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A  VOCAÇÃO

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Há verdades tão elementares, que, entretidos em discussões académicas, somos capazes de perder de vista as suas múltiplas e às vezes longínquas mas importantes consequências. Uma delas é a da Criação. Desafiados por evolucionismos agressivos e dogmáticos, dá sempre um certo gosto intelectual demonstrar que Criação e evolução não são conceitos contraditórios, mas respostas a diferentes questões, uma de ordem metafísica e outra de carácter científico. Questões diferentes, para a primeira das quais temos a firmeza da razão e a certeza da fé; e para a s egunda, uma série de hipóteses, mais ou menos razoáveis, e essas em contínua evolução, como é próprio da ciência. Nada evolui que não exista, e, portanto, não tenha sido criado. Não nos deixemos, pois, arrastar pelo falso dilema «criacionismo-evolucionismo», que pretende equiparar problemas de tão diversa índole, e demos contínuas graças a Deus pela sua imensa bondade ao criar do nada o maravilhoso universo a que nos chamou, a nós, criaturas também, mas feitas à sua imagem e semelhança.

E não esqueçamos que nos criou desde o primeiro momento elevados à ordem sobrenatural, não destinados apenas a admirá-Lo e louvá-Lo pela sua omnipotência e o seu amor, mas a participar da sua natureza divina para sempre, como filhos queridíssimos: «Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou do alto dos céus com toda a bênção espiritual em Cristo, escolhendo-nos n’Ele, antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados a seus olhos, pelo amor; que nos predestinou para sermos seus filhos adoptivos…» (Ef 3-5).

Este assombro, que enchia o coração do Apóstolo; esta gratidão, que o fazia cantar; esta contemplação, que o iluminava; são património e dever de todos os fiéis. E, como dizia um santo do nosso tempo, se perdêssemos o assombro perante os mistérios divinos, corríamos o risco de perder a própria fé.

Vem isto a propósito do Dia Mundial das Vocações. Se não reparamos que todos somos chamados por Deus - «santificados em Jesus Cristo, chamados a ser santos» (I Cor 2) -, não penetramos na lógica da chamada «vocação». De facto, assim como nos sentimos (e somos) chamados ao trabalho, e, portanto, no dever de escolher o nosso «melhor modo» de servir a sociedade, também no domínio directamente eclesial a alternativa não está em «ter ou não ter vocação», mas em descobrir o «nosso melhor modo» de nos santificarmos e de levar a fé ao mundo. Que será, dentro das nossas capacidades e circunstâncias, o serviço mais generoso possível.

Esta consciência e sentido de responsabilidade devem estar presentes na educação desde a infância. Qualquer menino sonha com o melhor futuro possível; vai de sonho em sonho, de preferência em preferência, até encontrar o seu caminho. E nenhum pai sensato se compraz em desiludi-lo, em diminuir-lhe as aspirações, embora o ajude a contar com as exigências de cada escolha. Pelo contrário, anima-o a elevar as suas boas ambições até onde mais puder. E, se é preciso, se o jovem começa a ser atraído pelo egoísmo, a avareza, a preguiça, a luxúria… saberá corrigi-lo, lembrando-se do triste jovem rico do Evangelho, e avisando-o de que, por aí, nunca será feliz.    

 

 


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