Acontecimentos Eclesiais

DA SANTA SÉ



MENOS ATEISMO MILITANTE,

MAIS INDIFERENÇA RELIGIOSA


No início dos trabalhos da Assembleia plenária do Conselho Pontifício da Cultura, em 11 de Março passado, sobre o tema «A fé cristã na aurora do novo milénio e o desafio da falta de fé e da indiferença religiosa», afirmou-se que o ateísmo não cresce.


Segundo um estudo de âmbito mundial patrocinado pelo Conselho Pontifício, «não é verdade que o ateísmo esteja a crescer no mundo. Do ateísmo militante e organizado de outros tempos passou-se a uma situação de indiferença prática, de perda de importância da questão de Deus e de abandono da prática religiosa, sobretudo no mundo ocidental. No entanto, não se trata de abandono da crença em Deus».

Do estudo realizado resulta um mapa actualizado deste fenómeno, cujas conclusões se podem resumir assim:

- A falta de fé não está a aumentar no mundo. É um fenómeno ligado sobretudo ao mundo ocidental. Não está ligado ao mundo asiático, latino-americano ou africano, muito menos ao mundo muçulmano.

- O ateísmo militante está em retrocesso e não exerce nenhuma influência pública, excepto nos regimes em que ainda está em vigor um sistema político ateu. No entanto, observa-se o despertar de um certo laicismo militante, especialmente na Europa.

- Está em crescimento a indiferença religiosa ou ateísmo prático. Agnósticos e crentes não praticantes tendem a confundir-se num ambiente em que se vive de facto como se Deus não existisse.

- O ateísmo e a falta de fé, fenómenos tipicamente masculinos, urbanos e próprios de pessoas com um nível cultual médio-alto no passado, estendem-se hoje também às mulheres que trabalham fora de casa: entre elas, a falta de fé aumenta e alcança níveis quase iguais aos dos homens.

- Em toda a parte diminui o número de pessoas que vão regularmente à igreja. Isto não significa um aumento da falta de fé, mas a transformação da prática religiosa e do modo de crer: crer sem pertencer.

- Cresce também uma nova procura mais espiritual do que religiosa, que nem sempre coincide com o regresso às práticas religiosas tradicionais.



ATENDIMENTO DOS ENFERMOS

EM ESTADO VEGETATIVO


Os enfermos em estado vegetativo não são doentes terminais nem em coma: são pacientes cujo organismo funciona perfeitamente, mas cuja mente – desperta – não pode interferir com o ambiente que lhes rodeia.


Essas pessoas necessitam do atendimento ordinário (alimentação, hidratação e higiene) que em nada se assemelha ao «encarniçamento terapêutico», pois em boa medida coincide com os cuidados que se prestam a pessoas com regimes dietéticos especiais.

Um dos objectivos do Congresso Internacional organizado em Roma, de 17 a 20 de Março passado, pela Academia Pontifícia para a Vida e pela Federação Internacional de Médicos Católicos, foi precisamente esclarecer conceitos perante a tendência presente em alguns países de privar os enfermos em estado vegetativo dos cuidados básicos e deixá-los morrer de fome e de sede, por os considerar irrecuperáveis.

No discurso que dirigiu aos 400 participantes, João Paulo II sublinhou que o uso do adjectivo «vegetativo», embora consolidado no âmbito clínico, não é muito feliz ao referir-se a pessoas humanas. «Sinto o dever de reafirmar com vigor – disse o Papa – que o valor intrínseco e a dignidade pessoal de cada ser humano não mudam, quaisquer que sejam as circunstâncias concretas da sua vida. Um ser humano, mesmo que esteja gravemente enfermo ou impedido no exercício das funções mais altas, é e será sempre um ser humano, nunca se converterá num ‘vegetal’ ou num ‘animal’. Também os nossos irmãos que se encontram na condição clínica de ‘estado vegetativo’ conservam toda a sua dignidade humana».

O Papa insistiu em que considerações sobre a «qualidade de vida», ditadas com frequência por pressões de carácter psicológico, social e económico, não podem prevalecer ante o princípio moral segundo o qual «também a simples dúvida de estar em presença de uma pessoa viva já obriga ao seu pleno respeito e a abster-se de qualquer acção cujo fim seja antecipar a morte». Disse também que é preciso promover acções positivas neste campo, e em primeiro lugar o apoio humano, psicológico, económico e pastoral às famílias que têm um ser querido nesta terrível condição clínica.



PARA BREVE O COMPÊNDIO

DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA


A redacção do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica está a chegar ao termo e será em forma dialógica.


Terminou a consulta a todos os Cardeais e Presidentes das Conferências Episcopais do projecto de Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, preparado por uma Comissão especial, de acordo com o que o Santo Padre incumbira ao Cardeal Joseph Ratzinger, em 2 de Fevereiro de 2003.

O Compêndio pretende ser fiel ao Catecismo da Igreja Católica, tanto na estrutura como na articulação dos conteúdos, como também na linguagem: não será um novo Compêndio da fé católica, mas um Compêndio do Catecismo da Igreja Católica.

O projecto actual tem de extensão uma sétima parte do Catecismo e está redigido em forma dialógica, com perguntas e respostas sintéticas. Preferiu-se este género literário, por parecer que convida mais à leitura, instaurando um diálogo ideal entre o texto e o leitor.

No fim do texto encontram-se como apêndice, algumas orações principais e comuns do cristão e algumas fórmulas da doutrina católica.



UMA MULHER À FRENTE

DE UM ÓRGÃO DA SANTA SÉ


Mary Ann Glendon, catedrática de Direito na Universidade de Harvard, foi pelo Papa nomeada Presidente da Academia Pontifícia das Ciências Sociais, órgão consultivo para promover o estudo e o progresso das ciências sociais, económicas, políticas e jurídicas à luz da doutrina social da Igreja.


A Prof. Glendon, de 65 anos, era já membro desta Academia desde 1994. Casada e com três filhas, tornou-se muito conhecida por ser a primeira mulher a presidir uma delegação da Santa Sé, enviada à Conferência da ONU sobre a Mulher, em Pekim (1995).

Outras duas mulheres, Bárbara Hallensleben, da Universidade de Friburgo (Suíça), e a religiosa Sara Butler, da Universidade de Santa Maria do Lago (Chicago, EUA), foram nomeadas membros da Comissão Teológica Internacional, outro importante órgão consultivo da Santa Sé, presidido pelo Cardeal Joseph Ratzinger.

«Não foram escolhidas por serem mulheres, mas por serem competentes», comentou o Cardeal Georges Cottier, que acrescentou: «As mulheres podem trazer a sua própria sensibilidade a certos problemas».



ACOLHIMENTO DOS IMIGRANTES:

NOVA INSTRUÇÃO


A Instrução «Erga migrantes caritas Christi» (A caridade de Cristo para com os migrantes), de 14 de Maio passado, convida a colher dignamente esta categoria de pessoas, a respeitar os seus direitos e a superar os receios e insegurança.


O fenómeno das migrações envolve actualmente cerca de duzentos milhões de pessoas, e constitui um problema cada vez mais complexo do ponto de vista social, cultural, político, religioso, económico e pastoral.

A Instrução, depois de uma rápida resenha de algumas causas do actual fenómeno migratório (o evento da globalização, a mudança demográfica em acto sobretudo nos países de primeira industrialização, o crescimento das desigualdades entre Norte e Sul do mundo, a proliferação de conflitos e guerras civis), sublinha os fortes abalos que geralmente a emigração causa nos indivíduos, em particular nas mulheres e nas crianças, como também nas famílias.

O documento assinala que os imigrantes não podem ser considerados como mercadoria ou mera força de trabalho. Todos gozam de direitos fundamentais inalienáveis, que devem ser respeitados em qualquer situação. Os cristãos, portanto, devem respeitar as tradições e culturas dos imigrantes.

Daí a necessidade de uma acção pastoral específica e correspondentes estruturas eclesiais, no caso dos migrantes católicos – de rito latino ou de rito oriental –, dos migrantes que pertencem a outras Igrejas ou Comunidades eclesiais, a outras religiões em geral, e ao Islão em especial.

Concretamente, a Instrução desaconselha os casamentos entre católicos e imigrantes não católicos, e especialmente entre mulheres católicas e imigrantes muçulmanos, pelas amargas experiências que se conhecem.



PRESIDENTE BUSH

RECEBIDO PELO PAPA


No passado dia 4 de Junho, João Paulo II recebeu pela terceira vez o Presidente George W. Bush.


O motivo da viagem do Presidente Bush era comemorar o 60.º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial e prestar homenagem à memória dos soldados americanos que deram a vida pelo seu país e pela liberdade da Europa. João Paulo II uniu-se a esta homenagem e recordou também que 20 anos antes se tinham estabelecido as relações diplomáticas entre a Santa Sé e os Estados Unidos, durante a presidência de Ronald Reagan.

«A sua visita a Roma – prosseguiu o Papa – tem lugar num momento de grande preocupação, porque continua a situação de grave conflitividade no Médio Oriente, quer no Iraque quer na Terra Santa. O Senhor conhece muito bem a clara posição da Santa Sé a este respeito, expressa em numerosos documentos, mediante contactos directos e indirectos, e nas muitas iniciativas diplomáticas levadas a cabo», fazendo votos para que a situação se normalize «com a participação activa da comunidade internacional e, em particular, da ONU».

Depois de agradecer a mensagem de paz, o Presidente Bush entregou a João Paulo II a Medalha Presidencial da Liberdade, dizendo antes a seguinte saudação:

«Devoto servo de Deus, Sua Santidade o Papa João Paulo II tem-se arvorado em defensor da causa dos pobres, dos fracos, dos famintos e dos marginalizados.

Ele tem defendido a dignidade singular de cada vida humana e a bondade de toda a vida.

Através da sua fé e da sua convicção moral, tem incutido coragem nos outros, a fim de que ‘não tenham medo’ de pôr fim à injustiça e à opressão.

Os seus vigorosos princípios de paz e de liberdade têm inspirado milhões de pessoas, contribuindo inclusive para a derrocada do comunismo e da tirania.

Os Estados Unidos honram este filho da Polónia, que se tornou Bispo de Roma e herói do nosso tempo.»



VIAGEM APOSTÓLICA À SUÍÇA


De 5 a 6 de Junho passado o Santo Padre realizou a sua terceira viagem à Suíça, fundamentalmente para estar no primeiro Encontro nacional dos jovens católicos.


João Paulo II já tinha estado no país em 1982 e 1984. Entretanto, o panorama religioso mudou com a imigração, e actualmente os católicos são 41 % da população, ao lado dos 33% de protestantes e dos 11% sem religião.

A uma Igreja que já superou anos de divisões internas, o Papa animou recordando que «uma grande contribuição para a causa ecuménica provém do compromisso dos católicos em viver a unidade dentro da Igreja».

Aos jovens dirigiu um chamamento falando em primeira pessoa: Levanta-te! Acolhe o convite (de Jesus) que te faz levantar!... Não tenhais medo de vos encontrardes com Jesus!...Um dia também eu tive vinte anos.... eu buscava um sentido a dar à minha vida. E encontrei-o no seguimento do Senhor Jesus....Escuta! Se tu souberes abrir o teu coração e a tua mente com disponibilidade, descobrirás a «tua vocação», ou seja, aquele projecto que, desde sempre, Deus no seu amor pensou para ti...Põe-te a caminho! Chegou a hora de agir! O Senhor caminha convosco.

A imprensa suíça que, nas anteriores viagens, tratou com particular frieza João Paulo II, não ocultava desta vez a admiração. O redactor chefe de Blick comentava: «A contradição entre a caducidade do seu corpo e a vitalidade da sua fé fascina a juventude do mundo. O Papa vive porque a sua fé é viva».

No início da sua chegada, o Presidente do Conselho Federal anunciou a decisão da Suíça de nomear um Embaixador ante a Santa Sé. A Suíça, que em 1873 rompera as relações diplomáticas com a Santa Sé, tinha apenas uma missão diplomática desde 1991. Pelo seu lado, a Santa Sé mantivera o Núncio apostólico no país.

A próxima Viagem Apostólica (104.ª) de João Paulo II está marcada para 14-15 de Agosto, uma peregrinação ao Santuário mariano de Lourdes (França), no 150.º aniversário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria.



ANO DA EUCARISTIA


Durante a Missa na solenidade do Corpo de Deus, em 10 de Junho passado, o Papa João Paulo II anunciou um especial «Ano da Eucaristia», que começará em Outubro próximo.


Durante a homilia, o Santo Padre sublinhou o papel central da Eucaristia na vida cristã e explicou que, precisamente por isso, quis dedicar-lhe a encíclica Ecclesia de Eucaristia.

O Ano da Eucaristia começará com o Congresso Eucarístico Mundial, que se celebrará de 10 a 17 de Outubro em Guadalajara (México) e terminará com a Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que terá lugar no Vaticano de 2 a 29 de Outubro de 2005 e cujo tema será a Eucaristia.

No domingo seguinte, antes da recitação do Angelus, João Paulo II explicou que o «o Ano da Eucaristia tem lugar no marco do projecto pastoral que apresentei na Carta apostólica Novo millenio ineunte, na qual convidei os fiéis a recomeçar a partir de Cristo». «Contemplando de maneira mais assídua o rosto do Verbo Encarnado, realmente presente no Sacramento, poderão praticar a arte da oração e comprometer-se nesse alto grau da vida cristã, que é condição indispensável para desenvolver de maneira eficaz a nova evangelização».



A INQUISIÇÃO:

PUBLICAÇÃO DAS ACTAS


No dia 15 de Junho passado foi apresentado no Vaticano o volume «A Inquisição», que contém as Actas do Simpósio Internacional realizado no Vaticano de 29 a 31 de Outubro de 1998, organizado pela Comissão Teológico-Histórica da Comissão Central do Grande Jubileu do Ano 2000.


Na conferência de imprensa, o Cardeal Roger Etchegaray, ex-presidente da Comissão Central, leu uma mensagem do Papa em que este afirma que o Simpósio respondia ao seu desejo de reconhecimento por parte da Igreja de formas de anti-testemunho e de escândalo havidas durante a sua história. «Na opinião pública, a imagem da Inquisição representa como que o símbolo desse anti-testetemunho e escândalo. Em que medida esta imagem é fiel à realidade? Antes de pedir perdão, é necessário ter um conhecimento exacto dos factos e reconhecer as faltas em relação às exigências evangélicas ali onde efectivamente se encontram. Esta é a razão pela qual a Comissão recorreu a historiadores cuja competência científica é universalmente reconhecida».

Com o tempo, diz João Paulo II, a Igreja guiada pelo Espírito Santo compreende melhor as exigências evangélicas. Assim, o Concílio Vaticano II exprimiu a «regra de ouro» que deve orientar a defesa da verdade: «A verdade não se impõe senão pela força da própria verdade, que penetra nas mentes suavemente e, ao mesmo tempo, com vigor» (Dignitatis humanae, 1).

Na sua mensagem, o Papa acrescentava: «A Inquisição foi abolida. Como tive ocasião de dizer aos participantes no Simpósio, os filhos da Igreja não podem deixar de considerar com espírito de arrependimento a ‘aquiescência manifestada, especialmente nalguns séculos, a métodos de intolerância e até de violência ao serviço da verdade’».

No Simpósio de 1998 tinham participado como peritos historiadores de Itália, França, Espanha, Portugal, Malta, Inglaterra, Suíça, Alemanha, Dinamarca, República Checa, Estados Unidos e Canadá. Além das conferências pronunciadas, acrescentaram-se às Actas textos preparados posteriormente por alguns dos intervenientes nas discussões.

O volume agora publicado constitui uma obra de referência para os estudos sobre a Inquisição: pelo rigor cientifico dos trabalhos, isentos de polémica ou de apologia; pela riqueza dos dados fornecidos, que permitiram rever alguns lugares comuns difundidos entre não especialistas; pela vastidão da obra, que poderá ajudar a relançar o debate sobre a questão e estimular novas investigações.



SÍNODO DOS BISPOS

SOBRE A EUCARISTIA


De 2 a 29 de Outubro de 2005 vai celebrar-se a XI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema «A Eucaristia: fonte e ápice da vida e da missão da Igreja».


O procedimento sinodal favorece a participação colegial de todos os Bispos da Igreja, estando também aberto à colaboração de instituições eclesiásticas e a todos os fiéis.

O primeiro acto significativo foi a redacção e o envio dos Lineamenta, destinado a recolher o estudo, a consulta e a resposta por parte de todas as forças vivas da Igreja. Para facilitar o debate foi redigido um Questionário. Com as respostas e observações recebidas elaborar-se-á o Instrumentum laboris a debater no Sínodo. Lineamenta e Questionário podem ver-se também no site do Vaticano, Cúria Romana, Sínodo dos Bispos.

Os Lineamenta constam de 7 capítulos: 1. Eucaristia como memorial do mistério pascal e sacramento da presença permanente de Cristo. 2. Eucaristia como sacramento da unidade e da santidade da Igreja. 3. A fé na Eucaristia fundamenta-se na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério. 4. Celebração litúrgica da Eucaristia. 5. Eucaristia como fonte do anúncio do Evangelho. 6. Eucaristia como fonte de comunhão com Cristo e com os irmãos. 7. Eucaristia como dom que santifica o cristão e o mundo.

O Questionário compreende 20 perguntas e tem a finalidade de conhecer a situação das Igrejas particulares, com os aspectos positivos e negativos a respeito da Eucaristia.


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