TEMAS LITÚRGICOS

A MÚSICA E O CANTO

AO SERVIÇO DO MISTÉRIO EUCARÍSTICO


Prof. Cameron Upchurch

Johannesburg



O Concílio Vaticano II reconheceu o papel fundamental da música no culto, conferindo-lhe o mais elevado lugar entre as artes usadas na liturgia 1. Empregando muitas das palavras e ideias de S. Pio X 2 e com a sua descrição da música litúrgica como «melodia sagrada unida a palavras» 3, o Concílio afirmou que a finalidade da música litúrgica é a «glória de Deus e a santificação dos fiéis» 4.


Os princípios e normas do Concílio Vaticano II respeitantes à música sacra foram sujeitos a uma interpretação muito desregrada e muitas vezes irresponsável e foram usados em ambas tendências extremas do espectro litúrgico para justificar formas de culto que apresentam uma visão distorcida dos princípios da participatio actuosa. A participação activa do povo na liturgia é «seu direito e seu dever por força do baptismo» 5. Engloba muitas formas: «aclamações, respostas, salmodia, antífonas, cânticos… acções, gestos e atitudes corporais» 6. A isto, com especial referência à música, pode-se acrescentar o acto de escutar; «o que dizemos de alguém que ouve a Palavra de Deus, quer pregada ou recitada, pode também ser aplicado àquele que escuta algo quando é cantado, ou àquele que escuta música sacra tocada pelo órgão num serviço litúrgico» 7. A música continua provavelmente a ser dos meios mais eficientes mediante os quais se pode conseguir a participação activa do povo no culto, especialmente se é respeitada a sua função como serviço.

Esta ideia fundamental da música ao serviço da liturgia é a chave para a sua correcta aplicação durante o culto. Isto contrapõe-se às tendências populares iluministas, românticas e pós-românticas do pensamento que exaltaram uma «arte pela arte» como função das artes na sociedade.


A música está ao serviço da liturgia de vários modos. Ela torna-a mais atractiva; o culto atinge uma forma mais nobre quando celebrado deste modo 8. Mas este apelo estético não é a sua função primária: deve harmonizar-se com os outros aspectos que se referem a seguir.

A música ilumina a natureza hierárquica da liturgia, com as suas várias funções 9. Há partes diferentes a desempenhar pelo clero, cantor, coro, instrumentistas e povo. A música ajuda a sintetizar estas funções e orienta-as para o fim comum do Opus Dei.

A música manifesta a unidade da comunidade no exercício do culto: «a unidade dos corações consegue-se mais profundamente pela união das vozes» 10. Cria-se uma corrente de vibração empática através dos corpos, corações e mentes da assembleia e aumenta a sua experiência comunitária.

A música «eleva as mentes» dos participantes no culto às «realidades celestes» 11. Esta função transcendente nunca poderá ser suficientemente enfatizada, dado que «a finalidade do culto cristão é elevar todas as formas possíveis de expressão sonora aqui em baixo até à presença do Kyrios» 12.

A música prefigura a liturgia no Céu na qual todos os seres celestes prestam culto diante do Trono 13. Talvez esteja aqui uma das mais fortes razões para manter uma viva tradição da música sacra que remonta aos séculos passados, porque os fiéis então «ganham um sentido de união com aqueles que os precederam na fé assim como a presença invisível dos bem-aventurados no seu culto» 14.

Na Eucaristia, a música desempenha um papel crucial ao conduzir a assembleia para uma mais profunda experiência dos mistérios sagrados, realçando os momentos mais importantes da celebração e promovendo uma maior compreensão e vivência do Corpo Místico 15. No entanto, só pode ter este efeito se é devidamente observada a fidelidade às normas litúrgicas estabelecidas. Três áreas básicas são de importância aqui.


Em primeiro lugar, é fundamental decidir que partes da celebração se vão cantar e quais não se vão cantar. O canto dos quatro hinos da antiga «Missa Baixa» excluindo as restantes partes cria um cenário em que os momentos mais profundos da liturgia são completamente ofuscados. Observando as normas segundo as quais o Alleluia, Sanctus, Mysterium fidei e Amen deveriam sempre ser cantados, a assembleia concentra-se na essência do Mistério Eucarístico. Cantando as partes da Missa que, pela sua natureza, pedem o cântico (por exemplo, o Glória e o Salmo Responsorial), mantemo-nos fiéis ao espírito da celebração. Mediante a prática de opções legítimas tais como o uso de música instrumental em certas alturas (como no Ofertório ou na Despedida), damos ao fiel tempo para rezar, para reflectir ou para dar graças. Isto requer um planeamento e execução cuidados e deveria ser sempre entregue àqueles que têm um claro conhecimento das normas litúrgicas em vigor.

Em segundo lugar, a escolha dos textos variáveis necessita de ser cuidadosamente harmonizada com a celebração em causa. O Vaticano II foi enfático a este respeito: «os textos destinados ao canto sacro devem estar de acordo com a doutrina católica e inspirar-se sobretudo na Sagrada Escritura e nas fontes litúrgicas» 16. Os textos que são cantados deveriam reflectir sempre o tempo litúrgico ou a celebração particular. Eles deveriam conduzir os pensamentos do povo para o rito e não desviá-los dele. A indicação do Concílio implica também que esses textos deveriam ser imbuídos de uma certa nobreza de estilo, apropriado à Eucaristia como «fonte e ápice da vida da Igreja». Infelizmente, em muitas das nossas igrejas evidencia-se hoje o triunfo do banal. Muita música contém textos triviais, que não estão em verdadeira conformidade com a doutrina e que roçam um desregrado humanismo. Isto dilui o impacto da liturgia e põe em perigo a sua finalidade principal: que os seres humanos experimentem algo do divino.

Em terceiro lugar, surge o problema dos estilos e dos géneros musicais que é, com frequência, alvo de controvérsias. É verdade que o Concílio afirmou que muitos tipos de música podem ser admitidos sem grande esforço na sagrada liturgia 17. Contudo, as demasiadas vezes em que a música da Igreja Católica é vista como um «vale tudo» é prova evidente de que a devida atenção e respeito pelas normas litúrgicas não tem desempenhado o seu papel na escolha da música para o culto. Foram estabelecidas orientações claras: o canto gregoriano é próprio para a liturgia; é admitida a polifonia, tanto a antiga como a moderna; como também a «música sacra popular, seja litúrgica, ou simplesmente religiosa» 18. Esta última categoria tem sido causa de muito debate. No centro deste debate parece estar a indefinição dos limites entre liturgia e piedade e devoção populares. Esta última favorece música e texto que pode dizer-se depender do sentimentalismo. Mais perturbadora ainda é a identificação da música popular, particularmente no Ocidente, com uma cultura volúvel, baseada no consumismo, que corrói os valores da mensagem cristã. Esta música é a pedra angular da publicidade e um meio mediático imponente sem integridade. Se a transferimos para o ambiente litúrgico, então encontramo-nos numa situação perigosa. O sacrifício eucarístico é imutável; não é a celebração de um momento, mas está radicado numa dimensão cósmica que transcende todas as idades e todos os povos. Tudo o que sublinhe a transitoriedade («o momento») perturba aquela dimensão. Tem-se afirmado que muita da música em língua vulgar usada na igreja causa precisamente isso. Foi este mesmo argumento que levou Bento XVI (quando era o Cardeal Ratzinger) a escrever: «Pela sua natureza, a música [de igreja] deve ser diferente da música cujo objectivo fosse, por exemplo, levar a um êxtase rítmico, a uma anestesia dos sentidos, à excitação sensual, ou à dissolução do ego no Nirvana, para enunciar apenas algumas possibilidades» 19.

Dando orientações claras sobre a música na liturgia, a Igreja encoraja-nos a mergulhar na rica fonte da nossa herança musical quando criamos a música litúrgica dos dias de hoje 20. A adesão a estas orientações permite novos trabalhos, ao serviço dos sagrados mistérios, jorrando desta fonte em abundância.


(continua)


Videoconferência mundial organizada pela Congregação para o Clero sobre o tema A arquitectura, a arte e a música ao serviço da Liturgia, em 30-XI-05, tomada da página na Internet da Congregação: www.clerus.org.

Damos a primeira parte da conferência; a segunda parte será publicada no próximo número da CL.

1 Sacrosanctum Concilium (SC) 112.

2 Tra le sollecitudini (1903).

3 SC 112.

4 SC 112.

5 SC 14.

6 SC 30.

7 M. GÓMEZ (1969), “Function of Sacred Music and Actuosa Participatio, in Sacred Music and Liturgy Reform after Vatican II, editado por J. Overath: 115.

8 Musicam Sacram (MS), 1967: 5.

9 MS 5.

10 MS 5.

11 MS 5.

12 K.G. FELLERER (1969), “Liturgy and Music”, in Sacred Music and Liturgy Reform after Vatican II, editado por J. Overath: 72.

13 MS 5.

14 M. JONCAS (1992), “Re-reading Musicam Sacram: Twenty-Five Years of Development in Roman Rite Liturgical Music”, Worship, 66 (3): 220.

15 Cf. PIO XII, Mystici Corporis Christi (1943).

16 SC 121.

17 SC 116.

18 Cf. SC 116; MS 4.

19 J. RATZINGER (1996), In the presence of the Angels I Will Sing Your Praise, edição on line.

20 Cf. J. RATZINGER (1996).


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