DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

A IGREJA E O DESAFIO DA SECULARIZAÇÃO

 

Discurso do Santo Padre aos participantes na Assembleia Plenária do Conselho Pontifício para a Cultura (8-III-08).

Título e subtítulos da redacção da CL.

 

 

Senhores Cardeais,

Amados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,

Gentis Senhoras, Ilustres Senhores!

 

É-me grato receber-vos, por ocasião da Assembleia Plenária do Conselho Pontifício para a Cultura, congratulando-me pelo trabalho que estais a realizar e, em particular, pelo tema escolhido para esta Sessão: «A Igreja e o desafio da secularização». Trata-se de uma questão fundamental para o futuro da humanidade e da Igreja. A secularização, que muitas vezes se transforma em secularismo, abandonando a acepção positiva de secularidade, põe à dura prova a vida cristã dos fiéis e dos pastores, e durante os vossos trabalhos vós interpretaste-la e transformaste-la também num desafio providencial, de maneira a propor respostas convincentes às interrogações e às esperanças do homem, nosso contemporâneo.

Influência da secularização na Igreja

Agradeço ao Arcebispo Gianfranco Ravasi, há poucos meses Presidente do Conselho Pontifício, as cordiais palavras com que se fez vosso intérprete e explicou a cadência dos vossos trabalhos. Agradeço a todos vós o compromisso assumido para fazer com que a Igreja se ponha em diálogo com os movimentos culturais deste nosso tempo e assim seja conhecido cada vez mais minuciosamente o interesse que a Santa Sé nutre pelo vasto e diversificado mundo da cultura. Com efeito, hoje mais que nunca a recíproca abertura entre as culturas é um terreno privilegiado para o diálogo entre homens e mulheres comprometidos na busca de um autêntico humanismo, para além das divergências que os separam. A secularização, que se apresenta nas culturas como uma presença do mundo e da humanidade sem referência à Transcendência, impregna todos os aspectos da vida quotidiana e desenvolve uma mentalidade em que Deus se tornou total ou parcialmente ausente da existência e da consciência do homem. Esta secularização não é apenas uma ameaça externa para os fiéis, mas já se manifesta há muito tempo no seio da própria Igreja. Desnaturaliza a partir de dentro e em profundidade a fé cristã e, por conseguinte, o estilo de vida e o comportamento quotidiano dos fiéis. Eles vivem no mundo e são muitas vezes marcados, se não condicionados, pela cultura da imagem que impõe modelos e impulsos contraditórios, na negação prática de Deus: já não há necessidade de Deus, de pensar n’Ele e de voltar para Ele. Além disso, a mentalidade hedonista e consumista predominante favorece, tanto nos fiéis como nos pastores, um desvio para a superficialidade e um egocentrismo que prejudica a vida eclesial.

Evangelização da cultura actual

A «morte de Deus», anunciada nos séculos passados por muitos intelectuais, cede o lugar a um estéril culto do indivíduo. Neste contexto cultural, há o risco de cair numa atrofia espiritual e num vazio do coração, às vezes caracterizados por formas sucedâneas de pertença religiosa e de vago espiritualismo. Revela-se mais urgente que nunca reagir a semelhantes desvios mediante a evocação dos valores mais excelsos da existência, que dão sentido à vida e podem saciar a inquietação do coração humano em busca da felicidade: a dignidade da pessoa humana e a sua liberdade, a igualdade entre todos os homens, o sentido da vida e da morte e daquilo que nos espera depois da conclusão da existência terrena. Nesta perspectiva, o meu predecessor, o Servo de Deus João Paulo II, consciente das mudanças radicais e rápidas das sociedades, com insistência alertou para a urgência de encontrar o homem no campo da cultura para lhe transmitir a Mensagem evangélica. Precisamente por este motivo, instituiu o Conselho Pontifício para a Cultura, para dar um renovado impulso à acção da Igreja, em vista a levar o Evangelho ao encontro da pluralidade das culturas nas várias partes do mundo (cf. Carta ao Card. Casaroli, em: AAS LXXIV, 6, págs. 683-688). A sensibilidade intelectual e a caridade pastoral do Papa João Paulo II levaram-no a pôr em evidência o facto de que a revolução industrial e as descobertas científicas permitiram responder a interrogações que antes eram em parte satisfeitas unicamente pela religião. Como consequência, o homem contemporâneo tem frequentemente a impressão de não precisar de ninguém para compreender, explicar e dominar o universo; ele sente-se o centro de tudo, a medida de tudo.

Diálogo entre fé e razão

Mais recentemente a globalização, por meio das novas tecnologias da informação, não raramente teve como êxito também a difusão em todas as culturas de numerosos componentes materialistas e individualistas do Ocidente. A fórmula «Etsi Deus non daretur» [como se Deus não existisse] torna-se cada vez mais um estilo de vida que haure a sua origem de uma espécie de «soberba» da razão – aliás, realidade criada e amada por Deus –, que se considera suficiente a si mesma e se fecha à contemplação e à busca de uma Verdade que a ultrapassa. A luz da razão, exaltada, mas na realidade empobrecida pelo Iluminismo, substitui-se radicalmente à luz da fé, à luz de Deus (cf. Bento XVI, Discurso preparado para o encontro coma Universidade de Roma «La Sapienza», em 17 de Janeiro de 2008). Por isso, são enormes os desafios que a missão da Igreja deve enfrentar neste âmbito. Portanto, o compromisso do Conselho Pontifício para a Cultura revela-se mais importante que nunca em vista de um diálogo fecundo entre a ciência e a fé. Trata-se de um confronto muito esperado pela Igreja, mas também pela comunidade científica, e encorajo-vos a continuá-lo. Nele, a fé supõe a razão e aperfeiçoa-a, enquanto a razão, iluminada pela fé, encontra a força para se elevar ao conhecimento de Deus e das realidades espirituais.

Neste sentido, a secularização não favorece a finalidade última da ciência, que está ao serviço do homem, «imago Dei». Que este diálogo continue, na distinção das características específicas da ciência e da fé. Com efeito, cada uma delas dispõe dos seus próprios métodos, âmbitos, objectos de investigação, finalidades e limites, e deve respeitar e reconhecer à outra a legítima possibilidade de exercício autónomo, em conformidade com os princípios que lhe são próprios (cf. Gaudium et spes, 36); então, ambas são chamadas a servir o homem e a humanidade, favorecendo o desenvolvimento e o crescimento integral de cada um e de todos.

Exorto sobretudo os Pastores da grei de Deus a uma missão incansável e generosa para enfrentar, nos campos do diálogo e do encontro com as culturas, do anúncio do Evangelho e do testemunho, o preocupante fenómeno da secularização, que debilita a pessoa impedindo o seu anseio inato pela Verdade na sua integridade. Assim, graças ao serviço prestado de modo particular pelo vosso Conselho, que os discípulos de Cristo possam continuar a anunciá-lo no âmago das culturas, porque Ele é a luz que ilumina a razão, o homem e o mundo. Também a nós se apresenta a admoestação que tinha sido dirigida pelo anjo à Igreja presente em Éfeso: «Conheço as tuas obras, as tuas fadigas e a tua constância... No entanto, tenho uma coisa contra ti: abandonaste o teu primitivo amor» (Apoc 2, 2.4). Façamos nosso o brado do Espírito e da Igreja: «Vem!» (Apoc 22, 17), e deixemos que o nosso coração seja imbuído pela resposta do Senhor: «Sim, virei em breve!» (Apoc 22, 20). Ele é a nossa esperança, a luz para o nosso caminho, a força para anunciar a salvação com coragem apostólica, chegando até ao coração de todas as culturas. Deus vos assista no cumprimento da vossa árdua mas exaltante missão!

Enquanto confio a Maria, Mãe da Igreja e Estrela da Nova Evangelização, o futuro do Conselho Pontifício para a Cultura e o de todos os seus membros, concedo-vos a todos do íntimo do coração a Bênção apostólica.

 


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