OPINIÃO

«LEVANTAI-VOS! VAMOS!»,

O NOVO LIVRO DO PAPA



Ferrán Blasi


No dia 18 de Maio, aniversário dos 84 anos do Santo Padre, foi apresentado em Roma o seu último livro – «Levantai-vos! Vamos!» –, no qual João Paulo II recorda e medita sobre os seus anos (1958-1978) como bispo auxiliar e arcebispo de Cracóvia. Escrito originalmente em polaco, o livro foi publicado simultaneamente em Itália, Espanha, Polónia, Alemanha e França – a que se seguirão as edições inglesa e portuguesa –, e em duas semanas tornou-se um êxito editorial.

Oferecemos aos nossos leitores o comentário publicado na revista Palabra (Madrid, Junho 2004).


Não é apenas um livro de recordações de João Paulo II. Assim se vê pelo próprio título, cheio de vigor, tomado das palavras – «Levantai-vos! Vamos!» (Mc 14-42) – de Jesus em Getsemani aos Apóstolos a quem despertava do seu sono, reforçadas com pontos de admiração. É um olhar para a frente. Muitos bispos, particularmente os que iniciam a sua missão, encontrarão nesta obra uma experiência útil, uma espécie de vademecum, para a sua vida e ministério.

O livro reflecte a relação cordial de Karol Wojtyla com as pessoas, logo desde as primeiras páginas, que relatam como lhe chegou (em 1958) a notícia da sua nomeação de bispo auxiliar de Cracóvia. Começava as suas férias na montanha com um grupo de leigos, com quem ia fazer canoagem nos lagos de Masúria, ao mesmo tempo que trocavam ideias e aprofundavam na sua formação humanística, teológica e espiritual, durante esses dias de convivência. A ideia era eficaz numa situação de falta de liberdade para realizar essas tarefas na vida citadina normal.

Com toda a espécie de pessoas estabelecerá uma relação cordial ao longo desses anos: estudantes, candidatos ao sacerdócio, sacerdotes e bispos. Num clima de confiança, procura levá-los a assumir compromissos exigentes. Pode-se descobrir a importância que Wojtyla dava à leitura e ao estudo, tanto para o exercício da função docente como para o diálogo com o mundo universitário.

Com uma ágil técnica de «flashback», recordam-se factos ou circunstâncias passadas, que têm o seu paralelo nos acontecimentos dos anos seguintes. Por exemplo, à tirania nazi sucede a dissimulada perseguição comunista. Também evoca a sua relação com o Cardeal Sapieha, durante os seus anos de estudo no seminário clandestino. A essas vicissitudes seguir-se-ão as de construir novas igrejas, no meio das dificuldades administrativas da época comunista, como foi o caso de Nova Huta.

Outras vezes passa do «flashback» para o que poderia designar-se como um «flash-forward». Isto dá-se quando, depois de recordar a relação fraternalmente colegial com os bispos do seu país e o trabalho com os leigos, de que cita alguns movimentos muito activos na Polónia (como os «Oásis»), leva o leitor para a época em que, já como Papa, manifesta a sua comunhão com todos os bispos do mundo, e menciona o Opus Dei que ele erigiu como Prelatura pessoal (também recorda a canonização de S. Josemaría Escrivá). Depois de falar dos movimentos de fiéis na Polónia, alude com apreço ao Caminho Neocatecumunal, que conheceu já em Roma, e igualmente à «Comunhão e Libertação», aos «Focolares» e a outras realidades eclesiais.

A chave do livro é a confiança que pôs, unido a todos os polacos, na Virgem de Czestochowa e a importância que tiveram as peregrinações realizadas em tempos difíceis. Essa confiança levou-o ao santuário de Guadalupe, durante a sua primeira viagem ao México, que marcou o carácter das outras visitas a todos os países, qualquer que fosse o seu regime político, onde não raramente a sua presença fez cair muros de incompreensão.

O Livro consta de seis partes, subdivididas em várias secções, que têm em conta basicamente uma ordem cronológica: «A vocação», recolhe o que se relaciona com a comunicação da sua nomeação e ordenação episcopal; «A actividade do bispo», versa sobre o seu contacto constante com os fiéis da diocese e as suas visitas pastorais; «Compromisso científico e pastoral», permite compreender o Wojtyla intelectual; «A paternidade do bispo», mostra as suas relações com os fiéis mais activos; «Colegialidade episcopal», recorda o trato com os seus companheiros, os bispos, tanto na Polónia como a nível internacional, com uma referência aos exercícios espirituais que pregou à Cúria Romana no tempo de Paulo VI; «O Senhor é a minha força», transparece o seu apreço pela santidade e contém recordações pessoais de pessoas santas que conheceu em vida, ou que canonizou como Papa. Podem-se citar Santa Faustina Kowalska e Santa Edit Stein.

Nota chamativa de «Levantai-vos! Vamos!» é, precisamente, este apreço pela santidade que o autor viu tornada realidade em pessoas de todas as condições (incluídos os bispos, especialmente co-protagonistas do livro).




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