Uma abertura circular ou em forma de trevo de três ou quatro folhas, fechada por grades, aberta na parede na altura do interior do armário, permitia aos fiéis que, de fora, adorassem em qualquer tempo o Santíssimo Sacramento. Uma lâmpada acesa diante da abertura indicava, de longe, o lugar em que se conservava o pão transubstanciado. Com o advento do século XVI, já não nos contentamos com esse ornamento, que, mesmo significativo e de certo interesse artístico, é ainda assim um modesto armário. Começam a aparecer as primeiras edículas do Sacramento, que, num primeiro momento – perto do final do século XIV –, foram característica quase exclusiva das igrejas do norte da Europa.

 

A origem dessas edículas revela-nos como o Espírito Santo guia os fiéis, e deve-se à difundida piedade popular que, na Idade Média, tinha o desejo de ver a Hóstia consagrada, tanto durante a santa missa, no momento da elevação, como fora da celebração. O culto da Eucaristia baseia-se no hábito de mostrar a hóstia, que multiplicou as exposições eucarísticas, expressão de uma fé tão cordial e simples como profunda e preciosa.

 

O mostrar a hóstia nada mais era que o culto público do Corpo do Senhor, com a Hóstia exposta à adoração dentro de um ostensório. A prática de mostrar a hóstia estava tão arraigada no povo que as medidas restritivas de alguns Sínodos não conseguiram limitá-la. De qualquer forma, pode-se indicar que a primeira festa do Corpus Christi foi celebrada pelos cónegos de Liege em 1247. O Papa Urbano IV, em 1264, estendeu-a a toda a Igreja, mas apenas em 1316 foi definitiva e providencialmente aprovada pelo papa João XXII.

 

As edículas eucarísticas foram o ponto de encontro entre a piedade popular e as disposições sinodais, na medida em que realizaram uma espécie de exposição permanente do Santíssimo Sacramento diante dos fiéis. Apresentavam-se como construções monumentais, em forma de torre, cuja altura chegava até quase à abóbada da igreja, prevalecendo o estilo ogival, dentro das quais se guardava a Hóstia consagrada num vaso transparente posto atrás de uma larga grade metálica, de modo a permitir que os fiéis contemplassem, embora só confusamente, o Sacramento.

 

(Continua no próximo nº da Celebração Litúrgica)

 

 

[1] In Boletim de Pastoral Litúrgica nº 129, referente a Janeiro-Março de 2008, pgs 9-16. Publicamos por gentileza da sua direcção.

 


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