Santíssimo Corpo e Sangue e Cristo

22 de Maio de 2008

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Nesta Santa Eucaristia, H. Faria, NRMS 103-104

Salmo 80, 17

Antífona de entrada: O Senhor alimentou o seu povo com a flor da farinha e saciou-o com o mel do rochedo.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Igreja militante veste-se hoje com o melhor ambiente festivo, para celebrar o Mistério do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A instituição deste Tesouro, bem como do Sacerdócio Ministerial que torna possível, por vontade do Senhor, a sua continuidade, foi na noite de Quinta-feira Santa, durante a Ceia Pascal.

A Liturgia, no entanto, reserva este dia para dar uma dimensão festiva à celebração deste grande Mistério, para o qual não havia ambiente propício no Tríduo Pascal

 

A solenidade do Corpo e Sangue do Senhor foi instituída pela Igreja com uma finalidade múltipla:

– Alimentar e proclamar a nossa fé na Presença Real de Cristo na Eucaristia, pela adoração solene e aclamação festiva;

– Agradecer a Presença Real de Cristo em nossos Sacrários, como Amigo íntimo, Confidente sempre disponível e Médico solícito que trata as nossas chagas e doenças.

– Desagravá-l’O dos sacrilégios, profanações, blasfémias e indiferenças com que Ele é ofendido no Sacramento do Seu Amor.

A Santíssima Eucaristia foi instituída na noite de Quinta-feira santa, no Cenáculo. A Semana Santa não facultava ambiente propício a uma solenidade externa, com manifestações de alegria. Por isso, a Igreja celebra este Dom do mesmo Senhor, ao retomar o Tempo comum.

 

Acto penitencial

 

Distraídos, como crianças, por tantas coisas, com a irreverência que nos leva a perda de sensibilidade, temos necessidades de pedir perdão ao Senhor de muitas faltas contra a Santíssima Eucaristia.

Reconheçamos humildemente o que tem estado mal no dia a dia, e prometamos sinceramente perdão ao Senhor, prometendo, com a Sua ajuda, emendar as nossas vidas.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

   Pela a rotineira indiferença com que participamos na Santa Missa,

     esquecidos de que nela o Senhor renova a Sua imolação por todos,

     Senhor, misericórdia!

 

     Senhor, misericórdia!

 

   Pela a frieza e distracção das nossas comunhões sacramentais,

     como se nada de extraordinário se passasse em nossa vida,

     Cristo, misericórdia!

 

     Cristo, misericórdia!

 

   Pela a falta de respeito com que passamos junto do Sacrário,

     sem um pensamento de fé e amor na Presença Real de Jesus,

     Senhor, misericórdia!

 

Senhor, misericórdia!

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Senhor Jesus Cristo, que neste admirável sacramento nos deixastes o memorial da vossa paixão, concedei-nos a graça de venerar de tal modo os mistérios do vosso Corpo e Sangue, que sintamos continuamente os frutos da vossa redenção. Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O Povo de Deus experimentou a presença e a bondade do Senhor na caminhada pelo deserto, durante quarenta anos, quando as dificuldades o atormentavam e recebia do Céu pontualmente a resposta às suas carências.

A vida de fé ensina-nos que também nós, muitas vezes na vida, experimentamos a bondade de Deus para connosco.

 

 

Deuteronómio 8, 2-3.14b-16a

Moisés falou ao povo, dizendo: 2«Recorda-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto, para te atribular e pôr à prova, a fim de conhecer o íntimo do teu coração e verificar se guardarias ou não os seus mandamentos. 3Atribulou-te e fez-te passar fome, mas deu-te a comer o maná que não conhecias nem teus pais haviam conhecido, para te fazer compreender que o homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor. 14bNão te esqueças do Senhor teu Deus, que te fez sair da terra do Egipto, da casa de escravidão, 15e te conduziu através do imenso e temível deserto, entre serpentes venenosas e escorpiões, terreno árido e sem águas. Foi Ele quem, da rocha dura, fez nascer água para ti 16ae, no deserto, te deu a comer o maná, que teus pais não tinham conhecido».

 

A leitura é tirada da parte central do Deuteronómio, o 2º discurso de Moisés (Dt 4, 44 – 28, 68), na passagem que recorda como Deus forjou a alma do povo com as provações sofridas no deserto, acompanhadas de uma amorosa providência, para o socorrer na fome e na sede.

3 «O maná». É figura e símbolo da Eucaristia (cf. Jo 6, 31-33.49-52), figura muitíssimo expressiva, pois é chamado «pão do céu» (Ex 16, 4), «pão dos Anjos» (Sab 16, 20), «pão dos fortes» (Salm 77, 25), «um pão já pronto, sem trabalho, dado do céu, capaz de produzir todas as delícias e bom para todos os gostos», segundo a releitura deráxica do autor do livro da Sabedoria (Sab 16, 20-21). Na actualização cristã feita no discurso eucarístico de S. João, temos que, assim como o maná alimentou providencialmente o antigo Povo de Deus na sua penosa travessia pelo deserto a caminho da terra prometida, assim também, com uma Providência mais maravilhosa ainda, é alimentado pela Sagrada Eucaristia o novo Povo de Deus no peregrinar desta vida a caminho do Céu.

«Foi para te fazer compreender...»: Com o maná, Deus não só alimentava o seu povo, como o educava, fazendo-o compreender a especial providência e amor que lhe mostrava; o êxito da nossa vida não depende apenas dos recursos naturais – «nem só de pão vive o homem» (v. 3). O maná não era uma comida que propriamente chovia do céu, mas uma providência divina, com base na própria natureza, pois ainda hoje se podem apanhar no Sinai, de fins de Maio até fins de Julho, umas bolinhas transparentes, com uma tonalidade parda amarelenta, de sabor doce, que os beduínos aproveitam como guloseima. Trata-se duma secreção duma espécie de uma espécie de tamareira (tamarix mannifera), quando picada por um insecto (actualmente em vias extinção); a secreção, com a fresca da noite, coagula em pequenos grãos que podem cair ao chão e se derretem com o calor do dia.

 

Salmo Responsorial      Sl 147, 12-13.14-15.19-20(R. 14 ou Aleluia)

 

Monição: O salmo 147 que a Liturgia nos convida a cantar como resposta à interpelação que o Senhor nos com a primeira leitura, combina o louvor com o reconhecimento da acção divina sobre a criação e o Seu Povo.

Unamo-nos ao entusiasmo com que os cristãos do mundo inteiro fazem dele a sua oração, cantando com alma.

 

Refrão:         Jerusalém, louva o teu Senhor.

 

Ou:                Aleluia.

 

Glorifica, Jerusalém, o Senhor,

louva, Sião, o teu Deus.

Ele reforçou as tuas portas

e abençoou os teus filhos.

 

Estabeleceu a paz nas tuas fronteiras

e saciou-te com a flor da farinha.

Envia à terra a sua palavra,

corre veloz a sua mensagem.

 

Revelou a sua palavra a Jacob,

suas leis e preceitos a Israel.

Não fez assim com nenhum outro povo,

a nenhum outro manifestou os seus juízos.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Havia lamentáveis divergências na Igreja de Corinto. S. Paulo recorda-lhes que a Eucaristia é sinal de unidade e vínculo de caridade entre todos.

 

1 Coríntios 10, 16-17

Irmãos: 16Não é o cálice de bênção que abençoamos a comunhão com o Sangue de Cristo? Não é o pão que partimos a comunhão com o Corpo de Cristo? 17Visto que há um só pão, nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo, porque participamos do único pão.

 

Para a perfeita compreensão deste texto, precisamos de ter presente o contexto em que fala S. Paulo. O Apóstolo está a dar resposta à questão posta sobre se podiam comer ou não as carnes de animais que antes tinham sido imoladas nos templos idolátricos e depois comidas em banquetes sacrificiais promovidos pelos devotos, ou vendidas no mercado (1 Cor 8, 1 – 11, 1). Depois de ter exposto os princípios gerais (cap. 8), ilustrados com dois exemplos (o de Paulo e o da história de Israel: 9, 1 – 10, 13), passa a dar soluções práticas para o problema. O nosso texto é um pequeno extracto (vv. 16 e 17) daquela parte (vv. 14-22) em que Paulo apresenta a primeira razão teológica que fundamenta a proibição absoluta de participar nos banquetes sacrificiais, a saber: o culto pagão e o culto cristão são incompatíveis, uma vez que pela comunhão num sacrifício oferecido à divindade fica-se em contacto com a divindade à qual é oferecido esse sacrifício, por isso, «não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demónios; não podeis participar da mesa do Senhor e da mesa dos demónios» (v. 21); de facto, «aquilo que os pagãos sacrificam, sacrificam-no aos demónios e não a Deus» (v. 20).

16 «Comunhão com o Sangue de Cristo… com o Corpo de Cristo». S. Paulo não diz simplesmente «comunhão com Cristo», o que bastava para a condenação da participação nos banquetes idolátricos, mas, ao fazer menção explícita do Corpo e do Sangue de Cristo, deixa ver que a união que se dá com Jesus na Santíssima Eucaristia não é apenas uma união de tipo moral, espiritual ou mística com o Cristo celeste, mas uma união imediata com Jesus ressuscitado realmente presente entre nós com o seu Corpo e o seu Sangue, isto é, em pessoa, embora de modo sacramental, apenas sensível em sinais, as espécies do pão e do vinho.

«O cálice de bênção que nós abençoamos»: a expressão é uma forma de se referir às palavras da consagração, inseridas já nalgum formulário litúrgico primitivo, em relação com Ceia do Senhor, onde Jesus concluiu a instituição da Eucaristia precisamente com a consagração da terceira taça, assim denominada no hagadá da Páscoa: «o cálice da bênção».

«O pão que partimos». Referência à celebração eucarística (cf. Act 2, 42.46; 20, 7.11), pois nela se partia o pão imitando o gesto de Jesus na Última Ceia, gesto que ainda hoje se mantém na fracção da Hóstia, antes da Comunhão.

«Formamos um só corpo, porque participarmos...» A Sagrada Eucaristia não é mero sinal significativo de unidade – todos comem do mesmo pão –, mas é sobretudo um sinal que produz a unidade; precisamente porque contém Jesus Cristo, cimenta a unidade inaugurada no Baptismo.

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 6, 51

 

Monição: O Senhor apresenta-Se-nos no discurso à multidão para quem multiplicara miraculosamente os pães e os peixes, como o verdadeiro alimento do Céu que o pai nos dá.

Aclamemos, de coração agradecido, O Senhor que quis ficar connosco.

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS10 (II)

 

Eu sou o pão vivo descido do Céu, diz o Senhor.

Quem comer deste pão viverá eternamente.

 

 

Evangelho

 

São João 6, 51-58

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 51«Eu sou o pão vivo descido do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei-de dar é a minha Carne pela vida do mundo». 52Os judeus discutiam entre si: «Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?». 53Jesus disse-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a Carne do Filho do homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós. 54Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia. 55A minha Carne é verdadeira comida e o meu Sangue é verdadeira bebida. 56Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em mim, e Eu nele. 57Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come viverá por Mim. 58Este é o pão que desceu do Céu; não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram; quem comer deste pão viverá eternamente».

 

Se os versículos anteriores deste Discurso do Pão do Céu se podem interpretar também no sentido de que Jesus é um alimento espiritual para fé dos que crêem nas suas palavras (assim no v. 35), a verdade é que, a partir deste v. 51, o discurso tem um sentido nítida e indiscutivelmente eucarístico, deixando mesmo de se usar a expressão «pão da vida» (vv. 35.38), para se falar agora do «pão vivo».

51 «O pão vivo… que eu hei-de dar: este «dar» não é um dar qualquer, mas um oferecimento «pela vida» (salvação) «do mundo». A referência à morte de Cristo (cf. Jo 3, 15-16) e à instituição da Eucaristia (cf. 1 Cor 11, 24; Lc 22, 19) é fácil de descobrir. O realismo eucarístico das palavras de Jesus não pode ser mais claro: o pão vivo é a «carne» (não simplesmente corpo) de Jesus e simultaneamente o sangue» que é preciso beber (o que não podia ser mais chocante para a fé e a cultura judaica: cf. Lv 17, 10-14; Act 15, 20); perante o escândalo dos ouvintes (v. 52), Jesus não desfaz um mal-entendido como costumava fazer, não apela para um sentido metafórico, nem suaviza as suas palavras, mas antes as reforça com mais clareza. Por outro lado, nos vv. 54, 56, 57 e 58, emprega-se um verbo que exprime, com realismo, o próprio do acto de comer com os dentes (mastigar – trôgô) e que se traduz bem por «comer realmente»; também o adjectivo «verdadeiro» (v. 55: alêthês) tem em S. João uma força particular, pois equivale a genuíno (o que é verdadeiro, isto é, o que corresponde à sua designação, apesar das aparências). Com efeito, neste Evangelho o adjectivo alêthês distingue-se de alêthinós (cf. Jo 1, 9) que encerra a ideia de exclusividade (o que é real, em oposição a putativo).

52 «Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?» Os ouvintes aparecem como quem entende as palavras de Jesus no sentido próprio e não no sentido figurado de adesão pela fé. De facto, comer a carne de alguém, em sentido figurado, seria, pelo contrário, ter ódio ou perseguir alguém, nunca aderir a alguém! Jesus tem o costume de desfazer equívocos, quando os ouvintes interpretam em sentido próprio o que tinha um sentido figurado (cf. Jo 3, 4-5; Mt 16, 6-12). A insistência de Jesus produz escândalo nos ouvintes, ao afirmar que não se pode conseguir a vida eterna, se não se comer a sua Carne e não se beber o seu Sangue. E é que não se trata apenas de algo já de si simplesmente espantoso, pois beber o sangue era algo proibido pela Lei de Moisés (cf. Lv 17, 10-14) e sumamente repugnante para um judeu (cf. Act 15, 20).

54 «E Eu o ressuscitarei». Eis o comentário de S. Tomás de Aquino: «O Verbo dá a vida às almas, mas o Verbo feito carne vivifica os corpos. É que, neste Sacramento, não se contém só o Verbo com a sua divindade, mas também com a sua humanidade; portanto, não é só causa da glorificação das almas, mas também dos corpos» (Super Ev. Jo. Lectura).

56-58 A Teologia explicita os efeitos do Sacramento da Eucaristia, aqui indicados, como a «graça sacramental», concretamente: a) a «graça unitiva» (v. 56); b) a «graça nutritiva e transformativa» (v. 57); c) e o «penhor da vida eterna e da gloriosa ressurreição final» (v. 58).

 

Sugestões para a homilia

 

• Deus quis ficar connosco

Vamos a caminho

Encontramos dificuldades

Deus acompanha-nos

• Jesus é nosso alimento

Jesus é o Pão vivo

Alimento da vida da graça

Faz-nos um apelo à unidade

Deus quis ficar connosco

Moisés recorda ao Povo de Deus todas as graças que o Senhor lhe tem concedido, desde a libertação do Egipto, valendo-lhes em todas as dificuldades. Entre elas sobressai o alimento prodigioso do maná.

Com esta exortação, procura animá-los a viver com fidelidade a Aliança do Sinai.

 

a) Vamos a caminho. «Hás-de recordar todo esse caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer, durante quarenta anos no deserto

A longa travessia, desde o Mar Vermelho até às portas de Jericó feita pelos hebreus, ao longo de quarenta anos, depois da saída do Egipto, é uma figura da nossa vida terrena.

Também nós éramos escravos do Príncipe das trevas, antes da libertação que Jesus Cristo nos alcançou. Passámos através das águas do Baptismo para a liberdade, de filhos de Deus, empreendendo uma longa caminhada que nos há-de levar ao Céu. Só à luz desta verdade têm sentido as muitas provas que enfrentamos no caminho.

Entre todas ajudas, damos um relevo especial, na solenidade do Corpo do Senhor, ao novo maná – a Santíssima Eucaristia – que nos alimenta nesta caminhada.

A certeza de que vamos a caminho, procurando aproximar-nos cada vez mais de Deus, faz-nos sentir a necessidade deste alimento divino que o Senhor nos oferece. Teimar em seguir este caminho sem alimento que o Senhor nos oferece é não querer chegar ao fim, mas desfalecer durante a jornada.

 

b) Encontramos dificuldades. «O Senhor humilhou-te e fez-te passar fome, deu-te de comer o maná que não conhecias

Não há vida humana sem dificuldades e tentações. As limitações normais da nossa natureza, a doença e as solicitações para o mal acompanham-nos diariamente.

Mas a maior dificuldade com que nos enfrentamos é a desconfiança contínua do amor de Deus para connosco. Muito embora Ele multiplique as provas de que nos ama, quando não satisfaz algum dos nossos desejos, ficamos de pé atrás com Ele, e até revoltados.

A Santíssima Eucaristia é a prova constante de que Ele nos ama e está sempre disponível para nos dar tudo aquilo de que temos necessidade.

A falta de apetite pelas coisas espirituais é outro mal que nos aflige. Vivemos mergulhados num ambiente de sensações e custa-nos olhar para o alto, procurando os bens do espírito.

Picam-nos as serpentes da sensualidade, do orgulho, da ambição e da vaidade, porque somos imprudentes no uso dos sentidos e não procuramos a força no Corpo e Sangue do Senhor.

Todas estas dificuldades ajudam-nos a viver a humildade, sentindo necessidade do auxílio do Senhor.

Ao mesmo tempo, o desejo de receber a Eucaristia dá-nos coragem para a luta, porque nos leva a evitar o pecado e enche-nos de esperança pela ajuda que recebemos.

 

c) Deus acompanha-nos. «E, no deserto, foi Ele quem te deu a comer o maná, que os teus antepassados não conheciam

O que é a Presença Real de Cristo em nossos Sacrários, senão a certeza de que o Senhor nos acompanha nesta longa e penosa viagem?

Se Ele nos acompanha, somos convidados a recorrer a Ele com mais frequência nos nossos Sacrários. A certeza que nos dá a fé de que Ele Se encontra ali presente convida-nos a fazer d’Ele o nosso confidente nos momentos de maior dificuldade, e a meditar em silêncio na loucura de Amor que O levou a ficar aqui.

Habituados a uma vida dominada pelos sentidos, até no campo da fé experimentamos dificuldades. Somos mais facilmente levados a nos sensibilizarmos perante a imagem de um santo da nossa devoção – os nossos olhos vêem algo! – do que a fazermos um acto de fé na presença silenciosa do nosso Deus no Sacrário que nos vê, nos ouve e deseja ardentemente que lhe contemos as nossas dificuldades, facultando-Lhe a oportunidade de nos ajudar.

Não nos dói que uma pessoa a quem beneficiamos passe junto de nós sem nos dirigir uma palavra? E, no entanto, é este, muitas vezes, o nosso comportamento diante do Sacrário, ou quando passamos ao lado duma igreja.

Jesus é nosso alimento

Depois da multiplicação miraculosa dos pães e dos peixes, a multidão corre atrás de Jesus e quer aclamá-l’O Rei. Mas a intenção que os move não é recta.

Com uma paciência infinita, Jesus ajuda-os a caírem na conta do erro e que se deixaram cair: procuram o Mestre, não porque reconhecem n’Ele o Messias que o Pai nos enviou, para nos ajudar a uma emenda de vida, mas porque deste modo podem levar uma vida preguiçosa: quando precisarem de alimento, Jesus multiplicará a comida e não terão necessidade de trabalhar.

Procuram apenas o alimento espiritual e não a santidade de vida a que o Senhor quer a todos conduzir.

Jesus exorta-os a que não procurem o alimento terreno que perece, mas o verdadeiro Alimento que lhes quer dar.

 

a) Jesus é o Pão vivo. «Eu sou o pão vivo que desceu do Céu.» Jesus é o Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia. Agora, nesta segunda parte do Seu discurso, Jesus trata claramente do Alimento do Seu Corpo e Sangue que há-de distribuir aos Apóstolos na Última Ceia.

A fé ensina-nos que Jesus está verdadeira e sacramentalmente presente sob as aparências do pão e do vinho, tão real e perfeitamente como está no Céu.

Esta verdade, ao mesmo tempo que nos enche de alegria, porque não estamos apenas diante de um símbolo, mas com Ele ao nosso alcance, exige de nós um cuidado especial na pureza de alma com que nos aproximamos.

Também nós temos necessidade de distinguir o Corpo do Senhor de qualquer outro alimento. Devemos comungar no estado da graça de Deus, exprimir a nossa fé com profundo respeito no modo de vestir e no comportamento, e guardar a mortificação simbólica de uma hora de jejum antes de comungar, como estabelece a Igreja.

Depois da sagrada comunhão, havemos de permanecer recolhidos, associando-nos aos cânticos, ou conversando intimamente com o Senhor que está connosco. Receberemos graças na medida em que oferecermos ao Senhor todo o esforço para comungar com fé, amor e devoção.

 

b) Alimento da vida da graça. «Quem come a Minha carne e bebe o Meu Sangue tem a vida eterna; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia

Sendo alimento da vida da graça, não podemos prescindir d’Ele. Temos necessidade da comunhão frequente. Nesta solenidade, em muitos lugares da terra, as crianças são iniciadas a tomar este alimento divino, fazendo a Primeira Comunhão.

Que admira o facto de as pessoas experimentarem tanta dificuldade para se manterem em graça, afastadas dos caminhos do pecado, se muitos vivem em dolorosa greve de fome?

Assim como temos um plano de alimentação, com horas para as refeições, devemos estabelecer um plano para comungar diariamente ou certo número de vezes por semana. Se nem isso é possível, procuremos, ao menos, participar plenamente na Missa dominical, comungando com as disposições requeridas.

Os sacramentos são alimento da nossa vida sobrenatural. Os que podemos receber mais vezes na vida são o da Reconciliação e Penitência e o da Eucaristia. Diligenciemos, pois, para que não nos falte este alimento celeste.

 

c) Faz-nos um apelo à unidade. «Uma vez que existe um só pão, nós, que somos muitos, fazemos um só corpo, visto participarmos todos desse único pão

Ao falar-nos da unidade, como vivência prática da Eucaristia, S. Paulo não se refere apenas à unidade com Jesus Cristo, pela graça, mas também ao amor dos irmãos.

Umas vezes é a soberba que impede a reconciliação das pessoas, de modo que passam tempo incontável sem manifestarem mutuamente os sinais comuns da amizade. Outras, são acidentes de percurso, como partilhas, uma frase menos feliz, ou qualquer outro motivo, os causadores das divisões e discórdias.

É muito fácil dizermos que amamos o Senhor, quando não pensamos em pessoas concretas nas quais Ele está também presente. Mas, sem esta concretização, não estamos a viver de acordo com a comunhão que fazemos.

Com a força da Eucaristia, empreenderemos a missão de reconciliar as pessoas que, uma vez desavindas, sofrem e fazem sofrer, além do escândalo que podem dar.

Maria, que nos tornou possível o tesouro da Eucaristia, colaborando generosamente no mistério da Incarnação, ajudar-nos há, como bons filhos, a vivermos reconciliados uns com os outros e todos com Deus.

 

Fala o Santo Padre

 

«A Eucaristia é o alimento que ampara no longo caminho

 do êxodo através do deserto da existência humana.»

 

Queridos irmãos e irmãs!

Cantámos há pouco na sequência: «Dogma datur christianis, / quod in carnem transit panis, / et vinum in sanguinem É certeza para nós cristãos: / transforma-se o pão em carne, / o vinho torna-se sangue». Reafirmamos hoje com grande entusiasmo a nossa fé na Eucaristia, o Mistério que constitui o coração da Igreja. Na recente Exortação pós-sinodal Sacramentum caritatis recordei que o Mistério eucarístico «é o dom que Jesus Cristo faz de si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por todo o homem» (n. 1). Portanto o Corpus Christi é uma festa singular e constitui um encontro importante de fé e de louvor para cada comunidade cristã. É uma festa que teve origem num determinado contexto histórico e cultural: nasceu com a finalidade de reafirmar abertamente a fé do Povo de Deus em Jesus Cristo vivo e realmente presente no santíssimo Sacramento da Eucaristia. É uma festa instituída para adorar, louvar e agradecer publicamente ao Senhor, que «no Sacramento eucarístico continua a amar-nos ‘até ao fim’, até à doação do seu corpo e do seu sangue» (Sacramentum caritatis, 1).

A Celebração eucarística desta tarde reconduz-nos ao clima espiritual da Quinta-Feira Santa, o dia em que Cristo, na vigília da sua Paixão, instituiu no Cenáculo a santíssima Eucaristia. O Corpus Christi constitui assim uma retomada do mistério da Quinta-Feira Santa, quase em obediência ao convite de Jesus para «proclamar sobre os telhados» o que Ele nos transmitiu no segredo (cf. Mt 10, 27). Os Apóstolos receberam do Senhor o dom da Eucaristia na intimidade da Última Ceia, mas destinava-se a todos, ao mundo inteiro. Eis por que deve ser proclamado e exposto abertamente, para que todos possam encontrar «Jesus que passa» como acontecia pelas estradas da Galileia, da Samaria e da Judeia; para que todos, recebendo-o possam ser curados e renovados pela força do seu amor. É esta, queridos amigos, a herança perpétua e viva que Jesus nos deixou no Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue. Herança que pede para ser constantemente considerada, vivida, para que, como disse o venerado Papa Paulo VI, possa «imprimir a sua eficiência inexaurível em todos os dias da nossa vida mortal» (Insegnamenti, V [1967], p. 779).

Sempre na Exortação pós-sinodal, comentando a exclamação do sacerdote depois da consagração: «Mistério da Fé!», escrevi: com estas palavras ele «proclama o mistério celebrado e manifesta o seu enlevo perante a conversão substancial do pão e do vinho no corpo e sangue do Senhor Jesus, uma realidade que supera qualquer compreensão humana» (n. 6). Precisamente porque se trata de uma realidade misteriosa que ultrapassa a nossa compreensão, não devemos surpreender-nos se também hoje muitos têm dificuldade em aceitar a presença real de Cristo na Eucaristia. Não pode ser de outra forma. Foi assim desde o dia em que, na sinagoga de Cafarnaum, Jesus declarou abertamente ter vindo para nos dar em alimento a sua carne e o seu sangue (cf. Jo 6, 26-58). A linguagem pareceu «dura» e muitos se retiraram. Então como agora, a Eucaristia permanece «sinal de contradição» e não pode deixar de sê-lo, porque um Deus que se faz carne e se sacrifica a si mesmo pela vida do mundo põe em dificuldade a sabedoria dos homens. Mas com humilde confiança, a Igreja faz sua a fé de Pedro e dos outros Apóstolos, e com eles proclama, e nós proclamamos: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 68). Renovemos também nós esta tarde a profissão de fé em Cristo vivo e presente na Eucaristia. Sim, «é certeza para nós cristãos: / o pão transforma-se em carne, / o sangue faz-se vinho».

A Sequência do seu ponto culminante, fez-nos cantar: «Ecce panis angelorum, / factus cibus viatorum: / vere panis filiorum Eis o pão dos anjos, / pão dos peregrinos, / verdadeiro pão dos filhos». E por graça do Senhor, nós somos filhos. A Eucaristia é o alimento destinado àqueles que no Baptismo foram libertados da escravidão e se tornaram filhos; é o alimento que ampara no longo caminho do êxodo através do deserto da existência humana. Como o maná para o povo de Israel, assim para cada geração cristã a Eucaristia é alimento indispensável que ampara enquanto atravessa o deserto deste mundo, ressequido por sistemas ideológicos e económicos que não promovem a vida, mas ao contrário a mortificam; um mundo no qual domina a lógica do poder e do ter em vez da do serviço e do amor; um mundo no qual com frequência triunfa a cultura da violência e da morte. Mas Jesus vem ao nosso encontro e infunde-nos segurança: Ele mesmo é «o pão da vida» (Jo 6, 35.48). Repetiuno-lo nas palavras do Cântico ao Evangelho: «Eu sou o pão vivo descido do céu; quem come deste pão viverá eternamente» (cf. Jo 6, 51). […]

 

Bento XVI, Basílica de São João de Latrão, 7 de Junho de 2007

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

À imitação das pessoas que, na Vida Pública de Jesus,

procuravam encontrar-se com Ele, para obterem graças,

procuremos, nós também, com fé e humilde confiança,

entregar ao Coração Divino tudo o que nos preocupa.

Oremos (cantando):

 

Dai-nos, Senhor, o alimento da Eucaristia!

 

1.    Pelo Santo Padre, Bispos, Sacerdotes e Diáconos,

ministros e defensores do tesouro da Eucaristia,

para ajudem, com o seu exemplo de amor e devoção,

a nossa fé ardente na Presença Real de Jesus Cristo,

oremos, irmãos.

 

Dai-nos, Senhor, o alimento da Eucaristia!

 

2.    Pelos pais e mães de família e pelos catequistas

que preparam as crianças para este Divino Alimento,

para que as encham de fé, confiança e generosidade,

a viver, desde já, comungando bem e com frequência,

oremos, irmãos.

 

Dai-nos, Senhor, o alimento da Eucaristia!

 

3.    Pelas crianças que hoje fazem a Primeira Comunhão,

 começando uma nova etapa cristã nas suas vidas,

para que saibam que Jesus as ama com especial ternura

e as guarda e defende dos perigos, para a vida eterna,

oremos, irmãos.

 

Dai-nos, Senhor, o alimento da Eucaristia!

 

4.    Pelos jovens – campo fecundo para a sementeira

do Evangelho ou da mentira que os desorienta – ,

para que o Senhor os ajude a descobrir neste Dom

a força e orientação para a sua generosidade, oremos, irmãos.

 

Dai-nos, Senhor, o alimento da Eucaristia!

 

5.    Pelas comunidades cristãs do mundo inteiro,

para que dêem testemunho de fé na Eucaristia,

arrastando, com o seu exemplo e palavra amiga,

todas as pessoas sem distinção, ao encontro de Jesus,

oremos, irmãos.

 

Dai-nos, Senhor, o alimento da Eucaristia!

 

6.    Pelas almas de todos os fiéis defuntos que, na vida,

difundiram o amor e o desagravo à Santíssima Eucaristia,

para que o Senhor que está oculto soba as aparências

do Pão e do Vinho, neste mistério de loucura e amor,

as faça contemplar o esplendor da Sua glória,

oremos, irmãos.

 

Dai-nos, Senhor, o alimento da Eucaristia!

 

Senhor, que nesta caminhada do deserto da vida,

Nos destes o maná do Vosso Corpo e Sangue:

Ensinai-nos e ajudai-nos a recebê-l’O de tal modo,

que alcancemos, por Ele, os frutos da Redenção.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

O Senhor alimentou a nossa fé e purificou os nossos corações com a luz da Sua Palavra.

Prepara agora, pelo ministério do sacerdote, o Seu Corpo e Sangue para no-los oferecer como verdadeira comida e bebida da nossa vida sobrenatural.

Peçamos ao Senhor nos ensine e ajude a viver este momento solene das nossas vidas.

 

 

Cântico do ofertório: Que bom Senhor estar ao pé de Ti, M. Carneiro, NRMS 36

 

Oração sobre as oblatas: Concedei, Senhor, à vossa Igreja o dom da unidade e da paz, que estas oferendas misticamente simbolizam. Por Nosso Senhor.

 

Prefácio da Eucaristia: p. 1254 [658-770]

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Saudação da Paz

 

O hino de S. Tomás à Eucaristia convida-nos a acabar com divisões e contendas e a restabelecer a unidade em Cristo.

É manifestando este desejo que o Senhor nos dirige o convite a este gesto de reconciliação.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Queixava-se S. Paulo aos fiéis de Corinto de não distinguirem a Eucaristia de um alimento vulgar. Por isso havia naquela Igreja muitos abusos e enfermidades.

Peçamos humildemente ao Senhor, antes de O recebermos, que nos prepare com fé amor e devoção para este momento ditoso.

Que o Corpo, Sangue, Alma e Divindade, por intercessão de Maria, guarde a nossa alma para a vida eterna.

 

Cântico da Comunhão: A minha carne é verdadeira comida, F. da Silva, NRMS 102

Jo 6, 57

Antífona da comunhão: Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em Mim e Eu nele, diz o Senhor.

 

Cântico de acção de graças: Ó verdadeiro Corpo do Senhor, F. da Silva, NRMS 42

 

Oração depois da comunhão: Concedei-nos, Senhor Jesus Cristo, a participação eterna da vossa divindade, que é prefigurada nesta comunhão do vosso precioso Corpo e Sangue. Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Demos testemunho perante os nossos amigos e conhecidos, de que o Senhor nos ama e a todos quer oferecer-Se como alimento, como Sacramento de unidade e de Paz.

 

Cântico final: Ao Deus do Universo, J. Santos, NRMS 1 (I)

 

 

Homilias Feriais

 

6ª Feira, 23-V: Fidelidade e constância no matrimónio.

Tg 5, 9-12 / Mc 10, 1-12

Mas, no princípio da criação, fê-los Deus homem e mulher… Portanto, o que Deus uniu, não o separe o homem.

Infelizmente, são muitos os católicos que recorrem ao divórcio e, depois, contraem civilmente uma nova união. Contudo «a Igreja mantém, por fidelidade à palavra de Jesus Cristo (cf. Ev), que não pode reconhecer como válida uma nova união, se o primeiro matrimónio foi válido» (CIC, 1650).

Para que haja felicidade, é preciso aplicar os conselhos de S. Tiago. Para a fidelidade: «seja ‘sim’ o vosso ‘sim’, e ‘não’ o vosso ‘não»; para a constância: «Nós proclamamos felizes àqueles que foram constantes» (Leit).

 

Sábado, 24-V: Caminhos para a vida eterna (I)

Tg 5, 13-20 / Mc 10, 13-16

Deixai que as criancinhas se aproximem de mim; não as estorveis, que o Reino de Deus é daqueles que são como elas.

Para entrarmos no Reino dos céus, aparecem-nos hoje dois caminhos. O primeiro é o indicado pelo Senhor: fazer-se como crianças (cf. Ev), isto é, sermos inocentes, simples, dependentes completamente do nosso Pai Deus.

O segundo é a recomendação do sacramento da Unção dos doentes. O Apóstolo recomenda este sacramento para aqueles que estiverem em perigo de vida: o Senhor poderá devolver-lhes a saúde e/ou perdoar-lhes os pecados. Para os demais, a oração pode fazer voltar o pecador ao bom caminho (cf. Leit).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:    Fernando Silva

Nota Exegética: Geraldo Morujão

Homilias Feriais:            Nuno Romão

Sugestão Musical:         Duarte Nuno Rocha

 


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