A PALAVRA DO PAPA

O SANTO ROSÁRIO E A PALAVRA DE DEUS *

 

* Palavras finais após a recitação em comum do Santo Rosário, durante a Visita pastoral ao Pontifício Santuário de Nossa Senhora do Rosário em Pompeia (Itália), no domingo 19 de Outubro de 2008.

 

 

Venerados Irmãos

no Episcopado e no Sacerdócio,

Queridos religiosos e religiosas,

Estimados irmãos e irmãs!

 

Antes de entrar no Santuário para recitar juntamente convosco o santo Rosário, detive-me brevemente diante do túmulo do beato Bartolo Longo, e rezando perguntei-me: «De onde tirou este grande apóstolo de Maria a energia e a constância necessárias para realizar uma obra tão imponente, conhecida em todo o mundo? Não é precisamente do Rosário, por ele acolhido como um verdadeiro dom do coração de Nossa Senhora?».

Sim, foi verdadeiramente assim! Disto dá testemunho a experiência dos santos: esta popular oração mariana é um meio espiritual precioso para crescer na intimidade com Jesus, e para aprender, na escola da Virgem Santa, a realizar sempre a vontade divina. É contemplação dos mistérios de Cristo em união espiritual com Maria, como ressaltava o Servo de Deus Paulo VI na Exortação Apostólica Marialis cultus (n. 46), e como depois o meu venerado predecessor João Paulo II ilustrou amplamente na Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, que hoje idealmente entrego à Comunidade de Pompeia e a cada um de vós. Vós que viveis e trabalhais aqui em Pompeia, especialmente vós, queridos sacerdotes, religiosas, religiosos e leigos comprometidos nesta singular porção de Igreja, sois todos chamados a fazer vosso o carisma do beato Bartolo Longo e a tornar-vos, na medida e nos modos que Deus concede a cada um, autênticos apóstolos do Rosário.

Mas para ser apóstolos do Rosário, é preciso fazer experiência em primeira pessoa da beleza e da profundidade desta oração, simples e acessível a todos. É necessário antes de tudo deixar-se guiar pela mão da Virgem Maria e contemplar o rosto de Cristo: rosto gozoso, luminoso, doloroso e glorioso. Quem, como Maria e juntamente com Ela, guarda e medita assiduamente os mistérios de Jesus, assimila cada vez mais os seus sentimentos e conforma-se com Ele. Apraz-me, a este propósito, citar uma bela consideração do beato Bartolo Longo: «Como dois amigos – escreve ele ensinando –, frequentemente juntos, costumam conformar-se também nos costumes, assim nós, conversando familiarmente com Jesus e com a Virgem, ao meditar os Mistérios do Rosário, e formando juntos uma mesma vida com a Comunhão, podemos tornar-nos, na medida em que for capaz a nossa pequenez, semelhantes a eles, e aprender destes excelsos exemplos o viver humilde, pobre, escondido, paciente, perfeito» (I Quindici Sabati del Santissimo Rosario, 27.ª ed., Pompei, 1916, p. 27:  citado em Rosarium Virginis Mariae, 15).

 

O Rosário é escola de contemplação e de silêncio. À primeira vista, poderia parecer uma oração que acumula palavras, portanto dificilmente conciliável com o silêncio que é justamente recomendado para a meditação e a contemplação. Na realidade, esta repetição ritmada da Ave-Maria não perturba o silêncio interior, aliás, exige-o e alimenta-o. Analogamente a quanto acontece para os Salmos quando se reza a Liturgia das Horas, o silêncio sobressai através das palavras e das frases, não como um vazio, mas como uma presença de sentido último que transcende as próprias palavras e juntamente com elas fala ao coração. Assim, recitando as Ave-Marias, é preciso prestar atenção para que as nossas vozes não «se sobreponham» à de Deus, o qual fala sempre através do silêncio, como «o sussurrar de uma brisa leve» (1 Re 19, 12). Como é importante então cuidar este silêncio cheio de Deus, quer na recitação pessoal quer na comunitária! Mesmo quando é rezado, como hoje, por grandes assembleias e como fazeis todos os dias neste Santuário, é necessário que se sinta o Rosário como oração contemplativa, e isto não pode acontecer se falta um clima de silêncio interior.

Gostaria de acrescentar outra reflexão, relativa à Palavra de Deus no Rosário, particularmente oportuna neste período no qual está a decorrer no Vaticano o Sínodo dos Bispos sobre o tema: «A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja». Se a contemplação cristã não pode prescindir da Palavra de Deus, também o Rosário, para ser oração contemplativa, deve emergir sempre do silêncio do coração como resposta à Palavra, a exemplo de Maria. Considerando bem, o Rosário está totalmente imbuído de elementos tirados da Escritura. Há antes de mais a enunciação do mistério, feita preferivelmente, como hoje, com palavras tiradas da Bíblia. Segue-se o Pai-Nosso: dando à oração a orientação «vertical», abre o ânimo de quem recita o Rosário para a justa atitude filial, segundo o convite do Senhor: «Quando rezais dizeis: Pai...» (Lc 11, 2). A primeira parte da Ave-Maria, também ela tirada do Evangelho, faz-nos ouvir todas as vezes as palavras com que Deus se dirigiu à Virgem Maria através do Anjo, e as de bênção da prima Isabel. A segunda parte da Ave-Maria ressoa como a resposta dos filhos que, dirigindo-se suplicantes à Mãe, mais não fazem do que expressar a própria adesão ao desígnio salvífico, revelado por Deus. Assim, o pensamento de quem reza permanece sempre ancorado na Escritura e nos mistérios que nela são apresentados.

Recordando por fim que hoje celebramos o Dia Missionário Mundial, apraz-me recordar a dimensão apostólica do Rosário, uma dimensão que o beato Bartolo Longo viveu intensamente, tirando dele inspiração para empreender nesta terra tantas obras de caridade e de promoção humana e social. Além disso, ele quis este Santuário aberto ao mundo inteiro, como centro de irradiação da oração do Rosário e lugar de intercessão pela paz entre os povos. Queridos amigos, (deixo-vos) estas duas finalidades: desejo confirmar e recomendar novamente ao vosso compromisso espiritual e pastoral o apostolado da caridade e a oração pela paz. A exemplo e com o apoio do venerado Fundador, não vos canseis de trabalhar com paixão nesta parte da vinha do Senhor que Nossa Senhora mostrou preferir.

Queridos irmãos e irmãs, chegou o momento de me despedir de vós e deste bonito Santuário. Agradeço-vos o acolhimento caloroso e sobretudo as vossas orações. Agradeço ao Arcebispo-Prelado e Delegado Pontifício, aos seus colaboradores e a quantos trabalharam para preparar o melhor possível a minha visita. Devo deixar-vos, mas o meu coração permanece próximo desta terra e desta comunidade. Confio-vos a todos à Bem-Aventurada Virgem do Santo Rosário, e concedo de coração a cada um a Bênção Apostólica.

 

 



 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial